quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aspas demais, lisura de menos




José Antônio Silva



Sempre que o jornalismo pretende, de forma mais ou menos sutil, desqualificar uma declaração, pinça cirurgicamente uma palavra ou outra e a coloca entre aspas. Se for utilizado em um título, ao mesmo tempo em que põe em evidência a declaração, o recurso lhe confere um ar de estranheza, de absurdo. Afinal, em termos de inteligibilidade, não há qualquer razão técnica para destacar uma palavra com o uso de aspas.



As razões são políticas. Como se observa na Reportagem Especial das páginas 4 e 5 de ZH desta terça-feira. Vejamos o título da matéria da pág. 4: Maia aponta “ingerência” na Câmara. Em outro box, na mesma página, de novo: Petista afirma que não houve “ameaça”



Ao colocar aspas nestas palavras, é como se o jornal dissesse aos seus leitores: nós não temos nada com isso, essa besteira quem diz é ele (Marco Maia, presidente da Câmara, que lembra que o Artigo 55 da Constituição Federal garante ao Legislativo – e não ao Judiciário – o poder de cassar os mandatos de seus parlamentares).



Só que não há besteira: além de estar impressa na chamada Lei Maior do Brasil, esta condição também está presente em outras Constituições nacionais, inclusive a dos EUA.



Vale ler o que nos informa o colunista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo do dia 17/12: “(...) nos Estados Unidos ocorre o contrário. Três deputados, condenados, mantiveram-se nos mandatos. Dois foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. O terceiro, Jay Kim, em 1998 foi condenado a um ano de prisão domiciliar por ter embolsado US$ 250 mil pelo caixa dois. Como era deputado, o juiz colocou-lhe uma pulseira eletrônica no tornozelo e ele só podia sair de casa para ir ao Congresso. Foi cassado pelos eleitores, nas prévias de seu partido”.



Os americanos não são petistas ou esquerdistas. Mas sabem que é fundamental para a democracia (qualquer democracia) manter a independência entre os Poderes.



O resto são aspas suspeitas.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônica Minha

Pauteiros do conservadorismo

José Antônio Silva



O respeitável humorista Millôr Fernandes criou uma frase de efeito que volta e meia é repetida - à título de justificativa e motivação – por alguns profissionais da imprensa: “Jornalismo é oposição. O resto é secos e molhados”. Será?


Não creio que afirmar-se como “oposição” – de modo independente de quem ou o que seja a situação – deva ser a base sobre a qual erguer uma carreira.

Para começar, como fica aquele compromisso de ser imparcial e ouvir todos os lados da questão, buscando a verdade dos fatos, acima de tudo?


Pode nos socorrer aqui um ensinamento do mestre Cláudio Abramo, que em seu livro “A regra do jogo”, deixa bem claro: "Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista - não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. (...) O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista".



Ele também afirma que é preciso fazer opções. Mas opções racionais, de acordo com o bem comum e com o que se apresenta. Se há um governo autoritário ou corrupto, é justo que seja denunciado e sofra a oposição do jornalista ético (ainda que, na minha opinião, isso não elimine a necessidade de ouvir os dois – ou mais – lados de cada questão).


O que se vê, tantas vezes, são jornalistas que assumem dos pés à cabeça, acriticamente, a posição dos veículos em que trabalham – e que frente a um governo de esquerda (ou reformista), tremem de ódio, coerentes com a visão elitista de seus patrões.



Coragem mesmo tiveram os que fizeram oposição em tempos de ditadura – como o que vivemos entre 1964 e 85, quando os jornalistas independentes corriam risco de prisão e até pior que isso. Quem sofreu foi a imprensa alternativa. Mas a grande mídia (que, aliás, havia apoiado o golpe militar), continuou jogando o jogo do poder, mesmo com o transtorno da censura. Jornalões, televisões e rádios eram “situação”, com muita honra e rapapés, sim senhor, e até batiam continência. Agora, na democracia, são valorosos justiceiros da oposição – não declarada, evidentemente.



Entendo, claro, o alcance da frase do grande Millôr – ele mesmo um dos baluartes de “O Pasquim”, símbolo da resistência irônica ao arbítrio. O humorista quis dizer que a proximidade com o poder muitas vezes pode gerar, e gera, a acomodação ou mesmo a venda da consciência do jornalista, em troca de cargos, dinheiro, favores dos poderosos do momento. E por isso a oposição, na romântica linha anarquista: “Hay gobierno, soy contra”.



Denunciar com rigor e profissionalismo os erros, os mal-feitos e a corrupção em todos os escalões governamentais, é necessário, para bem de todos e felicidade geral da nação.



Porém, assumir uma posição imutável de pauteiro da oposição política, de oposição sistemática a um governo que - para além do partidarismo - vem arrancando da miséria e do abandono milhões de pessoas que até então sobreviviam, como seres invisíveis, em escandaloso abandono histórico pelas administrações que se sucediam, ao longo das décadas... isso não é papel de um jornalista digno desse nome.



Seu papel – que eles e suas empresas precisam assumir – é o de cúmplices das oligarquias e do desumano atraso social do país. Relendo Millôr: acredito que, como cidadãos, seriam muitíssimo mais úteis à população brasileira no ramo de secos e molhados.







domingo, 25 de novembro de 2012

Livros


Loucas noites de Porto Alegre, em obras complementares

José Antônio Silva

Em um ponto geográfico da cidade, cerveja e maconha. Algumas quadras acima, uísque e cocaína. Estes ingredientes podem representar, mesmo que  de modo imperfeito, dois tipos de boemia na Porto Alegre dos anos 60, 70 e 80. E cada uma das vertentes está bem representada nos livros “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, ambos lançados na mesmíssima Feira do Livro de 2012. As obras, coincidentemente, terminam formando um díptico – uma dupla de primos entre si, que tem como denominador comum a noite da Capital rio-grandense num mesmo período histórico.

Em “Esquina...”, de Paulo César “Foguinho” Teixeira, há o texto escorreito e volteado de um jornalista com pleno domínio de sua arte. Já o que leva a griffe de Claudinho Pereira, se lê como se escutássemos ao vivo a levada malandra e o humor (cum grano salis) deste sobrevivente de muitas das mais loucas noites do Sul.

E há o fato de que as obras de Teixeira e Pereira se completam na medida, como num jogo de armar - o que revela muito dos rumos, escolhas, ganhos e perdas, do ethos mesmo da sociedade gaúcha. Pairando sobre toda a loucura da época, o peso da ditadura militar, mais ameaçadora para alguns, leve (ou mesmo paternal e amigável) para outros.

