quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Crônica Minha
José Antônio Silva
No imenso mar da literatura, um oceano que molha os pés dos passantes distraídos até em lugares sem litoral, existem praias muito conhecidas, visitadas, cultuadas. Duas das principais são as da Poesia e a da Prosa. Ambas e cada uma delas, por sua vez, demarcam capitanias a perder de vista, englobando enseadas, baías e lugares de remanso com denominações específicas.
Para todos os efeitos, lá estão os côncavos dos romances, contos, novelas, ensaios, crônicas – e assim também os dos poemas, sejam líricos, épicos, românticos, parnasianos, modernistas, haicais, concretos, livres... E ainda a pequena república independente da Prosa Poética. Mas como se sabe, todas estas fronteiras são imaginárias, sem aduana nem guarda armada – embora alguns chauvinistas preguem contra a permissividade e a livre circulação de idéias, musas, gêneros e inspirações.
Comunidades alternativas
(Cá entre nós, leitores: também os trocadilhos, palavras cruzadas, charadas, parlendas, trovas, epigramas, travalínguas e palíndromos, entre outros rebeldes, mantêm suas próprias comunidades costeiras. Mas, vigiados e caçados com denodo por grupos do pessoal citado linhas acima, vigilantes do bom gosto clássico, de terno, gravata e cabelos muito bem aparados, aquartelados em academias e similares; assim como pelos irritadiços profetas do experimentalismo e da vanguarda, uns e outros armados e querendo flagrar e justiçar dissidentes – unidos nesse ponto, embora se odeiem. Enfim, desprezadas, ofendidas e barradas nos espaços nobres da literatura, as charadas e parlendas soltam gargalhadas em prováveis bacanais e sabás com os trocadilhos e palíndromos, embora sobrevivam em torno de fogueiras esparsas, no alto de morros costeiros e cômoros, entre ralos tufos de vegetação e tuco-tucos da areia. Não ligam para os olhares críticos e as vicissitudes: suas risadas fazem tremer as boas famílias literárias - ajoelhadas na cátedra, devotas da verdadeira literatura se benzem e pedem a maldição eterna para os sub-gêneros).
Mas deixando estas práticas exóticas em suas comunidades alternativas - depois de muita diversão ao lado delas, é claro - prosseguimos pelas praias literárias respeitáveis. Ou mais ou menos: velhos poetas malditos hoje atraem até excursões escolares, desde que o Deus Mercado reparou no seu charme, os canonizou e descobriu que, bem trabalhados, podem até dar lucro.
Palmeiras importadas
Convém evitar as baías chiques, com palmeiras importadas de Miami, com grandes lanchas e iates fundeados, freqüentadas pelos pauloscoelhos, sidneissheldons, dansbrowns e outros representantes da espécie Bestsellerium Escribae. Tome cuidado com seguranças, congressos de fãs em surto e correria atrás de autógrafos - e não pise desavisadamente em nenhum paparazzo, entre os espalhados pela areia ou escondidos atrás de um Rolls Royce, Bugatti ou Aston Martin.
Não-praia
A vida, no entanto, não é feita apenas de luxo e riqueza. Você há de chegar na praia – sóbria, rigorosa, disciplinada, quase uma não-praia – onde operam os críticos, praticamente sem sequer olhar para o mar. Eles são homens e mulheres com um missão, subdividida em setores, como a orientação e formação dos leitores, os conselhos aos autores promissores, a aferição de tendências mercadológicas, construção de teses de mestrado e doutorado, ensaios que iluminam. Uma parte importante de seu ofício é o desferimento de chicotadas desmascaradoras e punitivas em escritores nos quais detectem a prática de truques e táticas para enganar basbaques e que nada, absolutamente nada, têm a ver com a verdadeira literatura. Porém, a principal função destes estudiosos - também artistas e escritores – é descobrir o grande poeta ou romancista da atualidade, ou pelo menos de seu país, estado ou cidade. Missão perigosa, pois diferentes críticos jogam suas fichas (de anotação e leitura) em diferentes escritores, e a partir daí se criticam (eles, os críticos) dura e mutuamente. Em sua praia, não raramente, há manchas de sangue que a maré de cada manhã precisa lavar e levar.
