Valeu, Jayme Leão
José Antônio Silva
Discreto, ele mais ouvia do que falava. Sereno, quando falava ponderava tudo e em geral harmonizava a reunião, o debate ou o simples papo no boteco. Tinha o chamado “bom astral”, embora fosse muito crítico do que precisava ser criticado. Brilhante, era o resultado do desenho que apresentava, muitas vezes síntese impecável do tema, vazado em bico de pena, nanquim, traço realista e talento.
Este foi o Jayme Leão que morreu há poucos dias em São Paulo, aos 68 anos, e que conheci quando lá morei, entre os anos 70 e 80. Autodidata, ex-desenhista de quadrinhos, colaborador da imprensa alternativa (foi um dos fundadores do jornal “Movimento”, de resistência à ditadura militar), referência profissional e ética para jovens jornalistas, ilustradores e cartunistas, o nordestino alto depois se dedicou à ilustração e ao capismo de livros infantis, além de trabalhos esparsos para a grande mídia.
Como outros grandes nomes do cartunismo e ilustração, com carreira brilhante e trabalho singular, Jayme já não tinha espaço num mercado editorial coxinha e discriminador.
Jayme Leão, com quem convivi por alguns anos, em redações e mesas de bar paulistanas, continuará uma referência, por sua obra. Fui um dos editores do livro cooperativado “Vício da Palavra” (SP, 1977), que reuniu escritores e artistas paulistas, gaúchos, nordestinos e de muitos outros cantos do país. Acima, a ilustração que o Jayme fez para o conto “Banquete de mendigos”, do Valdir Zwetsch, no livro. Um aperitivo da maestria do traço e da força de sua criatividade.
Valeu, amigo!
sábado, 15 de março de 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Poetando - Pedra saltada
Pedra
saltada
Poema
mesmo
poema
é aquele que arranca
pedra do chão
E o chão
passa a ser outro chão
que não o chão
da pedra
arrancada do chão
E a pedra
descansa no ar
porque
para aquela pedra
agora
o ar é o seu novo chão
Até que outro poema
arrebente também o ar
como arrebentara o pouso
primeiro
da pedra saltada do chão.
José
Antônio Silva – janeiro 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Em linha direta com a
Ditadura
José
Antônio Silva
Mais uma prova de que os
setores historicamente marginalizados da sociedade brasileira, de modo geral,
começam de fato a ter vez, a partir das gestões petistas federais, estaduais e
municipais – apesar de todas as falhas e imperfeições do processo, que é
complexo – é que a direita mais retrógrada se vê obrigada a arrancar da cara o
sorriso de vendedor e vir a público cuspir o seu ódio. Num universo em que conservadores
ofendem e maldizem em nome de Deus (Feliciano) e da Ordem (Bolsonaro),
ajunta-se a voz irada, violenta, racista e homofóbica do deputado Luiz Carlos
Heinze.
“Tudo o que não presta”
A pretexto de defender
agricultores familiares num conflito fundiário com indígenas, no norte do RGS,
ele atacou o papel da Secretaria Geral da Presidência da República, coordenado
pelo ministro Gilberto Carvalho. Mas o importante é o formato da afirmação,
gravada em vídeo:
“No mesmo governo (...) estão
aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, e eles têm
a direção e o comando do governo”.
Na mesma oportunidade, Heinze
ainda aconselhou/sugeriu aos agricultores uma ação armada contra os indígenas,
no conflito fundiário do norte gaúcho, dando como exemplo o uso de jagunços
(“segurança privada”) pelos fazendeiros do Pará e Mato Grosso do Sul. Vale
lembrar o prestigiado General Custer, da Conquista do Oeste dos EUA: “Índio bom
é índio morto”.
Questão de DNA
Heinze é deputado federal
pelo PP/RS. Vale pesquisar o DNA da legenda: seu nome de batismo era Aliança
Renovadora Nacional (Arena), partido que dava uma fachada de democracia à
ditadura militar (1964-1985). Depois, virou PDS, que virou PFL, que virou PPR,
que virou PPB – até assumir, em 2003,
a designação simpática de Partido Progressista. Tudo,
claro, numa constante tentativa de não ser associado ao governo ditatorial que
prendeu, censurou, torturou e matou.
Mas, claro, em todos os
setores sociais do Brasil há gente saudosa da ditadura ou esperançosa de algo
parecido. Provavelmente o deputado vai dobrar o número de votantes na próxima
eleição.
Um motivo a mais para que as
esquerdas e os verdadeiros progressistas não se destruam em lutas internas.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O esporte da
escrita
José Antônio Silva
São regras não oficiais, mas implícitos modos de convivência,
oferecimento e fruição entre autores e leitores. As formas curtas – contos,
poemas, boutades, crônicas, trocadilhos – precisam necessariamente ter densidade e tensão em
toda sua (pequena) duração, para cumprirem bem seu destino e seu papel. Afinal,
têm pouco tempo e pouco espaço para justificarem a própria existência.