Na chamada Esquina Maldita (uma série de bares na esquina das avenidas Sarmento Leite e Oswaldo Aranha, próxima ao campus central da UFRGS), enfocada com respeito e carinho por Foguinho em seu livro, duas tribos notívagas se encontravam, no mesmo território. Como diz a orelha da obra, duas vertentes ali predominavam: a dos que pretendiam transformar o mundo, e a dos que propunham revolucionar a própria vida.

Esquerdistas e ripongos
Ali estavam representantes da esquerda dita “festiva” aos engajados na resistência armada, e dos roqueiros, artistas de todas as páreas, jornalistas, estudantes e jovens embalados pelas ideias da contracultura (amor livre, comunidades, feminismo, ecologia, drogas como diversão, mas também como experiência existencial). E alguns dos frequentadores embarcaram em viagens sem volta, tanto os políticos quanto os desbundados.

No livro de Claudinho, deixam a cena a cerveja, cachaça, maconha, LSD e cogumelos como aditivos principais. Em seu lugar, nas pistas da Independência, brilham cocaína, uísque, anfetaminas e pico (“na ponta da agulha”, em mais de um sentido). Bem menos ideologia e mais hedonismo, por vezes desesperado. Empresários da noite, ambiciosos mas sonhadores, disc-jóqueis ligados (como o próprio autor do livro), garçons, porteiros, cheffs, cozinheiros – e a fauna de frequentadores, de cantores, artistas plásticos e decoradores, colunistas da imprensa, damas da sociedade, políticos, mulheres lindas, jovens burgueses por vezes sem ideal maior, jogando a falta de rumo em mais uma dose.

Bocas-de-sino, batas, cabelos e vestidos longos e barbas desgrenhadas, nos bares da Oswaldo Aranha.  Smoking e vestidos de noite, sucedidos no correr dos anos por modelitos estilo discotheque, nas boates da Independência e adjacências.
Estudantes com sonhos de mudança, oriundos da baixa classe media urbana ou interiorana, despejam sua energia e projetos políticos e existenciais na EM – todos contra a ditadura.

Uísque e cocaína
Jovens enfadados por dinheiro, portando sobrenomes dos mais tradicionais, ou crias de famílias enriquecidas, viviam excessos patrocinados (e previamente desculpados) pela proximidade com o poder, de coturnos ou não. Em seu entorno, os trabalhadores da noite, que ali concretizavam ambições, criavam contatos influentes e tinham espaço para mostrar seus talentos.

Uma grande parte dos frequentadores do Alaska, Copa 70, Estudantil, Marius (que antes atendia por Bar sem Nome), ia à Esquina por quatro motivos básicos – mas não necessariamente nesta ordem: beber; arranjar mulher (ou não, cada um sabia de si); fumar um base; e conversar, conversar... “Ficávamos de pé, sem parar de beber ou conversar, enquanto os policiais revistavam os nossos bolsos”, recorda o poeta e jornalista Eduardo San Martin, em depoimento publicado no “Esquina Maldita”.

Beber, transar, conversar
Claro que dessas conversas resultaram músicas, filmes, livros, peças teatrais, shows, artes plásticas, dança, manifestos, passeatas e conspirações políticas – e muito mais, inclusive casamentos, separações, empregos, etc. Está tudo, ou quase tudo, no livro de Paulo Cesar Teixeira. Nei Lisboa, um dos frequentadores do pedaço ouvidos pelo autor, dá uma síntese: “Fiz a música (Nem por força) depois de uma noite infrutífera, em que não comi ninguém”.

No volume de Claudinho Pereira, há o toque e a lembrança pessoal de quem estava em campo, disputou inúmeras partidas noturnas, brilhou para a torcida, eventualmente foi expulso, viu a equipe entrar em decadência – mas se reinventou profissionalmente e até hoje é amado pela galera.

A velha boemia
Seu livro, na real, amplia o foco para além das grandes boates, como o Encouraçado Botekin, Baiuca, La Locomotive, etc. – onde botou som e multidões pra dançar. “Na ponta da agulha” termina fazendo uma ampla ronda pela noite da cidade, incluindo a velha boemia, que ainda tinha espaço e vida. Estão lá as casas de samba de monstros sagrados como Lupicinio Rodrigues e Tulio Piva – e os grandes músicos, letristas e cantores como Jesse Silva, Plauto Cruz, Clio, Lourdes Rodrigues, Johnson, Alcides Gonçalves, Hamilton Chaves, Demóstenes Gonzales, as empresárias da noite Vera Vargas e Adelaide Dias...

Claudinho ainda brinda os leitores com uma série de lembranças – pequenos perfis – de personalidades da vida boêmia da cidade, da colunista Gilda Marinho à Nega Lu da Esquina Maldita, de Luiza Felpuda (folclórico dono de um bordel gay) ao empresário da noite Dudu Alvarez, de Toninho do Escaler ao figurinista Cattani ou ao vendedor Odorico das Flores.

De algum modo, um mapa sentimental-boêmio-cultural/contracultural- político-existencial emerge, quase visível e concreto, da leitura dos dois livros – mesmo para quem não viveu nada disso.  É a pequena história, que costuma passar ao largo dos interesses dos pesquisadores acadêmicos, mas que marca a vida e as manifestações de uma cidade de modo profundo. E cujos novos habitantes, não fora obras como “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, teriam mais dificuldades para entender de onde vieram tantas árvores que ainda dão frutos em Porto Alegre.

Ficha técnica:
“Esquina Maldita”, Editora Libretos, 215 páginas – por Paulo César Teixeira.

“Na ponta da agulha”, Editora da Cidade (Sec. Municipal de Cultura/PoA), 196 páginas – por Claudinho Pereira.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Crônica MInha

Onde bate mais forte o coração do Rio Grande



José Antônio Silva


 
A Praça da Matriz, nos altos do Centro Histórico de Porto Alegre, concentra à perfeição os
poderes republicanos – mesmo que o imponente Palácio Piratini, sede do Poder Executivo, dominando o logradouro, seja inspirado no monárquico Petit Trianon de Versailles, encarnado em outro continente. Seja como for, em contraponto, sobre uma das laterais da Praça, espalham-se as linhas modernas do Palácio Farroupilha, tradução concreta, metálica e envidraçada do Poder Legislativo.

Na parte baixa da Matriz, impõe-se o Palácio da Justiça do Rio Grande do Sul, sob a espada da deusa Themis. Aliás, ainda sob o império do Poder Judiciário e no esforço pela democrática aplicação das leis, em uma das pontas da mesma praça, esquina com a Rua Jerônimo Coelho, um prédio histórico restaurado é a casa do Ministério Público Estadual.

