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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A fala enjoada das ruas de Porto Alegre

Erudição zoológica

“A pantera negra de olho vermelho só tem na Índia. É que nem o caso do leão branco aquele, que só nasce de cem em cem anos” – Entreouvido na Praça da Alfândega, entre populares que assistiam a uma renhida partida de damas, nas mesinhas de concreto.

Sentimento sincero

“Você meu amigo de fé/ meu irmão/ camarada...” – Olhos nos olhos, aquecidos pela garrafa de cachaça e a emoção da verdadeira amizade, dois mendigos abrigados da chuva sob uma marquise da Rua Uruguai, entoavam a plenos pulmões a canção do Rei Roberto.


Coisa bem boa

“Mais uma avenida pra gente varrer!” – Frase alegre, em diálogo de casal de garis sentados lado a lado no ônibus da linha Padre Reus, perto da obra de ampliação da Avenida Diário de Notícias.


Telecultura

“Ô Xuxa, faz uma parceria com o Seu Madruga!” – Camelô, no meio da Rua Marechal Floriano, comunicando-se em altos brados com uma colega gorda e loira enquanto apontava para um vendedor bigodudo, magro e pálido.


José Antônio Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Crônica minha (10)

Nomes que condicionam o salário

José Antônio Silva

Na lista de empregados de uma grande empresa, ao correr dos olhos, encontrei em seqüência as seguintes e certamente exemplares funcionárias: Loeci, Loezi, Loici, Loide e, para completar o simpático grupinho, a Loiraci.

Loeci, Loezi e Loici, certamente são variações sobre o mesmo tema. Só não me perguntem que tema é esse. O nome Loide, se sua proprietária for bem jovem, pode ser até uma homenagem dos pais àquela divertida comédia cinematográfica: “Débi e Loide”.

Por mais inteligente que Loide seja, talvez só ela saiba avaliar as brincadeiras e gozações que já teve – e tem – que agüentar, ostentando este nome. Ele pode ser inspirado também em alguma empresa de aviação - para voar cada vez mais alto na viagem da vida... É Loide e tudo bem: só não pode ser molóide!

Loiraci é daquele tipo de nome que já entrega as características físicas da sua portadora: Loiraci deve ser ou ter sido uma linda loirinha. Loira sim, Loiraci!

“Nome de pobre”
Mudando um pouco de enfoque, vale lembrar que é aparentemente inesgotável a capacidade popular para fugir do que chamam de “nomes de pobre”. Você sabe: João, José, Daniel, Pedro, Antonio, Carlos, Manoel, Tiago, Eduardo, Eliane, Maria, Lúcia, Helena, Joana, Laura, Carla, etc e tal. Quer dizer: os tradicionais nomes de tradição ibérica e/ou bíblica, ou de outros origens étnicas, mas que configuram nossa cultura há séculos e milênios.

Revolta popular
Há algumas gerações atrás – digamos lá pelos anos 50 e 60 do século passado, ou até mais recentemente - já tinha acontecido uma grande revolta popular contra os nomes tradicionais, comuns. A solução encontrada para fugir da mesmice era misturar uma parte do nome do pai com uma da mãe. Chacoalhando bem, podia dar certo. Um exemplo do futebol: o craque vermelhinho Nilmar, se não me engano, é o resultado brilhante do amor do seu Nildo e da dona Maria. Ou algo assim. E é um nome que também não chega a comprometer fora de campo.

Hoje, ou há algumas décadas, vivemos num mundo de jovens (e não tão jovens) Maikons, Dijenifers e assemelhados. O ponto em comum é que costumam ser corruptelas – grafadas das mais variadas e delirantes formas – de nomes ingleses, confirmando que quem domina o mundo, militar e economicamente, impõe ao mesmo tempo seu idioma, como acontece pelo menos desde o império romano e o seu respectivo latim (e apesar da grave crise americana atual, nada indica que, em essência, esta situação vá mudar tão cedo).

Registro em cartório
Edição da Folha de S. Paulo, de alguns anos atrás, trazia reportagem sobre cartórios de registro, na interminável periferia paulistana, em cujas paredes figuram todas as possíveis formas de escrever os nomes prediletos dos atuais papais e mamães: Taysson, Thaiçon, Theissom; Deiviçon, Dheyvidsom, e por aí vai.... Os progenitores do recém nascido só tinham que apontar qual a grafia – quanto mais diferente, melhor – para seu garotão ou sua fofinha.