Já as novelas e romances podem se dar ao luxo de enrolarem o
leitor por páginas e capítulos, mais ou menos frouxos, mais ou menos inspirados,
desde que o leit motiv, o enredo, os personagens ou o clima construído pelo
escritor capturem e hipnotizem sua vítima. Quando a estratagema do autor é bem
sucedida, leva o desavisado ou desavisada a prosseguir no estudo do calhamaço,
mesmo que coalhado de chavões, apesar de provocar alguns suspiros ou bocejos e
um vago desagrado.
Um tipo de escritor é acrobata nas argolas ou no cavalo-de-pau.
Tensão máxima, força, equilíbrio perfeito, elegância de movimentos e
encerramento sem passo em falso. Um erro apenas pode acabar com toda a peça.
O romancista, em sua raia, é o nadador olímpico de 200
metros, que pode amenizar o ritmo por um segundo, se compensar a quebra nas
voltas seguintes. Ou o corredor de longa distância, o maratonista que traça uma
estratégia de alternância, entre pique e economia de energia, negaceio,
aparente acomodação e conformismo na marcha do escalão intermediário até o surpreendente
sprint da reta final.
Literatura é como todo o resto. As metáforas só servem para
esconder – ou revelar – isso. E já é muito.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
O presidenciável e o helicóptero do pó
José Antônio Silva
Um presidente razoavelmente jovem, considerado boa pinta, suspeito de envolvimento com tráfico de drogas e outras corrupções – e que termina sofrendo pressões por impeachment, perda de direitos políticos, ameaça de prisão, etc. Quem lembrou do “caçador de marajás” Fernando Collor acertou no perfil. Mas comprovando que a ficção imita ou até antecede a vida, o ótimo seriado chileno “Profugos”, no canal HBO, tem em um de seus pólos dramáticos uma ministra de estado e um jovem presidente (o ator Francisco Melo), que se envolvem até o limite com o crime mais ou menos organizado. Porém, quem pensou em Aécio Neves , presidenciável do PSDB, também acertou no perfil e no que poderia acontecer, no futuro, caso o tucano mineiro chegasse ao poder maior no Brasil.
Afinal (e aqui se trata apenas de uma livre especulação, baseada em vários fatos e antecedentes), Aécio Neves, tido e fotografado como eterno play boy e bon vivant, é amigo do senador Zezé Perrela (PDT), dono do helicóptero do pó, aprendido em sua fazenda, carregado com meia tonelada de cocaína. À falta de mordomo, a culpa foi para o amigo do piloto.
Perrela, cujo gabinete senatorial pagava as despesas de combustível do helicóptero particular de seu filho, o jovem deputado Gustavo (também amigo do presidenciável tucano), tem fortes vínculos com Aecinho. O Ministério Público/MG investiga três repasses – sem licitação - do então governador mineiro para a empresa agropecuária Limeira, de Perrela, em 2009, 2010 e 2011. Fazenda, aliás, também investigada por ter sido omitida na relação de bens de Perrela.
Sabe-se que Aécio tem uma carreira (política) muito inspirada. Com tudo isso, causa até constrangimento a superficialidade e as omissões do noticiário sobre o escândalo do helicóptero do pó, na grande mídia. Cabe perfeitamente imaginar como o tema não seria tratado nas TVs, rádios, na Veja e na/no Globo se o jovem presidenciável envolvido nesta íntima relação com suspeitos de tráfico internacional de cocaína fosse petista...
Se o jornalismo oficial não dá conta, hoje fica para blogs movidos à coragem, competência e indignação (como o http://www.pragmatismopolitico.com.br/ ), ou para a ficção, como o citado “Profugos”, o trabalho de investigar, montar peças e apresentar alguma conclusão desse tipo de bandalheira com o dinheiro público.sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
José Antônio Silva
Dizer que Nelson Madiba
Mandela foi um grande herói é muito justo, mas é pouco. Eu o comparo a outros
poucos homens de coragem, determinação inquebrantável e – o que nem todo o
herói possui, por melhores que sejam suas intenções – uma imensa tolerância.
Tolerância ao sofrimento que lhe impôs o racismo, os quase 30 anos de prisão, a
violência do isolamento, a doença que o abateu nos últimos anos. E tolerância
também com os que pensavam e agiam de modo injusto, discriminatório e
autoritário.
Mas sua tolerância, que
ninguém se engane, era equilibrada com a luta e a resistência – para não recuar
um só passo em suas convicções, conquistas e ações. Tinha consciência que se fizesse a luta
armada, mergulharia o país numa guerra civil com muitos milhares de mortos,
especialmente do lado mais fraco. E sabia que a justiça, em seu sentido maior e
essencial, estava com ele, e triunfaria. Mandela superou a divisão do país,
baseada no regime do “apartheid”, uniu a África do Sul e tornou-se o seu
presidente.