Alguns metros abaixo da sede do Judiciário, na esquina das Ruas Riachuelo e General Câmara, o busto de pensadores, cientistas, poetas e romancistas da tradição clássica, adorna e inspira os leitores e visitantes da imponente Biblioteca Pública do Estado. Ainda em fase de restauro, seu interior rivaliza com a parte externa, em detalhes artísticos e mensagens positivas e positivistas, ao gosto da virada do século XIX para o XX.

De fato, nem só os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário guardam e protegem a histórica Praça, cujo nome é Marechal Deodoro, o proclamador e primeiro presidente da República brasileira, em 1891 (e que já fora governador da Província do RGS, anos antes, ainda no Império). O fato é que, se a homenagem ao militar alagoano está eternizada na denominação oficial, muitas modificações ali aconteceram, no decorrer do tempo. Assim, desde 1914 a Praça Marechal Deodoro exibe um monumental conjunto de esculturas, criadas por Décio Villares, e não dedicado a Deodoro... - mas ao caudilho gaúcho Júlio de Castilhos.

Frente à Praça, e ao lado do Palácio Piratini, desponta a Catedral Metropolitana, a “Igreja Matriz” que dá o nome popular do logradouro, com sua polida cúpula cor de bronze, a 65 metros do nível do chão. Se é um templo católico, pode muito bem servir de homenagem a todas as crenças e religiões, ao poder espiritual que ao longo da história, para o bem e o mal, acompanha a humanidade, seu cotidiano, suas instituições, glórias e derrotas.

No entanto, não ficaria completa a coleção de jóias históricas e arquitetônicas do entorno sem um grande monumento à arte e à cultura – representado pela perfeição do Theatro São Pedro. Inaugurado em 1858, de linhas neoclássicas, é decorado em veludo e ouro. Devidamente reformado há algumas décadas, sempre foi razão de orgulho dos portoalegrenses. (E vale acrescentar: o antigo Palácio da Justiça, no século XIX, era uma construção gêmea ao Theatro).

Infelizmente, a força do progresso tantas e tantas vezes não é sábia – e colocou abaixo a bela Concha Acústica do Anfiteatro Araújo Vianna, que até os anos 50 do século XX ornava o que é hoje parte do Palácio Farroupilha.

Na Duque de Caxias, após a lateral do prédio da Assembleia, em direção à Rua General João Manoel e ao Alto da Bronze, encontra-se o bem conservado Solar dos Câmara, uma das construções mais antigas da cidade (erguido, como residência de um influente político, entre 1818 e 1824). Hoje mantido pela Assembleia Legislativa, o Solar acolhe eventos culturais, com seus jardins seculares que se confundem com a área aberta, atrás do Palácio do Legislativo.

Já os que orientarem-se para a esquerda, ao atravessar a praça em direção à Rua Duque, após cruzarem a estreita Rua Espírito Santo (e sua ladeira vertiginosa) chegarão ao Museu Histórico Júlio de Castilhos. Ali sobrevive uma parte da memória dos rio-grandenses.

Os seres humanos, como sempre, cometem erros, tramas obscuras, mesquinharias e omissões – e, sem dúvida, muito disso foi gestado nos palácios da Praça da Matriz. Mas o local também foi palco de grandes e corajosos acertos – como o Movimento da Legalidade, que garantiu a democracia no Brasil por mais alguns anos, quando as forças reacionárias afiavam os dentes. E dos porões do Palácio Piratini, no início dos anos 60, surgiu e alastrou-se a resistência nacional ao arbítrio.

Enfim, tanto pelos motivos visíveis, como pelos de ordem subjetiva, difícil negar que o coração não apenas institucional, mas histórico, político e cultural do Rio Grande, bate sempre mais forte na Praça da Matriz.



Foto: Alina Souza
















sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Jaguar e a última dose de O Pasquim



José Antônio Silva



O álcool - pode-se dizer com apenas um pouco de exagero - foi o combustível que levou O Pasquim a ser o que foi. Até a idéia do jornal, que revolucionaria a linguagem da imprensa brasileira na virada dos anos 60 e seria uma pedra no borzeguim dos militares da ditadura, baixou em uma mesa de bar, comandada por Tarso de Castro. A maior parte da equipe fundadora e grande parcela dos agregados e colaboradores do Pasca era formada por habitues dos bares chiques de Ipanema e adjacências, misturando-se com outros ícones da cultura carioca e brasileira, como Tom Jobim, Vinícius, o jovem Chico Buarque, Cacá Diegues, Maria Lúcia e Gustavo Dhal, Carlinhos Oliveira, Leila Diniz, Glauber, Nara e Danusa Leão, etc.



Em termos operacionais, digamos assim, bem servidas doses de uísque envelhecido em barris de carvalho, martelinhos de cachaça e loiras geladas embalavam as míticas entrevistas do Pasquim. Lá pelo meio da entrevista, o grupo de jornalistas e o entrevistado(a) já estavam todos a meio pau, e terminavam falando demais – o que rendia grandes revelações na edição da semana seguinte. Também o fechamento das edições do autodenominado “jornaleco” eram turbinadas com uísque e gelo, considerado pelo poeta Vinícius de Moraes tão bom amigo do homem que seria um verdadeiro “cachorro engarrafado”.



Tudo isso para saudar o co-fundador do Pasquim e mestre cartunista Jaguar, que aos 80 anos – depois de ter bebido o equivalente a “uma piscina olímpica”, em 62 anos de copo – foi operado neste mês de julho no Hospital Sírio-Libanês com cirrose e câncer no fígado. Mas poucos dias depois, o pai do ratinho “Sig” (marca do Pasquim) saiu do hospital caminhando e, aparentemente, convencido a “regular a lenta”, a partir de agora, não mais com birita, e sim com aquele líquido onde os peixes se reproduzem.



No entanto, vale lembrar que a “marvada” ceifou a vida do editor do jornal, o gaúcho Tarso de Castro (também criador do “Folhetim”, da Folha de S. Paulo, entre outras publicações), aos 49 aninhos, em 1991, de cirrose hepática. Seu amigo Fortuna, cartunista, o seguiu três anos depois, aos 63 anos.



Daquela turma original – o núcleo nada duro do Pasquim –, a própria passagem do tempo (para além da bebida y de otras cositas, ou não) foi se encarregando de eliminar muitos.



Este ano de 2012 carregou para a história do jornalismo e da cultura brasileira, sem “atividade presencial” (argh! – como dizia o Pasquim) e existencial, Millôr Fernandes e Ivan Lessa. Em 2008, quem deixou de levantar o copo para mais um brinde foi o talentoso escritor e sarcástico cronista Fausto Wolf, aos 68.



Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, o Paulo Francis, parou de inspirar imitadores e humoristas em 1997. Antes, porém, já havia migrado de Ipanema para Manhattan, e da esquerda festiva para a direita cínica.



Precedendo a todos eles, o ano de 1988 levou à tumba o genial Henfil (criador dos Fradinhos), aos 44 anos de vida, vitimado pela hemofilia, que na seqüência também mataria seus irmãos Betinho (sociólogo e o homem que engendrou o “Fome Zero”) e Chico Mário, músico.



Estão por aí, para sorte da inteligência brasileira, pasquineiros de primeira hora como Luiz Carlos Maciel (da coluna “Underground”), o crítico de MPB Sérgio Cabral, o cartunista Claudius, o icônico (argh!, de novo) Ziraldo e, claro, o já citado Jaguar.



Para não falar (muito) de Sérgio Augusto, Nani e outros membros mais jovens, geograficamente distantes ou menos freqüentes da “patota” (como eles mesmos diziam), tipo os irmãos Paulo e Chico Caruso, Edgar Vasques, Reinaldo (Casseta & Planeta), Ricky Goodwin et caterva.



Depois do Pasca, muitas outras iniciativas tentaram levar adiante o coquetel jornalismo-humor-ensaísmo, em diferentes doses (êpa!) destes ingredientes. Sempre sob a égide anti-fascista e de total liberdade de opinião (“não toquem nos textos dos colunistas! Vocês estão loucos!?” – dizia Tarso de Castro aos redatores e editores, lembrado por Nei Duclós, nos tempos do Folhetim, da Folha de S. Paulo).



Mas o fato é que o Pasquim se comprovou, com o passar do tempo, único e, num certo sentido, insuperável.



E isso que eles trabalhavam de ressaca.







segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crônica Minha


Estelionato autoral na rede

José Antônio Silva

Como todo mundo sabe, circulam pela internet muitos textos – quase sempre bem intencionados, politicamente corretos, mas fracos estilisticamente – assinados por jornalistas famosos, cronistas e escritores prestigiados. As “vítimas” deste estelionato autoral são quase sempre as mesmas. Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Martha Medeiros, Caio Fernando Abreu – e ainda José Saramago, Jorge Luiz Borges, Gabriel Garcia Márquez...

Alguns desses escritores (os vivos, claro) já se manifestaram várias vezes para negar serem os autores desta ou daquela crônica ou parágrafo – quase sempre redigida em estilo canhestro, por mais sucesso que faça na internet. Em vão. Muitas pessoas preferem acreditar que o texto de que tanto gostaram seja de alguém a quem admiram (ou de quem já ouviram falar) do que de um desconhecido qualquer.

E aí (do outro lado do balcão) acontece um fenômeno curioso: o verdadeiro autor do tal texto escolhe um nome de griffe para assinar a sua criação, desinteressado em prestígio pessoal... Com postura militante, aparentemente quer passar com mais vigor e força de convencimento a sua mensagem, sua ideologia, sua crítica ou protesto. Mas não ousa dizer o próprio nome.

Esse, ao que tudo indica, é o caso de uma crônica de levada feminista e correção política que vem ganhando inúmeros “curtir” no Facebook e comentários engajados – mas que com certeza não foi gestada pelo brilho de Verissimo, embora seja o nome dele que aparece como autor. O conteúdo é antimachista, mas o estilo é agressivo e passa a quilômetros da delicadeza, sutileza e do fino humor do maior cronista brasileiro.

Mas quem se importa?

sexta-feira, 13 de julho de 2012


A velha MPG volta à cena, em grande e rápida aparição



José Antônio Silva



Em todos os sentidos grande, o show dos 30 anos da MPG no Salão de Atos da UFRGS, nesta terça-feira, 10 de julho de 2012, consolidou uma relação antiga e reaproximou compositores e músicos com seu público. Um público fiel há décadas, além dos jovens que viam e ouviam aquilo tudo com surpresa e, alguns, com o entusiasmo da descoberta.



Mas, além de renovar a percepção de tantos talentos (dos veteranos e dos novos que se apresentaram), o espetáculo – realizado no limite da improvisação, compensada pelo entusiasmo e a boa vontade geral – trouxe surpresas. Como a presença da gaudéria Berenice Azambuja, que botou todo mundo a bater palmas no seu ritmo e cantar tudo aquilo que o velho gosta – em meio a tantas melodias e letras sofisticadas da Música Popular Gaúcha.



Outra constatação foi que – definitivamente – arte de qualidade não tem nada a ver com bons sentimentos e lições edificantes. Demonstração límpida dessa verdade veio com Mauro Kwitko. Ao cantar a densa e marcante “Mal necessário” (gravada por Nei Matogrosso), ele relembrou a força perturbadora de seu talento. Ao complementar sua apresentação com uma musiquinha de amor à natureza, com pegada semi-infantil e didática, o compositor fez desabar o termômetro artístico e emocional da platéia ao nível do chão.



Nada que comprometesse. O tom geral foi de reencontro do público com seus antigos ídolos. E dos próprios artistas entre si, três décadas depois que o produtor Ayrton dos Anjos, o “Patinete”, levou um grupo de compositores gaúchos a se apresentarem no Teatro João Caetano, no Rio (e lá cunhou a expressão “MPG” para classificar o que o público carioca iria ver e ouvir). Dos que lá estiveram, faltou Jerônimo Jardim. Os já falecidos foram relembrados em imagens, palavras de saudade e vídeos, como Carlinhos Hartlieb, Galileu Arruda e Geraldo Flach.  


Maiores sucessos
Nelson Coelho de Castro, Peri Souza, Gelson Oliveira, Zé Caradípia, Nando Gross, Hermes Aquino (eufórico após anos de afastamento dos palcos) e outros artistas da época mostraram canções – quase sempre os maiores sucessos de suas carreiras. A apresentação final ficou por conta de Bebeto Alves, saudado pelo apresentador Roger Lerina como um nome-síntese de toda a movimentação da MPG desde os anos 70.



Mas quem mais arrebatou o público, com direito à lágrimas no palco e na platéia, foi Raul Ellwanger, que a custo conseguiu cantar, tal a sua emoção – e que ao final de “Pialo de Sangue” foi aplaudido de pé.



