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sexta-feira, 13 de julho de 2012


A velha MPG volta à cena, em grande e rápida aparição



José Antônio Silva



Em todos os sentidos grande, o show dos 30 anos da MPG no Salão de Atos da UFRGS, nesta terça-feira, 10 de julho de 2012, consolidou uma relação antiga e reaproximou compositores e músicos com seu público. Um público fiel há décadas, além dos jovens que viam e ouviam aquilo tudo com surpresa e, alguns, com o entusiasmo da descoberta.



Mas, além de renovar a percepção de tantos talentos (dos veteranos e dos novos que se apresentaram), o espetáculo – realizado no limite da improvisação, compensada pelo entusiasmo e a boa vontade geral – trouxe surpresas. Como a presença da gaudéria Berenice Azambuja, que botou todo mundo a bater palmas no seu ritmo e cantar tudo aquilo que o velho gosta – em meio a tantas melodias e letras sofisticadas da Música Popular Gaúcha.



Outra constatação foi que – definitivamente – arte de qualidade não tem nada a ver com bons sentimentos e lições edificantes. Demonstração límpida dessa verdade veio com Mauro Kwitko. Ao cantar a densa e marcante “Mal necessário” (gravada por Nei Matogrosso), ele relembrou a força perturbadora de seu talento. Ao complementar sua apresentação com uma musiquinha de amor à natureza, com pegada semi-infantil e didática, o compositor fez desabar o termômetro artístico e emocional da platéia ao nível do chão.



Nada que comprometesse. O tom geral foi de reencontro do público com seus antigos ídolos. E dos próprios artistas entre si, três décadas depois que o produtor Ayrton dos Anjos, o “Patinete”, levou um grupo de compositores gaúchos a se apresentarem no Teatro João Caetano, no Rio (e lá cunhou a expressão “MPG” para classificar o que o público carioca iria ver e ouvir). Dos que lá estiveram, faltou Jerônimo Jardim. Os já falecidos foram relembrados em imagens, palavras de saudade e vídeos, como Carlinhos Hartlieb, Galileu Arruda e Geraldo Flach.  


Maiores sucessos
Nelson Coelho de Castro, Peri Souza, Gelson Oliveira, Zé Caradípia, Nando Gross, Hermes Aquino (eufórico após anos de afastamento dos palcos) e outros artistas da época mostraram canções – quase sempre os maiores sucessos de suas carreiras. A apresentação final ficou por conta de Bebeto Alves, saudado pelo apresentador Roger Lerina como um nome-síntese de toda a movimentação da MPG desde os anos 70.



Mas quem mais arrebatou o público, com direito à lágrimas no palco e na platéia, foi Raul Ellwanger, que a custo conseguiu cantar, tal a sua emoção – e que ao final de “Pialo de Sangue” foi aplaudido de pé.



Juarez Fonseca, o outro apresentador do show – cerca de quatro horas de duração – de início havia feito uma contextualização dos principais fatos do Brasil e do mundo em 1982. Ele lembrou alguns momentos marcantes da evolução da produção dos compositores urbanos do Rio Grande do Sul, com um pé na tradição (e/ou no tradicionalismo) e a cabeça no Brasil e no mundo. E citou o seminal LP “Paralelo 30”, de 1978 (produzido por ele mesmo), entre outros discos marcantes, como “Juntos”, de 1981.



Muitos outros artistas que não estiveram no show de 1982 mas fazem parte da mesma movimentação (embora a diferença de gerações), como Nei Lisboa, Hique Gomes, Nico Nicolaiewski, Giba Giba, Almôndegas, Kleiton e Kledir, Cláudio Levitan, Maria Lúcia, Jerônimo Jardim, Totonho Villeroy, Loma, e tantos mais, não destoariam do clima no palco da Reitoria – embora, neste caso, fosse necessário fazer um festival com mais de um dia de duração. Em todo caso, assistiam a tudo, discretos na platéia, nomes importantes como Wanderley Falkenberg e João de Almeida Neto (este representando o lado rural da música gaúcha).