Lugarejo
Vale lembrar, numa pequena enseada próxima, o lugarejo semi-abandonado dos resenhistas. Uma sub-classe dos críticos, formada por jornalistas free-lancer, professores, escritores, tradutores, diretores de teatro sem peça e outros interessados que faturam uns trocados - ou fazem de graça porque gostam, entende?, ou para “o nome circular” - comentando rapidamente os últimos lançamentos da indústria livreira, para jornais, revistas, sites e roda-pés culturais de house organs de supermercados e similares.
Solidão e recolhimento
Uma praia reservada é a dos romancistas – mais precisamente, o ponto nobre da imensa praia da Prosa. Independentemente da personalidade de cada um, operam na solidão e no recolhimento. Ao menos é esta a imagem projetada sobre a ampla faixa de areia que lhes cabe. O mesmo condomínio litorâneo por vezes acolhe novelistas (não, não os da TV!!! A praia desses é o Leblon, todo mundo sabe). Romancistas eventualmente abrem uma brecha entre os guarda-sóis para alguns novelistas, contistas - e até mesmo cronistas! -, que volta e meia são igualmente romancistas, até porque há casos em que uma mesma obra pode ser classificada em qualquer das denominações. O fato é que os romancistas, como categoria, são cônscios de que, já há alguns séculos, têm uma pesada responsabilidade social e artística - traçar um quadro de sua época, de seu povo, quiçá da condição humana, enquanto condição. Quietos, não são de muito riso, pois lhes sobra siso. Eventualmente abrem o coração para que outros profissionais da escrita, como os jornalistas, publiquem o que pensam. Quase sempre há bons bares nesta orla.
Mar Egeu
E não esqueçamos dos dramaturgos, com os pés fincados em alguma praia do mar Egeu. Hoje, coitados, já não sabem se produzem para o público rir, se chamam atores da TV para garantir o sucesso e a bilheteria, se conscientizam as massas, se partem logo para o musical ou ficam esperando Godot, que como se sabe era um Tim Maia radicalizado, pois não apenas se atrasava como nunca chegava. O próprio Gerald Thomas entregou os pontos e garante que não vai dirigir nunca mais. Os teatrólogos mais pragmáticos, considerando tudo, produzem monólogos - a produção fica mais em conta e é menos gente para dividir a renda, depois. A praia? É simples, mas tem seu cenário, sua luz e até seu figurino.
Serviço de fronteira
Em algum ponto, numa zona de fronteira – uma espécie de serviço da ONU ou da Cruz Vermelha, aberto a todos os gêneros literários – está a praia dos tradutores. Tradutores é apenas uma maneira simplista e inadequada de referência à estes profissionais: são transcriadores, operando numa chave de adaptação e reelaboração criativa. Os mais afamados são respeitados pelos autores originais, pois além dos méritos próprios garantem o sucesso de suas obras em praias distantes. Falam todas as línguas e muitos se confundem com embaixadores literários de culturas exóticas. Nem tudo são flores, no entanto, neste terreno arenoso: em caso de nada acontecer num lançamento internacional, o romancista ou poeta sempre poderá culpar o trad, digo, transcriador, que não transcriou o texto adequadamente e com as virtudes evidentemente contidas no original.
Bandeira vermelha
Ainda é possível passar por outros núcleos costeiros, como a comprida “prainha” dos autores infanto-juvenis (cujo público sempre dá uma canseira nos autores, pais, professores - e salva-vidas!) e, seguindo pela orla, desembocar no areal dos autores noir, pisando com cuidado para não destruir alguma pista preciosa ou comprometer a cena do crime.
E chegamos à praia dos poetas. Os há de todos os tipos, cores, modelos e estilos. Alguns acompanhados de violão (mas estes não seriam poetas de verdade, como nos alertam os críticos – voltar quatro praias atrás). Outros são funcionários públicos; muitos, diplomatas; brincadores de rua, com palavras ajuntadas ao gesto; outros, eternos estudantes; alguns, orgulhosamente, “poetas marginais” (cuja praia mais badalada era Ipanema; consultar professora Eloísa Buarque de Holanda); hordas de jornalistas bêbados; ripongos que vendem suas edições magrinhas nos bares da própria praia. Mães e avós, que de repente se descobriram ou redescobriram poetas (não, jamais poetisas!) em alguma oficina literária e voltaram a sentir tesão, pela vida. Senhores gordos, com barbas respeitáveis, mestres do verso experimental. Ágeis autores de frases poéticas de impacto imediato; poetas populares contando suas descobertas e verdades sofridas e singelas; beletristas do panteísmo, a saudar eternamente a beleza do pôr-do-sol; lapidadores incansáveis do verso perfeito; autores incompreendidos; cordelistas contando causos; versejadores de frases cabeludas e escatológicas; gaudérios despejando saudosistas façanhas imaginárias; jovens que ali encontram seu jeito de ver o mundo.
