segunda-feira, 16 de setembro de 2019
“Bacurau”: um Tarantino à brasileira?
sábado, 31 de agosto de 2019
Poesia
Paredesafio
Eu vi um
homem olhando para uma parede branca.
Um homem
um pedinte
sem pedir
um andarilho
que não andava
parado que
só
fitando a
parede branca
como quem
decifra o infinito.
O homem
olhava para a parede
com atenção
talvez
vertigem
à borda do
abismo
branco.
O homem via
o passado o futuro o presente
como uma coisa
só
como uma
base líquida
um trecho da
Via Lactea
só seu
para a
própria
superação.
Um homem
olha uma parede branca
em silêncio
no meio dos
automóveis-cometas
que raspam
seu traje
espacial
sem lhe
causar maior dano
do que a
consciência
como
indagação
que lateja
organicamente
na
parede-desafio.
Poesia
Em Vinha
D'Alho
Fazer
trocadilho
é experimentar um atalho.
é experimentar um atalho.
É como trocar de ilha
- eu acerto e falho.
É manter um idílio:
sonho e trabalho.
É criar filho ou filha:
alegria e ralho.
É como a Bíblia:
santidade e caralho.
É assim mesmo:
aqui
ou em Vinha D’Alho.
Julho/2019
sexta-feira, 15 de março de 2019
LIvros - Antropologia, quadrinhos, poesia... o que você está lendo?
O que você
está lendo – ou relendo? Da minha parte, estou navegando nas 459 páginas de “Uma
breve história da humanidade”, do cientista e autor best-seller Yuval Noah
Harari (L&PM Editores). Nos entrega não apenas erudição e conhecimento em
linguagem simples, acessível e com boas sacadas textuais e metafóricas. O autor
israelense também constrói ligações e conexões inesperadas, na recuperação da
pré-história e da história, resgatando de modo amplo mas sintético o caminho que
nos trouxe até os dilemas atuais.
Ah, sou fã
de quadrinhos (HQs) também, e quase sempre estou curtindo algo no gênero
(geralmente, confesso, longe das historietas de super-heróis). Agora, leio e
observo a riqueza de informações e traços de “Cumbe” (Editora Veneta), do
brasileiro Marcelo D’Salete. Neste livro, ele narra a trajetória fictícia, mas
baseada em documentos reais, de um escravo negro que se revolta e busca a
liberdade, no Brasil Colonial, para além do caso paradigmático de Zumbi dos
Palmares. O livro do paulistano D’Salete foi traduzido e lançado em vários
países europeus e concorreu no Eisner 2018, maior prêmio e salão de quadrinhos
do mundo, em San Diego, Califórnia.
E para
encerrar esta quase resenha, aqui vai “na língua da manhã silêncio e sal”, da
poeta gaúcha e minha amiga Juliana Meira. Desbravadora da linguagem poética, de
sentidos, emoções e conexões inesperadas, elabora uma escritura sem pontos,
vírgulas ou travessões – tudo é totalidade e deriva. Caso sério para a poesia
contemporânea brasileira, e ainda em construção. A edição é da Modelo de Nuvem.
domingo, 22 de outubro de 2017
Napolemoro pode tudo
Crônica
O ídolo
O ídolo
Naquela entrevista ao estilo “tá tudo em casa” que Sergio Moro
concedeu a Globo News, respondendo só a perguntas amigáveis que levantavam a
bola para ele dar as respostas que todo mundo já conhece,e
na qual o repórter amestrado não questionou – só por exemplo – porque as
investigações e denúncias que envolvem o PSDB e seu criatório de tucanos nunca
vão adiante na Lava-Jato (com a resposta padrão “não vem ao caso”),
pode-se
ver, porém, um detalhe significativo na prateleira de livros atrás do magistrado:
ali, junto a outros bonecos, figurava o minibusto de Napoleão
Bonaparte (que, aliás, também era pequeno em carne e osso).
O velho e conquistador Bonaparte é uma das inspirações de Moro.
Muita gente – inclusive boa – também admira o corso.
Napoleão avançou sobre a Europa e, em suas guerras de conquista,
provocou a morte de aproximadamente 3,5 milhões de pessoas, segundo
historiadores;
proibiu casamentos entre pessoas de “raças diferentes”;
revogou a abolição da escravatura nas colônias francesas em sua
época.
E muito mais.
Moro não tem nada com isso. Deve gostar apenas do homem forte
que conquistou tudo o que queria.
Seja do jeito que for.
domingo, 1 de outubro de 2017
“O filme da minha vida” mostra fantasia e memória de um Brasil mais inocente e menos golpeado
Cinema
É quase em clima de fábula, tingida pelo resgate de percepções e lembranças infantis e juvenis nem sempre agradáveis, que se passa “O filme da minha vida”. A chave narrativa escolhida pelo diretor e ator Selton Mello para levar às telas o romance “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skarmeta, pinta um cenário bucólico e pastoril, no começo dos anos 60.
É quase em clima de fábula, tingida pelo resgate de percepções e lembranças infantis e juvenis nem sempre agradáveis, que se passa “O filme da minha vida”. A chave narrativa escolhida pelo diretor e ator Selton Mello para levar às telas o romance “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skarmeta, pinta um cenário bucólico e pastoril, no começo dos anos 60.
Embora em grandes centros mundiais já ocorressem
mudanças políticas, econômicas e se desenhasse o início de uma autêntica
revolução de costumes, nas pequenas cidades interioranas o ritmo da época ainda
era lento e muito aferrado às tradições.
Neste sentido, o diretor foi feliz em situar em
pequenas localidades da Serra gaúcha, com suas construções bem conservadas e o
ar campestre, onde o tempo parece passar mais lentamente, a locação de suas
filmagens e o desempenho dos atores.
