quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

MPB



Abecedário Musical Impressionista – 6ª Leva

José Antônio Silva


Ângela Rô Rô – Blueseira-emepebista mais autêntica da pátria amada. No fim da viagem, barcas da loucura naufragadas, deu à praia com vida, agarrada ao piano, e ainda riu disso tudo, com a voz que lhe resta: ro-ro-rô.

Bebeto Alves – Gaudério pop. Milongueiro elétrico. Encontro de mundos, a memória do pampa nas pegadas de suas botas urbanas, nas cidades de seus amigos. Inconformado sempre, seguidor fiel das próprias intuições.

Carmem Miranda – Mostrou ao mundo o que é que a portuguesa tem – porém com tempero totalmente brasileiro. Sensual, exagerada, vibrante, pré-tropicalista, causou terremoto em Hollywood. Taí: ela fez tudo para gostarem dela, mas disseram que voltou americanizada.

João Gilberto – Dim dom, dim dom. O dom do djin, o dom do gênio.O poder de valorização das mesmas e repetidas células sonoras, as mesmas canções atravessando décadas, até se tornarem mantras hipnóticos. Sua velha bossa é sempre nova.

Lulu Santos – Talvez ele seja o último romântico, mas certamente é o primeiro colocado entre os baladeiros pátrios – fabricante, no bom sentido, de autênticos clássicos do pop brazuca. Faz o gênero dândi tropical; a música o garante.

Martinho da Vila – Da mítica Vila Isabel, cheio de mânha, falar arrastado, o canto confundido com o sorriso. Malandro doméstico, cronista social irônico, sambista consagrado. Pra que dinheiro? A filha comprova que na casa dele todo mundo é bamba.

Nelson Cavaquinho – Tire seu sorriso do caminho que ele quer passar com a sua
dor. E passa e vamos atrás. Sambista deprê, boêmio clássico de botequim: viola (e até cavaquinho), cachaça, mulher e poesia. Um dos grandes.

Pitty – Encarnação dos opostos em terras místicas da Bahia. Anti-Sangalo, um vento punk feminino, cercado do braseiro do axé por todos os lados. Segue a linha baiana do rock: Raul-Marcelo Nova-Pitty. Gatatuada, piercings e atitude, quer um mundo novo que seja admirável.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Crônica Minha

Um nome fantasia

José Antônio Silva


Atrasado para um compromisso profissional, atravessava com passadas rápidas o Largo Glênio Peres, no centro antigo de Porto Alegre, por volta da uma da tarde do dia 23, quando fui surpreendido por uma tradicional canção de Natal - “Noite Feliz!” - ecoando entre o burburinho urbano e humano e os belos prédios do Mercado Público e da Prefeitura.


O som partia e espalhava-se através das caixas instaladas em uma caminhonete ali estacionada, que acredito ser de uma igreja evangélica. Não importa. A música, cantada com voz forte e afinada, valorizava a letra singela. E sem saber por que exatamente – lembranças da infância, talvez? Necessidade de crer em algum poder superior para nos salvar? – me emocionei.


Senti que, a despeito da minha vontade, meus olhos eram tomados por lágrimas. E atravessei a rua movimentada, desviando de mulheres - especialmente mulheres - carregadas de sacolas de presente. Um jovem mendigo, sob as colunas de um prédio e sobre as lajes da calçada, vestindo apenas uma calça velha, ronronava de boca aberta. Em tese, era Natal para ele também, assim como para todo o mundo ocidental cristão. Mas provavelmente ele não sabia disso, e ninguém parecia considerá-lo digno de fazer parte da festa.


Ao chegar perto do prédio onde entraria, lágrimas já secas, voltei a cabeça sem saber por que e vi: um homem entregava ao mendigo dorminhoco – agora acordado e surpreso – um pacote. À distância, me pareceu um panetone. O homem, talvez 40 anos, funcionário de algum escritório das redondezas, crachá ao pescoço, apertava a mão do miserável.


Pensei: será que faria o mesmo no resto do ano? Viajei, no espírito do momento: será que só conseguiremos salvar a Terra da degradação ambiental e do superaquecimento, para não falar da injustiça social, no Natal?


Após minha reunião, conversei com um amigo que trabalha naquela rua e contei o caso do mendigo. Meu amigo me garantiu que já viu o sujeito distribuindo presentes e gestos de solidariedade por ali quase todas as semanas, o ano todo.