E mais poetas performáticos; gênios mal humorados; cultores de alexandrinos impecáveis; os últimos e irredentos poetas engajados; produtores de versos pop-publicitários; exercedores do poema-desabafo; perseguidores insaciáveis do novo e do que jamais antes na história desse país e desse mundo foi feito.
Nesta praia, como em todos os lugares, há grupinhos, mais ou menos fechados. Mas quando os versos começam a vibrar, a poesia escorre pela areia e acontece o momento em que autores, banhistas e passantes se unem, magnetizados. É a última praia, e a mais difícil de alcançar. Atenção à bandeira vermelha, à beira da praia da poesia: muitos que a conhecem, nunca mais querem sair dali.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Crônica Minha

José Antônio Silva
A beleza esvazia a denúncia? O apuro estético de uma foto de Sebastião Salgado – para citar um exemplo clássico - anula o horror que a originou e, de algum modo, segue retratado naquela foto? Ou, embora possa soar cínico, temos que reconhecer que tudo tem beleza, inclusive o horror?
Aquela foto, adquirida em uma galeria de arte, fulge na parede do escritório do figurão como um lembrete sobre a injustiça do mundo, a ser combatida, ou como obra estética a dar um pequeno e instigante choque de perversidade ao bom mocismo do ambiente?
Outra: é correto fazer a foto ao invés de largar a máquina e tentar ajudar aquele determinado ser humano em sofrimento? Somente desumanizando aquela pessoa e tratando-a como símbolo – e não como ser vivente e sensível, de carne e osso – para priorizar a feitura da foto? Mas a foto, afinal, não será útil para chamar a atenção do mundo sobre aquela situação, o que poderá evitar o sofrimento de outros tantos?
Sendo assim, a salvação de muitos deve ter prioridade sobre o sofrimento de poucos, ou de um? Esta regra está escrita em algum lugar? Ou vale mais tentar resgatar aqui e agora o que está ao alcance imediato de nossas mãos?
Seja como for, o que acha disso aquela vítima abandonada pelo fotógrafo? Ela – a vítima – a não ser que seja um santo ou um herói trágico, por certo não preferiria ser salva, a virar símbolo ou bandeira de alguma causa nobre? Ou ela, na situação de alto risco em que está, já não tem direito à escolha – mesmo que sua salvação imediata dependa de um primeiro e fundamental movimento do braço do fotógrafo?
Ele agarra o suicida que vai jogar-se do alto do viaduto ou, ao contrário, com ar lamentoso, escolhe a melhor lente para fazer a foto que venderá para o mundo todo, do homem jogando-se para a morte, num vôo plástico contra o pôr do sol?
Se o fotógrafo correr altos riscos pessoais – como os profissionais especializados na cobertura de guerras – seu ofício resta justificado? Trata-se de uma missão humanística, de denúncia, ou uma forma de conquistar a glória pessoal e profissional, numa viagem de adrenalina?
Será que há uma resposta para isso, ou as situações costumam misturar-se numa confusão, sem bem ou mal, que se chama destino? Será?
sábado, 14 de novembro de 2009
Livro
Minicontos e maxiqualidade
Aliás, para que esta criança sobreviva por si mesma, necessita ser assim, impecável. Pois não pode utilizar os recursos mais amplos das narrativas longas, com sua gama de climas, cenários e situações várias, e personagens à vontade. No presente caso, o autor só pode contar com a força concentrada do minimalismo.
Saindo das generalizações e fechando em close num exemplo concreto, temos em mãos “Minicontos e muito menos”, dividido meio a meio, como os valetes do naipe, por Laís Chaffe e Marcelo Spalding. Auxiliado por ótimas ilustrações sem meios tons de Alexandre Oliveira, o minilivro da Editora Casa Verde ( www.casaverde.art.br ) merece ser lido – e comentado.
Classudo, foge da tentatação de chamar de miniconto alguma frase de efeito ou uma piada – facilitário a que não resistem muitos outros praticantes.
Estes dois autores, aqui, provam que é possível ir longe com este ente literário de pernas curtas, o tal miniconto. Os climas, as sugestões, o duplo sentido, sobrevoam – do sublime ao sórdido - um quase nada de letras.
