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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cultura




Amy, no caminho da linha invisível

José Antônio Silva





Há uma linha invisível, e no entanto tão concreta, ligando alguns dos maiores talentos do rock, do blues/jazz, do pop, à atração fatal dos excessos. Agora foi a vez da extraordinária Amy Winehouse. Custou a vida dela e deles, mas para nós não custa muito lembrar e citar alguns: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Kurt Cobain, Jim Morrison, ou mesmo o já então decadente Elvis Presley. E - por que não? – Michael Jackson. Não ficamos muito atrás, em terras brasileiras: Raul Seixas, Cazuza, Cássia Eller, Renato Russo (alguns saltaram a tempo da barca do velho Caronte e voltaram a nado para a praia, esgotados mas vivos, como Ângela Ro Ro. Ou Eric Clapton, depois de várias internações hospitalares, ao longo dos anos, em decorrência da heroína, bebida, acidentes de carro...).

Não que todos os citados tenham morrido diretamente por overdose de drogas ou álcool. Mas de certo modo estavam depauperados física, emocional e psicologicamente ao abandonarem este mundo cruel, por doenças ou suicídio formal (Cobain). Mesmo a aids – mortal nos anos 80 e 90 – inseria-se então num quadro existencial de descontrole comportamental (“exagerado, eu sou mesmo exagerado”, cantou um dia, confessionalmente, Cazuza).

Paraíso e inferno
Drogas e álcool eram, e são, paraíso e inferno, euforia e depressão – uma rima mas não uma solução. Questão de dose, de intermináveis doses. Estes grandes artistas, alta sensibilidade, brilharam intensamente por períodos relativamente curtos, para morrerem ainda jovens.

A britânica de origem judaica Amy Winehouse, todos sabem, tinha voz privilegiada e cantava visceralmente – assim como a americana, ainda maior, Janis Joplin. Ambas influenciadas pelas grandes divas do jazz, como Ella Fitzgerald, sintonizadas com o espírito do blues, com cuja dor se identificavam. Mas Amy, aos 27 aninhos de idade (a tal “maldição dos 27”), perdera o corpo exuberante do início da carreira, pelo menos um dente, o viço da juventude e o rumo na vida. Mesmo a divina música, muitas vezes ela já não conseguia cantar.

Tragédias que hoje de alguma maneira já são até esperadas, no universo onde brilham os astros do pop. Como se fosse natural apoiarem-se nesta bengala de madeira podre para continuar subindo aos palcos.

Talvez se mirem no exemplo fora do comum de Keith Richards, ícone do rock n’ roll, 67 anos de idade e uma cara de pergaminho egípcio. Diz ele que largou a heroína no final dos anos 70, e a cocaína em 2006. Cheio de marra, desafia: “Meu corpo é meu templo. Ninguém vai me dizer o que fazer com ele!”.

Igrejas frágeis
O grande problema dos demais astros, consumidos até a morte neste caminho, é que seus corpos eram igrejas frágeis. Ao que parece, para seguir adiante e envelhecer orgulhoso de suas cicatrizes e seu estilo, só mesmo contando com a simpatia pelo e do demônio.

domingo, 10 de julho de 2011

Cultura

O humor estuprador em crise de identidade


José Antônio Silva


Rafinha (“Estuprador do Humor”) Bastos é apenas uma consequência. E um exemplo do humor que ainda viceja absoluto - e absolutamente destituído de qualquer sentido ético, como se isso representasse uma grande conquista – em algumas mídias do Brasil. Coincidentemente, ele encarna um estilo que vem dos anos 80, no rastro do neoliberalismo, que da Inglaterra tatcheriana e dos States de Reagan, espalhou-se como erva nociva pelo mundo afora. De modo similar aos oportunistas e exploradores que seguem os exércitos invasores, os humoristas do vale-tudo substituíram as gerações de cartunistas e comediantes que se fizeram no enfrentamento da Ditadura ou em outras esferas, como a crítica ao reacionarismo comportamental. A lógica vitoriosa parecia ser a do “metralhadora giratória” - nada era ou é sagrado. Mas só parecia.


Os teóricos do Consenso de Washington não fariam melhor: desregulamentar tudo, mas tudo mesmo, em nome da suprema “liberdade” econômica, transposta para a crônica social de feição humorística. Afinal, os pobres só o eram por sua própria culpa, e não mereciam apoio, misericórdia ou condições sociais e econômicas adequadas – eles que fossem à luta ou morressem. Competitividade era/é tudo.


