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sábado, 11 de setembro de 2010

Livro

O Diário de um Traíra

José Antônio Silva

Abstraindo todo o resto, a subjetividade do protagonista e as (extremas) nuances do ambiente e do momento histórico, se poderia batizar este livro, alternativamente, como “Diário de um traíra”. Mas claro, não teria sentido ler criticamente “Filho do Hamas”, de Mosab Hassan Yousef, apenas para simplificar assim este relato em primeira pessoa do jovem Mosab, filho do xeique palestino Hassan Yousef, talvez a mais forte liderança espiritual e moral de boa parte dos militantes palestinos, em sua resistência contra os avanços de Israel. Editado pela Sextante, com 288 páginas, incluindo notas explicativas e prefácios, o livro narra em linguagem simples e direta a trajetória do autor desde uma posição radicalizada contra a ocupação israelense (e seus muitos desmandos contra os árabes da região), até a completa transformação em colaboracionista e agente secreto do Shin Bet – a agência de segurança do estado judeu.

Garoto que jogava pedras nos tanques israelenses, ao tempo das primeiras intifadas, Yousef cresceu na Cisjordânia ocupada por Israel, num caldo de cultura que misturava várias organizações de resistência palestina. Da então majoritária e leiga OLP/Fatah, de Yasser Arafat, passando pela FDLP e a FPLP (ambas marxistas-leninistas), a Jihad Islâmica e suas congêneres Brigadas Ezzedeen Al-Qassan e Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, até o religioso e poderoso Hamas – que por falar nisso terminou tirando a Faixa de Gaza das mãos do grupo de Arafat, acusado de corrupção, numa verdadeira guerra fratricida. Entre as duas, vários outros grupos e entidades, que iam da extrema esquerda até organizações moderadas, de caráter muçulmano ou não.

Cristianismo

Para além da trajetória confusa de Mosab, que paralelamente à colaboração com os israelenses, também converteu-se ao cristianismo (ao descobrir uma Bíblia escrita em árabe, na prisão), o livro é útil por dar um panorama geral, mas detendo-se em detalhes importantes, da situação caótica em que vivem árabes e judeus naquele espaço de terra árida – mas tão aguerridamente disputada. “Filho do Hamas” é rica em informações sobre personagens do conflito desde a década de 20 do século passado, com o fim do Império Otomano, contando ainda com glossário e notas sobre atentados históricos, avanços e recuos nas negociações de paz, etc.

Nascido em 1978, o jovem Mosab vive há dois anos nos Estados Unidos (onde, segundo ele mesmo, “não consegui encontrar um emprego em tempo integral e praticamente me tornei um sem-teto”). A seu favor, argumenta que tudo o que fez, fez na tentativa de evitar ainda maior derramamento de sangue, numa escalada de violência para a qual, de fato, continua difícil enxergar uma solução digna e justa. Também é verdade que para isso correu sério risco de vida, como espião no meio dos militantes islâmicos – assim como nas prisões israelenses e nas ruas conflagradas da Cisjordânia, frente a soldados que não sabiam de sua condição de colaborador.

Pontes queimadas

Mas, outros palestinos que não acreditavam ou não acreditam nos atentados terroristas e na violência como maneira de superar a prepotência de Israel, engajaram-se em movimentos políticos e pacifistas. Já o filho do xeique Hassan, nos dez anos em que viveu esta dupla condição, enriqueceu com o dinheiro israelense, chegando a ganhar cerca de dez vezes mais que o padrão normal da população palestina. Quando resolveu abrir o jogo e dispensar as benesses dos seus empregadores israelenses, já havia queimado todas as pontes. Encontrou uma saída, ao que tudo indica, nas palavras de tolerância de Cristo. Porém, para seus irmãos palestinos, provavelmente seu nome continuará sendo um sinônimo da palavra traidor.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Livro



Gênesis: quando o genial Robert Crumb dobra os joelhos e ora no deserto

José Antônio Silva

O que é um artista de gênio? Um – também – artesão extremamente habilidoso? Um (re)pensador, criando sobre o que é velho e batido? Alguém que busca romper barreiras em sua arte (quase sempre fazendo o mesmo em sua vida privada)? Alguém cuja obra tresanda à originalidade? Ou, quem sabe, alguém que engaja seu talento à uma causa, tema – ou fixação – pela qual se apaixona?


Pode não ser nada disso, mas tudo isso pode ser dito da genial – mas sóbria e contida – interpretação do bíblico livro do Gênesis, pelo desenhista americano Robert Crumb (30 de agosto de 1943), lançado este ano no Brasil. É um volume de capa dura, que pára em pé, da Conrad Editora, com 200 páginas de quadrinhos de desenho minucioso, e mais umas dez de introdução, notas e comentários da editora e do próprio Crumb, falando do trabalho que teve e dos cuidados que tomou com a tradução dos textos bíblicos originais, cotejando diferentes versões, esclarecimentos de especialistas, etc. Como ele mesmo anuncia, antes de (re)criar o mundo: “Eu, R. Crumb, ilustrador deste livro, no melhor da minha habilidade, reproduzi fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes...”


