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terça-feira, 16 de abril de 2013

Poetando


Meu deus dos sábados

José Antônio Silva

O deus dos meus sábados é um bebê encaracolado
com o andar trôpego
e a segurança dos ingênuos iluminados
à beira da queda

Arrasta pela mão
uma fieira de penas sem fim
um cocar com
milhares de plumas cinzentas
(a única colorida
é a que leva entre os dedos
com o cordão que a todas prende)

Quando lembro
no entanto
de um sábado qualquer
enrodilhado nas voltas do cocar
ele recupera o viço
a cor
o latejar
a vibração

Aquela dança
- o corpo teso -
contra o arredondamento da maciez

Cuba  que nos libertava
dos medos
dividida em bicadas
entre os amigos e suas espinhas

O jogo de bola
em que fui lançado
por um ombro adversário
para a vala d’água
que congelou o momento

A madrugada paranóica
um tijolo em cada mão
pela margem da vida e da morte
como um louco

O flagrante da vidraça
partida sobre a cama
e os gritos de sangue
arranhando seu nome
trincando o que restava da noite

As sete vezes
em uma
no leito da despedida
de uma determinada
e possível
vida

Os risos discretos cobrindo o frio
do nunca mais
entre flores e rezas
de mármore

Meu deus dos sábados
este bebê eterno
abre seus dedinhos pagãos
largando no abismo
o rabicho das penas
e uma risadinha:
viva!

terça-feira, 9 de abril de 2013


A busca da felicianidade eterna

José Antônio Silva

O mais impressionante é que muitas dessas seitas que se dizem “evangélicas” (portanto cristãs) se baseiam mesmo é no Velho Testamento, de séculos antes de Cristo. O Evangelho, ao contrário, reformou o antigo judaísmo e buscou disseminar – pelo menos na teoria - os ensinamentos revolucionários de JC, na época, como a tolerância (“atire a primeira pedra quem nunca pecou”), etc.

Toda a mensagem de perdão, desapego (“mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”), paz (“dar a outra face”), amor, muitas vezes fica em segundo plano. E o moralismo mais tacanho e pré-científico entra em cena. Eles parecem gostar é de ameaçar com o inferno quem não reza pela sua cartilha e não entrega o dízimo religiosamente – mesmo que muitos pastores estejam envolvidos em acusações de estelionato e outras malafaias, digo, maracutaias.

Espero, para o bem deles mesmos, que o inferno não exista. Caso contrário, vai ser difícil encontrar a felicianidade eterna, com tanta hipocrisia.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Conto um Conto


Alvo do destino

José Antônio Silva


O que seria do destino se não fosse a humanidade, para servir de alvo dos seus movimentos – de suas brincadeiras, tantas vezes trágicas – e, pode-se dizer, para dar sentido à sua existência? Isso passou pela cabeça de Ignácio, ao levantar os olhos do jornal, onde lera sobre o avião que caíra na cabeceira da pista pouco depois de decolar, com a morte de todos os passageiros e tripulantes – com exceção, registrada na mesma página, do publicitário cujo táxi quebrara a caminho do aeroporto e que com isso perdera aquele voo, mas ganhara a vida, sem qualquer exagero na expressão.
Ignácio deu um bom gole no conhaque e repetiu o que pensara, em voz alta e cadenciada. Mas você fala de destino – e destino é praticamente tudo o que há – ou de coincidências e eventos curiosos? rebateu Lídia, com as palavras racionais e lógicas fazendo algum tipo de contraponto aos seus lábios carnudos e aparentemente mais adequados a beijos, sussurros, prazer.

Riu, o homem, enquanto jogava o olhar para os trilhos do velho bonde que, restaurado, amarelo brilhante, circulava de novo pelo centro de Porto Alegre. Seguiu as paralelas de metal, que ofuscavam sob o sol, até a primeira curva da rua. Sorriu para a mulher linda, inegavelmente linda, à sua frente, refletindo que além de linda era inteligente e implacável, e começou a sentir-se excitado. Estendeu a mão e tocou com seus dedos compridos, agora finalmente livres das manchas causadas por tantos anos de cigarro, na mão suave e menor da moça. Ela devolveu-lhe o sorriso e a pressão na mão – mas os olhos continuavam esperando a resposta.

