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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Poetando (5)

Cada dia

José Antônio Silva

Cada dia
é uma cópia
de outro e outro e outro
de bilhões de outros dias
se é que houve um
inaugural

e cada dia
é uma cópia exata
até na infinitude
das pequenas e grandes variações
que um dia comporta
antes de mergulhar
no amanhã.

E apesar disso
cada dia
- cada idêntico dia
parido pelo sol -
é um novo novíssimo
irmão caçula de tantos
que o antecederam.

Na memória da natureza
cada dia a todos contém
- imensuravelmente velho seria
houvesse contagem
numa ficha cósmica.

Cada menina manhã
nos engana
- e não
não nos engana:
todos somos manhãs
tardes
e anoitecemos.


2003

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Conto um Conto (2)

Aplacativos e amenizadores

José Antônio Silva



Comprou e aplainou uma tábua de polegada, onde escreveu em letra de forma, cinza sobre branco: “Aplacativos e amenizadores”. Instalou-a sobre a porta da casa antiga.

Na penumbra da sala, janelões cerrados por cortinas pesadas, ajeitou um abajur na ponta da escrivaninha. Ao lado, em mesa auxiliar, um velho monitor de computador e seu teclado, recolhidos do lixo.

Estava pronto – e o primeiro cliente chegou.

- Com licença, senhor...
- Pode entrar, meu amigo. Sente-se.

O rapaz puxou a cadeira e instalou-se na ponta. “Eu li aplicativos? O senhor trabalha com aplicativos de informática?” – e lançou um olhar ao equipamento que jazia na mesa de canto, protegido pela penumbra.

- Aplacativos.
- Como?
- Aplacativos e amenizadores.
- Não entendo... – a voz do jovem tremeu um pouco.
- Eu sei do que o senhor precisa. Algo que aplaque e amenize a dor.
- Dor? Eu... não estou... (mexia-se na cadeira, perturbado).
- Aplacamos a dor e amenizamos a dor. Por que o senhor está sofrendo? – e acrescentou em tom profissional, seguro: - Sou especialista, pode falar.
- Bom... é que... (o rapaz começou a chorar)... nossa vida está um inferno! Ela já não me ama, eu acho (as lágrimas escorriam pelo rosto vermelho). Ela se queixa de tédio. Diz que quer paixão. Mas eu a amo!
- Calma.
- Já não sei o que fazer, doutor. Estou desesperado... Já não acho mais graça em nada... Até acho que ela está interessada em outro sujeito...

Afastando a cortida floreada ao fundo da sala escura, veio direto da cozinha um homem velho, de pijama listrado e chinelos.

O especialista apresentou:

- Este ... este é o meu... este é o Barbosa, o doutor Barbosa, nosso consultor.

O rapaz limpou as lágrimas com a mão esquerda, fungou e estendeu a outra. Fungou de novo:

- Muito prazer, doutor Barbosa.
- Isso é bobagem. Eu ouvi tudo, por acaso. Não vale a pena essa choradeira. Tu és um guri ainda, tá em tempo. Vai por mim! – recomendou o homem idoso.

A equipe se completava: a esposa de Barbosa chegou, arrastando os pés, agasalhados em pantufas com um padrão quadriculado. Nas mãos trazia uma bandeja esmaltada com a gravura de um buquê de flores, onde chacoalhavam duas xícaras de vidro transparente, com um cafezinho igualmente aguado.

Ofereceu ao sofredor:

-Açúcar ou adoçante? Esqueci, já passei com o açúcar... Não faz mal, né, meu filho?

O rapaz pegou ligeiro sua xícara e bebeu de um gole.

- Está ótimo, está ótimo.

A xícara destinada ao especialista foi depositada ao lado de seu cotovelo, à mesa. O idoso estendeu a mão...

- Você não pode, Barbosa! – disse a velha ao marido. – Não incomoda!

O especialista tossiu.

