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sábado, 31 de agosto de 2019

Poesia


Paredesafio

Eu vi um homem olhando para uma parede branca.

Um homem
um pedinte sem pedir
um andarilho que não andava
parado que só
fitando a parede branca
como quem decifra o infinito.

O homem olhava para a parede
com atenção
talvez vertigem
à borda do abismo
branco.

O homem via o passado o futuro o presente
como uma coisa só
como uma base líquida
um trecho da Via Lactea
só seu
para a própria
superação.

Um homem olha uma parede branca
em silêncio
no meio dos automóveis-cometas
que raspam seu traje
espacial
sem lhe causar maior dano
do que a consciência
como indagação
que lateja
organicamente
na parede-desafio.



Poesia



Em Vinha D'Alho


Fazer trocadilho
é experimentar um atalho.

É como trocar de ilha
- eu acerto e falho.

É manter um idílio:
sonho e trabalho.

É criar filho ou filha:
alegria e ralho.

É como a Bíblia:
santidade e caralho.

É assim mesmo:
aqui
ou em Vinha D’Alho.

Julho/2019


sexta-feira, 15 de março de 2019

LIvros - Antropologia, quadrinhos, poesia... o que você está lendo?




O que você está lendo – ou relendo? Da minha parte, estou navegando nas 459 páginas de “Uma breve história da humanidade”, do cientista e autor best-seller Yuval Noah Harari (L&PM Editores). Nos entrega não apenas erudição e conhecimento em linguagem simples, acessível e com boas sacadas textuais e metafóricas. O autor israelense também constrói ligações e conexões inesperadas, na recuperação da pré-história e da história, resgatando de modo amplo mas sintético o caminho que nos trouxe até os dilemas atuais.


Ah, sou fã de quadrinhos (HQs) também, e quase sempre estou curtindo algo no gênero (geralmente, confesso, longe das historietas de super-heróis). Agora, leio e observo a riqueza de informações e traços de “Cumbe” (Editora Veneta), do brasileiro Marcelo D’Salete. Neste livro, ele narra a trajetória fictícia, mas baseada em documentos reais, de um escravo negro que se revolta e busca a liberdade, no Brasil Colonial, para além do caso paradigmático de Zumbi dos Palmares. O livro do paulistano D’Salete foi traduzido e lançado em vários países europeus e concorreu no Eisner 2018, maior prêmio e salão de quadrinhos do mundo, em San Diego, Califórnia.




E para encerrar esta quase resenha, aqui vai “na língua da manhã silêncio e sal”, da poeta gaúcha e minha amiga Juliana Meira. Desbravadora da linguagem poética, de sentidos, emoções e conexões inesperadas, elabora uma escritura sem pontos, vírgulas ou travessões – tudo é totalidade e deriva. Caso sério para a poesia contemporânea brasileira, e ainda em construção. A edição é da Modelo de Nuvem.

domingo, 22 de outubro de 2017

Napolemoro pode tudo

 Crônica


O ídolo


Naquela entrevista ao estilo “tá tudo em casa” que Sergio Moro concedeu a Globo News, respondendo só a perguntas amigáveis que levantavam a bola para ele dar as respostas que todo mundo já conhece,e na qual o repórter amestrado não questionou – só por exemplo – porque as investigações e denúncias que envolvem o PSDB e seu criatório de tucanos nunca vão adiante na Lava-Jato (com a resposta padrão “não vem ao caso”),
pode-se ver, porém, um detalhe significativo na prateleira de livros atrás do magistrado:
ali, junto a outros bonecos, figurava o minibusto de Napoleão Bonaparte (que, aliás, também era pequeno em carne e osso).
O velho e conquistador Bonaparte é uma das inspirações de Moro.
Muita gente – inclusive boa – também admira o corso.
Napoleão avançou sobre a Europa e, em suas guerras de conquista, provocou a morte de aproximadamente 3,5 milhões de pessoas, segundo historiadores;
proibiu casamentos entre pessoas de “raças diferentes”;
revogou a abolição da escravatura nas colônias francesas em sua época.
E muito mais.
Moro não tem nada com isso. Deve gostar apenas do homem forte que conquistou tudo o que queria.
Seja do jeito que for.


domingo, 1 de outubro de 2017

“O filme da minha vida” mostra fantasia e memória de um Brasil mais inocente e menos golpeado