Papai Noel existe, sem barba branca, sem trenó nem renas - nem consumismo. E tem o poder de encarnar em muita gente, agindo nos espaços do afeto e da extrema carência, no anonimato e sem publicidade, onde os programas dos governos, por melhores que sejam, não chegam.


O Natal comercial já descartou Jesus – o motivo de toda a festa, afinal. Mas para além do consumo exacerbado, talvez Papai Noel seja só um dos nomes fantasia, um dos disfarces utilizados pelo Espírito da Solidariedade para, em desespero de causa, tentar sobreviver.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Balaiada Hightech

Ordem do dia

José Antônio Silva


Recebi

uma ordem

do céu:

só psicografe

o que é seu!

(in Tiques & Taques, São Paulo, 1985)

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No túnel


Para quem quer pintar, tudo é tinta

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Mó viagem


A consciência individual é um fiscal da harmonia cósmica em ação dentro de nossa cabeça

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Coisa séria


Não adianta! Só volto depois de partir!

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Definição


Pequeno e risonho como um Nelson Motta

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Não é bem assim


Tiro n’água também mata – um peixe desavisado, por exemplo

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Pitada de Leminski


Acordei bemol

Tudo estava sustenido

Sol fazia

Só não fazia sentido

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AG


Desde a semana passada estou com uma coluna também no site Artistas Gaúchos, falando de literatura, poesia, humor, música, política – o que pintar.

O endereço é este aí:

www.artistasgauchos.com.br

sábado, 12 de dezembro de 2009

MPB

Abecedário Musical Impressionista – 5ª Leva


José Antônio Silva


Arrigo Barnabé – Trabalhador de vanguarda - de Vanguarda Paulista - soltando fumaça sobre o piano que misturou histórias em quadrinhos, cinema noir, rock, erudição e atonalismo. Autor de trilhas cinematográficas, continua na fita.


Cássia Eller – Mais uma estrela fugaz da grande safra roqueira/baladista brasiliense. Voz rascante, cheia de postura, canções e interpretações acima da média. Quando todos começavam a prestar real atenção... já foi! Mas ficou.


Cazuza – Compositor/intérprete mais importante da música popular brasileira nos anos 80, cenário de seu nascimento artístico, afirmação e martírio público. Não tinha a língua presa: já condenado pela Aids, injetou na canção pop alta dose de ousadia e indignação. Aliás, mais uma dose, e é claro que ele estava a fim.


Giba-Giba – Totem da música negra no sul do Brasil, cantor, compositor, carnavalesco, recuperador e divulgador do sopapo (sem violência!) – ponte entre África e cultura gaúcha -, Giba-Giba é pessoa física, mas instituição cultural.


Gonzagão – Sanfoneiro cantador do meu Brasil. Não só naturalizou o acordeon em todas as classes, mas tornou sucesso atemporal uma composição trágica sobre a seca, ao lado do saracuteio do forró. Nasceu sob o signo de Exu, mas avoeja como santo protetor em toda a vibração dos foles, teclas e botões.


Teixeirinha – O maior golpe do mundo na vida dos fãs foi quando ele morreu. Mais famoso gaúcho-cantor-típico-exportação – numa formatação aperfeiçoada por Teixeirinha mesmo - o país todo cantava sua história triste. Baixinho, bigodinho aparado, foi herói e até galã de cinema. Nos próprios filmes, claro.




Zeca Pagodinho – Malandro suburbano carioca. Cervejeiro, escamoso, espertíssimo na divisão do samba e na ironia da levada. Chinelinho e bermuda forever, o corpo na Zona Sul, o coração em Xerém.


Quem não está no Abecedário

De vez em quando alguém me pergunta por este ou aquele instrumentista genial, aquela banda que marcou época, um letrista fora de série – e como é que fica o Abecedário Musical Impressionista nisso tudo?


Aí é que não está: não fica. Minhas próprias limitações, agravadas pela quantidade virtualmente inesgotável de grandes artistas da música brasileira, me fizeram restringir o já imenso campo da minha busca. Até por incapacidade de dar conta, ainda que aproximada, de todo o panorama da cognominada MPB, neste trabalho finquei pé só nos compositores de canções (em amplo sentido) e nos cantores.