- Mas fale, fale, disse ao jovem.
- Bom – respondeu em tom baixo o homem que sofria pela ruína do amor – eu não sei, só sei que dói, dói... Eu não vejo saída.
- Rapaz do céu! – disse a senhora, ajeitando no rosto os óculos, que até então pendiam de uma correntinha ao pescoço. Uma das hastes mantinha-se no lugar com o auxílio de um pedaço de esparadrapo.
- Esta é a doutora Leontina, da nossa equipe – ouviu-se a voz do especialista.
- Meu filho – continuou Leontina, o olhar fixo no jovem – aí na rua tem mulher de sobra precisando, carentes – sabe carentes? – e você é um rapaz bonito, sofrendo desse jeito. Não tem cabimento!

Utilizando a melhor técnica, o especialista apenas voltou os olhos aos dois auxiliares aplacativos e amenizadores, que pediram licença e voltaram através da mesma cortina farfalhante, deslizando com as chinelas pelas velhas tábuas enceradas.
Voltou-se para o paciente:

- Eu concordo com o diagnóstico da minha equipe. O senhor sofreu um trauma afetivo-relacional, de intensidade alta, porém de curta duração. Vai ficar bom – percebo que o pior já passou. A solução está encaminhada e agora vai depender muito do senhor. Não da sua mulher. Digo: da sua ex-mulher.
- “Ex-mulher”, doutor? – a voz do rapaz saiu fraca, desafinada. Mas já não chorava.
- Como lhe disse.

Levantou-se, o homem da escrivaninha, e ergueu uma ponta da cortina de renda branca, amarelecida pelo tempo – aconteceu um súbito jato de luz na treva.

- Perceba: o sol voltou a brilhar lá fora. É o fluxo da vida que nos convoca.

O moço ficou em silêncio por um momento. Aprumou-se. Tentou um sorriso. Sorriu:

- Aplacativos e amenizadores, não é?
- Exatamente. Precisamente, senhor.

Sério, o jovem ergueu-se, enfiando a mão no bolso direito das calças: Quanto...?

O especialista apontou um pequeno pote no alto de uma floreira, ao lado da porta.
- Pode depositar ali a sua contribuição. E em caso de necessidade ou recaída, volte sempre. Conte com a nossa equipe.
Apertaram-se as mãos.

Já ao longe, na calçada banhada de sol, o rapaz ainda escutou a voz do especialista:
- O próximo, por favor!


Outubro/2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A fala enjoada das ruas de Porto Alegre

Erudição zoológica

“A pantera negra de olho vermelho só tem na Índia. É que nem o caso do leão branco aquele, que só nasce de cem em cem anos” – Entreouvido na Praça da Alfândega, entre populares que assistiam a uma renhida partida de damas, nas mesinhas de concreto.

Sentimento sincero

“Você meu amigo de fé/ meu irmão/ camarada...” – Olhos nos olhos, aquecidos pela garrafa de cachaça e a emoção da verdadeira amizade, dois mendigos abrigados da chuva sob uma marquise da Rua Uruguai, entoavam a plenos pulmões a canção do Rei Roberto.


Coisa bem boa

“Mais uma avenida pra gente varrer!” – Frase alegre, em diálogo de casal de garis sentados lado a lado no ônibus da linha Padre Reus, perto da obra de ampliação da Avenida Diário de Notícias.


Telecultura

“Ô Xuxa, faz uma parceria com o Seu Madruga!” – Camelô, no meio da Rua Marechal Floriano, comunicando-se em altos brados com uma colega gorda e loira enquanto apontava para um vendedor bigodudo, magro e pálido.


José Antônio Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Crônica minha (10)

Nomes que condicionam o salário

José Antônio Silva

Na lista de empregados de uma grande empresa, ao correr dos olhos, encontrei em seqüência as seguintes e certamente exemplares funcionárias: Loeci, Loezi, Loici, Loide e, para completar o simpático grupinho, a Loiraci.