A lei de quem pode mais

Assim, de uma hora para outra, o humorismo brasileiro surgido pós-redemocratização do país, regrediu à lei do mais forte, do mais rico, do quem pode mais. O Casseta & Planeta, apesar de alguns méritos, foi “revolucionário” e paradigmático nesse sentido. Sem-terra, morrendo de doenças e abandono em acampamento à beira de estradas, ou assassinados por jagunços ou policiais? Sarro neles! Negros, vítimas seculares da escravidão, discriminação e racismo? Gozação neles! Mulheres (“o negro do mundo”, segundo Yoko Ono), violentadas ao prazer do machismo? Piada imbecil nelas: as feias estupradas – como divertiu-se Rafinha Bastos em seu talkshow - deveriam agradecer aos estupradores a oportunidade de sexo. Ah, sim: as vítimas destes petardos, se ousarem reclamar, são taxadas de censoras que ameaçam o sagrado direito de... de quê mesmo?


Este humor – quando quer mostrar que é imparcial, ou tem conteúdo – bate nos políticos. Como se houvesse mérito em atacar cachorro morto, no sentido da moralidade chavão da mediania brasileira, para quem “todo político é ladrão, todo político é igual”. Seria interessante – e fica o desafio - ver esta coragem e independência toda de CQCs e assemelhados fazendo gracinhas com o grande empresariado corrupto e corruptor, com os conglomerados de comunicação e suas negociatas, com os setores poderosos e conservadores que não acham graça nenhuma em rever processos e levar a julgamento torturadores e outros arbitrários. (Aliás, na Argentina - de onde vem o programa original, macaqueado pelos brasileiros - os artistas e humoristas costumam dizer a que vêm).


“Número de acessos”

Mas estes humoristas - das piadas de péssimo gosto com mulheres estupradas, com negros humilhados e judeus que sobreviveram a campos de concentração – têm lá seus bons motivos. Afinal, todo o humor se alimenta de preconceitos e estereótipos. E sendo assim, anula-se qualquer sentido de justiça, cidadania, direitos humanos e outras coisas mais. Em seu lugar, pragmaticamente, passam a valer apenas a busca do riso a qualquer custo, a audiência, o dinheiro na caixinha, o “número de acessos”.


Valeria lembrar que para os rebeldes sem causa e sem rebeldia do humor cequecista poderem desfrutar hoje da liberdade de ofender e humilhar sistematicamente alguns dos setores mais frágeis da sociedade brasileira, foi preciso que muita gente (inclusive destes mesmos setores) dessem suas vidas, perdessem seus empregos, suas carreiras e sonhos, suas casas, suas famílias e identidades.


Quem apanha não esquece

Vá que eles não saibam, o humor não é anódino, inodoro e insípido. É uma arma que faz vítimas. E não vale mais dar o tapa brutal e depois correr para debaixo da saia da liberdade de expressão ou do poder midiático e dizer que só estava brincando. Quem bate, logo parte alegremente para outra. Quem apanha, porém, não esquece. O neoliberalismo continua a fazer água (alô, Grécia!), e o mundo vem mudando. Alguns não perceberam, mas esse caminho está cada vez menos engraçado.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cultura

Academia Brasileira de Letras de Câmbio

José Antônio Silva

Academia Brasileira de Letras de Câmbio. De câmbio de influência, de câmbio de prestígio – desta vez remetendo nada menos que às Organizações Globo (que, aliás, anos antes já havia infiltrado na “imortalidade” acadêmica o seu papai fundador, Roberto Marinho).

Agora foi a vez do comentarista político e de assuntos gerais do Globo, Merval Pereira, ocupando a cadeira ocupada até recentemente pelo romancista Moacyr Scliar. Verdade que é questionável até mesmo o desejo de fazer parte do mausoléu da ABL, com seu fardão e espadinha, com seu chazinho das cinco e rapapés.

Mas, já que existe – e foi fundada pelo melhor de todos os escribas nacionais, Machado de Assis – que ao menos sentassem em suas 40 cadeiras os escritores brasileiros.