Quer dizer: evidentemente gosto de muitas bandas de vários gêneros e épocas no Brasil (a bênção, Novos Baianos!), de muitos letristas iluminados (a bênção, mestre Aldir Blanc!), de tantos instrumentistas inacreditáveis (à bênção, Plauto Cruz!).


Mas só com a papa fina dos compositores e/ou cantores já tenho trabalho – e diversão, é claro - de sobra.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Crônica Minha

No imenso mar da literatura

José Antônio Silva

No imenso mar da literatura, um oceano que molha os pés dos passantes distraídos até em lugares sem litoral, existem praias muito conhecidas, visitadas, cultuadas. Duas das principais são as da Poesia e a da Prosa. Ambas e cada uma delas, por sua vez, demarcam capitanias a perder de vista, englobando enseadas, baías e lugares de remanso com denominações específicas.

Para todos os efeitos, lá estão os côncavos dos romances, contos, novelas, ensaios, crônicas – e assim também os dos poemas, sejam líricos, épicos, românticos, parnasianos, modernistas, haicais, concretos, livres... E ainda a pequena república independente da Prosa Poética. Mas como se sabe, todas estas fronteiras são imaginárias, sem aduana nem guarda armada – embora alguns chauvinistas preguem contra a permissividade e a livre circulação de idéias, musas, gêneros e inspirações.

Comunidades alternativas
(Cá entre nós, leitores: também os trocadilhos, palavras cruzadas, charadas, parlendas, trovas, epigramas, travalínguas e palíndromos, entre outros rebeldes, mantêm suas próprias comunidades costeiras. Mas, vigiados e caçados com denodo por grupos do pessoal citado linhas acima, vigilantes do bom gosto clássico, de terno, gravata e cabelos muito bem aparados, aquartelados em academias e similares; assim como pelos irritadiços profetas do experimentalismo e da vanguarda, uns e outros armados e querendo flagrar e justiçar dissidentes – unidos nesse ponto, embora se odeiem. Enfim, desprezadas, ofendidas e barradas nos espaços nobres da literatura, as charadas e parlendas soltam gargalhadas em prováveis bacanais e sabás com os trocadilhos e palíndromos, embora sobrevivam em torno de fogueiras esparsas, no alto de morros costeiros e cômoros, entre ralos tufos de vegetação e tuco-tucos da areia. Não ligam para os olhares críticos e as vicissitudes: suas risadas fazem tremer as boas famílias literárias - ajoelhadas na cátedra, devotas da verdadeira literatura se benzem e pedem a maldição eterna para os sub-gêneros).

Mas deixando estas práticas exóticas em suas comunidades alternativas - depois de muita diversão ao lado delas, é claro - prosseguimos pelas praias literárias respeitáveis. Ou mais ou menos: velhos poetas malditos hoje atraem até excursões escolares, desde que o Deus Mercado reparou no seu charme, os canonizou e descobriu que, bem trabalhados, podem até dar lucro.

Palmeiras importadas
Convém evitar as baías chiques, com palmeiras importadas de Miami, com grandes lanchas e iates fundeados, freqüentadas pelos pauloscoelhos, sidneissheldons, dansbrowns e outros representantes da espécie Bestsellerium Escribae. Tome cuidado com seguranças, congressos de fãs em surto e correria atrás de autógrafos - e não pise desavisadamente em nenhum paparazzo, entre os espalhados pela areia ou escondidos atrás de um Rolls Royce, Bugatti ou Aston Martin.

Não-praia
A vida, no entanto, não é feita apenas de luxo e riqueza. Você há de chegar na praia – sóbria, rigorosa, disciplinada, quase uma não-praia – onde operam os críticos, praticamente sem sequer olhar para o mar. Eles são homens e mulheres com um missão, subdividida em setores, como a orientação e formação dos leitores, os conselhos aos autores promissores, a aferição de tendências mercadológicas, construção de teses de mestrado e doutorado, ensaios que iluminam. Uma parte importante de seu ofício é o desferimento de chicotadas desmascaradoras e punitivas em escritores nos quais detectem a prática de truques e táticas para enganar basbaques e que nada, absolutamente nada, têm a ver com a verdadeira literatura. Porém, a principal função destes estudiosos - também artistas e escritores – é descobrir o grande poeta ou romancista da atualidade, ou pelo menos de seu país, estado ou cidade. Missão perigosa, pois diferentes críticos jogam suas fichas (de anotação e leitura) em diferentes escritores, e a partir daí se criticam (eles, os críticos) dura e mutuamente. Em sua praia, não raramente, há manchas de sangue que a maré de cada manhã precisa lavar e levar.