Coincidências e eventos curiosos fazem parte do destino, disse o homem. Quarenta e um anos recém-completados, vítima de um enfarte detectado em tempo e que lhe rendera menos agravos físicos do que a consciência da finitude e da escuridão que podem nos apanhar no auge da vida, da carreira, do sucesso, da arrogância, do desejo. No hospital, recuperando-se do ataque, tivera um bom tempo para pensar, ou melhor dizendo, para entender que assim era – tudo é impermanência (essa a palavra que descobrira num dos muitos livros e revistas que tinham formado pequena torre sobre a poltrona das visitas).

Estaria tornando-se um místico? Deu mais um gole, aquecendo o espírito e corpo. Na praça que via através da janela, acendiam-se as luzes, e com o fim da tarde caíam as primeiras gotas de uma chuva forte.

... estava dizendo ela: Mas temos o livre arbítrio.

É, respondeu ele, como se pergunta fosse resposta. Ela entendeu que era e continuou explicando que podemos tomar conscientemente medidas que evitam a maioria dos perigos – como, por exemplo, não atravessar uma avenida movimentada fora da faixa de segurança, como estatisticamente estava provado que funciona, e também pelo mero bom senso. Tudo bem, concordou ele, que já estava mais a fim de aproveitar a vida que lhe sobrava – mesmo que ainda tivesse mais 35 ou 40 anos de existência pela frente – na cama com Lídia, e beijou seus dedos, porém ela os retirou de modo delicado mas firme, como fazem as mulheres que além de bonitas são inteligentes e ficam em dúvida sobre qual das virtudes devem utilizar preferencialmente nos embates cotidianos para se darem bem na vida, mas detestam ter o raciocínio cortado pelo tesão irracional dos machos dominadores, como sempre acontece na história da humanidade, etc. – ham!

É o destino, nós dois aqui, prosseguia Ignácio, já tentando encaminhar o encontro para algo mais carnal do que propriamente metafísico ou filosófico, embora ele mesmo se pegasse viajando nessa dimensão, com alguma frequência, desde que percebera que por muito pouco não tinha morrido.

Ela passou a mão macia sobre o rosto do homem. Bicou o copo com o licor, de uma tonalidade púrpura, e observou o leve movimento do líquido. Não, tudo bem, mas eu estou falando que nós podemos... – nós podemos é tomar cuidado! – cortou ele, elevando a voz, repentinamente dominado pelo assunto: no máximo adotar uma política sensata de evitar os riscos mais óbvios, digamos que seja uma política de redução de danos... E isso é tudo que podemos fazer!

Os olhos arregalados, Lídia também abriu a boca, espantada com a grosseria de seu comentário, ou melhor, com o fato de ele ter lhe cortado a palavra, atropelando sua fala. Desculpe desculpe, já estava dizendo Ignácio, é que me emocionei com o assunto (e apelou para o episódio do enfarto): estes temas me atingem mais hoje em dia...
Não foi nada, condoeu-se ela, embora não de todo convencida da sinceridade de suas desculpas. Fale, prossiga o que você estava dizendo – era a voz do homem reassumindo o controle, generoso, aberto, de igual para igual.

Pois o que eu estava dizendo, disse Lídia, com um sorrisinho sem mostrar os dentes, é que nós fazemos o nosso destino. Corrigiu-se logo: pelo menos na maior parte das vezes.

E o publicitário que escapou da morte porque o táxi em que estava estragou? – disse Ignácio. Nesse caso, entre centenas de outras pessoas que haviam comprado passagem para aquele avião, só ele foi salvo – pelo destino ou por qualquer outra coisa que, de algum modo misterioso, poupou a sua vida.