Voltemos ao esporte bretão: os nomes dos atuais jogadores de futebol fornecem um bom material de pesquisa. Richarlysson não me deixa mentir sozinho.

Reforma Ortográfica
E mais: a atual Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, querendo ou não, restabeleceu o status de letras como Y, W, K, que eram consideradas estrangeiras. Restabeleceu para a chamada “norma culta” – a vontade popular há muito tempo tinha descoberta nestas letras um passaporte para tentar enganar a pobreza e a origem humilde.

Vamos reconhecer: infelizmente, trata-se apenas de uma tentativa. E quase sempre fracassada. Da classe média para cima, os nomes seguem o padrão “clássico” do idioma: Carolinas, Dianas (não Dahyannas), Isabéis, Ricardos, Claudios, Ciros, Guilhermes, Diegos e Diogos, etc.

Sobrenomes
Na verdade, mais que os nomes, o que conta mesmo quase sempre são os sobrenomes importantes (antigos ou de novos ricos), constituindo uma aristocracia crioula - que segue mandando e desmandando, concentrando renda e pagando salário mínimo e eventuais gorjetas para os Deiwysons e Karollainnes desta nossa vidinha brasileira.

Como dizem os místicos e os neurolingüiças, digo, lingüistas, há nomes que condicionam destinos. E salários, eu acrescentaria.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Poetando (4)

Caçado e caçador

José Antônio Silva


Aos dez ou onze anos
cacei minha primeira gazela
- ou fui caçado
igual
por ela.

Tomei gosto
gosto de sangue
na mata
na trilha
no mangue.

Raro puxei o gatilho
apreciava a presa
viva e distante
à disposição
para a minha mesa.

E assim fui
de quando em quando
abatendo perdizes perdidas
eventuais
pouca carne
poucas vidas.

Nem sempre senhor:
errava o tiro e a flecha
aqui e ali
e matava sozinho
a própria dor.

Até que apareceu peça grande
cerquei campo
fui chegando
forte contra o vento:
hoje eu janto.

Ali me regalei
muito
e muito mais
até que a carne perdeu gosto
secou
ou me salgou demais.

Subi montes
de solidão gelada
e daquele posto
observava minúscula
a caça nos campos
ou no alto céu
- e virava o rosto.

Só ajustei a mira
ao voltar à planície
esturricada
e receber o tiro
doce tiro do olhar
da corsa esperada.

Negaceou
como quem vai
mas mirava em mim
as pupilas negras
e era desafio:
acertei em pleno
no alvo perfeito
- e em tempo de cio.

Agora
ainda viva
ela dança e escava
em busca de ar
corre e retorna
em círculo:
do que escapar?


É pouca a munição
e ela resfolega
fúria e instinto.
Mata e morro:
um daqui
já não sai vivo.



Setembro/2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crônica Minha (9)



Sexo, drogas, rock n’roll e gangsta rap

José Antônio Silva

“Sexo, drogas e rock n’roll”. De algum modo imperfeito, este chavão ainda dá uma idéia do que envolvia a questão das drogas, e tudo que a cercava, nos libertários anos 60 e 70, mundo afora. Na sopa contracultural em que ferviam as juventudes ocidentais da época, com seus marcos – Maio de 68 em Paris; o mega Festival de Woodstock; a Marcha contra a guerra do Vietnã (em Washington); a Marcha dos 100 mil (contra a ditadura, no Brasil), etc – misturava-se revolução socialista com movimento hippie, liberação sexual com religiões orientais, anarquismo com artesanato e ecologia, feminismo com meditação transcendental e luta armada. E muita, muita mochila e estrada, cortando tudo.


A droga neste contexto não era encarada como pura alienação ou vício: tratava-se de uma “viagem para abrir as portas da percepção”. Os livros de Carlos Castañeda e suas drogas indígenas, “de poder”; o LSD; os cogumelos alucinógenos; e mesmo a singela maconha – tudo fazia parte desta aventura mental e transcultural, no caminho de uma nova era...
E inclusive com o apoio da ciência. Bem, de alguma ciência... Como a do dr. Timothy Leary, professor de Berkeley e Harvard, que ministrava aos alunos doses de ácido lisérgico (substância descoberta nos anos 40 pelo químico suíço Albert Hoffman), observando suas reações. Ele mesmo uma espécie de cobaia entusiasmada da droga, em pouco tempo tornou-se o profeta da transformação psicológica da humanidade, que seria descortinada com o uso do LSD. Claro que em pouco tempo perdeu as cátedras, foi fichado pela CIA e chamado por Richard Nixon de “o homem mais perigoso da América”.