Lugarejo
Vale lembrar, numa pequena enseada próxima, o lugarejo semi-abandonado dos resenhistas. Uma sub-classe dos críticos, formada por jornalistas free-lancer, professores, escritores, tradutores, diretores de teatro sem peça e outros interessados que faturam uns trocados - ou fazem de graça porque gostam, entende?, ou para “o nome circular” - comentando rapidamente os últimos lançamentos da indústria livreira, para jornais, revistas, sites e roda-pés culturais de house organs de supermercados e similares.


Solidão e recolhimento
Uma praia reservada é a dos romancistas – mais precisamente, o ponto nobre da imensa praia da Prosa. Independentemente da personalidade de cada um, operam na solidão e no recolhimento. Ao menos é esta a imagem projetada sobre a ampla faixa de areia que lhes cabe. O mesmo condomínio litorâneo por vezes acolhe novelistas (não, não os da TV!!! A praia desses é o Leblon, todo mundo sabe). Romancistas eventualmente abrem uma brecha entre os guarda-sóis para alguns novelistas, contistas - e até mesmo cronistas! -, que volta e meia são igualmente romancistas, até porque há casos em que uma mesma obra pode ser classificada em qualquer das denominações. O fato é que os romancistas, como categoria, são cônscios de que, já há alguns séculos, têm uma pesada responsabilidade social e artística - traçar um quadro de sua época, de seu povo, quiçá da condição humana, enquanto condição. Quietos, não são de muito riso, pois lhes sobra siso. Eventualmente abrem o coração para que outros profissionais da escrita, como os jornalistas, publiquem o que pensam. Quase sempre há bons bares nesta orla.

Mar Egeu
E não esqueçamos dos dramaturgos, com os pés fincados em alguma praia do mar Egeu. Hoje, coitados, já não sabem se produzem para o público rir, se chamam atores da TV para garantir o sucesso e a bilheteria, se conscientizam as massas, se partem logo para o musical ou ficam esperando Godot, que como se sabe era um Tim Maia radicalizado, pois não apenas se atrasava como nunca chegava. O próprio Gerald Thomas entregou os pontos e garante que não vai dirigir nunca mais. Os teatrólogos mais pragmáticos, considerando tudo, produzem monólogos - a produção fica mais em conta e é menos gente para dividir a renda, depois. A praia? É simples, mas tem seu cenário, sua luz e até seu figurino.

Serviço de fronteira

Em algum ponto, numa zona de fronteira – uma espécie de serviço da ONU ou da Cruz Vermelha, aberto a todos os gêneros literários – está a praia dos tradutores. Tradutores é apenas uma maneira simplista e inadequada de referência à estes profissionais: são transcriadores, operando numa chave de adaptação e reelaboração criativa. Os mais afamados são respeitados pelos autores originais, pois além dos méritos próprios garantem o sucesso de suas obras em praias distantes. Falam todas as línguas e muitos se confundem com embaixadores literários de culturas exóticas. Nem tudo são flores, no entanto, neste terreno arenoso: em caso de nada acontecer num lançamento internacional, o romancista ou poeta sempre poderá culpar o trad, digo, transcriador, que não transcriou o texto adequadamente e com as virtudes evidentemente contidas no original.

Bandeira vermelha
Ainda é possível passar por outros núcleos costeiros, como a comprida “prainha” dos autores infanto-juvenis (cujo público sempre dá uma canseira nos autores, pais, professores - e salva-vidas!) e, seguindo pela orla, desembocar no areal dos autores noir, pisando com cuidado para não destruir alguma pista preciosa ou comprometer a cena do crime.


