quinta-feira, 2 de abril de 2015
Mulher sobre a cama
José Antônio Silva
A realidade é uma mulher sobre uma cama. Para alguns observadores, ela dorme. Outros acreditam que espera um amante, olhos bem abertos. Muitos dizem que está doente. Para muitos, está morta.
Há quem garanta: é apenas um manequim de gesso, um simulacro. Mulher inflável, talvez.
Ela é negra. Ela é branca. É asiática. É índia. É mestiça. Talvez seja um travesti.
É mãe. É filha. As duas coisas? Ela é uma fantasia de quem a vê.
A realidade é tudo isso, uma sucessão de momentos no tempo – há quem afirme.
Os sábios, os técnicos, os cientistas pesquisam e buscam novos instrumentos de mensuração, aproximação – desejam captá-la em sua essência.
Armam seus aparelhos de futura geração.
Ligam.
Mas onde está a mulher? Onde a cama?
terça-feira, 31 de março de 2015
Clássicos do cinema
José Antônio Silva
Norte-americano
Velhote estrebucha, depois de ser espancado num beco
escuro. Um jovem amigo o encontra:
- Você sabe, Frank... Eles me pegaram...
Jovem:
- Não fale, Joe. Você vai ficar bem...
Velhote, agora sussurrando entre golfadas de sangue:
- ...urgh... um homem sabe quando está acabado,
Frank...
Francês
Dois amigos fumam e tomam café e fumam e tomam café
em um café parisiense.
Mais jovem, de gola rolê e óculos de aros pretos:
- Jean Louis, uma mulher pode ser apenas uma
mulher...
Mais velho, cabelos grisalhos, óculos de aros pretos
sobre a gola rulê, depois de soltar a fumaça:
- Uma mulher nunca é apenas uma mulher, mon petit
Jacques...
Brasileiro
Garoto magro de 14 anos, guias no pescoço, duas
pistolas na cintura, agarrado a uma loira falsificada e gostosa, decreta:
- Vamos invadir o Borel!
Gordo vestido apenas com bermuda e fuzil, repercute:
- Vamos acabar com os alemão, aê!
O líder dá o baseado para a namorada e passa o cano
de uma pistola no meio das pernas dela. E encerra o papo e a cena:
- Só se for agora, Buiu!
Italiano
Rapaz salta de uma motoneta em frente a uma casa,
após rodar barulhentamente por ruelas estreitas e seculares. Uma moça
voluptuosa e irada abre a porta.
O motoqueiro leva um susto, mas sorri:
- Tiau, bela!
A jovem, grandes peitos balançando no vestido
floreado:
- Ma che?! Questo são horas de chegar? Estavas com
tuas vagabundas, não é?!
- Non, minha santa... Che vagabunda?... (bate com a
ponta nos dedos na testa).
Sorri:
- Trouxe uma coisa para você... Por isso me
atrasei...
Remexe no bolso da jaqueta. Seus dedos apertam uma
caixinha de jóia.
Ela percebe algo... ele a segura antes que desmaie.
Inglês
Táxi quadradinho e negro desliza pelo cinza-chuva
londrino. Pára na frente de um casarão vitoriano. Desce um roqueiro com os
cabelos verdes, calça apertada azul, casaco listrado de amarelo e preto. Num
braço, o estojo da guitarra, no outro um tradicional e imenso guarda-chuva
negro.
O mordomo do clube privado masculino recolhe o
guarda-chuva e o chapéu côco do roqueiro. Ele se senta ao lado de um velho sir,
de colete e paletó de tweed discretamente quadriculado:
- E aí, vovô? Como foi a sessão no Parlamento hoje?
O nobre dá mais uma bicada em seu cherry brandy:
- Maçante, Leonard. Como sempre... Como vai sua mãe?
- O senhor sabe... Ela suspendeu o financiamento da
minha banda até que eu termine o college...
- Ela é muito careta. Fale comigo. Você não deve se
transformar em mais um almofadinha, um coxinha desses.
(Vira-se para o lado, em direção ao garçom, em pé há
horas, junto à porta):
- Alfred, traga mais um cherry.
