domingo, 8 de junho de 2008

Poetando (1)

A certeza dos feiticeiros


Negros mestiços e índios
já invadem os palácios
quebrando portões eletrônicos
e os arsenais do futuro

Os guardas caem primeiro
vítimas da indecisão:
de quem eles são irmãos?

Os senhores querem a morte
sem lutar e sem saber:
morrem mesmo ou não passa
de uma nova embriaguês?

Há sangue pelas paredes
lanças explodem barrigas
bocas com sede:
liberdade para as vísceras!

Das gordas tripas expostas
abatem-se sobre os tapetes
grandes golfadas de bosta

Os índios saqueiam e gritam:
tudo é festa!
tudo é de novo floresta!

Em raios azuis estouram
as últimas invenções
da ciência aplicada
do requinte industrial

Na avenida central
tudo é simples como é:
hoje há morte e carnaval

Adeus aos vidros fumê
(põem fogo nos palácios)
querem cumê!
querem bebê!

Abrem adegas despensas
inutilizam os freezers
e jogam ao sol
(às moscas)
os velhos pernis resfriados
para quando viesse a crise

No aço dos corredores
a dança louca dos fados;
nas piscinas este é o dia
do banho dos afogados

Nativos tontos nas ruas
de arrebatamento e gozo
vestem roupas das senhoras
curradas mortas e nuas

Marcham para onde se esconde
o matagal derradeiro.
Era só questão de tempo
- a certeza dos feiticeiros.




Poema de José Antônio Silva, de 1986, musicado e gravado por Bebeto Alves no CD “Paisagem”, de 1999.

Um comentário:

Thaïs disse...

Grande Zé!
Nada como um post pra gente se encontrar.
Serei tua atenta e assídua leitora.
E vamos à luta!

Thaïs