Mas as drogas naturais continuavam prestigiadas. Paralelamente às viagens de Carlos Castañeda nos desertos mexicanos com as plantas de poder, havia toda a maconha e o axixe que pudesse ser consumido, sem falar na caça aos cogumelos nascidos do esterco das vacas, devidamente ingeridos em forma de chá. Este universo paralelo mas amplamente disseminado receberia contribuição genuinamente amazônica e brasileira através da mistura de ervas conhecida como yahuasca, que recortada de seu contexto indígena, terminaria por fundamentar uma religião urbana – ou mais de uma – baseada na revelação cósmica, espiritual e transcendente experimentada pela ingestão da beberagem, sob certas condições controladas e ritualizadas.


Bem, não vamos romantizar. “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela droga” – já havia constatado o poeta beatnick Allen Ginsberg, no final dos anos 60. E na história do rock (a trilha sonora desta parte da história recente), todos podemos enumerar grandes talentos que se foram antes do tempo por overdose, suicídio ou acidente provocado por algum tipo de droga (rapidinho: Elvis Presley, Keith Moon, Jim Morrison, Mama Cass, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious, Kurt Cobain, entre centenas de outros; muitos escaparam por detalhe, com cicatrizes eternas, como Eric Clapton). Ainda assim, sobrevivia a idéia de que uma nova sociedade igualitária, generosa e sem tampões na mente estava surgindo. Até que o sonho acabou. Bum!


Corta para os anos 90 e 2000. Cada vez mais, a droga é apenas um caminho para a morte prematura, a degradação do vício, a criminalidade que este acarreta e sua procissão de sofrimento, corrupção e falta de perspectivas. Um ceifador de vidas, especialmente entre os jovens, e um mal do qual as sociedades e os governos mundiais não conseguem se libertar. O crack e a merla, subprodutos da cocaína, mais baratos e muito mais letais, espalham-se pelas almas desorientadas das grandes cidades, em tragédias sem fim. E assim...


“Sexo, drogas e armas”. Este pode ser o mantra dos anos 80 para cá. As drogas ganham status de comodities poderosíssimas, arrastando e corrompendo autoridades e até governos. As armas, neste cenário, entram como um dos principais ativos nas grandes transações internacionais, para fortalecer o arsenal dos donos das bocas de fumo dos morros cariocas e das favelas brasileiras de modo geral, assim como em outros países. Armas que terminam sendo moeda de troca, de aluguel e de prestígio para a execução – literalmente - de outros crimes, que passam pelas “guerras” de extermínio entre diferentes grupos de traficantes, até assaltos, seqüestros, furtos de veículos e muito mais.


Seja nas belas paisagens de papoula do Afganistão, em que boa parte do lucro da droga alimenta e arma a histeria intolerante e assassina do Talibã; seja nas matas e altiplanos da Bolívia, em que as Farc – e seu oposto complementar, os “contras” da ultradireita – ganham sobrevida em mútua e promíscua negociação com os fabricantes e traficantes de cocaína, vê-se que as armas são um dos principais “baratos” da nossa época. Os últimos modelos tanto estão nas lutas semi-tribais da África, com meninos-soldados-escravos de 11 anos, ou nos conflitos independentistas que levantam ex-repúblicas soviéticas, manipuladas por Moscou ou Washington.


As armas – como num imenso supermercado aberto a qualquer um que tenha algo para dar em troca - nunca tiveram tanto destaque nem um público consumidor tão diversificado e numeroso. Grupos de mercenários, como os rapazes da Blackwater, por exemplo, a serviço de Washington no Iraque, dão o toque pós-moderno e ultraneoliberal, linkando negócios milionários, ações de governo e violência sem controle num mesmo pacote, onde é difícil dizer onde começa uma coisa e termina outra.