Loeci, Loezi e Loici, certamente são variações sobre o mesmo tema. Só não me perguntem que tema é esse. O nome Loide, se sua proprietária for bem jovem, pode ser até uma homenagem dos pais àquela divertida comédia cinematográfica: “Débi e Loide”.

Por mais inteligente que Loide seja, talvez só ela saiba avaliar as brincadeiras e gozações que já teve – e tem – que agüentar, ostentando este nome. Ele pode ser inspirado também em alguma empresa de aviação - para voar cada vez mais alto na viagem da vida... É Loide e tudo bem: só não pode ser molóide!

Loiraci é daquele tipo de nome que já entrega as características físicas da sua portadora: Loiraci deve ser ou ter sido uma linda loirinha. Loira sim, Loiraci!

“Nome de pobre”
Mudando um pouco de enfoque, vale lembrar que é aparentemente inesgotável a capacidade popular para fugir do que chamam de “nomes de pobre”. Você sabe: João, José, Daniel, Pedro, Antonio, Carlos, Manoel, Tiago, Eduardo, Eliane, Maria, Lúcia, Helena, Joana, Laura, Carla, etc e tal. Quer dizer: os tradicionais nomes de tradição ibérica e/ou bíblica, ou de outros origens étnicas, mas que configuram nossa cultura há séculos e milênios.

Revolta popular
Há algumas gerações atrás – digamos lá pelos anos 50 e 60 do século passado, ou até mais recentemente - já tinha acontecido uma grande revolta popular contra os nomes tradicionais, comuns. A solução encontrada para fugir da mesmice era misturar uma parte do nome do pai com uma da mãe. Chacoalhando bem, podia dar certo. Um exemplo do futebol: o craque vermelhinho Nilmar, se não me engano, é o resultado brilhante do amor do seu Nildo e da dona Maria. Ou algo assim. E é um nome que também não chega a comprometer fora de campo.

Hoje, ou há algumas décadas, vivemos num mundo de jovens (e não tão jovens) Maikons, Dijenifers e assemelhados. O ponto em comum é que costumam ser corruptelas – grafadas das mais variadas e delirantes formas – de nomes ingleses, confirmando que quem domina o mundo, militar e economicamente, impõe ao mesmo tempo seu idioma, como acontece pelo menos desde o império romano e o seu respectivo latim (e apesar da grave crise americana atual, nada indica que, em essência, esta situação vá mudar tão cedo).

Registro em cartório
Edição da Folha de S. Paulo, de alguns anos atrás, trazia reportagem sobre cartórios de registro, na interminável periferia paulistana, em cujas paredes figuram todas as possíveis formas de escrever os nomes prediletos dos atuais papais e mamães: Taysson, Thaiçon, Theissom; Deiviçon, Dheyvidsom, e por aí vai.... Os progenitores do recém nascido só tinham que apontar qual a grafia – quanto mais diferente, melhor – para seu garotão ou sua fofinha.

Voltemos ao esporte bretão: os nomes dos atuais jogadores de futebol fornecem um bom material de pesquisa. Richarlysson não me deixa mentir sozinho.

Reforma Ortográfica
E mais: a atual Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, querendo ou não, restabeleceu o status de letras como Y, W, K, que eram consideradas estrangeiras. Restabeleceu para a chamada “norma culta” – a vontade popular há muito tempo tinha descoberta nestas letras um passaporte para tentar enganar a pobreza e a origem humilde.

Vamos reconhecer: infelizmente, trata-se apenas de uma tentativa. E quase sempre fracassada. Da classe média para cima, os nomes seguem o padrão “clássico” do idioma: Carolinas, Dianas (não Dahyannas), Isabéis, Ricardos, Claudios, Ciros, Guilhermes, Diegos e Diogos, etc.