Modo misterioso?! – Lídia indignou-se. Misterioso? Foi apenas um fato comum – todos os dias milhares de táxis e outros carros quebram nas ruas, fundem o motor, arrebentam a caixa de câmbio. Foi só o que aconteceu, pelo amor de Deus!

Amor de Deus? Bom, Deus também pode ser somente um outro nome para Destino, Coincidência, Azar, Sorte – disse o homem com fios grisalhos no cabelo aparado, homem ainda bem conservado e que desde o enfarto cuidava a alimentação e fazia regulamente os exercícios recomendados, num conjunto que atraia a atenção das mulheres. Mas homem que, no coração, sabia que por muito pouco algo não se partira definitivamente, e que acreditava agora ser necessário atentar com, vá lá, algum tipo de respeito ao que passara a chamar de seu “fio interior”.

Nossa, como você está religioso – parece minha avó! – provocou a moça, dando um longo trago no licor.

Ignácio olhou o mostrador do relógio e fez sinal ao garçom, mais um conhaque não faria mal. Sorriu para a mulher e avançou sobre a mesa: segurou o rosto de Lídia com a mão direita e beijou-lhe a boca. A mulher fechou os olhos; nas mesas ao lado, os vizinhos abriram um pouco mais os seus e sorriram. Eu e a sua avó temos muito em comum, dizia Ignácio, baixinho, ao ouvido da mulher. Eu também vou te pegar no colo, pra dormir na minha cama...

Ela afastou o rosto, agora levemente rubro: Safado! Bagaceiro! Mas sorriu – este era o Ignácio de que gostava, e não aquele homem meio melancólico dos últimos meses. Independente disso, detestava perder discussão. Não era a toa que, formada há dois anos, já era uma das estrelas no escritório de advocacia, com grandes perspectivas profissionais.

...então, como eu dizia antes de ser interrompida (gostosamente, acrescentou ele), vá lá, gostosamente, mas interrompida. Como eu dizia, o cara ter escapado foi um fato normal. Quer dizer, foi ótimo para ele, é claro, mas não há nada de destino programado nisso, a vida é assim mesma, as coisas vão acontecendo por uma imensidão de fatores que se somam aleatoriamente. Ou você acha que um anjo-da-guarda, talvez a serviço de alguma oficina mecânica, quem sabe?, foi lá e superaqueceu o motor do táxi, fazendo-o parar?

Pôxa – Ignácio olhou-a com admiração verdadeira, mas também não conteve a ironia: eu não sabia que você entendia tanto de mecânica, e de mecânica celeste, ainda por cima...

Não se faça de engraçadinho, disse Lídia, satisfeita com o encaminhamento da conversa.

A chuva cessara e pela janela do café havia um cenário perfeito, as luzes das fachadas comerciais brilhavam com mais vigor sobre os trilhos do bonde, as cores realçadas pela água que tudo lavara.

Sob a mesa, Ignácio sentiu o pé da mulher escalando sua canela. Segurou o pé descalço, e por sua vez foi avançando com sua mão pela perna dela, o joelho perfeito, a maciez de seda da pele, até a coxa poderosa. Os olhos de cada um imantados pelos do parceiro.

Iam embora. O homem pediu a conta e dirigiu-se ao banheiro. A moça sorria, confiante. Virou-se para olhar o amante, o amado, que sumia pela porta decorada com a imagem de uma cartola e uma bengala entrecruzadas, como as tíbias e a caveira das naus piratas, a imagem do morto, pensou de repente, e levantou-se e deu alguns passos para lhe dizer alguma coisa muito importante, com toda a urgência, mesmo que tivesse que invadir o banheiro masculino, enquanto o bonde derrapava no excesso de água, saltava dos trilhos e vinha célere por sobre os paralelepípedos molhados – despedaçando a parede e a janela com cortinas quadriculadas e floreiras, de onde os amantes olhavam a rua até um minuto atrás.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Com nervos de aço e sem coração



José Antônio Silva


"Há pessoas com nervos de aço/ Sem sangue nas veias/ e sem coração" (Lupicinio Rodrigues)


1 - Há pessoas que só enxergam corrupção quando ela está ligada à esquerda – são cegos, simplesmente, para toda a roubalheira que vem do outro lado, antes, durante e depois.