Juarez Fonseca, o outro apresentador do show – cerca de quatro horas de duração – de início havia feito uma contextualização dos principais fatos do Brasil e do mundo em 1982. Ele lembrou alguns momentos marcantes da evolução da produção dos compositores urbanos do Rio Grande do Sul, com um pé na tradição (e/ou no tradicionalismo) e a cabeça no Brasil e no mundo. E citou o seminal LP “Paralelo 30”, de 1978 (produzido por ele mesmo), entre outros discos marcantes, como “Juntos”, de 1981.



Muitos outros artistas que não estiveram no show de 1982 mas fazem parte da mesma movimentação (embora a diferença de gerações), como Nei Lisboa, Hique Gomes, Nico Nicolaiewski, Giba Giba, Almôndegas, Kleiton e Kledir, Cláudio Levitan, Maria Lúcia, Jerônimo Jardim, Totonho Villeroy, Loma, e tantos mais, não destoariam do clima no palco da Reitoria – embora, neste caso, fosse necessário fazer um festival com mais de um dia de duração. Em todo caso, assistiam a tudo, discretos na platéia, nomes importantes como Wanderley Falkenberg e João de Almeida Neto (este representando o lado rural da música gaúcha).


Linha evolutiva
No embalo da apresentação, gente que nunca abre a boca – como o mestre da batida Fernando do Ó – sentiu a emoção do momento e emocionou também o público, ao pedir a palavra. Do Ó revelou a sua saudade de Geraldo Flach e que foi o falecido compositor e pianista quem o lançou como percussionista – até então, era guitarrista.



Apesar do tom de grande improviso, o show na UFRGS também deixou espaço para uma série de artistas mais (ou menos) recentes, de Marcelo Delacroix à Adriana Defenti e os grupos Fruet e os Cozinheiros e Cidade Baixa, que mostraram grande talento, lançando à frente a tal linha evolutiva da MPG. Enfim, para fazer mais, só mesmo um festival da música popular gaúcha, com mais de um dia de duração. Ou “música popular gaúcha”, nos dias atuais, já não faz muito sentido?




segunda-feira, 18 de junho de 2012

Poetando

Céu do Mercado




José Antônio Silva



Por entre as aletas

que fazem voar

o céu do Mercado

chuviscam pardais



que rasam farelos

de chão e de mesas

como pistas de caça

na água das cervejas



ciganos

magicos

ladrões escolados

sobreviventes



pardais pisam

sem medo nem pressa

no rastro das gentes.



sábado, 9 de junho de 2012

Crônica Minha


Ivan Lessa morreu. Quem é mesmo Ivan Lessa?


José Antônio Silva

Do final dos anos 60, passando pelos 70 e indo adiante, uma das mais talentosas formas de resistência cultural à Ditadura Militar atendia pelo auto-depreciativo nome de O Pasquim. Jornal tablóide semanal (ou hebdomadário, como preferiam os pasquineiros), o Pasca foi fundado em 1969 pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Típico representante da boemia intelectualizada da Zona Sul carioca da época (mesmo que seu editor-chefe – Tarso – fosse um gaúcho de Passo Fundo), o Pasquim já entrou em campo revolucionando a linguagem, usando e criando gírias, inserindo no jornalismo o falar coloquial, e com isso acabando com a formalidade do jeito de escrever da imprensa brasileira.

Seus temas iniciais, com a cautela que a época recomendava, eram a crítica de costumes e cultural, a liberdade sexual, comportamental – mas com uma subentendida oposição ao regime militar, usando a arma corrosiva do humor. Não demorou quase nada para incluir em seu leque de assuntos, claramente, a política, a economia, a política internacional e outros tabus da época, mas (quase) sempre com uma pegada leve, satírica, criativa, com um jogo de corpo que lhe conferia todo um diferencial, frente a outros jornais de oposição à Ditadura.

Além de artigos provocadores e debochados, uma de suas principais marcas foram as grandes entrevistas, regadas a uísque, que abriam a boca dos entrevistados (e dos seis ou sete entrevistadores sempre presentes). Charges e tiras de humor reuniam os maiores cartunistas e ilustradores da imprensa na época – que já sentiam o fechamento de espaços profissionais, frente ao endurecimento e a direitização dos grandes jornais da época, que apoiaram ou foram aos poucos aderindo à ordem unida dos militares.

Lá estavam feras do primeiro escalão, como o já citado Jaguar, Ziraldo, Henfil, Claudius, Fortuna, Millôr, e outros jovens colaboradores que começavam a surgir, como Nani, Reinaldo (um dos criadores do futuro Casseta e Planeta), Paulo Caruso, Angeli, Edgar Vasques...

Jaguar, é bom destacar, criou – com Ivan Lessa - o personagem símbolo do Pasca, o ratinho Sig (de Sigmund Freud), que saiu de uma tira sobre a boemia da praia de Ipanema para fazer comentários hilários, de pé de página e duplo sentido, sobre os principais assuntos abordados em cada edição, ou mesmo sobre a nebulosa e por vezes tétrica conjuntura brasileira...

No texto, além dos artigos de Cabral (crítico de música e pai do atual governador carioca) e Tarso (que esbanjava deboche e ironia em suas crônicas), também brilhava a coluna “Underground”, de Luiz Carlos Maciel, intelectual e homem de teatro antenado na contracultura – uma das vertentes rebeldes que colocava em polvorosa a ordem estabelecida, em todo o mundo ocidental. Sem falar em Paulo Francis, jornalista cultural prestigiado e analista internacional brilhante, no auge da forma, então ainda um homem de esquerda. E é nesse grupo que pulsava - à última página do jornal - na coluna “Gip Gip! Nheco Nheco!” o tal de Ivan Lessa, com ilustrações de Nani. Lessa era um grande frasista e não menos talentoso cronista de humor.

Numa época em que a repressão a qualquer forma de resistência à Ditadura era violentamente contida (aliás, toda a redação do Pasquim foi para a cadeia, entre novembro de 1970 e fevereiro de 71), e em que a mídia tentava passar uma mensagem de normalidade e de bons sentimentos à população, Ivan se saía com essa: “Amar é... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no IML”. Ou: “O brasileiro tem os dois pés no chão – e as duas mãos também”. Sobrava pra todo mundo: “Baiano não nasce – estréia”.

Porém, o filho inquieto do escritor Orígenes Lessa não aguentou por muito mais tempo o clima ensolarado mas cinzento do Rio de Janeiro da época, e bateu asas para Londres, em 1978, onde foi trabalhar na BBC e onde viveu até agora, aos 77 anos, sob um céu cinzento mas respirando liberdade. Lá escreveu três livros. Porém, carregando sempre uma indisfarçável nostalgia da terra natal, que ele combatia com doses de puro e duro sarcasmo. Assim Ivan “O Terrível” Lessa, em plena Ditadura, completou e deu o troco ao slogan do regime militar (“Brasil, ame-o ou deixe-o”): "O último a sair apague a luz”.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Poetando

Plano B


José Antônio Silva



Acostamento

escada de incêndio

buraco na cerca

saída de emergência

porta de serviço

caminho das pedras

trilha no banhado

volta comprida

pelo taquaral.