Sobrenomes
Na verdade, mais que os nomes, o que conta mesmo quase sempre são os sobrenomes importantes (antigos ou de novos ricos), constituindo uma aristocracia crioula - que segue mandando e desmandando, concentrando renda e pagando salário mínimo e eventuais gorjetas para os Deiwysons e Karollainnes desta nossa vidinha brasileira.

Como dizem os místicos e os neurolingüiças, digo, lingüistas, há nomes que condicionam destinos. E salários, eu acrescentaria.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Poetando (4)

Caçado e caçador

José Antônio Silva


Aos dez ou onze anos
cacei minha primeira gazela
- ou fui caçado
igual
por ela.

Tomei gosto
gosto de sangue
na mata
na trilha
no mangue.

Raro puxei o gatilho
apreciava a presa
viva e distante
à disposição
para a minha mesa.

E assim fui
de quando em quando
abatendo perdizes perdidas
eventuais
pouca carne
poucas vidas.

Nem sempre senhor:
errava o tiro e a flecha
aqui e ali
e matava sozinho
a própria dor.

Até que apareceu peça grande
cerquei campo
fui chegando
forte contra o vento:
hoje eu janto.

Ali me regalei
muito
e muito mais
até que a carne perdeu gosto
secou
ou me salgou demais.

Subi montes
de solidão gelada
e daquele posto
observava minúscula
a caça nos campos
ou no alto céu
- e virava o rosto.

Só ajustei a mira
ao voltar à planície
esturricada
e receber o tiro
doce tiro do olhar
da corsa esperada.

Negaceou
como quem vai
mas mirava em mim
as pupilas negras
e era desafio:
acertei em pleno
no alvo perfeito
- e em tempo de cio.

Agora
ainda viva
ela dança e escava
em busca de ar
corre e retorna
em círculo:
do que escapar?


É pouca a munição
e ela resfolega
fúria e instinto.
Mata e morro:
um daqui
já não sai vivo.



Setembro/2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crônica Minha (9)



Sexo, drogas, rock n’roll e gangsta rap

José Antônio Silva

“Sexo, drogas e rock n’roll”. De algum modo imperfeito, este chavão ainda dá uma idéia do que envolvia a questão das drogas, e tudo que a cercava, nos libertários anos 60 e 70, mundo afora. Na sopa contracultural em que ferviam as juventudes ocidentais da época, com seus marcos – Maio de 68 em Paris; o mega Festival de Woodstock; a Marcha contra a guerra do Vietnã (em Washington); a Marcha dos 100 mil (contra a ditadura, no Brasil), etc – misturava-se revolução socialista com movimento hippie, liberação sexual com religiões orientais, anarquismo com artesanato e ecologia, feminismo com meditação transcendental e luta armada. E muita, muita mochila e estrada, cortando tudo.


A droga neste contexto não era encarada como pura alienação ou vício: tratava-se de uma “viagem para abrir as portas da percepção”. Os livros de Carlos Castañeda e suas drogas indígenas, “de poder”; o LSD; os cogumelos alucinógenos; e mesmo a singela maconha – tudo fazia parte desta aventura mental e transcultural, no caminho de uma nova era...
E inclusive com o apoio da ciência. Bem, de alguma ciência... Como a do dr. Timothy Leary, professor de Berkeley e Harvard, que ministrava aos alunos doses de ácido lisérgico (substância descoberta nos anos 40 pelo químico suíço Albert Hoffman), observando suas reações. Ele mesmo uma espécie de cobaia entusiasmada da droga, em pouco tempo tornou-se o profeta da transformação psicológica da humanidade, que seria descortinada com o uso do LSD. Claro que em pouco tempo perdeu as cátedras, foi fichado pela CIA e chamado por Richard Nixon de “o homem mais perigoso da América”.


