Não duvido que ouvir, evidentemente, mas também ver, músicos solando seus instrumentos em jam sessions privadas ou concertos públicos, totalmente entregues aos improvisos, pode ser chato para algumas (ou muitas) pessoas. Pobre gente.
A um só tempo individualizada e integrada, num plano mais alto e raro, arranjando/harmonizando na hora melodias e ritmos, descobrindo/inventando concomitantemente – no jazz, no blues, no chorinho, no rock, no tango, no merengue, na bossa nova ou em qualquer outro gênero ou subgênero que conceda espaços amplos ao vôo da alma através da sonoridade –, a ação destes artistas é uma grande experiência sensorial.
Maior que esta somente se você estiver tocando (bem ou mal - isso não interessa muito, ao menos para você...), mas tocando com toda a entrega possível à Deusa Música.
Olimpíadas sonoras Ou a uma das deusas e deuses da música. A deusa olímpica seria Euterpe, dividindo a ópera com sua irmã Aede, cantora. Para não falar de Apolo, regente titular do setor.
Os caras – vibrações, por falar nisso? – também estavam presentes no Egito, com Tot e Osíris. Na Índia, claro: e dê-lhe Brahma! Entre os hebreus da antiga, via Jubal.
Pitágoras, voltando para a Grécia, foi um humano genial, que entre muitas outras coisas inventou um instrumento para determinar matematicamente as relações entre os sons, o monocórdio. Mas parece que os críticos nasceram juntos com os artistas: Lassus, 540 A.C. também na península grega, foi o primeiro a teorizar sobre a música.
Holística chinesa O Oriente também tinha os seus: Lin Len, 234 A.C., ministro do imperador chinês Haung-Ti, estabeleceu a oitava em doze semitons, aos quais chamou de doze lius. Esses doze lius foram divididos em liu Yang e liu Yin, que correspondiam, entre outras coisas, aos doze meses do ano. Quer dizer, uma visão holística pós-moderna na Antiguidade, comprovando que tudo é tudo e nada é nada, como dizia o mestre cantor Tim Maia: “Mais retorno! Mais grave! Mais agudo! Mais tudo, porra!”.
Em Tempo Hábil I – Na foto ao alto, minha homenagem ao irlandês Rory Gallagher, um dos grandes da guitarra, falecido em 1995, aos 47 anos, e hoje esquecido.
Em Tempo Hábil II - As abobrinhas e sacadas opinativas óbvias do texto acima são minhas; as informações históricas sérias eu surrupiei do Renato Roschel, num artigo sobre a origem da música no seguinte endereço:
Instituto LavLiv de Neurolingüiça Tremada
desvenda a fala da mídia José Antônio Silva
Com o objetivo de melhor traduzir aos leitores os termos e expressões técnicas corriqueiramente utilizadas pela isenta e combativa Grande Mídia Brasileira Ilimitada, apresentamos aqui os resultados, ainda parciais, de levantamento coordenado nos últimos anos pelo Instituto LavraLivre de Neuro-Lingüiça Tremada e Hifenizada. Os resultados da pesquisa de campo, praia, montanha e piscina, foram colhidos e computados por nossos bolsistas/estagiários/não remunerados e mal agradecidos, que sequer vieram trabalhar no Natal e Ano Novo. Mas, qualquer problema, a culpa maior é das fontes – que hoje em dia estão quase sempre poluídas. Enfim, taí. Aquecimento global – Essa é quente! Do que é que tanto reclamam? Vai aquecer (ôpa!) a indústria de condicionadores de ar e splits. E se não faltar um gelinho pro uísque, tudo bem.
Auto-regulamentação publicitária - Inspiradora fábula infantil, na qual a personagem raposa boazinha protege o galinheiro.
Campeã de audiência - É pra quem pode, e não monopólio da comunicação, seus invejosos!
Celebridade – Loira, geralmente de fármacia, mas sempre ignorante e gostosa. Outra versão colhida pelos pesquisadores diz que celebridade é aquela mina que tem “célebro”.
Colaborador - A pessoa que ajuda, que é do bem, entende?, mesmo que seja empregado, funcionário ou trabalhador.
Consumidor - Nome muito mais fashion do aquela velharia de “cidadão”!
Créditos de carbono - Oportuna forma de investimento “verde”, que alguns tentam distorcer, acusando de “suborno mundial para continuar poluindo”.
Déficit Zero no RS – Elogiável obra de equilíbrio fiscal do governo, mesmo que torne deficitária e desequilibrada algumas bobagens como saúde, educação, meio ambiente, assistência social.
Empreendedor – É mentira que seja um desempregado desesperado tentando qualquer negócio – até mesmo virar empresário na marra.
Estágio não remunerado – Ótima oportunidade dos jovens adquirirem experiência: jamais exploração de mão de obra!
Flexibilização da legislação ambiental – Forma de garantir pogreço rápido mas sustentável – sustentando principalmente, é lógico, quem elabora a flexibilização.