Confiram o acordo fáustico de Spalding, à página 22 do seu lado do livro:
Chegou tua hora, Serás moleque travesso, jogarás bola e bolita e botão, terás mulheres, filhos,
carro e emprego. Gostarás de ir à praia e conhecerás o Rio de Janeiro, comprarás casa, terreno, assistirás ao teu time ser campeão do mundo, mas, antes dos cinqüenta, um disparo repentino levará teus movimentos, tua voz, tua fome. Topas?
Cinco da madrugada. Convencem o viúvo a comer um sanduíche. Uma mosquinha ronda o presunto.
É... e que o tal sanduíche sirva de aperitivo, sem mosca, para que se abocanhe as demais histórias – minihistórias, com maxiqualidade.
Aliás, no caso, acho que já escrevi demais.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Crônica MInha
José Antônio Silva
Esse negócio de sair de um filme (ou parar de ler um livro) porque nos desagrada, nos incomoda... É de pensar: vigora hoje um mandamento não escrito segundo o qual só devemos fazer o que nos dá prazer imediato. Tudo tem que ser rápido, de preferência leve, e “divertido”. (Aliás, palavra que, no contexto, é um americanismo rapidamente absorvido e repetido por nós, a partir do cinema de Hollywood ou de declarações de roqueiros famosos: “Bem, você sabe... Vou tocar enquanto achar divertido”. Yeah!).
E o compromisso com sua arte, com sua vida, com a pulsão (no caso, de criar música)? Ou com a falta de outras alternativas viáveis e reais? E a responsabilidade com, digamos, filhos por criar, objetivos a alcançar ou a tentativa de contribuir com algo, por menor que seja, para que o mundo seja um pouquinho menos injusto e cruel?
Sei, é pedir demais. Afinal, no embalo consumista tudo vira descartável, a fila anda - estamos na vida a passeio.
Bem, você sabe... eu sinto muito, mas não é o que parece, e está longe de configurar um projeto sustentável.
Para elegermos “me divertir” como objetivo maior da existência – e há garotada de todas as idades repetindo este mantra – teríamos que ser monstros de egoísmo e alienação. E ainda assim nos esborracharíamos na primeira grande tragédia que interrompesse estas férias permanentes.
Voltemos ao filme ou livro abandonado. (Claro, há casos em que a obra é qualitativamente tão ruim que não há porque insistir. Não é ao que me refiro aqui).
Por vezes é bom exercitar a paciência e a perseverança, e terminar por aprender algo com o difícil filme/livro desprezado por nossa impaciência – inclusive o motivo de ter nos incomodado tanto de início. Poderemos sair dali até mesmo achando que, afinal de contas, a experiência não deixou de ser “divertida”.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
MPB
Arnaldo Baptista – Sempre andou meio desligado, mesmo quando era psico-elétrico. Um caso à parte, escutava o diferente que os outros não ouviam. Fez fusões e confusões. Uma tragédia rock n’ roll/tropicalista. Nunca saberemos até onde chegaria musicalmente - não tivesse
aprendido a voar de uma janela. Continua por aí, à procura de si, emocionando a platéia. Clementina de Jesus – Força da natureza, mãe preta/mãe África, voz grave e anasalada de lavadeira do Brasil, impõe que se lhe peça a bênção. Enxaguando corimas, jongos, lundus, incelenças e modas – desaguando no samba de raiz. Experiência forte. Mas vá sem medo: prazer sem ressaca.
Dorival Caymmi – Em ortodoxo ritmo baiano, Do – ri – val – Ca – y – mmi foi construindo sua obra referencial sem se preocupar se era obra e muito menos se era referencial. Aos poucos, quase sem sair da rede, queixando-se à/de Marina Morena, constatando que o mar que bate na areia é bonito é bonito, queiram ou não, foi conquistando o Brasil com seu jeito manhoso e suas canções praieiras todas próprias.
Jards Macalé – Uma das peças soltas na engrenagem azeitada da MPB, buscador de linguagens e soluções pessoais – incluindo o toque próprio de violão – lá pelas tantas assumiu-se como sambista continuador/herdeiro de Moreira “Kid Morangueira” da Silva, mas é menos e mais que isso. Esteve em todas as turmas e movimentos, mas o seu é um pequeno e sutil movimento pessoal, movimento dos barcos, viajando de Cantareira.