Gerações e multidões

jamais pousaram

uma única vez

a planta dos pés

na direta

simples

adequada

e ampla

estrada principal.




domingo, 22 de abril de 2012

Crônica Minha

O país que não gosta dos índios


José Antônio Silva


A rigor, como diz a canção de Pepeu Gomes e a gente repete, todo dia era dia de índio. O 19 de abril foi escolhido como data oficial pois marca a abertura do 1º Congresso Indigenista Interamericano, em 1940, no México. Mas o fato é que os brasileiros – e os povos das Américas, do Norte ao Sul – na verdade não gostam, viram as costas aos índios. Os vizinhos Uruguai e Argentina mantiveram “campanhas índias” que não devem em nada, em termos de genocídio, ao que representam Buffalo Bill e o General Custer (“índio bom é índio morto”), dos EUA. Aqui mesmo no Brasil, temos uma história coalhada de trapaças, invasões, traições, massacres e abandonos sofridos pelos donos dessas terras (donos desde 12 mil anos atrás, quando vieram da Ásia, através do Estreito de Bering).


Por falar em abandono, no Rio Grande do Sul e em outros estados sulinos os indígenas – basicamente guaranis e caingangues (e alguns remanescentes charruas) - são praticamente invisíveis. Não que não estejam aqui. Mas só os vemos de passagem, sentados no piso duro das cidades, vendendo discretamente seu artesanato. Ou vivendo de modo miserável – num mix de taba e favela – em barracas ao longo das estradas. Os que moram em reservas, sobrevivem precariamente, inclusive com toda sorte de problemas de saúde ofertados pelos brancos, incluindo-se aí depressão, alcoolismo (e até drogadição pesada), desnutrição infantil, obesidade, hipertensão, diabetes.


Que tal, índio velho?

Em compensação (digamos assim), a sociedade brasileira batizou com nomes indígenas várias cidades, rios, montes e outros acidentes geográficos. Nós, gaúchos, costumamos homenagear no cotidiano o traço de sangue nativo que corre nas veias de boa parte da população riograndense: “Que tal, índio velho?”, nos saudamos. Mas é evidente que para os 33 mil indígenas que ainda vivem no Rio Grande, isso não compensa coisíssima nenhuma.


Hoje a população de índios brasileiros, acredito eu, vive em pelo menos três condições diferentes. Inseridos na realidade mais dura, estão os vendedores urbanos de objetos nas calçadas, moradores das periferias das grandes cidades, que se deslocam em ônibus lotados, junto a trabalhadores, com seus balaios, flechas e animais esculpidos em pedaços de madeira, cercados de crianças pequenas, até o centro das cidades, onde passam o dia tentando ganhar dinheiro suficiente para comer. Cada vez mais distantes de suas raízes, também vivem isolados da sociedade civilizada, e pouco ou nenhum apoio obtêm de prefeituras e outros órgãos de governo.


Em outra situação – mas não menos difícil – acham-se os indígenas que vivem em reservas ou toldos, em municípios do interior. Não raramente envolvem-se em conflitos agrários com colonos e agricultores, a quem acusam de lhes terem surrupiado terras. Conflitos pelo poder interno, dentro das reservas, geram brigas e até mortes, por tiro ou facada, entre os indígenas, e o alcoolismo é um problema sério – e natural, frente à ausência de projeto ou perspectiva existencial. Os sucessivos governos federais e dos estados, através da Funai e de secretarias de saúde, educação, etc, oferecem algum apoio, vacinas, medicamentos, por vezes há até escolas que não apenas alfabetizam crianças e adultos, mas têm até professores de etnia indígena, que procuram passar a língua e a cultura nativa às novas gerações. Mas nem sempre as verbas chegam, ou a escola fica pronta; tantas vezes a casa construída pelo governo é inaugurada com as paredes já rachadas, o médico não aparece, os remédios terminam perdendo o prazo de validade...


O saldo, com certeza, ainda é muito cruel com estes índios, que enfrentam – como seus irmãos instalados nas periferias urbanas – falta de perspectivas reais de vida e futuro, ocupação, um projeto que os unifique. Uma equação difícil, que implica em torná-los aptos a sobreviver dignamente na sociedade “branca” mas sem perder seus costumes, sua cultura, idioma e tudo que os distingue e os unifica como uma das etnias fundadoras do Brasil.


A vida nas selvas

Neste sentido, os indígenas que vivem no Parque Nacional do Xingu e em outras reservas indígenas na Amazônia e Centro-Oeste parecem ter conquistado uma situação melhor que seus congêneres de outras regiões do país. Costumam ter rios e matas razoavelmente preservadas, onde podem levar seu modo de vida tradicional, de caça, pesca, suas festas, cerimônias e costumes, ao mesmo tempo que, em vários casos, contam com as modernidades da civilização para tornar sua existência menos dura – computadores, carros, lanchas.


Porém, resistem ao avanço e a ameaça constante e gravíssima sobre suas fronteiras, por garimpeiros, por madeireiras, por estradas e pistas de vôo ilegais, por desmatadores, pela pressão de políticos e fazendeiros, por grandes hidrelétricas (como Monte Belo), e acima de tudo, pelo agronegócio, que a tudo invade com seu gado e suas imensas plantações de grãos... Estes índios da selva convivem ainda com a crescente poluição dos seus rios e cursos d'água por agrotóxicos e por metais pesados da mineração, que acabam com os peixes e a caça e podem vir a acabar com eles, os índios – enquanto tal.


Conforme disse no início deste texto, apesar de todas as festas nas escolas no Dia 19 de Abril, a sociedade branca, no fundo, “não gosta” dos índios. Afinal, como fantasmas anacrônicos, eles representam a natureza que resiste a ser explorada, destruída e transformada para virar progresso (e lucro, claro).