(E abaixando a voz para o jovem):
- Vamos fumar ali na sala reservada. Você trouxe o
haxixe, não é mesmo?
segunda-feira, 23 de março de 2015
Lourdes,
Darcy, Plauto - as últimas vozes vão calando
José Antônio Silva
O violonista
Darcy Alves, o Professor Darcy, abandonou o instrumento e a vida neste mês de
março, às vésperas de festejar seus 83 anos. Foi mais um membro de uma excepcional
geração musical boêmia, do samba, do choro, da noite porto-alegrense, que teve em
Lupicínio Rodrigues (falecido precocemente em 1974, antes de completar 60 anos)
sua maior estrela. E olha que ele não foi o único a receber o reconhecimento e as
glórias da nação (antes da geração de Elis Regina): cantores como Elza Soares,
Germano Mathias, Luís Vieira, Noite Ilustrada e muitos outros vinham a Porto
Alegre para pedir a Túlio Piva uma canção inédita.
A Lupi e Túlio,
somavam-se nomes de compositores e/ou instrumentistas e cantores da altura de Alcides
Gonçalves (co-autor de muitos sucessos de Lupicínio), Johnson, Ruben Santos e
tantos mais: Plauto Cruz, Zilah Machado, Clio, Jessé Silva, Lúcio do
Cavaquinho. A roda de uma Porto Alegre boêmia à moda antiga – dos anos 40 ao
final dos 70 do século passado – incluía jornalistas, radialistas, políticos, artistas
e intelectuais como Hamilton Chaves, Demóstenes Gonzales, Glênio Peres, Hélio
Vasques da Silva, Antoninho Onofre. Reuniam-se em bares como Adelaide’s, Chão
de Estrelas, Batelão (um dos vários restaurantes que Lupi criou), Gente da Noite
e Pandeiro de Prata (ambos de Túlio Piva e nomes de dois de seus grandes
sucessos), Dona Maria e muitos outros.
Enfim, nos
últimos anos os remanescentes destas duas ou três gerações ligados à ideia
ainda romântica de uma boemia do samba, seresta, choro e gêneros assemelhados,
que atravessou o século XX em todo o Brasil, vêm desparecendo por força da
própria idade. Em Porto Alegre não é diferente.
Apenas no
ano passado, a música porto-alegrense perdeu nomes como a cantora Dona Lourdes
Rodrigues (uma das principais intérpretes de Lupi), falecida aos 76 anos, em
outubro; e o radialista e promotor cultural Glênio Reis, aos 86, em agosto.
Já há algum
tempo, sobrevive no esquecimento o virtuose Plauto Cruz, o Plauto da Flauta, em
sua casinha de madeira na Zona Sul da capital gaúcha, já sem condições de
soprar seu instrumento, aos 85 anos.
Antes que
toda essa geração desapareça, não está mais do que na hora, - em nome da
cultura, da música e da história gaúcha e porto-alegrense – de gravar seus
depoimentos num grande documentário sobre o samba, a seresta e o choro na Porto
Alegre do século passado, pelas vozes que ainda restam? E, é claro, em regime
de urgência?
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Guerra Fria no coletivo
José Antônio Silva
Sentados lado a lado no banco do ônibus, uma moça – cerca de 20
anos – e um homem de meia idade, talvez 55. Os dois chamam a atenção: afinal,
estão lendo, lendo livros. A moça, à janela, manda ver num romance clássico do
comunista mundialmente premiado Jorge Amado: “Terras do Sem Fim”. O coroa se
joga num best-seller coxinha – o “Guia politicamente incorreto da América
Latina”.
A garota aprende sobre o coronelismo, as origem do êxodo rural e
dos latifúndios, o atraso histórico do Nordeste que
só agora começa a ser superado, tudo em uma linguagem lírica e cruenta.
O senhorzinho ferve os miolos de provável desprezo pela
esquerda, ao ler, com leve sorriso, ironias sobre o presidente eleito chileno
Salvador Allende, morto durante golpe de estado em 1973.
O livro pergunta, em
tom de brincadeirinha, quem seria o responsável pela ação que rompeu a ordem
democrática no Chile, matou três mil pessoas e torturou e prendeu outras 37 mil
vítimas:
1) A CIA; 2) O Governo dos Estados Unidos; 3) O presidente norte-americano; 4) Nenhuma destas hipóteses.
1) A CIA; 2) O Governo dos Estados Unidos; 3) O presidente norte-americano; 4) Nenhuma destas hipóteses.