Lobão – Estilo sequela ligth, já criou várias e belas canções pop/rock para tocar no rádio blá, blá-blá-blá eu te amo. Vida menos bandida, mais perdida, a meio palmo do chão. Até João Gilberto abriu uma vaga em seu repertório secular para declamar “Me Chama”. Ao compor, a música regula a verbosidade descontrolada do Lobão das entrevistas.
Nara Leão – Voz muito afinada, pequena, algo de infantil forever. Doce fruto da burguesia protegida
da Zona Sul, descobriu o mundo exterior e seus problemas através da música e dos amigos músicos – o samba canção, a canção de protesto, a tropicália – após sua iniciação na elite bossanovista, da qual foi princesa. Olhos de ressaca, virou ícone de um Rio ainda suave, até porque não chegou a ver, ouvir e cantar o que viria. sábado, 31 de outubro de 2009
Poetando
José Antônio Silva
Somos duas ilhas selvagens e separadas por larguíssimo riomar, de canal profundo e correntes violentas.
Em nós vivem desde sempre macacos guinchadores e onças pintadas, palmeiras, avencas, cipós entrançados, ipês do mato, coqueiros e samambaias. Calor e umidade. Aqui zanzam insetos e zunem marimbondos. Pássaros cantam suas histórias.
Há lodo no solo, por onde deslizam víboras e cobras d’água. Roedores disputam bagas pelo solo, para deleite dos predadores.
Tudo isso é a nossa forma de silêncio.
Um afloramento de rochas, isolado, mina sua água sã. Um igarapé nos atravessa, e são poucas as clareiras.
O solo quase não conhece o sol.
Nossas praias são estreitas, e a areia branca e fina circunda um mundo verde e vital. Náufragos, nós os devoramos.
Nossa lógica é a da natureza. Nossa religião é a natureza.
As noites são nosso espetáculo de estrelas, eternidade e sinais que não entendemos - aceitamos.
Quando o vento do mar chega mais forte, sacode nossas vegetações – e assim nos abanamos mutuamente, de cada ilha. Por vezes, nos arranca pelo pé e nos destrói, para renascermos.
Lava-nos a chuva forte das monções.
Algum galho podre ou coco vadio é quem realiza a travessia aquática. Peixes são senhores e vítimas, entre si.
Vivemos nossa mata cerrada, pulsante, inferno e paraíso, clarão e sombra.
E é tudo.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
MPB
Abecedário Musical Impressionista (3ª Leva)
José Antônio Silva
L
Luiz Melodia – Criou estilo próprio ao descer, sinuoso, as ladeiras do Estácio. Um pé no samba de morro, um pé no iê-iê-iê, outro pé num blues/jazz, outro ainda na seresta... Afinal, o negro gato tem quatro patas e sete encarnações. Ou mais.
M
dentro da MPB. Drama! Ao fim de cada ato, limpa no pano de prato as mãos sujas do sangue das canções.
N
Nelson Coelho de Castro – Suburbano coração, coração na boca, boca no trombone. Samba e rock, os pés no barro da infância. Porto Alegre bem Brasil.
Noel Rosa – Floresceu na Vila e subiu pelo morro. Autêntico Papai Noel a presentear a música brasileira com sua boemia criativa fundamental, deu forma à ironia do samba. Morreu no século XX ao estilo poético do século anterior: jovem e de pneumonia. Roseira que segue dando rebentos.
T
Tim Maia – Ele atrasava – mas em compensação o vozeirão chegava antes, e já pedindo “retorno, retorno”! Soul man maior do Brasil. Seu talento era sua sublimação. Irracional superior, mesmo.
G
Gonzaguinha – Fez tudo em pouco tempo e foi embora. Sua lista de sucessos era um panorama do 

Brasil: crítica social, ironia, reencontro e devoção filial, amor, fé... A sombra do pai não o deixou na obscuridade – sua própria chama ainda queima forte e nada foi em vão.
H
Herbert Vianna – Além das obras de Niemayer, ditadura milica e políticos, Brasília tinha algo mais a oferecer: rock. E quem fazia o melhor eram os Paralamas. O vocalista e compositor usava óculos. Da moto do Vital à lanterna dos afogados, com outros balanços, trajetória de responsa. Depois caiu das nuvens, mas o vôo não acabou.
J
Jorge Mautner – “Maldito” beatnik, teórico do Kaos, provou que o homem antigamente falava com os animais e que todo o herói tem uma capa de estrelas cósmicas. Ah, seu maracatu é atômico. O violino é parte da roupa de cena.