Linha evolutiva
No embalo da apresentação, gente que nunca abre a boca – como o mestre da batida Fernando do Ó – sentiu a emoção do momento e emocionou também o público, ao pedir a palavra. Do Ó revelou a sua saudade de Geraldo Flach e que foi o falecido compositor e pianista quem o lançou como percussionista – até então, era guitarrista.



Apesar do tom de grande improviso, o show na UFRGS também deixou espaço para uma série de artistas mais (ou menos) recentes, de Marcelo Delacroix à Adriana Defenti e os grupos Fruet e os Cozinheiros e Cidade Baixa, que mostraram grande talento, lançando à frente a tal linha evolutiva da MPG. Enfim, para fazer mais, só mesmo um festival da música popular gaúcha, com mais de um dia de duração. Ou “música popular gaúcha”, nos dias atuais, já não faz muito sentido?




segunda-feira, 18 de junho de 2012

Poetando

Céu do Mercado




José Antônio Silva



Por entre as aletas

que fazem voar

o céu do Mercado

chuviscam pardais



que rasam farelos

de chão e de mesas

como pistas de caça

na água das cervejas



ciganos

magicos

ladrões escolados

sobreviventes



pardais pisam

sem medo nem pressa

no rastro das gentes.



sábado, 9 de junho de 2012

Crônica Minha


Ivan Lessa morreu. Quem é mesmo Ivan Lessa?


José Antônio Silva

Do final dos anos 60, passando pelos 70 e indo adiante, uma das mais talentosas formas de resistência cultural à Ditadura Militar atendia pelo auto-depreciativo nome de O Pasquim. Jornal tablóide semanal (ou hebdomadário, como preferiam os pasquineiros), o Pasca foi fundado em 1969 pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Típico representante da boemia intelectualizada da Zona Sul carioca da época (mesmo que seu editor-chefe – Tarso – fosse um gaúcho de Passo Fundo), o Pasquim já entrou em campo revolucionando a linguagem, usando e criando gírias, inserindo no jornalismo o falar coloquial, e com isso acabando com a formalidade do jeito de escrever da imprensa brasileira.

Seus temas iniciais, com a cautela que a época recomendava, eram a crítica de costumes e cultural, a liberdade sexual, comportamental – mas com uma subentendida oposição ao regime militar, usando a arma corrosiva do humor. Não demorou quase nada para incluir em seu leque de assuntos, claramente, a política, a economia, a política internacional e outros tabus da época, mas (quase) sempre com uma pegada leve, satírica, criativa, com um jogo de corpo que lhe conferia todo um diferencial, frente a outros jornais de oposição à Ditadura.

Além de artigos provocadores e debochados, uma de suas principais marcas foram as grandes entrevistas, regadas a uísque, que abriam a boca dos entrevistados (e dos seis ou sete entrevistadores sempre presentes). Charges e tiras de humor reuniam os maiores cartunistas e ilustradores da imprensa na época – que já sentiam o fechamento de espaços profissionais, frente ao endurecimento e a direitização dos grandes jornais da época, que apoiaram ou foram aos poucos aderindo à ordem unida dos militares.

Lá estavam feras do primeiro escalão, como o já citado Jaguar, Ziraldo, Henfil, Claudius, Fortuna, Millôr, e outros jovens colaboradores que começavam a surgir, como Nani, Reinaldo (um dos criadores do futuro Casseta e Planeta), Paulo Caruso, Angeli, Edgar Vasques...

Jaguar, é bom destacar, criou – com Ivan Lessa - o personagem símbolo do Pasca, o ratinho Sig (de Sigmund Freud), que saiu de uma tira sobre a boemia da praia de Ipanema para fazer comentários hilários, de pé de página e duplo sentido, sobre os principais assuntos abordados em cada edição, ou mesmo sobre a nebulosa e por vezes tétrica conjuntura brasileira...