E chegamos à praia dos poetas. Os há de todos os tipos, cores, modelos e estilos. Alguns acompanhados de violão (mas estes não seriam poetas de verdade, como nos alertam os críticos – voltar quatro praias atrás). Outros são funcionários públicos; muitos, diplomatas; brincadores de rua, com palavras ajuntadas ao gesto; outros, eternos estudantes; alguns, orgulhosamente, “poetas marginais” (cuja praia mais badalada era Ipanema; consultar professora Eloísa Buarque de Holanda); hordas de jornalistas bêbados; ripongos que vendem suas edições magrinhas nos bares da própria praia. Mães e avós, que de repente se descobriram ou redescobriram poetas (não, jamais poetisas!) em alguma oficina literária e voltaram a sentir tesão, pela vida. Senhores gordos, com barbas respeitáveis, mestres do verso experimental. Ágeis autores de frases poéticas de impacto imediato; poetas populares contando suas descobertas e verdades sofridas e singelas; beletristas do panteísmo, a saudar eternamente a beleza do pôr-do-sol; lapidadores incansáveis do verso perfeito; autores incompreendidos; cordelistas contando causos; versejadores de frases cabeludas e escatológicas; gaudérios despejando saudosistas façanhas imaginárias; jovens que ali encontram seu jeito de ver o mundo.

E mais poetas performáticos; gênios mal humorados; cultores de alexandrinos impecáveis; os últimos e irredentos poetas engajados; produtores de versos pop-publicitários; exercedores do poema-desabafo; perseguidores insaciáveis do novo e do que jamais antes na história desse país e desse mundo foi feito.

Nesta praia, como em todos os lugares, há grupinhos, mais ou menos fechados. Mas quando os versos começam a vibrar, a poesia escorre pela areia e acontece o momento em que autores, banhistas e passantes se unem, magnetizados. É a última praia, e a mais difícil de alcançar. Atenção à bandeira vermelha, à beira da praia da poesia: muitos que a conhecem, nunca mais querem sair dali.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crônica Minha



Fotografia: a beleza esvazia a denúncia?


José Antônio Silva


A beleza esvazia a denúncia? O apuro estético de uma foto de Sebastião Salgado – para citar um exemplo clássico - anula o horror que a originou e, de algum modo, segue retratado naquela foto? Ou, embora possa soar cínico, temos que reconhecer que tudo tem beleza, inclusive o horror?


Aquela foto, adquirida em uma galeria de arte, fulge na parede do escritório do figurão como um lembrete sobre a injustiça do mundo, a ser combatida, ou como obra estética a dar um pequeno e instigante choque de perversidade ao bom mocismo do ambiente?


Outra: é correto fazer a foto ao invés de largar a máquina e tentar ajudar aquele determinado ser humano em sofrimento? Somente desumanizando aquela pessoa e tratando-a como símbolo – e não como ser vivente e sensível, de carne e osso – para priorizar a feitura da foto? Mas a foto, afinal, não será útil para chamar a atenção do mundo sobre aquela situação, o que poderá evitar o sofrimento de outros tantos?


Sendo assim, a salvação de muitos deve ter prioridade sobre o sofrimento de poucos, ou de um? Esta regra está escrita em algum lugar? Ou vale mais tentar resgatar aqui e agora o que está ao alcance imediato de nossas mãos?


Seja como for, o que acha disso aquela vítima abandonada pelo fotógrafo? Ela – a vítima – a não ser que seja um santo ou um herói trágico, por certo não preferiria ser salva, a virar símbolo ou bandeira de alguma causa nobre? Ou ela, na situação de alto risco em que está, já não tem direito à escolha – mesmo que sua salvação imediata dependa de um primeiro e fundamental movimento do braço do fotógrafo?


Ele agarra o suicida que vai jogar-se do alto do viaduto ou, ao contrário, com ar lamentoso, escolhe a melhor lente para fazer a foto que venderá para o mundo todo, do homem jogando-se para a morte, num vôo plástico contra o pôr do sol?


Se o fotógrafo correr altos riscos pessoais – como os profissionais especializados na cobertura de guerras – seu ofício resta justificado? Trata-se de uma missão humanística, de denúncia, ou uma forma de conquistar a glória pessoal e profissional, numa viagem de adrenalina?


Será que há uma resposta para isso, ou as situações costumam misturar-se numa confusão, sem bem ou mal, que se chama destino? Será?

sábado, 14 de novembro de 2009

Livro


Minicontos e maxiqualidade


José Antônio Silva


A suprema economia de palavras – o que torna cada vocábulo necessariamente preciso e quase insubstituível – talvez aproxime o miniconto mais do poema, pela característica citada, do que do conto padrão. É como se a criança recém nascida fosse mais parecida com um primo, digamos, do que com o pai. Enfim, assim como exige o fazer poético (uma lapidação e um foco praticamente fonema a fonema, sílaba a sílaba, sem esquecer o todo), também o cultivo do miniconto não deixa por menos - sem trocadilho.