2 - Há pessoas que são radicalmente contra as cotas para negros e pobres na universidade, pois consideram que todos devem ter “chances iguais” - mesmo que uns nasçam e sobrevivam na pobreza, e outros estudem nos melhores colégios que o dinheiro pode pagar e se aperfeiçoem em cursos no exterior.

3 - Há pessoas que insistem em que o Brasil nunca esteve tão ruim – mesmo que órgãos isentos como a ONU e a OIT, institutos como o IBGE e a FGV e os governos de nações desenvolvidas apontem a estabilidade econômica, o pleno emprego no país e a ascensão de quase 40 milhões de pessoas da miséria para a classe média.

4 - Há pessoas que ultrapassam o sinal vermelho, destratam e ameaçam fiscais de trânsito e policiais (quando não conseguem comprá-los) – e ainda alardeiam ter razão, inclusive quando estacionam em vagas para deficientes, podendo ofender, agredir e até matar quem reclamar o seu legítimo direito.

5 - Há pessoas que mal conseguem esconder sua raiva e desconforto ao enxergar pobres em aeroportos brasileiros, aumentando as filas – pois consideram que os moradores das senzalas, digo, das favelas, não conhecem mais o seu lugar.

6 - Há pessoas que, utilizando a mídia como aliada principal, classificam todos os governos da América Latina, democraticamente eleitos e com ênfase social, de “populistas e demagógicos” – e articulam manobras às bordas da inconstitucionalidade para derrubá-los ou enfraquecê-los.

7 - Há pessoas que só vivem para acumular dinheiro e mais dinheiro – independentemente do grau de riqueza ou conforto que tenham atingido, e do tempo presumido de vida que lhes reste para “aproveitar” ainda mais a fortuna. E se mostram incapazes de pensar a sério em contribuir para uma sociedade menos desigual. Aliás, muito pelo contrário.

8 - Há pessoas que defendem radicalmente o meio ambiente, na teoria – em sua vida diária, não separam o lixo, jogam embalagens pela janela do carro ou apartamento, e quando vão ao mar ou a serra deixam um rastro de sujeira, poluição e desprezo pelo presente e pelo futuro, focados na própria comodidade.

9 - Há pessoas que se dizem democráticas e cristãs – no cotidiano, porém, são absolutamente autoritárias, intolerantes, repudiam a solidariedade e sequer desconfiam o que seja compaixão.

10 - Há pessoas que são rebeldes sem causa quando jovens – e na meia idade, passada a revolta juvenil, colocam-se furiosamente à direita, mais à direita que os conservadores de uma vida inteira, pois sempre foram alienadas.

11 - Há pessoas que se utilizam da internet para expressar as opiniões mais racistas, nazi-fascistas, machistas e imbecis do mundo – quase sempre protegidas, valentemente, pelo anonimato e por pseudônimos.

12 - Há pessoas que têm como esporte predileto apontar a corrupção de políticos – mas grande parte delas pratica tranquilamente a hipocrisia e a desonestidade na condução dos próprios negócios e da própria vida.

13 - Há pessoas que dizem que esquerda e direita são classificações que, historicamente, não fazem mais sentido – e, por incrível coincidência, todas as que afirmam isso defendem sempre claras posições direitistas.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aspas demais, lisura de menos




José Antônio Silva



Sempre que o jornalismo pretende, de forma mais ou menos sutil, desqualificar uma declaração, pinça cirurgicamente uma palavra ou outra e a coloca entre aspas. Se for utilizado em um título, ao mesmo tempo em que põe em evidência a declaração, o recurso lhe confere um ar de estranheza, de absurdo. Afinal, em termos de inteligibilidade, não há qualquer razão técnica para destacar uma palavra com o uso de aspas.