“Sexo, drogas, armas e ostentação”. O corte agora é para uma mansão em Miami, Las Vegas ou qualquer outro paraíso ensolarado nos States. A música da época já não é o rock, em qualquer de suas encarnações. É o rap – mas não o rap anti-discriminatório, de indignação e protesto, de pioneiros como Tupac Amaru Shakur e outros pioneiros. Não: ligue a MTV ou outro canal do gênero e muito provavelmente você ouvirá coisa bem diferente. Com sorte, será uma canção de amor e sexo quase explícito, com pouco de rap e muito de pop.


Ou verá/ouvirá um gangsta rap. Isso mesmo que o nome diz: os caras se orgulham de andar com - e exibir - armas, grandes correntes e pulseiras de ouro e brilhantes, carrões de luxo. Bagaceragem: alguns se proclamam ex (para evitarem a prisão) traficantes e gigolôs, chamam as mulheres de vagabundas e cadelas; em seus clipes a mulherada só serve para se esfregar nestes heróis anabolizados do consumismo e da alienação, para serem comidas com desprezo e depois mandadas embora, com um tapa na bunda e uma grana na bolsa. Muitos não ficam na pose: não foram poucos os astros do gênero que se mataram e feriram à bala (incluindo o próprio Tupac, assassinado a tiros aos 25 anos). De algum modo, são os modelos de sucesso apresentados pela mídia.


Fico pensando: qual será o próximo lema internacional? E qual a sua trilha sonora?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Crônica Minha (8)

Brega, o coração apaixonado do Brasil


José Antônio Silva

Avermelhada com papel celofane colorido ao redor de uma lâmpada comum, a luminosidade da música brega se espalhou durante décadas por bordéis, boates de caminhoneiros à beira de estradas, zonas de meretrício de pequenas cidades, botecos de prostituição, inferninhos e hotéis de terceira, com as meninas acomodadas em um sofá, antes de sentarem-se à mesa – ou ao colo – do freguês. Minissaia ou colant vagabundo, decotes ousados e muita maquilagem, estas musas decaídas, embelezadas por algumas cervejas ou uma cuba libre, durante muito tempo significaram a entrada no mundo da sexualidade para milhões de rapazes, ou o descanso de velhos guerreiros, estafados pelas preocupações do trabalho ou pelo tédio matrimonial. A mesma trilha sonora bombava em puteiros mais pretensiosos, como as chiques e cafonas casas noturnas para endinheirados, nas grandes cidades.

A cena não mudava muito, fosse no Amazonas ou no Rio Grande do Sul. E não só naqueles ambientes, é claro. Ao largo da Bossa Nova, Tropicália, Clube da Esquina, rock brasileiro, MPB, Vanguarda Paulista e outras sofisticações, a breguice sonora corria solta – em raia própria – em cada pequeno e pulsante coração suburbano.

Quase completamente ao largo, também, da Ditadura e seu cortejo de horrores. "Quase", porque muitas canções destes artistas, considerados alienados, foram censuradas por Brasília, num moralismo que era a máscara perfeita para a hipocrisia dos poderosos, a corrupção desbragada, os interesses privadíssimos y otras cositas.

Enfim, entre os anos 60 e 80 do século passado três nomes se sobressaíram neste subgênero: Odair José, Reginaldo Rossi e, é evidente, Waldick Soriano. Este que agora se foi, aos 75 anos, com seu chapelão preto, seus terninhos da mesma falta de cor, suas botinas de caipira e os inseparáveis óculos escuros.

Tudo sempre igual - a acrescentar apenas, nos últimos anos, uma tradicional tintura acaju sobre o cabelo engrovinhado, para esconder, das fãs, as cãs. A inspiração para o chapéu e a roupa preta desse baiano, disse ele numa entrevista, era o cowboy Durango Kid (personagem, aliás, que também marcou outro filho da Boa Terra, Raulzito Seixas).

Mas Waldick não reinou sozinho, com seus boleros e canções romântico-populares. Em sua mesma geração, brilharam Agnaldo Timóteo (alô, Agnaldo Rayol!) e o – desculpem mas é irresistível - “gigante da canção de amor”, Nelson Ned, entre outros.