Aliás, para que esta criança sobreviva por si mesma, necessita ser assim, impecável. Pois não pode utilizar os recursos mais amplos das narrativas longas, com sua gama de climas, cenários e situações várias, e personagens à vontade. No presente caso, o autor só pode contar com a força concentrada do minimalismo.


Saindo das generalizações e fechando em close num exemplo concreto, temos em mãos “Minicontos e muito menos”, dividido meio a meio, como os valetes do naipe, por Laís Chaffe e Marcelo Spalding. Auxiliado por ótimas ilustrações sem meios tons de Alexandre Oliveira, o minilivro da Editora Casa Verde ( www.casaverde.art.br ) merece ser lido – e comentado.


Classudo, foge da tentatação de chamar de miniconto alguma frase de efeito ou uma piada – facilitário a que não resistem muitos outros praticantes.


Estes dois autores, aqui, provam que é possível ir longe com este ente literário de pernas curtas, o tal miniconto. Os climas, as sugestões, o duplo sentido, sobrevoam – do sublime ao sórdido - um quase nada de letras.


Confiram o acordo fáustico de Spalding, à página 22 do seu lado do livro:

Chegou tua hora, Serás moleque travesso, jogarás bola e bolita e botão, terás mulheres, filhos, carro e emprego. Gostarás de ir à praia e conhecerás o Rio de Janeiro, comprarás casa, terreno, assistirás ao teu time ser campeão do mundo, mas, antes dos cinqüenta, um disparo repentino levará teus movimentos, tua voz, tua fome. Topas?


“Velório”, de Laís, é sarcástico:

Cinco da madrugada. Convencem o viúvo a comer um sanduíche. Uma mosquinha ronda o presunto.


É... e que o tal sanduíche sirva de aperitivo, sem mosca, para que se abocanhe as demais histórias – minihistórias, com maxiqualidade.

Aliás, no caso, acho que já escrevi demais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Crônica MInha

Bem, você sabe... não é divertido!

José Antônio Silva

Esse negócio de sair de um filme (ou parar de ler um livro) porque nos desagrada, nos incomoda... É de pensar: vigora hoje um mandamento não escrito segundo o qual só devemos fazer o que nos dá prazer imediato. Tudo tem que ser rápido, de preferência leve, e “divertido”. (Aliás, palavra que, no contexto, é um americanismo rapidamente absorvido e repetido por nós, a partir do cinema de Hollywood ou de declarações de roqueiros famosos: “Bem, você sabe... Vou tocar enquanto achar divertido”. Yeah!).


E o compromisso com sua arte, com sua vida, com a pulsão (no caso, de criar música)? Ou com a falta de outras alternativas viáveis e reais? E a responsabilidade com, digamos, filhos por criar, objetivos a alcançar ou a tentativa de contribuir com algo, por menor que seja, para que o mundo seja um pouquinho menos injusto e cruel?

Sei, é pedir demais. Afinal, no embalo consumista tudo vira descartável, a fila anda - estamos na vida a passeio.

Bem, você sabe... eu sinto muito, mas não é o que parece, e está longe de configurar um projeto sustentável.

Para elegermos “me divertir” como objetivo maior da existência – e há garotada de todas as idades repetindo este mantra – teríamos que ser monstros de egoísmo e alienação. E ainda assim nos esborracharíamos na primeira grande tragédia que interrompesse estas férias permanentes.

Voltemos ao filme ou livro abandonado. (Claro, há casos em que a obra é qualitativamente tão ruim que não há porque insistir. Não é ao que me refiro aqui).

Por vezes é bom exercitar a paciência e a perseverança, e terminar por aprender algo com o difícil filme/livro desprezado por nossa impaciência – inclusive o motivo de ter nos incomodado tanto de início. Poderemos sair dali até mesmo achando que, afinal de contas, a experiência não deixou de ser “divertida”.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

MPB



Abecedário Musical Impressionista - 4ª Leva


José Antônio Silva


Arnaldo Baptista – Sempre andou meio desligado, mesmo quando era psico-elétrico. Um caso à parte, escutava o diferente que os outros não ouviam. Fez fusões e confusões. Uma tragédia rock n’ roll/tropicalista. Nunca saberemos até onde chegaria musicalmente - não tivesse aprendido a voar de uma janela. Continua por aí, à procura de si, emocionando a platéia.