Qual o quê! – como diria (ou não) Machado. Ivo Pitanguy, Marco Maciel, Eduardo Portella, Cândido Mendes e outros ilustres cidadãos de diferentes áreas lá estão, com suas nádegas imortalizadas nas poltronas da ABL. Ah, sim, dirão vocês: “Esqueceu de citar o Sarney!”.

Nã, nã, não. Esqueci não. Caso é que Sarney – bem ou mal – tem vários livros de prosa e verso publicados, incluindo o inesquecível “Marimbondos de Fogo”. Se suas picadas têm alguma qualidade literária ou não, me abstenho de julgar, pois não os li. Só ao escrever e lançar obras na área de literatura, porém, já ganha pontos em relação ao cirurgião plástico (por falar em “pontos”...) Pitanguy ou ao político radicalmente vertical Maciel.

Pior é a desfaçatez midiática e da maioria dos acadêmicos, que por via das dúvidas preferiu votar no jornalista global em detrimento de um escritor de verdade e de méritos inquestionáveis, como Antônio Torres. Autor de 17 livros, como os já clássicos “Um cão uivando para a lua”, “Os homens dos pés redondos” ou o recente “Meu querido canibal”, por ironia do destino em 2000 recebeu nada menos que o Prêmio Machado da Assis. Sabem de quem, né? Sim, dela mesma, a velha ABL.

Quintana, um dos grandes da poesia brasileira, sofreu por não ter jamais sido escolhido para a Academia. Não devia: embora abrigue alguns autores de talento acima de dúvidas, como João Ubaldo Ribeiro ou Lígia Fagundes Telles, a Academia vem se imortalizando como uma vitrine para egos poderosos de variados setores.

E mais. Acho até que está havendo um favorecimento da Rede Globo. SBT e Record também devem lutar para colocar lá seus próprios colunistas – ou pelo menos um apresentador.

Ser escritor, ao que parece, hoje em dia até depõe contra.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cinema


“Copacabana me engana” e nos envolve


José Antônio Silva

Ao invés dos cangaceiros e anti-heróis do sertão cinemanovista, a classe média de Copacabana. Mas não a classe média da sofisticação da bossa nova, e sim a da maioria anônima, de um naif provinciano, tendo como trilha sonora as canções de segundo escalão da jovem guarda (mas também Mutantes, Caetano..). A linha de calçada que se estende desde a espuma do Atlântico à muralha de prédios chic da Zona Sul, nos anos 60, é a praia invadida – de câmara na mão, claro – pelo estreante Antonio Carlos Fontoura, em “Copacabana me engana”. Que finalmente assisti, numa sessão coruja da TV Brasil, noite dessas.

Aquela região do Rio, somente conquistada pela cidade à mata è as montanhas no início do século XX, após a abertura de um túnel, é o palco das batalhas éticas e existenciais de Marquinho (muito bem vivido por Carlo Mossy). Ao acompanhar as deambulações e a vagabundagem de um garotão de praia, com seus vinte e lá vai bola anos, eternamente um “vestibulando”, Fontoura expõe uma fatia da dimensão trágica de um país então sob manu militari, com toda alienação política e a falta de perspectivas para a juventude, disso resultante

Não que a ditadura apareça e abane para o público, sob a forma da polícia ou exército. O jovem cineasta se contenta em apresentar seus reflexos arrasadores, a hipocrisia social, o esvaziamento de projetos de futuro, a falta de opções, o velho poder do dinheiro...

A juventude e a inocência tardia de Marquinho viram moeda de troca existencial nas mãos calejadas de Irene (Odete Lara, explodindo em sua beleza madura), assim como do cínico amante da mulher, o milionário trambiqueiro vivido por Paulo Gracindo. Mas também dos pais do garotão e de seu irmão mais velho e experiente, interpretado por Claudio Marzo.

A turma de playboys com quem o protagonista joga bola (liderada pelo talento de Joel Barcellos) na praia e com quem sai para beber e tentar pegar mulher, deixa de ser a expressão coletiva de Marquinho, a partir do momento em que ele se apaixona por Irene. A cena em que o grupo de rapazes fortes e bem vestidos invade um velho salão para espancar meia dúzia de trabalhadores sindicalistas, congela um retrato da alienação política total de jovens em determinado momento histórico.