Mas as drogas naturais continuavam prestigiadas. Paralelamente às viagens de Carlos Castañeda nos desertos mexicanos com as plantas de poder, havia toda a maconha e o axixe que pudesse ser consumido, sem falar na caça aos cogumelos nascidos do esterco das vacas, devidamente ingeridos em forma de chá. Este universo paralelo mas amplamente disseminado receberia contribuição genuinamente amazônica e brasileira através da mistura de ervas conhecida como yahuasca, que recortada de seu contexto indígena, terminaria por fundamentar uma religião urbana – ou mais de uma – baseada na revelação cósmica, espiritual e transcendente experimentada pela ingestão da beberagem, sob certas condições controladas e ritualizadas.


Bem, não vamos romantizar. “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela droga” – já havia constatado o poeta beatnick Allen Ginsberg, no final dos anos 60. E na história do rock (a trilha sonora desta parte da história recente), todos podemos enumerar grandes talentos que se foram antes do tempo por overdose, suicídio ou acidente provocado por algum tipo de droga (rapidinho: Elvis Presley, Keith Moon, Jim Morrison, Mama Cass, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious, Kurt Cobain, entre centenas de outros; muitos escaparam por detalhe, com cicatrizes eternas, como Eric Clapton). Ainda assim, sobrevivia a idéia de que uma nova sociedade igualitária, generosa e sem tampões na mente estava surgindo. Até que o sonho acabou. Bum!


Corta para os anos 90 e 2000. Cada vez mais, a droga é apenas um caminho para a morte prematura, a degradação do vício, a criminalidade que este acarreta e sua procissão de sofrimento, corrupção e falta de perspectivas. Um ceifador de vidas, especialmente entre os jovens, e um mal do qual as sociedades e os governos mundiais não conseguem se libertar. O crack e a merla, subprodutos da cocaína, mais baratos e muito mais letais, espalham-se pelas almas desorientadas das grandes cidades, em tragédias sem fim. E assim...


“Sexo, drogas e armas”. Este pode ser o mantra dos anos 80 para cá. As drogas ganham status de comodities poderosíssimas, arrastando e corrompendo autoridades e até governos. As armas, neste cenário, entram como um dos principais ativos nas grandes transações internacionais, para fortalecer o arsenal dos donos das bocas de fumo dos morros cariocas e das favelas brasileiras de modo geral, assim como em outros países. Armas que terminam sendo moeda de troca, de aluguel e de prestígio para a execução – literalmente - de outros crimes, que passam pelas “guerras” de extermínio entre diferentes grupos de traficantes, até assaltos, seqüestros, furtos de veículos e muito mais.


Seja nas belas paisagens de papoula do Afganistão, em que boa parte do lucro da droga alimenta e arma a histeria intolerante e assassina do Talibã; seja nas matas e altiplanos da Bolívia, em que as Farc – e seu oposto complementar, os “contras” da ultradireita – ganham sobrevida em mútua e promíscua negociação com os fabricantes e traficantes de cocaína, vê-se que as armas são um dos principais “baratos” da nossa época. Os últimos modelos tanto estão nas lutas semi-tribais da África, com meninos-soldados-escravos de 11 anos, ou nos conflitos independentistas que levantam ex-repúblicas soviéticas, manipuladas por Moscou ou Washington.


As armas – como num imenso supermercado aberto a qualquer um que tenha algo para dar em troca - nunca tiveram tanto destaque nem um público consumidor tão diversificado e numeroso. Grupos de mercenários, como os rapazes da Blackwater, por exemplo, a serviço de Washington no Iraque, dão o toque pós-moderno e ultraneoliberal, linkando negócios milionários, ações de governo e violência sem controle num mesmo pacote, onde é difícil dizer onde começa uma coisa e termina outra.


“Sexo, drogas, armas e ostentação”. O corte agora é para uma mansão em Miami, Las Vegas ou qualquer outro paraíso ensolarado nos States. A música da época já não é o rock, em qualquer de suas encarnações. É o rap – mas não o rap anti-discriminatório, de indignação e protesto, de pioneiros como Tupac Amaru Shakur e outros pioneiros. Não: ligue a MTV ou outro canal do gênero e muito provavelmente você ouvirá coisa bem diferente. Com sorte, será uma canção de amor e sexo quase explícito, com pouco de rap e muito de pop.