Jornalismo Econômico - Um trabalho sério de assessoria de imprensa à bancos e grandes empresas.
Liberdade de imprensa – Às vezes escapa “liberdade de empresa”, mas também não é assim! Não dá pra dizer que o que eles defendem mesmo é uma liberação absoluta para as megaempresas de comunicação fazerem o que quiserem. Claro que não.
Ministério Público – Órgão da sociedade para desvendar mistérios privados envolvendo dinheiro público.
Parceria – Fazer uma parceria público-privada (PPP) é uma alternativa válida, não tem nada de mais – porém, sempre aparece um traíra para gravar o acerto das porcentagens!
Abecedário Musical Impressionista – 6ª Leva José Antônio Silva
Ângela Rô Rô – Blueseira-emepebista mais autêntica da pátria amada. No fim da viagem, barcas da loucura naufragadas, deu à praia com vida, agarrada ao piano, e ainda riu disso tudo, com a voz que lhe resta: ro-ro-rô.
Bebeto Alves – Gaudério pop. Milongueiro elétrico. Encontro de mundos, a memória do pampa nas pegadas de suas botas urbanas, nas cidades de seus amigos. Inconformado sempre, seguidor fiel das próprias intuições.
Carmem Miranda – Mostrou ao mundo o que é que a portuguesa tem – porém com tempero totalmente brasileiro. Sensual, exagerada, vibrante, pré-tropicalista, causou terremoto em Hollywood. Taí: ela fez tudo para gostarem dela, mas disseram que voltou americanizada.
João Gilberto – Dim dom, dim dom. O dom do djin, o dom do gênio.O poder de valorização das mesmas e repetidas células sonoras, as mesmas canções atravessando décadas, até se tornarem mantras hipnóticos. Sua velha bossa é sempre nova.
Lulu Santos – Talvez ele seja o último romântico, mas certamente é o primeiro colocado entre os baladeiros pátrios – fabricante, no bom sentido, de autênticos clássicos do pop brazuca. Faz o gênero dândi tropical; a música o garante.
Martinho da Vila – Da mítica Vila Isabel, cheio de mânha, falar arrastado, o canto confundido com o sorriso. Malandro doméstico, cronista social irônico, sambista consagrado. Pra que dinheiro? A filha comprova que na casa dele todo mundo é bamba. Nelson Cavaquinho – Tire seu sorriso do caminho que ele quer passar com a sua dor. E passa e vamos atrás. Sambista deprê, boêmio clássico de botequim: viola (e até cavaquinho), cachaça, mulher e poesia. Um dos grandes.
Pitty – Encarnação dos opostos em terras místicas da Bahia. Anti-Sangalo, um vento punk feminino, cercado do braseiro do axé por todos os lados. Segue a linha baiana do rock: Raul-Marcelo Nova-Pitty. Gatatuada, piercings e atitude, quer um mundo novo que seja admirável.
Atrasado para um compromisso profissional, atravessava com passadas rápidas o Largo Glênio Peres, no centro antigo de Porto Alegre, por volta da uma da tarde do dia 23, quando fui surpreendido por uma tradicional canção de Natal - “Noite Feliz!” -ecoando entre o burburinho urbano e humano e os belos prédios do Mercado Público e da Prefeitura.
O som partia e espalhava-se através das caixas instaladas em uma caminhonete ali estacionada, que acredito ser de uma igreja evangélica. Não importa. A música, cantada com voz forte e afinada, valorizava a letra singela. E sem saber por que exatamente – lembranças da infância, talvez? Necessidade de crer em algum poder superior para nos salvar? – me emocionei.
Senti que, a despeito da minha vontade, meus olhos eram tomados por lágrimas. E atravessei a rua movimentada, desviando de mulheres - especialmente mulheres - carregadas de sacolas de presente. Um jovem mendigo, sob as colunas de um prédio e sobre as lajes da calçada, vestindo apenas uma calça velha, ronronava de boca aberta. Em tese, era Natal para ele também, assim como para todo o mundo ocidental cristão. Mas provavelmente ele não sabia disso, e ninguém parecia considerá-lo digno de fazer parte da festa.
Ao chegar perto do prédio onde entraria, lágrimas já secas, voltei a cabeça sem saber por que e vi: um homem entregava ao mendigo dorminhoco – agora acordado e surpreso – um pacote. À distância, me pareceu um panetone. O homem, talvez 40 anos, funcionário de algum escritório das redondezas, crachá ao pescoço, apertava a mão do miserável.
Pensei: será que faria o mesmo no resto do ano? Viajei, no espírito do momento: será que só conseguiremos salvar a Terra da degradação ambiental e do superaquecimento, para não falar da injustiça social, no Natal?
Após minha reunião, conversei com um amigo que trabalha naquela rua e contei o caso do mendigo. Meu amigo me garantiu que já viu o sujeito distribuindo presentes e gestos de solidariedade por ali quase todas as semanas, o ano todo.