Os diálogos não podem ser mais “naturais” – e assim, fazem um contraponto àquilo que as cenas desnudam, como o ménage à trois de Irene, Marquinho e seu irmão. E tudo se desvela. Mossy, que alguns anos depois ganhou dinheiro e fama encaixotando uma série de pôrno-chanchadas, revelou-se o ator certo para o papel.

O diretor Fontoura, que três anos depois nos deu o clássico “A Rainha Diaba”, talvez tenha realizado à época seus melhores trabalhos. Mas, nascido em 1939, continua na ativa.

“Copacabana me engana” é um belo filme, low profile. Em preto e branco – enquanto o Brasil da ditadura repetia as cenas do cinema no cotidiano, em cores vivas e mortas. Mas sem perder o humor - o tal “típico humor carioca”, presente nas tiradas de Joel Barcellos, ou nas observações de Odete ou do já veterano Paulo Gracindo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cultura





MPB acendeu luz na noite da ditadura

José Antônio Silva

A longa noite da ditadura no Brasil, a partir de 1964, também acendeu alguns pontos de luz na cultura brasileira, muito especialmente na tal de MPB. Dia desses assisti ao documentário “Uma noite em 67”, dos bons estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, que põe em foco não só o palco do histórico 3º Festival de MPB da TV Record, em outubro de 1967, com suas canções top de linha, mas também os bastidores. E é nos bastidores, nas revelações e confissões dos jovens e ingênuos futuros medalhões da música brasileira – Gil (na foto acima), Caetano, Chico, Edu Lobo, Roberto Carlos, etc – que reside o diferencial.

Parada duríssima

As seis classificadas já eram, por si mesmas, ícones da canção popular do país, que só ganhariam mais significação nos anos que se seguiram. Quem venceu foi “Ponteio”, do Edu Lobo; e era uma excelente música. Mas quem reclamaria, hoje, se, ao invés, tivesse ganho “Alegria, Alegre”, do Cae, “Construção”, do Chico Buarque, ou “Domingo no parque”, de Gil? Parada duríssima, não é mesmo? Entre as outras classificadas, “Maria, carnaval e cinzas” (de Luiz Carlos Paraná, cantada pelo Rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos, só pra mostrar que à época já era um craque da interpretação, inclusive no samba). Em sexto, ficou “Beto Bom de Bola”, de e com Sérgio Ricardo – mais conhecida pela vaia de um público deslumbrado pela própria liberdade (pelo menos aquela!) de vaiar, e pelo violão que o autor jogou na platéia, do que pela canção mesmo.

Falar em vaia e festival, vale citar o discurso em alta voltagem de Caetano, na edição seguinte do mesmo Festival – no paradigmático ano de 68 – em que ele desanca o público que o vaiou ao cantar “É proibido proibir”, vestido com um traje tropicalista (no ano anterior, ainda envergara um comportado bleiser quadriculado sobre uma blusa de gola rolê). “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”, mandou para o público histérico. E sobrou para os jurados: “O júri é muito simpático, mas incompetente!”.

Protesto!

E corta pra outro assunto, mesmo ficando na mesma praia. Voltando à primeira frase desse texto, pode-se pinçar no repertório clássico da MPB entre 1964 e 1985, entre várias outras opções, várias canções “de protesto”, explícitas ou implícitas, contra a ditadura militar, o autoritarismo, a esperança em novos dias. Toca aí, algumas:

“Para não dizer que não falei de flores” (Geraldo Vandré); “Vai passar” (Chico Buarque); “Apesar de você” (Chico Buarque); “Meu caro amigo" (Chico e Francis Hime); "Eterno Aprendiz" (Gonzaguinha); “O bêbado e o equilibrista”, "Não põe corda no meu bloco" (João Bosco e Aldir Blanc); “Disparada” (Vandré e Theo de Barros); “Cálice” (Chico e Milton Nascimento); “Tropicália” e “É proibido proibir” (Caetano), “Procissão” (Gilberto Gil); "Charles Anjo 45" (Jorgen Ben); "Cartomante" (Ivan Lins e Vitor Martins); “Mosca na sopa” e “Ouro de tolo” (Raul Seixas); “À palo seco”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais” (Belchior); “Pialo de sangue” (Raul Elwanger); “Aquele tempo do Julinho” (Nelson Coelho de Castro); “Admirável gado novo” (Zé Ramalho); e etc, etc...

E quem quiser que conte outra.