Ou verá/ouvirá um gangsta rap. Isso mesmo que o nome diz: os caras se orgulham de andar com - e exibir - armas, grandes correntes e pulseiras de ouro e brilhantes, carrões de luxo. Bagaceragem: alguns se proclamam ex (para evitarem a prisão) traficantes e gigolôs, chamam as mulheres de vagabundas e cadelas; em seus clipes a mulherada só serve para se esfregar nestes heróis anabolizados do consumismo e da alienação, para serem comidas com desprezo e depois mandadas embora, com um tapa na bunda e uma grana na bolsa. Muitos não ficam na pose: não foram poucos os astros do gênero que se mataram e feriram à bala (incluindo o próprio Tupac, assassinado a tiros aos 25 anos). De algum modo, são os modelos de sucesso apresentados pela mídia.


Fico pensando: qual será o próximo lema internacional? E qual a sua trilha sonora?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Crônica Minha (8)

Brega, o coração apaixonado do Brasil


José Antônio Silva

Avermelhada com papel celofane colorido ao redor de uma lâmpada comum, a luminosidade da música brega se espalhou durante décadas por bordéis, boates de caminhoneiros à beira de estradas, zonas de meretrício de pequenas cidades, botecos de prostituição, inferninhos e hotéis de terceira, com as meninas acomodadas em um sofá, antes de sentarem-se à mesa – ou ao colo – do freguês. Minissaia ou colant vagabundo, decotes ousados e muita maquilagem, estas musas decaídas, embelezadas por algumas cervejas ou uma cuba libre, durante muito tempo significaram a entrada no mundo da sexualidade para milhões de rapazes, ou o descanso de velhos guerreiros, estafados pelas preocupações do trabalho ou pelo tédio matrimonial. A mesma trilha sonora bombava em puteiros mais pretensiosos, como as chiques e cafonas casas noturnas para endinheirados, nas grandes cidades.

A cena não mudava muito, fosse no Amazonas ou no Rio Grande do Sul. E não só naqueles ambientes, é claro. Ao largo da Bossa Nova, Tropicália, Clube da Esquina, rock brasileiro, MPB, Vanguarda Paulista e outras sofisticações, a breguice sonora corria solta – em raia própria – em cada pequeno e pulsante coração suburbano.

Quase completamente ao largo, também, da Ditadura e seu cortejo de horrores. "Quase", porque muitas canções destes artistas, considerados alienados, foram censuradas por Brasília, num moralismo que era a máscara perfeita para a hipocrisia dos poderosos, a corrupção desbragada, os interesses privadíssimos y otras cositas.

Enfim, entre os anos 60 e 80 do século passado três nomes se sobressaíram neste subgênero: Odair José, Reginaldo Rossi e, é evidente, Waldick Soriano. Este que agora se foi, aos 75 anos, com seu chapelão preto, seus terninhos da mesma falta de cor, suas botinas de caipira e os inseparáveis óculos escuros.

Tudo sempre igual - a acrescentar apenas, nos últimos anos, uma tradicional tintura acaju sobre o cabelo engrovinhado, para esconder, das fãs, as cãs. A inspiração para o chapéu e a roupa preta desse baiano, disse ele numa entrevista, era o cowboy Durango Kid (personagem, aliás, que também marcou outro filho da Boa Terra, Raulzito Seixas).

Mas Waldick não reinou sozinho, com seus boleros e canções romântico-populares. Em sua mesma geração, brilharam Agnaldo Timóteo (alô, Agnaldo Rayol!) e o – desculpem mas é irresistível - “gigante da canção de amor”, Nelson Ned, entre outros.