A tragédia humana e cultural dos nativos americanos, enquanto o planeta sofre e acusa os efeitos de uma destruição contínua, é um exemplo do que também pode acontecer à Terra e a todos os seus habitantes. E confirma a razão contida nas palavras do chefe indígena Seatlle, da América do Norte, frente ao avanço branco sobre as pradarias no século 19: “Tudo que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”. A luta dos índios é a luta de todos nós. Tá ligado, irmão?

sábado, 14 de abril de 2012

Poetando

Semanária


José Antônio Silva


Terça-feira

- ainda é cedo, a vida convida


Quarta-feira

- ando rápido, tudo é atraso


Quinta-feira

- falta algo para alguma coisa


Sexta-feira

- carga e ponto de fuga


Sábado

- na manhã, até a chuva tem cara de sol


Domingo

- por trás da paz, ansiedade espreita


Segunda-feira

- baixo os olhos e mergulho na multidão


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poetando

Ecuassão nummerolójyka

José Antônio Silva


Era positiva...
a configuração numerológica
mas algarismos nunca foram o seu forte.


Erou ass quonttas
perrdeo ho rrummu
i aa çorty.


Agora aposta no azar
letra por letra
até a hora da morte.

sábado, 3 de março de 2012

Fotografia








Retratador profundo da Porto Alegre fugaz


José Antônio Silva


Para ser um fotógrafo, creio eu, é preciso inquietação, inquietação física. É preciso caminhar e olhar o mundo, ainda que seja o mundo do nosso bairro. Nos últimos anos, um dos fotógrafos que melhor percorre Porto Alegre (e a cidade, esta dama volúvel, parece gostar de ser percorrida por ele), é o Ricardo Stricher. Essa perambulação boêmia e dispersa, vadia, pois inquietação não se confunde com ansiedade, vem produzindo algumas das mais interessantes e belas cenas usuais – noturnas e diurnas – da cidade.




Há uma chegada tão natural do fotógrafo à cena ou ao personagem em que bateu o olho, e com o qual criou empatia imediata, que quando se vê já se formou o foco e está lá a imagem congelada, na perspectiva certa, no visor.




Aparentemente, não há rebatedor, não há uma troca frenética de lente, não há aquele supertratamento de imagem no computador: ele já mostra o resultado no ato, aos amigos e desconhecidos presentes - é aquele abraço! Prato feito na hora, com os ingredientes que estiverem à mão.



Não foi sempre assim. Este andar interminável, em dias de sol e chuva, frio e calor, lua e estrelas, com a máquina pendurada



ao pescoço, em trinta anos de deambulação - que simplesmente é o que é - levou Stricher a algum lugar especial.




De bermudas desfiada, sem teorização, com a filha pela mão e a máquina na outra, o cara transformou-se num mestre da imagem urbana – sem mensagem, sem denúncia, sem formalismo (embora, é claro, tudo isso esteja lá).




Esse, que refinou seu olhar pelas ruas, bares, praças, transformou-se no retratador profundo e captador certeiro de uma Porto Alegre fugaz - mas perene. E nos surpreende com o que, por incrível que pareça, sempre esteve ali.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Televisão


O mundo moldado pelos seriados da TV


José Antônio Silva


Papai sabe tudo, Patrulheiros Toddy, I love Lucy, Rin Tin Tin, Minha amiga Flicka, Perdidos no espaço (grande sucesso!), Patrulheiro Rodoviário (Brasil!), Missão Impossível, O homem do rifle, Bonanza (foto ao lado), O homem de Virgínia, Feiticeira, Viagem ao fundo do mar, O fugitivo (angustiante!), Bat Masterson, Jornada nas Estrelas, O agente da Uncle, Cidade Nua (clássico!), Combate, Dr. Kildare, Casal 20, Hawai 5.0, Kojak, As Panteras, Columbo, Dallas, Magnum, Sex and the City, Nova York contra o crime…

A história da formação cultural – e em especial a memória visual (e sonora, com grandes trilhas) - de gerações inteiras de brasileiros (e do mundo inteiro), a partir da segunda metade do século passado, acredito eu, passa bem mais pela TV e seus então chamados “enlatados” norte-americanos do que pelo cinema. Afinal, a partir do momento em que, nos anos 60, a televisão se espalhou pelas casas em todo o país, ela demarcou seu reinado sobre corações e mentes.

Os seriados criados pelos americanos para a TV me parecem, formalmente, uma recriação dos seriados (e também das novelas) de rádio. Que por sua vez são adaptações para as - então - novas mídias, dos folhetins de jornais do século XIX e início do século XX.

Consenso planetário
Essa enxurrada ininterrupta de produções para a TV
(assim como o cinema, claro) não apenas divertiram e prenderam nossa atenção, mas também espalharam, mundo afora, a visão, o way of life norte-americano e seus valores. Enfim, fizeram a cabeça de gerações, defendendo os interesses do EUA, apresentados como sendo um consenso planetário indiscutível. No enredo de muitos seriados, ações terroristas do FBI e da CIA em várias parte dos mundo, praticadas por simpáticos, idealistas e charmosos heróis americanos, eram apresentadas com naturalidade e como meros excessos justificáveis, na luta do bem e da verdade contra populações e autoridades sempre ignorantes, cruéis, preguiçosas e corruptas.

Mas o fato é que o mundo foi mudando sua configuração geopolítica, a guerra fria esfriou, o neoliberalismo chegou arrasador e atirando para todos os lados – como um herói da CIA no meio dos nativos - e o mundo todo (inclusive os EUA) ainda luta para colocar o nariz para fora da água, depois dessa tempestade.

Seja como for, é de 1998 a estréia de um clássico feminino (que terminou virando filme) - Sex and the City, com sua peruagem explícita encenada nas galerias cult, apartamentos chic, bares e ruas novaiorquinas, que deixou a mulherada do mundo inteiro com os pneus arriados por Manhattan. O equivalente masculino – muito mais escrachado e abertamente humorístico – poderia, talvez, ser Two and a half man.

A partir dos 80/90, as produções seriadas para a TV buscaram novos focos e criaram ou revitalizaram antigos temas. Caso da série Plantão Médico (que lançou o competente George Clooney), que deu novo gás às antigas séries médicas e hospitalares. Universo que chegou ao seu ápice com o texto esperto e irônico do genial personagem House.

Tolerância e igualdade
É preciso reconhecer que a TV também foi, e continua sendo, instrumento de divulgação de valores de tolerância, igualdade, idealismo. A partir dos anos 90, seriados passaram a divulgar em tom humorado o dia a dia de famílias de classe média negra americana (Eu, a patroa e as crianças) - afinal, as lutas da década de 60 pelos direitos igualitários e outras medidas tiraram muita gente da pobreza, dando-lhe dignidade, educação, oportunidades e melhorando suas condições. Apesar de a sociedade americana ser rachada por linhas invisíveis – no entanto, muito fáceis de perceber – que dividem a população em grupos étnicos ou culturais, o que, aparentemente, nunca vai mudar.