Aliás, este subgênero na real englobou/engloba diversos estilos musicais e suas misturas – boleros, guarânias, ie-ie-iés da Jovem Guarda, sambões-jóias, pagodes românticos (!), baladas adocicadas e sertanejos mela-cueca, embora tudo soe mais ou menos igual, enfumaçado, politicamente incorreto, ciumento, machista, generoso, saudoso, cornudo, carnuda, antiquado, culpado, eventualmente vingativo, no peito emocionado do povão brasileiro.

Virando cult

Mas falávamos do trio: Waldick “Eu não sou cachorro não” Soriano; Odair “Pare de tomar a pílula” José; e Reginaldo “Mon amour, meu bem, ma femme” Rossi.

De alguma maneira, eles tanto fizeram que viraram cult. Patrícia Pillar, atual Maga Patalógica (digo, malvada-patológica) do novelão da temporada, encantou-se com o homem do chapéu preto e fez um documentário sobre ele. Mais, descobriu que era um artista à frente de seu tempo. Não acredita? Lê aí: “...Quando ele começou já apontava para a coisa do Tropicalismo, de digerir outras culturas. Tinha influência dos boleros caribenhos, a coisa visual do justiceiro que ele incorporou. Era riquíssimo e moderno para a época”). Ufa! Confessem que vocês nunca tinham percebido nada disso, né? Nem eu.

Porém, a máquina de recuperação cultural pós-moderna gostou mesmo foi do Odair, o “cronista dos lupanares” (corrida aos dicionários...). Recentemente, todos os grupos de rock antenados gravaram alguma jóia rara do autor de “Eu vou tirar você deste lugar...” Homenagem, sacumé, na qual entrou até o experimental omenagem, sacumé, HoArthur de Faria e seu Conjunto, experimentando. Arthur de Faria e Seu Conjunto, experimentando e se regalando conjuntamente.

Reginaldo Rossi, recifense e professor de matemática, foi roqueirinho da Jovem Guarda, mas nos anos 70 enveredou de vez pela senda romântica. “Mon amour, meu bem ma femme” foi regravada por inúmeros artistas. Na década de 90 aconteceu com ele: por falta de palpite do tal mercado, também virou cult e foi pra gravadora Sony. Você já escutou e talvez até tenha enganchado uma morena na cinta, dançandinho colado, ao som imortal de “Por que você não me mata de uma vez” ou “Garçon”... E melhor: cantando a letra junto.

Especialistas nesta vertente cultural que – tenho certeza – em breve será objeto de estudos acadêmicos, se é que já não virou, podem falar mais e melhor sobre o tema. Mas pesquisadores como Elder Ogliari, Ernani Marchioretto e Stela Pastore, que há anos empregam boa parte de seu tempo inútil à garimpagem e catalogação de astros da breguice, na busca incansável por bolachões de vinil preto com capas inacreditáveis, jamais me perdoariam se não citasse aqui, pelo menos mais alguns nomes imortais do gênero. No entanto, como é pouco o meu repertório nesta área, só lembro dos mais famosos.

Lá vai, misturando veteranos e jovens: Rossana “Como uma deusa” (brega é cultura: quem come deusa são os heróis mitológicos), Joanna (aquela dos travesseiros), a paraguaia não falsificada Perla, o astro jovem-guardista Wanderley Cardoso e o não menos Jerry Adriani, José Augusto, Benito di Paula, Alexandre Pires – e até o Ritchie “Menina Veneno”, escanteado em pleno sucesso pelo brega-chique mor, Roberto Carlos.

E no Fábio Jr., não vai nada? Claro que tá selecionado! Chitõesinhos, chororós, leandros, leonardos e todos os assemelhados também entram nesta dança. E os casaizinhos? Jane e Herondy (“Não se vá, não se vem”), Eduardo Araújo e Silvinha (recentemente falecida) estão na fita também. Forever.

E Wando! Com as calcinhas das fãs devidamente cheiradas e devolvidas à platéia úmida!

Deu! Eu também não sou cachorro, não!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Crônica Minha (07)

A farra das algemas

José Antônio Silva

Depois que o STF decidiu acabar com a farra das algemas pela Polícia Federal, que não respeitava mais ninguém, ora essa!, nossa reportagem foi a campo para saber o que pensam do assunto algumas personalidades do jet set nacional. Interrompemos uma sessão de fotos na Ilha de Caras para ouvir a colunável paulistana “Bibi” Malauf Marchiccosa de Toledo, uma das sócias da boutique chique Maislu (Mais Lucro S.A.). Ela fez bonito em passeata com o mote “Uffa!”, na temporada passada, também em protesto contra a falta de educação da PF.