Aliás, este subgênero na real englobou/engloba diversos estilos musicais e suas misturas – boleros, guarânias, ie-ie-iés da Jovem Guarda, sambões-jóias, pagodes românticos (!), baladas adocicadas e sertanejos mela-cueca, embora tudo soe mais ou menos igual, enfumaçado, politicamente incorreto, ciumento, machista, generoso, saudoso, cornudo, carnuda, antiquado, culpado, eventualmente vingativo, no peito emocionado do povão brasileiro.

Virando cult

Mas falávamos do trio: Waldick “Eu não sou cachorro não” Soriano; Odair “Pare de tomar a pílula” José; e Reginaldo “Mon amour, meu bem, ma femme” Rossi.

De alguma maneira, eles tanto fizeram que viraram cult. Patrícia Pillar, atual Maga Patalógica (digo, malvada-patológica) do novelão da temporada, encantou-se com o homem do chapéu preto e fez um documentário sobre ele. Mais, descobriu que era um artista à frente de seu tempo. Não acredita? Lê aí: “...Quando ele começou já apontava para a coisa do Tropicalismo, de digerir outras culturas. Tinha influência dos boleros caribenhos, a coisa visual do justiceiro que ele incorporou. Era riquíssimo e moderno para a época”). Ufa! Confessem que vocês nunca tinham percebido nada disso, né? Nem eu.

Porém, a máquina de recuperação cultural pós-moderna gostou mesmo foi do Odair, o “cronista dos lupanares” (corrida aos dicionários...). Recentemente, todos os grupos de rock antenados gravaram alguma jóia rara do autor de “Eu vou tirar você deste lugar...” Homenagem, sacumé, na qual entrou até o experimental omenagem, sacumé, HoArthur de Faria e seu Conjunto, experimentando. Arthur de Faria e Seu Conjunto, experimentando e se regalando conjuntamente.

Reginaldo Rossi, recifense e professor de matemática, foi roqueirinho da Jovem Guarda, mas nos anos 70 enveredou de vez pela senda romântica. “Mon amour, meu bem ma femme” foi regravada por inúmeros artistas. Na década de 90 aconteceu com ele: por falta de palpite do tal mercado, também virou cult e foi pra gravadora Sony. Você já escutou e talvez até tenha enganchado uma morena na cinta, dançandinho colado, ao som imortal de “Por que você não me mata de uma vez” ou “Garçon”... E melhor: cantando a letra junto.

Especialistas nesta vertente cultural que – tenho certeza – em breve será objeto de estudos acadêmicos, se é que já não virou, podem falar mais e melhor sobre o tema. Mas pesquisadores como Elder Ogliari, Ernani Marchioretto e Stela Pastore, que há anos empregam boa parte de seu tempo inútil à garimpagem e catalogação de astros da breguice, na busca incansável por bolachões de vinil preto com capas inacreditáveis, jamais me perdoariam se não citasse aqui, pelo menos mais alguns nomes imortais do gênero. No entanto, como é pouco o meu repertório nesta área, só lembro dos mais famosos.

Lá vai, misturando veteranos e jovens: Rossana “Como uma deusa” (brega é cultura: quem come deusa são os heróis mitológicos), Joanna (aquela dos travesseiros), a paraguaia não falsificada Perla, o astro jovem-guardista Wanderley Cardoso e o não menos Jerry Adriani, José Augusto, Benito di Paula, Alexandre Pires – e até o Ritchie “Menina Veneno”, escanteado em pleno sucesso pelo brega-chique mor, Roberto Carlos.

E no Fábio Jr., não vai nada? Claro que tá selecionado! Chitõesinhos, chororós, leandros, leonardos e todos os assemelhados também entram nesta dança. E os casaizinhos? Jane e Herondy (“Não se vá, não se vem”), Eduardo Araújo e Silvinha (recentemente falecida) estão na fita também. Forever.

E Wando! Com as calcinhas das fãs devidamente cheiradas e devolvidas à platéia úmida!

Deu! Eu também não sou cachorro, não!