Cinema


É quase em clima de fábula, tingida pelo resgate de percepções e lembranças infantis e juvenis nem sempre agradáveis, que se passa “O filme da minha vida”. A chave narrativa escolhida pelo diretor e ator Selton Mello para levar às telas o romance “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skarmeta, pinta um cenário bucólico e pastoril, no começo dos anos 60.
Embora em grandes centros mundiais já ocorressem mudanças políticas, econômicas e se desenhasse o início de uma autêntica revolução de costumes, nas pequenas cidades interioranas o ritmo da época ainda era lento e muito aferrado às tradições.
Neste sentido, o diretor foi feliz em situar em pequenas localidades da Serra gaúcha, com suas construções bem conservadas e o ar campestre, onde o tempo parece passar mais lentamente, a locação de suas filmagens e o desempenho dos atores.
A paisagem ajuda a contar uma história clássica: quando o jovem protagonista Tony (Johnny Massaro) volta para casa, após se formar como professor, fica sabendo que o pai Nicolas (Vincent Cassel) abandonou a mulher e voltou para a França, sua pátria de origem.
De modo suave, mostrando o dia a dia da escola onde Tony passa a dar aulas – tendo como fundo musical as canções populares da época, toca-discos, imagens tremidas da TV, que vivia seus primeiros momentos, e muita transmissão de rádio – o filme insere o espectador em universo ainda ingênuo mas em transformação, que nos levou ao mundo de hoje, para o bem e o mal.
Ao regressar, Tony também volta a ajudar a mãe no trabalho da casa e da roça, sempre com a presença ambígua de Paco (Selton Mello), grande amigo de Nicolas. Ao mesmo tempo, o jovem professor é atraído pela linda Luna (Bruna Linzmeyer).
Com muita habilidade – e fazendo uma homenagem ao cinema, com fidelidade ao romance “Um pai de cinema”, de Skarmeta, e remetendo a filmes clássicos – o filme dá conta do recado, narrando uma inesperada história de traição, angústia e perdão.
Ao mesmo tempo, também é uma crônica de tempos menos duros do que os atuais, em que a própria iniciação sexual de garotos de escola em sua primeira transa, com prostitutas em um cabaré da cidade vizinha, dribla qualquer realidade e prefere enveredar por tons românticos e engraçados, como uma fantasia.
Como quase toda a história clássica, o filme guarda surpresas e revelações no final. E ainda se permite homenagear velhos astros do cinema, da TV e da música caipira e interiorana da época, como Leandro Boldrin, no papel de um maquinista que ajuda a manter a história nos trilhos, com um toque de lirismo.
É verdade que, em certos momentos, o longa beira o piegas e – quase – o melodrama. Mas sempre é salvo deste perigo pelo humor e a ironia presentes no livro de Skarmeta (que faz uma ponta no filme) e mantidos com habilidade equilibrista por Selton Mello.
Com a ajuda do próprio Skarmeta, o diretor conseguiu transpor a realidade do Chile natal do escritor (onde se passa o romance original), para um dos muitos interiores do Brasil, nos anos 60. O roteiro de Marcelo Vindicato (que já havia trabalhado com Mello no longa anterior, “O palhaço”) segura com firmeza e poesia a história até o fim.


Um belo filme brasileiro, em tom leve mas marcante, que confirma a maturidade da cinematografia nacional e nos oferece um necessário respiro, no ambiente pesado e golpeado dos dias atuais do nosso país. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Moisés Mendes reúne e confirma o talento crônico em seu livro de estreia



Já líamos e apreciávamos as crônicas de Moisés Mendes em ZH, nos últimos dois anos. Eram sempre surpreendentes. Primeiro, por mostrar-se um cronista que já surgia maduro e com estilo refinado. Depois -  e ainda mais surpreendente – por escreve r o que escrevia exatamente nas páginas de Zero Hora. 
 
Nos perguntávamos: até quando o principal impresso da RBS vai manter em seus quadros – na posição de destaque que todo o cronista naturalmente recebe – um opinador como Moisés Mendes? 

A resposta não demorou muito a vir. Antes, houve ao menos duas tentativas internas de removê-lo, mas Moisés resistia. E atravessou o deserto e o Mar Vermelho, para só então as águas poluídas do pobre Arroio Dilúvio cobrirem suas pegadas. Mas não apagaram. Havia conteúdo e forma marcantes ali, que sobreviveriam à casa dos Sirotsky.

Isto agora se comprova neste pequeno volume de 156 páginas que marca com sucesso a estreia de Mendes no mundo dos livros e da Diadorim como a mais recente editora do Sul do Brasil.

“Todos querem ser Mujica”, coletânea de 60 textos mosaicos (“corrida aos dicionários”, recomendava Millôr), agrupa algumas de suas melhores criações. 