As razões são políticas. Como se observa na Reportagem Especial das páginas 4 e 5 de ZH desta terça-feira. Vejamos o título da matéria da pág. 4: Maia aponta “ingerência” na Câmara. Em outro box, na mesma página, de novo: Petista afirma que não houve “ameaça”



Ao colocar aspas nestas palavras, é como se o jornal dissesse aos seus leitores: nós não temos nada com isso, essa besteira quem diz é ele (Marco Maia, presidente da Câmara, que lembra que o Artigo 55 da Constituição Federal garante ao Legislativo – e não ao Judiciário – o poder de cassar os mandatos de seus parlamentares).



Só que não há besteira: além de estar impressa na chamada Lei Maior do Brasil, esta condição também está presente em outras Constituições nacionais, inclusive a dos EUA.



Vale ler o que nos informa o colunista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo do dia 17/12: “(...) nos Estados Unidos ocorre o contrário. Três deputados, condenados, mantiveram-se nos mandatos. Dois foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. O terceiro, Jay Kim, em 1998 foi condenado a um ano de prisão domiciliar por ter embolsado US$ 250 mil pelo caixa dois. Como era deputado, o juiz colocou-lhe uma pulseira eletrônica no tornozelo e ele só podia sair de casa para ir ao Congresso. Foi cassado pelos eleitores, nas prévias de seu partido”.



Os americanos não são petistas ou esquerdistas. Mas sabem que é fundamental para a democracia (qualquer democracia) manter a independência entre os Poderes.



O resto são aspas suspeitas.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônica Minha

Pauteiros do conservadorismo

José Antônio Silva



O respeitável humorista Millôr Fernandes criou uma frase de efeito que volta e meia é repetida - à título de justificativa e motivação – por alguns profissionais da imprensa: “Jornalismo é oposição. O resto é secos e molhados”. Será?


Não creio que afirmar-se como “oposição” – de modo independente de quem ou o que seja a situação – deva ser a base sobre a qual erguer uma carreira.

Para começar, como fica aquele compromisso de ser imparcial e ouvir todos os lados da questão, buscando a verdade dos fatos, acima de tudo?


Pode nos socorrer aqui um ensinamento do mestre Cláudio Abramo, que em seu livro “A regra do jogo”, deixa bem claro: "Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista - não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. (...) O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista".



Ele também afirma que é preciso fazer opções. Mas opções racionais, de acordo com o bem comum e com o que se apresenta. Se há um governo autoritário ou corrupto, é justo que seja denunciado e sofra a oposição do jornalista ético (ainda que, na minha opinião, isso não elimine a necessidade de ouvir os dois – ou mais – lados de cada questão).


O que se vê, tantas vezes, são jornalistas que assumem dos pés à cabeça, acriticamente, a posição dos veículos em que trabalham – e que frente a um governo de esquerda (ou reformista), tremem de ódio, coerentes com a visão elitista de seus patrões.



Coragem mesmo tiveram os que fizeram oposição em tempos de ditadura – como o que vivemos entre 1964 e 85, quando os jornalistas independentes corriam risco de prisão e até pior que isso. Quem sofreu foi a imprensa alternativa. Mas a grande mídia (que, aliás, havia apoiado o golpe militar), continuou jogando o jogo do poder, mesmo com o transtorno da censura. Jornalões, televisões e rádios eram “situação”, com muita honra e rapapés, sim senhor, e até batiam continência. Agora, na democracia, são valorosos justiceiros da oposição – não declarada, evidentemente.



Entendo, claro, o alcance da frase do grande Millôr – ele mesmo um dos baluartes de “O Pasquim”, símbolo da resistência irônica ao arbítrio. O humorista quis dizer que a proximidade com o poder muitas vezes pode gerar, e gera, a acomodação ou mesmo a venda da consciência do jornalista, em troca de cargos, dinheiro, favores dos poderosos do momento. E por isso a oposição, na romântica linha anarquista: “Hay gobierno, soy contra”.