- Contrabando, sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha... A senhora é inocente?

- Pooor favooor.... Quem é inocente hoje em dia, meu Deus?! Com cada coisa que a TV mostra, nem criançinha é inocente mais. Ah, cansei! Uffa!

- A senhora, que já foi algemada, o que acha desta ação do Supremo, para evitar que pulsos bem tratados como o seu sejam obrigados a ostentar algemas, em qualquer prisãozinha de rotina?

- Aaameizing! Já era hora de alguém colocar as coisas em ordem nesta bagunça!Eu não sou chinelona, meu bem! Que que estão pensando??!!!

- Mas em alguns casos a algema não é um instrumento útil?

- Uffa! Você, hein... Se ainda nos oferecessem modelitos mais delicados, com opção de cores e padrões.... Sabe que tive uma idéia?! Vou lançar variedades em ouro, com incrustações de diamantes. Podemos ter também modelos mais pop, em rosa, com imagens da Hello Kity... E alguma coisa mais sóbria, com relógio, pros nossos maridos, amantes e parentes... Genial! Meus fornecedores chineses vão adorar! Obrigado, querido!

- De nada. Já vi que sua próxima prisão será bem mais elegante.

Ao desembarcarmos da Ilha, demos de "caras" com o flanelinha Jolymaykom Júnior Santos, 19 anos, ex-juvenil da Portuguesa:

- Bem cuidado, tio! Tá na mão, é dé real pro senhor!

- Que bom, mas espera o dono que a gente tá de ônibus mesmo.

Vimos a decepção estampada na cara do rapaz:

- É que os ricaços só saem da Ilha depois do fim de semana, e ainda tenho que levar uma mistura pra os bacuris comerem lá em casa.

- Quantos filhos você tem?

- Assim de cabeça?? È sete ou oito. Tem que perguntar pras mães. Mas lá em casa tenho só dois só: os gêmeos Joly Júnior e Maiykom Júnior.

- Tudo é Júnior na tua casa?

- É pro senhor ver, até já me perguntaram se eu sou parente do Fábio. Mas nada a ver: é só coincidência...

Alcançamos algumas moedas da produção para o pai de família e já íamos embarcando no coletivo quando lembramos de perguntar ao rapaz o que ele achava da regulamentação das algemas, cujo uso vai ficar a critério do policial, na hora da prisão. E caso “exagere”, poderá ser punido.

- Jolymaykom, você não acha que pode ser perigoso deixar o preso sem algemas? E se ele atacar o policial ou tentar se matar, por exemplo? E se acontecer alguma tragédia, quem é o responsável?

- Olha, seu repórti. Só sei dizer que eu não sô o responsável nem sei nada dessa bronca aí...

- Mas você acha que o uso de algemas na hora da prisão de acusados de crimes atenta contra a dignidade da pessoa humana?

- Bom.... exclusive eu até já tô acostumado com algema. Ruim é a parte antes da algema, quando eles pedem os documentos, revistam e cagam a gente a pau. Mas aí é normal, né?

sábado, 9 de agosto de 2008

Palpitando

Viagem fotográfica em três paradas

José Antônio Silva


A tecnologia evolui, mas nenhuma linguagem “de massa” é realmente substituída por outra. Cinema, TV, holograma, imagens em movimento no computador e em outras mídias, nada disso acabou com a fotografia. Assim como o surgimento da fotografia, no século XIX não fez sucumbir a pintura. Verdade que a pintura, já à época, foi se afastando do academicismo realista e descobrindo novas visões. Mas o desenho e a pintura figurativos, ou mesmo hiper-realistas, continuam tendo vez, espaço e admiradores – e ao largo de manifestos sobre o fim da arte e assemelhados. O que parece óbvio é que, independente do suporte, qualquer manifestação artística ou comunicativa pode atingir e emocionar quem a observa, se tiver qualidade, “conteúdo” (vá lá), algum tipo de transcendência.

O que acontece é que as descobertas tecnológicas não têm, por si sós, o condão de abolir a capacidade de percepção e o que toca fundo em cada ser humano, provocados por obras de qualquer época – embora o poder da publicidade, o esforço de convencimento mercadológico da mídia, as adequações e escolhas elegidas pelos ditadores de modas e modismos consumistas, etc.