Dramas shakespearianos em pequenas cidades do interior, causos, memórias fronteiriças, viagens pelo mundo, pela história política, familiar e social. A professorinha inesquecível, o início no jornalismo, personalidades com quem conviveu ou entrevistou. O icônico Muro da Mauá. E muitas observações magistrais, como a de uma jornada em linha reta pela BR-290 até o Alegrete da juventude. Isso tudo, e algo mais, está em “Todos querem ser Mujica”. 

Fato: quem já conhecia o Moisés como repórter curioso e com pegada humanista, além de editor cuidadoso, aqui confirma suas melhores qualidades de profissional do texto. Ele ensina como ser crítico sem apelar à grosseria. E até mesmo a ser feroz preservando a civilidade. 

E segue driblando os chavões que se oferecem pelo caminho, mantendo ao natural a facilidade de comunicação. 

Se expõe bastante na primeira pessoa, mas em sua escrita isto não soa como autoengrandecimento. Também confessa omissões, desinteresses, erros de avaliação. Humano. 

Ah, sim: como Luis Fernando Verissimo destaca numa sintética apresentação, as crônicas de Moisés Mendes não abandonam nunca o lado claro da vida, onde guarda sua poção mágica do humor.

No entanto – é preciso dizer – o livro de estreia de Mendes tem um problema em si mesmo. E é quase indesculpável.  

Ok, vamos relegar desta vez estas míseras 156 páginas, desde que não demore muito para que o autor nos forneça mais deste material (mais ou menos raro atualmente), em que sua crítica social nunca anda longe da ironia, suave mas profunda.   

sábado, 17 de setembro de 2016

Cinema – “Aquarius” e o valor da resistência


O que pode um homem só frente ao poder econômico? E uma mulher, mesmo que goze de algum prestígio profissional, às bordas da velhice, numa sociedade machista? Geralmente bem pouco. Quase nada. Mas resistir – apesar de tudo – pode sim valer a pena. E parece ser isto o que quer nos dizer e reforçar o filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. A protagonista Clara, muito bem interpretada por uma madura Sônia Braga, à vontade no papel, é uma jornalista e escritora reconhecida que vive um cotidiano confortável no mesmo apartamento em que casou, teve filhos, enfrentou a Ditadura Militar, a morte prematura do marido e um câncer de mama. E não se abateu.

Um filme feminista? Também. Mas vai além deste rótulo. Sem querer contar todo o enredo do filme do pernambucano Kleber (diretor também do premiado “O som ao redor”), vale destacar a naturalidade das situações e a verossimilhança do elenco, ao retratar o cotidiano desta mulher. Escritora bem sucedida, vive ainda no velho e confortável apartamento que comprou com o marido, décadas atrás, em frente à badalada praia da Boa Viagem, no Recife.

Um alvo bastante evidente para a exploração e a devastação imobiliária. Em seu lugar, uma grande empreiteira quer erguer um espigão com dezenas de apartamentos de luxo – concorde ou não a moradora e proprietária do imóvel.

O filme, no entanto, foge do panfletarismo em que poderia incorrer, e até mesmo de um enfoque “politicamente correto”  restrito. Nos mostra situações mais reais e cotidianas – como a boa relação da escritora famosa com a sua empregada, que está com ela há décadas, e a quem visita na favela, em festinhas familiares. Uma cena bem brasileira e que muita gente conhece e/ou vivencia.

A luta de classes ronda toda a narrativa, mas não é o astro principal. Talvez seja mais adequado destacar aquilo de que o filme trata, de fato: o que é justo e ético. E o que não é. E até que ponto podemos, como cidadãos e cidadãs, permitir que o “vale tudo” neoliberal avance.

Clara resiste em nome do valor afetivo que empresta ao seu velho apartamento do Edifício Aquarius (um nome com ressonâncias libertárias, contraculturais…), embora o dinheiro que a construtora estava disposta a lhe oferecer em troca fosse muito grande.

Assim que, no filme, uma câmera vaga, lentamente, pela praia de Boa Viagem, percorrendo o espaço – mas também o tempo, e seus desafios. O elenco do filme, como se sabe, denunciou o golpe contra Dilma, durante o último Festival de Cannes.

Em represália, o governo ilegítimo de Michel Temer pressionou para que a obra de Kleber Mendonça Filho não fosse escolhida para representar o Brasil entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Pior para a imagem do governicho de Temer.

À saída do cinema do CineBancários em Porto Alegre, como em muitos outros lugares, a plateia costuma gritar o já tradicional “Fora Temer!”. E podemos acrescentar: “Viva Kleber Mendonça! Viva Sônia Braga! Viva Edifício Aquarius!”.

E viva o Brasil que, mesmo sob golpe, de um jeito ou de outro resiste.