Denunciar com rigor e profissionalismo os erros, os mal-feitos e a corrupção em todos os escalões governamentais, é necessário, para bem de todos e felicidade geral da nação.



Porém, assumir uma posição imutável de pauteiro da oposição política, de oposição sistemática a um governo que - para além do partidarismo - vem arrancando da miséria e do abandono milhões de pessoas que até então sobreviviam, como seres invisíveis, em escandaloso abandono histórico pelas administrações que se sucediam, ao longo das décadas... isso não é papel de um jornalista digno desse nome.



Seu papel – que eles e suas empresas precisam assumir – é o de cúmplices das oligarquias e do desumano atraso social do país. Relendo Millôr: acredito que, como cidadãos, seriam muitíssimo mais úteis à população brasileira no ramo de secos e molhados.







domingo, 25 de novembro de 2012

Livros


Loucas noites de Porto Alegre, em obras complementares

José Antônio Silva

Em um ponto geográfico da cidade, cerveja e maconha. Algumas quadras acima, uísque e cocaína. Estes ingredientes podem representar, mesmo que  de modo imperfeito, dois tipos de boemia na Porto Alegre dos anos 60, 70 e 80. E cada uma das vertentes está bem representada nos livros “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, ambos lançados na mesmíssima Feira do Livro de 2012. As obras, coincidentemente, terminam formando um díptico – uma dupla de primos entre si, que tem como denominador comum a noite da Capital rio-grandense num mesmo período histórico.

Em “Esquina...”, de Paulo César “Foguinho” Teixeira, há o texto escorreito e volteado de um jornalista com pleno domínio de sua arte. Já o que leva a griffe de Claudinho Pereira, se lê como se escutássemos ao vivo a levada malandra e o humor (cum grano salis) deste sobrevivente de muitas das mais loucas noites do Sul.

E há o fato de que as obras de Teixeira e Pereira se completam na medida, como num jogo de armar - o que revela muito dos rumos, escolhas, ganhos e perdas, do ethos mesmo da sociedade gaúcha. Pairando sobre toda a loucura da época, o peso da ditadura militar, mais ameaçadora para alguns, leve (ou mesmo paternal e amigável) para outros.

Na chamada Esquina Maldita (uma série de bares na esquina das avenidas Sarmento Leite e Oswaldo Aranha, próxima ao campus central da UFRGS), enfocada com respeito e carinho por Foguinho em seu livro, duas tribos notívagas se encontravam, no mesmo território. Como diz a orelha da obra, duas vertentes ali predominavam: a dos que pretendiam transformar o mundo, e a dos que propunham revolucionar a própria vida.

Esquerdistas e ripongos
Ali estavam representantes da esquerda dita “festiva” aos engajados na resistência armada, e dos roqueiros, artistas de todas as páreas, jornalistas, estudantes e jovens embalados pelas ideias da contracultura (amor livre, comunidades, feminismo, ecologia, drogas como diversão, mas também como experiência existencial). E alguns dos frequentadores embarcaram em viagens sem volta, tanto os políticos quanto os desbundados.

No livro de Claudinho, deixam a cena a cerveja, cachaça, maconha, LSD e cogumelos como aditivos principais. Em seu lugar, nas pistas da Independência, brilham cocaína, uísque, anfetaminas e pico (“na ponta da agulha”, em mais de um sentido). Bem menos ideologia e mais hedonismo, por vezes desesperado. Empresários da noite, ambiciosos mas sonhadores, disc-jóqueis ligados (como o próprio autor do livro), garçons, porteiros, cheffs, cozinheiros – e a fauna de frequentadores, de cantores, artistas plásticos e decoradores, colunistas da imprensa, damas da sociedade, políticos, mulheres lindas, jovens burgueses por vezes sem ideal maior, jogando a falta de rumo em mais uma dose.