Clementina de Jesus – Força da natureza, mãe preta/mãe África, voz grave e anasalada de lavadeira do Brasil, impõe que se lhe peça a bênção. Enxaguando corimas, jongos, lundus, incelenças e modas – desaguando no samba de raiz. Experiência forte. Mas vá sem medo: prazer sem ressaca.


Dorival Caymmi – Em ortodoxo ritmo baiano, Do – ri – val – Ca – y – mmi foi construindo sua obra referencial sem se preocupar se era obra e muito menos se era referencial. Aos poucos, quase sem sair da rede, queixando-se à/de Marina Morena, constatando que o mar que bate na areia é bonito é bonito, queiram ou não, foi conquistando o Brasil com seu jeito manhoso e suas canções praieiras todas próprias.

Jards Macalé – Uma das peças soltas na engrenagem azeitada da MPB, buscador de linguagens e soluções pessoais – incluindo o toque próprio de violão – lá pelas tantas assumiu-se como sambista continuador/herdeiro de Moreira “Kid Morangueira” da Silva, mas é menos e mais que isso. Esteve em todas as turmas e movimentos, mas o seu é um pequeno e sutil movimento pessoal, movimento dos barcos, viajando de Cantareira.

Lobão – Estilo sequela ligth, já criou várias e belas canções pop/rock para tocar no rádio blá, blá-blá-blá eu te amo. Vida menos bandida, mais perdida, a meio palmo do chão. Até João Gilberto abriu uma vaga em seu repertório secular para declamar “Me Chama”. Ao compor, a música regula a verbosidade descontrolada do Lobão das entrevistas.

Nara Leão – Voz muito afinada, pequena, algo de infantil forever. Doce fruto da burguesia protegida da Zona Sul, descobriu o mundo exterior e seus problemas através da música e dos amigos músicos – o samba canção, a canção de protesto, a tropicália – após sua iniciação na elite bossanovista, da qual foi princesa. Olhos de ressaca, virou ícone de um Rio ainda suave, até porque não chegou a ver, ouvir e cantar o que viria.

sábado, 31 de outubro de 2009

Poetando

Duas ilhas

José Antônio Silva


Somos duas ilhas selvagens e separadas por larguíssimo riomar, de canal profundo e correntes violentas.

Em nós vivem desde sempre macacos guinchadores e onças pintadas, palmeiras, avencas, cipós entrançados, ipês do mato, coqueiros e samambaias. Calor e umidade. Aqui zanzam insetos e zunem marimbondos. Pássaros cantam suas histórias.

Há lodo no solo, por onde deslizam víboras e cobras d’água. Roedores disputam bagas pelo solo, para deleite dos predadores.

Tudo isso é a nossa forma de silêncio.

Um afloramento de rochas, isolado, mina sua água sã. Um igarapé nos atravessa, e são poucas as clareiras.

O solo quase não conhece o sol.

Nossas praias são estreitas, e a areia branca e fina circunda um mundo verde e vital. Náufragos, nós os devoramos.

Nossa lógica é a da natureza. Nossa religião é a natureza.

As noites são nosso espetáculo de estrelas, eternidade e sinais que não entendemos - aceitamos.

Quando o vento do mar chega mais forte, sacode nossas vegetações – e assim nos abanamos mutuamente, de cada ilha. Por vezes, nos arranca pelo pé e nos destrói, para renascermos.

Lava-nos a chuva forte das monções.

Um pássaro daqui ou viajante atravessa sobre o amplo das águas e leva no bico ou no pé a nossa mensagem, o nosso grão, que fecunda a ilha parceira ou lugares outros que hão de existir. Da outra ilha também nos chegam essas dádivas.

Algum galho podre ou coco vadio é quem realiza a travessia aquática. Peixes são senhores e vítimas, entre si.

Vivemos nossa mata cerrada, pulsante, inferno e paraíso, clarão e sombra.