No texto, além dos artigos de Cabral (crítico de música e pai do atual governador carioca) e Tarso (que esbanjava deboche e ironia em suas crônicas), também brilhava a coluna “Underground”, de Luiz Carlos Maciel, intelectual e homem de teatro antenado na contracultura – uma das vertentes rebeldes que colocava em polvorosa a ordem estabelecida, em todo o mundo ocidental. Sem falar em Paulo Francis, jornalista cultural prestigiado e analista internacional brilhante, no auge da forma, então ainda um homem de esquerda. E é nesse grupo que pulsava - à última página do jornal - na coluna “Gip Gip! Nheco Nheco!” o tal de Ivan Lessa, com ilustrações de Nani. Lessa era um grande frasista e não menos talentoso cronista de humor.

Numa época em que a repressão a qualquer forma de resistência à Ditadura era violentamente contida (aliás, toda a redação do Pasquim foi para a cadeia, entre novembro de 1970 e fevereiro de 71), e em que a mídia tentava passar uma mensagem de normalidade e de bons sentimentos à população, Ivan se saía com essa: “Amar é... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no IML”. Ou: “O brasileiro tem os dois pés no chão – e as duas mãos também”. Sobrava pra todo mundo: “Baiano não nasce – estréia”.

Porém, o filho inquieto do escritor Orígenes Lessa não aguentou por muito mais tempo o clima ensolarado mas cinzento do Rio de Janeiro da época, e bateu asas para Londres, em 1978, onde foi trabalhar na BBC e onde viveu até agora, aos 77 anos, sob um céu cinzento mas respirando liberdade. Lá escreveu três livros. Porém, carregando sempre uma indisfarçável nostalgia da terra natal, que ele combatia com doses de puro e duro sarcasmo. Assim Ivan “O Terrível” Lessa, em plena Ditadura, completou e deu o troco ao slogan do regime militar (“Brasil, ame-o ou deixe-o”): "O último a sair apague a luz”.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Poetando

Plano B


José Antônio Silva



Acostamento

escada de incêndio

buraco na cerca

saída de emergência

porta de serviço

caminho das pedras

trilha no banhado

volta comprida

pelo taquaral.



Gerações e multidões

jamais pousaram

uma única vez

a planta dos pés

na direta

simples

adequada

e ampla

estrada principal.




domingo, 22 de abril de 2012

Crônica Minha

O país que não gosta dos índios


José Antônio Silva


A rigor, como diz a canção de Pepeu Gomes e a gente repete, todo dia era dia de índio. O 19 de abril foi escolhido como data oficial pois marca a abertura do 1º Congresso Indigenista Interamericano, em 1940, no México. Mas o fato é que os brasileiros – e os povos das Américas, do Norte ao Sul – na verdade não gostam, viram as costas aos índios. Os vizinhos Uruguai e Argentina mantiveram “campanhas índias” que não devem em nada, em termos de genocídio, ao que representam Buffalo Bill e o General Custer (“índio bom é índio morto”), dos EUA. Aqui mesmo no Brasil, temos uma história coalhada de trapaças, invasões, traições, massacres e abandonos sofridos pelos donos dessas terras (donos desde 12 mil anos atrás, quando vieram da Ásia, através do Estreito de Bering).


Por falar em abandono, no Rio Grande do Sul e em outros estados sulinos os indígenas – basicamente guaranis e caingangues (e alguns remanescentes charruas) - são praticamente invisíveis. Não que não estejam aqui. Mas só os vemos de passagem, sentados no piso duro das cidades, vendendo discretamente seu artesanato. Ou vivendo de modo miserável – num mix de taba e favela – em barracas ao longo das estradas. Os que moram em reservas, sobrevivem precariamente, inclusive com toda sorte de problemas de saúde ofertados pelos brancos, incluindo-se aí depressão, alcoolismo (e até drogadição pesada), desnutrição infantil, obesidade, hipertensão, diabetes.