A velha tradição dos “filmes de tribunal” ganhou seus seriados, como Lei e Ordem, que critica a hipocrisia das instituições dos EUA e uma justiça que está longe de ser ideal. CSI leva as investigações criminais a outro patamar de interesse, a partir de um banho de tecnologia para a solução de casos, apontando para a possibilidade de uma polícia menos violenta e mais embasada em indícios e provas laboratoriais indesmentíveis. CSI chama a atenção para a loucura urbana e os dilemas – inclusive éticos e morais – frente às perversões nos chamados crimes sexuais.

Produção brasileira
Detentores de um know how desenvolvido ao longo de muitas décadas, os estúdios norte-americanos que criam e lapidam novos seriados para a TV, continuam servindo de modelo para as produções semelhantes mundo afora.
Vale lembrar que os anos 90 trouxeram para a televisão brasileira, especialmente a partir da institucionalização do cabo, muitos seriados de outras procedências e boa qualidade. Tivemos ótimos exemplares franceses (Paris contra o crime), britânicos e até canadenses. Sempre interessantes, bem interpretados e com as características dos respectivos povos, mas em temporadas esporádicas.

Para além de suas famosas novelas, o Brasil – desde o simpático Vigilante Rodoviários, nos anos 60 – no decorrer das décadas criou e botou no ar muitos produtos de qualidade, com um toque de originalidade e sabor local. É o caso das enrascadas do repórter investigativo “Waldomiro Pena” em Plantão de Polícia, ou dos caminhoneiros de Carga Pesada, ou ainda, mais recentemente, Nove milímetros e Força tarefa - histórias calcadas na crua realidade policial das grandes cidades brasileiras, com seu desfile de injustiças, abuso de poder, crimes, algum idealismo.

O humor tem forte destaque na grade brasileira, assim como a crítica de costumes, desde Aline (e seus dois namorados) até Tapas e beijos. Evidentemente, a multiplicação de opções nativas para os seriados também amplia o mercado para atores, técnicos, diretores, roteiristas e outros profissionais brasileiros, para além do modelo novelão. Mas ainda há muito o que criar e desenvolver.

O Brasil tem talento, mas ainda não parece ter acumulado maturidade suficiente para produzir um seriado como Mad Men (abaixo), que a partir da realidade de uma agência de publicidade novaiorquina, dos anos 60, esquadrinha, desmonta e revela, com arte, o cinismo e a hipocrisia do modo de vida americano (e da própria mídia), representado pela família perfeita das propagandas de margarina.

Não, ainda não chegamos lá.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Jornalismo


A última entrevista do delegado Fleury, o torturador


José Antônio Silva


No início de uma tarde de abril de 1979, o telefone tocou na redação do jornal dominical Shopping News, do Grupo Diário Comércio e Indústria (DCI), de São Paulo. No outro lado da linha, um assessor do temido e odiado delegado Sérgio Paranhos Fleury, deu a resposta que os jornalistas da casa esperavam há meses: “O doutor Fleury vai conceder a entrevista à vocês”. Não era pouca coisa.


Diretor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) paulista, Fleury tinha sido o principal líder do chamado “Esquadrão da Morte”, que executava sumariamente bandidos ou meros suspeitos de crimes. Mas, após ser convidado pelos comandantes da repressão do regime militar, em 1969, para liderar a polícia política, transformara-se no grande caçador de “subversivos”. Uma equipe coordenada por ele atocaiara e matara o guerrilheiro Carlos Marighella, em 1969. Era apontado - pelas vítimas que sobreviveram – como um dos mais cruéis e aplicados torturadores nos porões da ditadura.


Entrevistá-lo naquele momento, 15 anos após o golpe militar, e quando a anistia política era debatida em todo o país, seria um trunfo jornalístico e uma maneira de abordar temas escabrosos que ele, mais que ninguém, conhecia na intimidade. Mas havia um pequeno porém, que chegou a ameaçar a realização da matéria – a repórter que sugerira a entrevista e há meses batalhava por isso, declarou-se sem condições emocionais de conversar com o monstro.


Irritação
Terminamos - o editor Pedro Thamer e eu, repórter - indo ao então quartel-general de Fleury, o Departamento de Investigações Criminais da Polícia (Deic) paulista, no dia 18 de abril, e conversamos com o delegado em seu gabinete. Pouco revelou: irritou-se, ofendido com a relação de perguntas que havíamos elaborado na redação. No fim, disse que contaria tudo no livro que iria escrever; pensava em se aposentar e deixar o Brasil, naquele período em que avançava a abertura política – lenta e gradual, como determinara o general-presidente Geisel. Ao final da tensa conversação, Fleury disse que iria responder às nossas perguntas por escrito, “nas próximas semanas”. E, questionado, afirmou que não temia ser assassinado: “Os comunistas são todos covardes”.


Sem autópsia

Treze dias depois, o delegado-torturador, então rico e condecorado como herói pelo Exército, Marinha e Governo do Estado de SP, morreu em Ilhabela, aparentemente afogado perto de seu iate. “Aparentemente”, pois o regime militar não permitiu que seu corpo fosse autopsiado. O resultado da tentativa de entrevista está aqui ao lado, em matéria redigida por mim e publicada a 6 de maio de 1979. Sim, é verdade: ele nunca chegou a responder o nosso questionário.


(Para ler, clique sobre a página impressa e dê control +)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Poetando

Guerreiro


José Antônio Silva


Calmo e atento como um grande guerreiro, avancei minhas espada ao coração dela, quando o instante preciso chegou e o flanco se abriu, em lábios e olhar. Tudo era propiciatório e os deuses a empurraram para mim, pois assim devia ser – caso eu mostrasse merecimento. Para isso,devia estar sempre preparado, pronto para o – talvez – único momento certo, aquele e somente aquele. Do jeito que acontece – um, dois ou três segundos – quando a lua exibe-se inteira entre o rápido movimento das nuvens escuras, em noite que promete tempestade.


Calmo e atento como um cavaleiro do Graal, cravei minha lâmina em seu coração vermelho, no ponto que devia, movido por aquele tipo de vontade tão intensa que já superou qualquer dúvida – ao menos ali e então – e transforma-se em confiança na vitória, sem um grão sequer de arrogância.


Calmo e atento como um samurai, retirei de seu coração a espada sangrenta, embora meus olhos estivessem presos aos dela, e com um passo atrás, em gestos que já pareciam não me pertencer, a enfiei em meu próprio peito.


Nosso pacto de sangue, silêncio e paixão ainda queima em meu coração, que não é mais meu.