E é tudo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

MPB


Abecedário Musical Impressionista (3ª Leva)

José Antônio Silva


L

Luiz Melodia – Criou estilo próprio ao descer, sinuoso, as ladeiras do Estácio. Um pé no samba de morro, um pé no --, outro pé num blues/jazz, outro ainda na seresta... Afinal, o negro gato tem quatro patas e sete encarnações. Ou mais.


M

Maria Bethania – Perfil de carcará, coração amoroso, a mana do mano Caetano trouxe o teatro para dentro da MPB. Drama! Ao fim de cada ato, limpa no pano de prato as mãos sujas do sangue das canções.


N

Nelson Coelho de Castro – Suburbano coração, coração na boca, boca no trombone. Samba e rock, os pés no barro da infância. Porto Alegre bem Brasil.


Noel Rosa – Floresceu na Vila e subiu pelo morro. Autêntico Papai Noel a presentear a música brasileira com sua boemia criativa fundamental, deu forma à ironia do samba. Morreu no século XX ao estilo poético do século anterior: jovem e de pneumonia. Roseira que segue dando rebentos.


T

Tim Maia – Ele atrasava – mas em compensação o vozeirão chegava antes, e já pedindo “retorno, retorno”! Soul man maior do Brasil. Seu talento era sua sublimação. Irracional superior, mesmo.


G

Gonzaguinha – Fez tudo em pouco tempo e foi embora. Sua lista de sucessos era um panorama do Brasil: crítica social, ironia, reencontro e devoção filial, amor, fé... A sombra do pai não o deixou na obscuridade – sua própria chama ainda queima forte e nada foi em vão.


H

Herbert Vianna – Além das obras de Niemayer, ditadura milica e políticos, Brasília tinha algo mais a oferecer: rock. E quem fazia o melhor eram os Paralamas. O vocalista e compositor usava óculos. Da moto do Vital à lanterna dos afogados, com outros balanços, trajetória de responsa. Depois caiu das nuvens, mas o vôo não acabou.


J

Jorge Mautner – “Maldito” beatnik, teórico do Kaos, provou que o homem antigamente falava com os animais e que todo o herói tem uma capa de estrelas cósmicas. Ah, seu maracatu é atômico. O violino é parte da roupa de cena.

domingo, 18 de outubro de 2009

MPB

Abecedário musical-impressionista (2ª Leva)


José Antônio Silva



A

Adoniran Barbosa – Se o senhor não está lembrado, esse baixinho de sotaque italiano do Bexiga, bigodinho e chapéu curto, é um dos maiores sambistas brasileiros, embora esteja enterrado no Túmulo do Samba. O Trem das Onze já o levou para a Iracema.

Adriana Calcanhoto – Uma Partimpim, a outra parte para a porrada. Suavidade que vai arranhar os seus discos e publicar seus segredos. No bom sentido.


C

Cartola – Tiremos o chapéu para Cartola. Só tinha o curso Primário, mas criou a Escola de Samba e fez Pós-Graduação em Poesia diretamente com as Musas. Seu monte Olimpo era o morro da Mangueira.

I

Itamar Assumpção – Vida mais ou menos curta, arte longa. Experimentador do pop, do samba, inventava com os fonemas e o canto, na vanguarda da Paulista. Graduado com louvor na escola da rua, virou mestre na cadeira de Intuição. Sem frescura. Bem e mal dito. Nego Dito.


L

Lupicinio Rodrigues – Universo (boêmio) em desencanto, cantado. Seresteiro maior da dor e da vingança, mas camaradinha dos amigos, da noite e da caixa de fósforos.

M

Mano Brown – Mano Brown tá ligado, mano, martelando nossa cabeça com rimas pesadas, cinematográficas, indignadas. Racionais, segundo ele mesmo. Ritmo e poesia. O recado está sendo dado, ladrão. Tá ligado?

N

Nei Lisboa – Não tá nem aí, estando aqui. Cronista do que vai pelo mundo, pela lancheria, pelo alto da sua torre sem marfim, Bomfim, Berlim. Era da balada – mas continua também com o rock, o pop, o candombe...


T

Tom Jobim – Imensa nuvem branca, piano com chapéu, chovendo uísque na terra fértil da cachaça. Deglutidor e refinador de tudo – e tudo vira bossa. Criou uma referência de época na MPB: Antes de Jobim e Depois de Jobim.