As novas tecnologias não raro são variações sobre o mesmo tema (e prometem mais do que podem entregar). Mas muitas vezes abrem novas perspectivas - ou facilitam o que artistas anteriores já haviam vislumbrado ou resolvido genialmente antes: por exemplo, a lente grande angular e a perspectiva esférica do desenho de Escher. O fato é que terminam por juntar-se às tecnologias e meios já existentes, ampliando o “arsenal” disponível. Tudo é acréscimo.

Estética política
Todas estas considerações só para falar de uma experiência estética-política-cultural, em três partes distintas, que tive a oportunidade de viver nesta semana que está acabando (dia 09 de agosto). Todas, sem trocadilho, focadas na boa e velha fotografia.

Comecei na segunda-feira, dia 04/08, com a abertura da Exposição sobre o Movimento Sem Terra no Rio Grande do Sul, no hall de entrada da Assembléia Legislativa/RS. Fotos em preto e branco captadas ao longo dos anos pelos repórteres-fotográficos Roberto Santos, Eduardo Quadros, Eduardo Seidel e Fernando Melgarejo. Ali, no resultado exposto, nota-se a ausência de tempo para calcular com rigor o enquadramento, o jogo de luz e sombra, o foco perfeito, a composição da cena: a missão – no caso, uma missão jornalística, e sem dúvida política – é a da denúncia. Por vezes, forma e conteúdo se encontram, e viram símbolo, como a foto do cartaz.

Trata-se de mostrar aquilo que é costumeiramente escamoteado da chamada “grande mídia”: o abandono de homens, mulheres e crianças sobrevivendo em barracas de lona preta ao lado de rodovias. A falta de reforma agrária, mas também a resistência, a alegria possível, o esforço para prosseguir. Ou o momento em que um sem-terra é jogado por entre os fios do arame farpado do latifúndio, por gaúchos pilchados e à cavalo, para os braços nada amistosos da Brigada Militar. Poderia ter como subtítulo: “Aquilo que você não vê no jornal”.

Gato e rato
Dia seguinte, noite de curtir as 80 fotos da Mostra Preto no Branco, do mestre Flávio Damm, no Margs. Mais que um foto-jornalista, um caçador do momento exato, do inesperado, do irônico ou do surreal no dia a dia. Na linha do guru Cartier Bresson, mas em trilha própria. As fotos expostas foram pinçadas pelo fotógrafo do seu baú que não deve ter fundo, em sua não menos extensa carreira de ladrão de imagens, por assim dizer (algumas são dos anos 40, as últimas do início do século XXI). Numa entrevista, ágil e esperto aos 80 anos, Damm confessou: “Eu fotografo como um gato, e me afasto como um rato”. Riso, estranhamento, comentário mudo sobre a sociedade, experimentação estética e principalmente o momento fugidio e irrepetível, lá estão. Imperdível. Tudo em filme e em preto e branco.

Natureza lisérgica
Corta! Casa de Cultura Érico Veríssimo, Espaço CEEE: na quinta-feira fui surpreendido pela força das imagens higtech de José Paiva, um mundo primitivo e natural, digitalizado e impresso em papel especial. Algumas cópias em grande dimensão. Viagem ao fundo dos tempos e aos mistérios da natureza. Detalhes de plantas, lagartos, animais selvagens e obscuros, caniços de banhado transformados em composições cubistas. O fundo de canions pouco visitados, imagens onde se pode perder, por alguns segundos, a noção de profundidade e escala. Tudo com cores e definição estonteantes, lisérgicas. Alta tecnologia de braços dados com objetivos estéticos e – por que não? - conservacionistas, captados em parques e reservas naturais do estado. No meio da exposição destes mundos inexplorados, Paiva entremeou alguns rostos populares – retratos de pescador, peão, etc - marcados em cada ruga por esta mesma natureza implacável. Era isso, e muito mais.

E ainda quero ver uma recém inaugurada exposição de fotojornalismo internacional, no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Pode ser que eu esteja enganado, mas fazia tempo que Porto Alegre não parava para olhar tantas e tão diferentes coleções de fotografia, abertas em várias direções e objetivos - ou, mais precisamente, objetivas.