A paisagem ajuda a contar uma história clássica:
quando o jovem protagonista Tony (Johnny Massaro) volta para casa, após se
formar como professor, fica sabendo que o pai Nicolas (Vincent Cassel)
abandonou a mulher e voltou para a França, sua pátria de origem.
De modo suave, mostrando o dia a dia da escola onde
Tony passa a dar aulas – tendo como fundo musical as canções populares da
época, toca-discos, imagens tremidas da TV, que vivia seus primeiros momentos,
e muita transmissão de rádio – o filme insere o espectador em universo ainda
ingênuo mas em transformação, que nos levou ao mundo de hoje, para o bem e o
mal.
Ao regressar, Tony também volta a ajudar a mãe no
trabalho da casa e da roça, sempre com a presença ambígua de Paco (Selton
Mello), grande amigo de Nicolas. Ao mesmo tempo, o jovem professor é atraído
pela linda Luna (Bruna Linzmeyer).
Com muita habilidade – e fazendo uma homenagem ao
cinema, com fidelidade ao romance “Um pai de cinema”, de Skarmeta, e remetendo
a filmes clássicos – o filme dá conta do recado, narrando uma inesperada
história de traição, angústia e perdão.
Ao mesmo tempo, também é uma crônica de tempos
menos duros do que os atuais, em que a própria iniciação sexual de garotos de
escola em sua primeira transa, com prostitutas em um cabaré da cidade vizinha,
dribla qualquer realidade e prefere enveredar por tons românticos e engraçados,
como uma fantasia.
Como quase toda a história clássica, o filme guarda
surpresas e revelações no final. E ainda se permite homenagear velhos astros do
cinema, da TV e da música caipira e interiorana da época, como Leandro Boldrin,
no papel de um maquinista que ajuda a manter a história nos trilhos, com um
toque de lirismo.
É verdade que, em certos
momentos, o longa beira o piegas e – quase – o melodrama. Mas sempre é salvo
deste perigo pelo humor e a ironia presentes no livro de Skarmeta (que faz uma
ponta no filme) e mantidos com habilidade equilibrista por Selton Mello.
Com a ajuda do próprio Skarmeta, o diretor
conseguiu transpor a realidade do Chile natal do escritor (onde se passa o
romance original), para um dos muitos interiores do Brasil, nos anos 60. O
roteiro de Marcelo Vindicato (que já havia trabalhado com Mello no longa
anterior, “O palhaço”) segura com firmeza e poesia a história até o fim.
Um belo filme brasileiro, em tom leve mas marcante,
que confirma a maturidade da cinematografia nacional e nos oferece um
necessário respiro, no ambiente pesado e golpeado dos dias atuais do nosso
país.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Moisés Mendes reúne e confirma o talento crônico em seu livro de estreia
Já líamos e
apreciávamos as crônicas de Moisés Mendes em ZH, nos últimos dois anos. Eram
sempre surpreendentes. Primeiro, por mostrar-se um cronista que já surgia maduro
e com estilo refinado. Depois - e ainda
mais surpreendente – por escreve r o que escrevia exatamente nas páginas de
Zero Hora.
Nos perguntávamos:
até quando o principal impresso da RBS vai manter em seus quadros – na posição
de destaque que todo o cronista naturalmente recebe – um opinador como Moisés
Mendes?
A resposta
não demorou muito a vir. Antes, houve ao menos duas tentativas internas de
removê-lo, mas Moisés resistia. E atravessou o deserto e o Mar Vermelho, para só
então as águas poluídas do pobre Arroio Dilúvio cobrirem suas pegadas. Mas não
apagaram. Havia conteúdo e forma marcantes ali, que sobreviveriam à casa dos
Sirotsky.
Isto agora
se comprova neste pequeno volume de 156 páginas que marca com sucesso a estreia
de Mendes no mundo dos livros e da Diadorim como a mais recente editora do Sul
do Brasil.
“Todos
querem ser Mujica”, coletânea de 60 textos mosaicos (“corrida aos dicionários”,
recomendava Millôr), agrupa algumas de suas melhores criações.
Dramas
shakespearianos em pequenas cidades do interior, causos, memórias fronteiriças,
viagens pelo mundo, pela história política, familiar e social. A professorinha
inesquecível, o início no jornalismo, personalidades com quem conviveu ou entrevistou.
O icônico Muro da Mauá. E muitas observações magistrais, como a de uma jornada em
linha reta pela BR-290 até o Alegrete da juventude. Isso tudo, e algo mais,
está em “Todos querem ser Mujica”.
Fato: quem
já conhecia o Moisés como repórter curioso e com pegada humanista, além de
editor cuidadoso, aqui confirma suas melhores qualidades de profissional do
texto. Ele ensina como ser crítico sem apelar à grosseria. E até mesmo a ser
feroz preservando a civilidade.
E segue driblando
os chavões que se oferecem pelo caminho, mantendo ao natural a facilidade de
comunicação.
Se expõe bastante
na primeira pessoa, mas em sua escrita isto não soa como autoengrandecimento. Também
confessa omissões, desinteresses, erros de avaliação. Humano.
Ah, sim:
como Luis Fernando Verissimo destaca numa sintética apresentação, as crônicas
de Moisés Mendes não abandonam nunca o lado claro da vida, onde guarda sua
poção mágica do humor.
No entanto –
é preciso dizer – o livro de estreia de Mendes tem um problema em si mesmo. E é
quase indesculpável.
Ok, vamos
relegar desta vez estas míseras 156 páginas, desde que não demore muito para que
o autor nos forneça mais deste material (mais ou menos raro atualmente), em que
sua crítica social nunca anda longe da ironia, suave mas profunda.
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