Hora de desembarcar.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Vergonha
alheia
José Antônio Silva
A direita
brasileira adora os EUA e (um pouco menos) a Europa.
O curioso é
que, no Hemisfério Norte, eles não reclamam de não ter (ou de pagar caríssimo)
por empregada doméstica, de fazerem a própria cama, de terem que respeitar as
leis de trânsito, de não praticarem atitudes racistas, etc.
Acham tudo
normal e civilizado.
Não abrem a
boca pra reclamar nem chamam de esmola o Bolsa Família existente e praticado
nos países europeus.
No entanto,
são absoluta e escandalosamente racistas nas suas manifestações aqui no Brasil,
ofendem quem procura qualificar os pobres e fazê-los progredir
profissionalmente.
Quando estão
no “Primeiro Mundo” consideram natural obedecer ao mesmo tipo de leis, regras e
normas de civilização que, aqui na terrinha, se acham no direito de
desrespeitar e descumprir.
Nos
aeroportos brasileiros, muitos devem ter enfartado ao precisar entrar na fila -
atrás de uma ex-faxineira, por exemplo - para embarcar num avião que demanda
Paris.
Só não me
perguntem como funciona o cérebro deles frente a esses pesos e medidas
diferentes. Parece que não vêem nenhuma contradição nisso.
Quer dizer,
não sei mas imagino.
No Brasil,
dividido já a partir das Capitanias Hereditárias do século XVI entre elite e
ralé, casa grande e senzala, cidadãos e não-cidadãos, até hoje os membros da
classe historicamente dominante acreditam que têm todos os direitos, inclusive
o de descumprir as leis.
Recentemente,
um juiz de Direito mandou prender uma agente de trânsito, no Rio de Janeiro,
por “desacato” (“você sabe com quem está falando??!!”) por tê-lo multado numa
infração no tráfego, ao dirigir sem carteira.
Isto é um exemplo,
quase corriqueiro, do que as chamadas elites sempre fizeram – infelizmente para
eles, hoje essas coisas causam comoção no país.
E vale
lembrar o exemplo do agora senador eleito Lasier Martins, ex-Arena Jovem, que
este ano foi condenado, em última instância, a indenizar o agente da Polícia
Federal Gilnei da Costa Carvalho por ofensas pessoais no exercício da sua
função.
Anos atrás,
ao requerer passaporte às filhas menores, num posto da PF, ele irritou-se com o
policial que exigiu a apresentação de seu documento de identidade, como manda a
lei. Irritado, o apresentador da RBS brindou o agente com termos como
“burocrata, vagabundo, filho da puta, recalcado, vai à merda”, entre outras
jóias de linguagem. Ainda irado, no seu programa na Rádio Gaúcha, à tarde,
Lasier voltou a achincalhar o agente policial que apenas agiu de acordo com a
lei.
Pois nesta
eleição-2014, a “elite” que sonega impostos, corrompe ou ameaça quem atrapalha
seus interesses, ofende os nordestinos, negros e pobres, agride e/ou acusa de “ladrão”
algum trabalhador ou estudante que ostente um adesivo do PT (o que se repetiu
na campanha eleitoral deste ano), chegou ao auge.
Eles
solicitaram há poucos dias algum tipo de intervenção à adorada Casa Branca dos
States, em nome da “democracia”. (E nem vou falar aqui das inacreditáveis
passeatas de coxinhas e madames, em surto de delírio fascistóide, pedindo a
volta da ditadura militar, sob a liderança política e serena do guru Lobão! Ou
o pedido alucinado de impeachment da presidenta eleita em plena normalidade
democrática).
Até o PSDB -
que aproveitou a agressividade da direita sobre os petistas e eleitores durante
a campanha - ao baixar a poeira tratou de dizer que apóia o regime democrático
e não tem nada a ver com isso.
Em tempo:
Obama apenas sorriu, constrangidamente, e parabenizou a democracia brasileira.
Vergonha
alheia
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
A nuvem de Cae e Gil
José Antônio Silva
Que Gilberto Gil e Caetano Veloso são geniais compositores populares pouca gente há de negar. Mas, claro, isso não quer dizer que a mesma força e inteligência criativa se reflitam em outros campos.