Coloco a figura de Mandela
junto a de Mohandas Gandhi, o pacifista que aplicou o princípio da
não-violência (Satyagraha) e da desobediência civil e conquistou, simplesmente, a independência da
Índia do domínio britânico. Também situo, em patamar semelhante, o líder
religioso norte-americano Martin Luther King, que emprestou sua força moral e
seu espírito visionário à luta contra a discriminação racial e às más condições
em que vivia grande parte da população negra nos EUA. Sua voz – e o seu sonho
–foram a inspiração das marchas pelos direitos civis. Assim, como Ghandi, ele morreu
assassinado. Mas pode-se dizer que sua luta teve sucesso – e hoje, com seus
erros e acertos, há um negro na presidência do país mais poderoso da Terra.
Imagine, em outra escala, que
não seria um exagero muito grande lembrar a figura do músico John Lennon nesta
galeria de militantes sociais da paz. Cada um a seu modo, eles provaram que é
possível que mudar a sociedade sem disparar um só tiro – mas dificilmente sem
recebê-lo.
Mandela, Ghandi e Luther King
mostraram ao mundo - branco e injusto -que a força moral, o senso de justiça e
a razão superior podem dobrar o poder bruto das armas e da iniqüidade. E essa
lição já não pode mais ser esquecida.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Caetano, Chico e as
biografias não autorizadas
José Antônio Silva
Nunca achei que discordaria
tanto de uma posição tomada pelo genial Chico Buarque, que costuma acertar não
só em suas letras e músicas. Mas leio agora que Chico, mais outros artistas da
primeiríssima linha da MPB – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento,
Roberto e Erasmo, Djavan – fundaram um grupo (infelizmente não musical),
intitulado “Procure Saber”, para tentar impedir a publicação de biografias não
autorizadas. Como todos estes mestres veteranos passaram pelos rigores do
período ditatorial e da censura (à imprensa, às obras artísticas, aos livros),
soa muito estranha esta obsessão em querer controlar tudo o que se escreve ou
se escreverá sobre cada um deles.
“Autorização prévia” para uma
biografia significa dizer: “Neste livro que tu estás escrevendo, só vai sair o
que eu quiser que saia!”. Enfim, uma grande reportagem chapa-branca, apenas com
uma seleção dos melhores momentos.
Claro que o mundo ideal seria
o autor chegar a um acordo com seu biografado (ou com os herdeiros deste), para
que o livro saísse sem paranóia de um lado, e compromissado com a verdade e a
ética do outro.
Acho que um bom exemplo de
algo assim é a biografia “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, escrito por
Nelson Motta. Amigo do “Síndico”, morto
em 1998, aos 56 anos, com muitíssimos quilos de talento, Motta tinha a
confiança da família do cantor, e os altos e baixos de sua carreira e vida
estão todos ali. Mas mesmo as verdades desagradáveis ali são ditas com respeito
e bom humor, correspondendo ao afeto que tinha pelo grande artista falecido e
ao crédito que foi depositado nele, biógrafo.
E se o escritor não merecer
essa confiança e inventar, distorcer, criar escândalos e factóides para bombar
a divulgação e venda de seu livro? A regra é clara: os familiares e detentores
dos direitos da obra do biografado podem entrar na Justiça e solicitar a
retirada do livro do mercado, retratação, indenização por perdas e danos, etc.
Mas, liderados com fúria
santa pela ex-senhora Veloso, Paula Lavigne, o grupo “Procure Saber” não quer
saber. Como explica matéria da Folha de S. Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1352167-gil-e-caetano-se-juntam-a-roberto-carlos-contra-biografias-nao-autorizadas.shtml),
a Associação Nacional dos Editores de Livros move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade
no STF questionando artigos do Código Civil que impedem a publicação de
biografias sem a autorização prévia dos biografados ou herdeiros. Por isso,
Lavigne quer registrar o “Procure Saber” como associação, obtendo assim status legal
de “interessada na causa” junto ao Supremo.
Autores e jornalistas que se
dedicam ao gênero, como Lira Neto, Ruy Castro, Fernando Morais e outros têm,
claro, se manifestado contra a pretensão dos retratáveis, seus herdeiros e
representantes.
Enquanto nada muda, os fãs
não poderão conhecer, por exemplo, os detalhes do Rei (sua biografia “Roberto
Carlos em Detalhes”, de Paulo César de Araújo - capa na foto acima -, foi retirada das livrarias por
ordem judicial). Ou os sertões interiores de Guimarães Rosa (“Sinfonia Minas
Gerais: A vida e a literatura de Guimarães Rosa”, de Alaor Barbosa, também não
pode). Ou ainda a vida sem queixa nem queixo (essa foi braba!) do formatador do
samba, em “Noel Rosa – uma Biografia”, pelos craques João Máximo e Carlos
Didier, que também está censurada. Ah, igualmente “Lampião, o Mata Sete”, não
pode ser vendida nas boas livrarias do país. Afinal, poderia prejudicar a
imagem do bandoleiro.
Só para confirmar: esse
Caetano Veloso do “Procure Saber” (mas não procure muito), é o mesmo que uma
vez, em plena ditadura, disse que “é proibido proibir”?
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