Bocas-de-sino, batas, cabelos e vestidos longos e barbas desgrenhadas, nos bares da Oswaldo Aranha.  Smoking e vestidos de noite, sucedidos no correr dos anos por modelitos estilo discotheque, nas boates da Independência e adjacências.
Estudantes com sonhos de mudança, oriundos da baixa classe media urbana ou interiorana, despejam sua energia e projetos políticos e existenciais na EM – todos contra a ditadura.

Uísque e cocaína
Jovens enfadados por dinheiro, portando sobrenomes dos mais tradicionais, ou crias de famílias enriquecidas, viviam excessos patrocinados (e previamente desculpados) pela proximidade com o poder, de coturnos ou não. Em seu entorno, os trabalhadores da noite, que ali concretizavam ambições, criavam contatos influentes e tinham espaço para mostrar seus talentos.

Uma grande parte dos frequentadores do Alaska, Copa 70, Estudantil, Marius (que antes atendia por Bar sem Nome), ia à Esquina por quatro motivos básicos – mas não necessariamente nesta ordem: beber; arranjar mulher (ou não, cada um sabia de si); fumar um base; e conversar, conversar... “Ficávamos de pé, sem parar de beber ou conversar, enquanto os policiais revistavam os nossos bolsos”, recorda o poeta e jornalista Eduardo San Martin, em depoimento publicado no “Esquina Maldita”.

Beber, transar, conversar
Claro que dessas conversas resultaram músicas, filmes, livros, peças teatrais, shows, artes plásticas, dança, manifestos, passeatas e conspirações políticas – e muito mais, inclusive casamentos, separações, empregos, etc. Está tudo, ou quase tudo, no livro de Paulo Cesar Teixeira. Nei Lisboa, um dos frequentadores do pedaço ouvidos pelo autor, dá uma síntese: “Fiz a música (Nem por força) depois de uma noite infrutífera, em que não comi ninguém”.

No volume de Claudinho Pereira, há o toque e a lembrança pessoal de quem estava em campo, disputou inúmeras partidas noturnas, brilhou para a torcida, eventualmente foi expulso, viu a equipe entrar em decadência – mas se reinventou profissionalmente e até hoje é amado pela galera.

A velha boemia
Seu livro, na real, amplia o foco para além das grandes boates, como o Encouraçado Botekin, Baiuca, La Locomotive, etc. – onde botou som e multidões pra dançar. “Na ponta da agulha” termina fazendo uma ampla ronda pela noite da cidade, incluindo a velha boemia, que ainda tinha espaço e vida. Estão lá as casas de samba de monstros sagrados como Lupicinio Rodrigues e Tulio Piva – e os grandes músicos, letristas e cantores como Jesse Silva, Plauto Cruz, Clio, Lourdes Rodrigues, Johnson, Alcides Gonçalves, Hamilton Chaves, Demóstenes Gonzales, as empresárias da noite Vera Vargas e Adelaide Dias...

Claudinho ainda brinda os leitores com uma série de lembranças – pequenos perfis – de personalidades da vida boêmia da cidade, da colunista Gilda Marinho à Nega Lu da Esquina Maldita, de Luiza Felpuda (folclórico dono de um bordel gay) ao empresário da noite Dudu Alvarez, de Toninho do Escaler ao figurinista Cattani ou ao vendedor Odorico das Flores.

De algum modo, um mapa sentimental-boêmio-cultural/contracultural- político-existencial emerge, quase visível e concreto, da leitura dos dois livros – mesmo para quem não viveu nada disso.  É a pequena história, que costuma passar ao largo dos interesses dos pesquisadores acadêmicos, mas que marca a vida e as manifestações de uma cidade de modo profundo. E cujos novos habitantes, não fora obras como “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, teriam mais dificuldades para entender de onde vieram tantas árvores que ainda dão frutos em Porto Alegre.

Ficha técnica:
“Esquina Maldita”, Editora Libretos, 215 páginas – por Paulo César Teixeira.

“Na ponta da agulha”, Editora da Cidade (Sec. Municipal de Cultura/PoA), 196 páginas – por Claudinho Pereira.