Gil, justiça seja feita, sempre se mobilizou mais em termos sociais, em áreas de sua preferência como a ecologia e a cultura. Até foi vereador pelo Partido Verde, andou – como um turista acidental famoso – pelo PT e foi ministro da Cultura. Mas tanto ele quanto Caetano, coincidentemente, jamais participaram de fato, com real interesse, do mundo político. Sempre flutuaram, sem bússola, ao sabor das correntes e da intuição, na base do palpite, feliz ou infeliz.
Como se sabe, igual a muitos outros artistas, ambos chegaram a ser perseguidos pela ditadura militar brasileira, sofreram com a censura sobre seu trabalho e foram presos.
Porém, muito mais pela obtusidade e profunda ignorância dos agentes da ditadura, que confundiam posturas comportamentais libertárias com “comunismo” e “subversão”.
Acredito que tanto Gil quanto Caetano se enquadram naquele enorme contingente de pessoas que afirma, alegremente, “não gostar” da política.
Mas esse desinteresse – sempre – cobra um preço. E o preço é a alienação: se você não procura se informar, ir atrás de outras fontes de dados e conceitos, se fica na postura passiva da manchete dos jornais, revistas semanais, noticiários de rádio e TV... Se essa é toda a sua informação, eu sinto muito: você assimila ao longo dos anos o discurso que dá uma aparência de normalidade e de não-política ao conservadorismo intrínseco do capitalismo, com seu elitismo, individualismo, consumismo, exclusão, etc.
Ou seja: quem “não gosta” de política, não consegue perceber que ele próprio – quando chamado a opinar ou definir-se sobre o assunto – revela-se, apenas um... mero repetidor, ingênuo, de conceitos e mantras dos jornalistas do sistema, dos publicitários do consumismo, do “sempre foi assim”, do “rouba mas faz”, do “bandido tem que matar”, do partido dos “humanos direitos e não dos direitos humanos”, e outras pérolas.
Não que Cae e Gil cheguem a esse nível de alienação – bem longe disso.
Mas seu afastamento das realidades do país fica claro quando compram o discurso de que Marina – mesmo apoiada por banqueiros!!! – é uma “alternativa” possível ao PT. Não são vistos ou percebidos, pelos dois bons baianos, os gritantes sinais da fragilidade da candidata (apoiada, também, por pastores vigaristas do pentecostalismo medievalista).
Gil e Caetano conseguem não se emocionar com o fato do PT e seus apoiadores terem arrancado milhões de pessoas da miséria, e que, com as políticas de Lula e Dilma, agora – dados da ONU – conseguiram tirar o país da relação de países em que ainda havia pessoas morrendo de fome.
Marina é apoiada e orientada pelo pastor Malafaia, pela educadora Neca, dona do Banco Itaú (que hoje praticamente sustenta a candidata), pelo dono da Natura e, de lambuja, tem todo o apoio do Clube Militar, coalhado de generais de pijama saudosos da ditadura.
No entanto, em suas nuvens de alienação, na vida de ricos que o talento lhes proporcionou, Gil e Cae mostram-se cada vez mais distantes da verdadeira revolução democrática que acontece no país.
E só conseguem enxergar que Marina tem origem humilde e a pele morena como a maioria da população brasileira. “É mágico...” – ou algo assim.
Enfim, a profundidade de análise política dos dois ícones baianos está ao nível que uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas, para citar o dramaturgo Nelson Rodrigues - aliás, outro conservador de talento.
Ah, e pra ficar no mesmo nível: Chico Buarque e Paulinho da Viola vão de Dilma.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Parede desafio
José Antônio Silva
José Antônio Silva
Eu vi um
homem olhando para uma parede branca.
Um homem,
um pedinte
sem pedir
um andarilho
que não andava
parado que
só
fitando a
parede branca
como quem
decifra o infinito.
O homem
olhava para a parede
com atenção
talvez
vertigem
à borda do abismo
branco.
O homem via
o passado o futuro o presente
como uma
coisa só
como uma
base líquida
um trecho da
Via Lactea
só seu
para a
própria
superação.
Um homem
olha uma parede branca
em silêncio
no meio dos
automóveis-cometas
que raspam
seu traje
espacial
sem lhe
causar maior dano
do que a
consciência
como
indagação
que lateja
organicamente
na
parede-desafio.
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