Papai Noel existe, sem barba branca, sem trenó nem renas - nem consumismo. E tem o poder de encarnar em muita gente, agindo nos espaços do afeto e da extrema carência, no anonimato e sem publicidade, onde os programas dos governos, por melhores que sejam, não chegam.
O Natal comercial já descartou Jesus – o motivo de toda a festa, afinal. Mas para além do consumo exacerbado, talvez Papai Noel seja só um dos nomes fantasia, um dos disfarces utilizados pelo Espírito da Solidariedade para, em desespero de causa, tentar sobreviver.
Arrigo Barnabé – Trabalhador de vanguarda - de Vanguarda Paulista - soltando fumaça sobre o piano que misturou histórias em quadrinhos, cinema noir, rock, erudição e atonalismo. Autor de trilhas cinematográficas, continua na fita.
Cássia Eller – Mais uma estrela fugaz da grande safra roqueira/baladista brasiliense. Voz rascante, cheia de postura, canções e interpretações acima da média. Quando todos começavam a prestar real atenção... já foi! Mas ficou.
Cazuza – Compositor/intérprete mais importante da música popular brasileira nos anos 80, cenário de seu nascimento artístico, afirmação e martírio público. Não tinha a língua presa: já condenado pela Aids, injetou na canção pop alta dose de ousadia e indignação. Aliás, mais uma dose, e é claro que ele estava a fim.
Giba-Giba – Totem da música negra no sul do Brasil, cantor, compositor, carnavalesco, recuperador e divulgador do sopapo (sem violência!) – ponte entre África e cultura gaúcha -, Giba-Giba é pessoa física, mas instituição cultural.
Gonzagão – Sanfoneiro cantador do meu Brasil. Não só naturalizou o acordeon em todas as classes, mas tornou sucesso atemporal uma composição trágica sobre a seca, ao lado do saracuteio do forró. Nasceu sob o signo de Exu, mas avoeja como santo protetor em toda a vibração dos foles, teclas e botões.
Teixeirinha – O maior golpe do mundo na vida dos fãs foi quando ele morreu. Mais famoso gaúcho-cantor-típico-exportação – numa formatação aperfeiçoada por Teixeirinha mesmo - o país todo cantava sua história triste. Baixinho, bigodinho aparado, foi herói e até galã de cinema. Nos próprios filmes, claro.
Zeca Pagodinho – Malandro suburbano carioca. Cervejeiro, escamoso, espertíssimo na divisão do samba e na ironia da levada. Chinelinho e bermuda forever, o corpo na Zona Sul, o coração em Xerém.
Quem não está no Abecedário
De vez em quando alguém me pergunta por este ou aquele instrumentista genial, aquela banda que marcou época, um letrista fora de série – e como é que fica o Abecedário Musical Impressionista nisso tudo?
Aí é que não está: não fica. Minhas próprias limitações, agravadas pela quantidade virtualmente inesgotável de grandes artistas da música brasileira, me fizeram restringir o já imenso campo da minha busca. Até por incapacidade de dar conta, ainda que aproximada, de todo o panorama da cognominada MPB, neste trabalho finquei pé só nos compositores de canções (em amplo sentido) e nos cantores.
Quer dizer: evidentemente gosto de muitas bandas de vários gêneros e épocas no Brasil (a bênção, Novos Baianos!), de muitos letristas iluminados (a bênção, mestre Aldir Blanc!), de tantos instrumentistas inacreditáveis (à bênção, Plauto Cruz!).
Mas só com a papa fina dos compositores e/ou cantores já tenho trabalho – e diversão, é claro - de sobra.
José Antônio Silva? Jornalista e escritor em Porto Alegre/RS.
Autor de dois livros de ficção (Diabo Velho, Ed. Mercado Aberto-RS; O nome do Fuínha, Ed. AGE-RS).
Dois de poemas (Tiques & Taques, Ed. Klaxon-SP;Lá vem o que passou, Col. Petit PoA, SMC-Porto Alegre).
Um de resenhas e ensaios jornalísticos (A Impressão da Cultura, Ed. Sulina-RS).
Participou de coletâneas de contos e poemas (Antologia do Sul – poetas contemporâneos do RGS, 2001, Assembléia Legislativa/RS; Sul/Sur – poetas do Cone Sul, pela Secretaria da Cultura do Estado do RGS).
E de edições independentes (Há margem - Porto Alegre e Vício da Palavra - São Paulo).
Como jornalista contratado ou como frila, andou por Zero Hora, Folha de S. Paulo, Editora Abril, Caldas Jr., Diário do Sul, Diário Comércio e Indústria, Veja, Isto É, Bizz - e muita imprensa alternativa, sindical e cooperativada.
Já deu aula de Jornalismo na Universidade, foi assessor de imprensa em prefeituras e governo estadual, hoje atua novamente como jornalista no SindBancários/RS, além de frilar como repórter e/ou editor para revistas e jornais, e ainda criar roteiros para TV, cinema e vídeo.