Versão sem subversão

O trabalho é em si deslumbrante, pela riqueza de detalhes, pela farta dose de imaginação que precisou para traduzir graficamente conceitos nebulosos da mística e simbólica linguagem bíblica. Mas também chama bastante atenção o fato do papa do desenho underground dos anos 60/70, anárquico e contracultural, crítico duro de todo o stablishment, autor de personagens corrosivos e cínicos das HQ, como Mr. Natural ou Fritz, o Gato, vir à público depois de muito tempo com uma versão absolutamente respeitosa do Gênesis, onde não se permite subverter conteúdos nem questionar o discurso através da forma.


A palavra de Deus

Como se tivesse sido tocado pelo peso milenar da tradição que gerou religiões e culturas como o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo, sendo ainda um dos pilares da cultura ocidental, Crumb deixou-se ser apenas – apenas? – um ilustrador da “palavra de Deus”. Mas faz questão de dizer que “ironicamente, eu não acredito que a Bíblia é a palavra de Deus”. E lá pelas tantas, em uma de suas notas, critica a visão “misógina e antimatriarcal do Gênesis”. No entanto, reconhece: “É um texto poderoso, com camadas de significados que mergulham fundo em nossa consciência coletiva, ou consciência histórica, se preferir. Parece mesmo ser uma obra inspirada, mas acredito que seu poder deriva de ser um empreendimento coletivo que evoluiu e foi sendo condensado por várias gerações até chegar à forma final, consolidada durante o exílio na Babilônia, em 600 A.C.”


Explicações e racionalizações à parte, teria o rebelde Robert Crumb se transformado num homem religioso, temente a Deus? Se assim foi, é perfeito que tenha escolhido para ilustrar o capítulo fundador do Velho Testamento, onde o Deus – pelo menos o Deus dos judeus (pois à época ainda eram reconhecidos outros, citados no próprio Gênesis) - não era ainda o deus do amor e do perdão. Mas um senhor de poder absoluto que exigia obediência igualmente absoluta e cega; exigia temor, e era dado a imensas descargas de ira santa, recompensando bem, no entanto, os que abaixavam eternamente a cabeça. Como os ditadores e tiranos sempre fizeram através da história, em carne e osso.


sábado, 3 de abril de 2010

Livro


Sangue ruim

José Antônio Silva

“Pensava em termos de roubo. As casas eram construídas para serem arrombadas, os cidadãos deviam ser roubados, a polícia devia ser evitada e odiada, os delatores deviam ser castigados, e os ladrões deviam ser aprimorados e protegidos. Esse era o meu código, o código dos companheiros. Esse era o ar que eu respirava”.

Fala a verdade – em termos de visão de mundo e ética própria, a acima descrita tem muito mais honestidade intrínseca, dentro de seus limites, do que a maioria dos discursos que escutamos por aí. Ou não?

Trata-se de um texto do perturbador “Sangue Ruim”, livreto – curto e, em todos os sentidos, grosso – editado há alguns anos pela Conrad Editora, e que agora reli.

Não recomendável para espíritos sensíveis, o velho Coleman – escritor e ilustrador barra pesada, figura cult do underground norte-americano – relata ao seu jeito quatro biografias de foras da lei não tão famosos como Billy the Kid ou, sei lá, Al Capone.

Não entraram para a história nem para o cinema, estes seres. São o ladrão Jack Black (no retrato ao lado, especializado em assaltos à mão armada e arrombamentos, alcoólatra e viciado em ópio), aliás, o autor da declaração de princípios acima. São Bertha "Vagão de Trem" , vagabunda e andarilha dos anos 30, prostituta, ladra eventual. E dois dos mais endiabrados e lunáticos serial killers de seus respectivos tempos: Carl Panzram e Paul John Knowles.

Histórias repletas de sofrimento do início ao fim, embaladas por uma coragem suicida – muitas vezes cruel (caso todo especial do tal Panzram), mas sempre inseparáveis de infâncias levadas à base de abandono, abusos de toda a ordem, muita violência, exploração, preconceito e outras especialidades de nossa sociedade bem comportada.

O velho Coleman, no entanto, não nos priva de algum humor eventual, uma ironia aqui, um sarcasmo bem assestado ali. Mas são relatos secos e sempre na primeira pessoa verbal, assumindo a personalidade de cada um dos, digamos, depoentes.

(Em tempo: no segundo parágrafo destas mal traçadas, quando critico a “maioria dos discursos que escutamos por aí”, não me refiro aos políticos, em especial. Eles não enganam mais nem menos do que uma imensa parcela dos eleitores, na vida pessoal e nos negócios. Apenas, pagam o preço de estarem sempre na vitrine, sob grande visibilidade.)

Aparentemente feitos à machado por Coleman, lendo – e olhando – de novo estes perfis, observa-se que o resultado foi um fino estudo psicológico, em que os criminosos (às vezes bestiais) são também vítimas.

Sim, o livro é perturbador. Mas quem é que não precisa levar um sacode de vez em quando?