Que tal, índio velho?

Em compensação (digamos assim), a sociedade brasileira batizou com nomes indígenas várias cidades, rios, montes e outros acidentes geográficos. Nós, gaúchos, costumamos homenagear no cotidiano o traço de sangue nativo que corre nas veias de boa parte da população riograndense: “Que tal, índio velho?”, nos saudamos. Mas é evidente que para os 33 mil indígenas que ainda vivem no Rio Grande, isso não compensa coisíssima nenhuma.


Hoje a população de índios brasileiros, acredito eu, vive em pelo menos três condições diferentes. Inseridos na realidade mais dura, estão os vendedores urbanos de objetos nas calçadas, moradores das periferias das grandes cidades, que se deslocam em ônibus lotados, junto a trabalhadores, com seus balaios, flechas e animais esculpidos em pedaços de madeira, cercados de crianças pequenas, até o centro das cidades, onde passam o dia tentando ganhar dinheiro suficiente para comer. Cada vez mais distantes de suas raízes, também vivem isolados da sociedade civilizada, e pouco ou nenhum apoio obtêm de prefeituras e outros órgãos de governo.


Em outra situação – mas não menos difícil – acham-se os indígenas que vivem em reservas ou toldos, em municípios do interior. Não raramente envolvem-se em conflitos agrários com colonos e agricultores, a quem acusam de lhes terem surrupiado terras. Conflitos pelo poder interno, dentro das reservas, geram brigas e até mortes, por tiro ou facada, entre os indígenas, e o alcoolismo é um problema sério – e natural, frente à ausência de projeto ou perspectiva existencial. Os sucessivos governos federais e dos estados, através da Funai e de secretarias de saúde, educação, etc, oferecem algum apoio, vacinas, medicamentos, por vezes há até escolas que não apenas alfabetizam crianças e adultos, mas têm até professores de etnia indígena, que procuram passar a língua e a cultura nativa às novas gerações. Mas nem sempre as verbas chegam, ou a escola fica pronta; tantas vezes a casa construída pelo governo é inaugurada com as paredes já rachadas, o médico não aparece, os remédios terminam perdendo o prazo de validade...


O saldo, com certeza, ainda é muito cruel com estes índios, que enfrentam – como seus irmãos instalados nas periferias urbanas – falta de perspectivas reais de vida e futuro, ocupação, um projeto que os unifique. Uma equação difícil, que implica em torná-los aptos a sobreviver dignamente na sociedade “branca” mas sem perder seus costumes, sua cultura, idioma e tudo que os distingue e os unifica como uma das etnias fundadoras do Brasil.


A vida nas selvas

Neste sentido, os indígenas que vivem no Parque Nacional do Xingu e em outras reservas indígenas na Amazônia e Centro-Oeste parecem ter conquistado uma situação melhor que seus congêneres de outras regiões do país. Costumam ter rios e matas razoavelmente preservadas, onde podem levar seu modo de vida tradicional, de caça, pesca, suas festas, cerimônias e costumes, ao mesmo tempo que, em vários casos, contam com as modernidades da civilização para tornar sua existência menos dura – computadores, carros, lanchas.


Porém, resistem ao avanço e a ameaça constante e gravíssima sobre suas fronteiras, por garimpeiros, por madeireiras, por estradas e pistas de vôo ilegais, por desmatadores, pela pressão de políticos e fazendeiros, por grandes hidrelétricas (como Monte Belo), e acima de tudo, pelo agronegócio, que a tudo invade com seu gado e suas imensas plantações de grãos... Estes índios da selva convivem ainda com a crescente poluição dos seus rios e cursos d'água por agrotóxicos e por metais pesados da mineração, que acabam com os peixes e a caça e podem vir a acabar com eles, os índios – enquanto tal.


Conforme disse no início deste texto, apesar de todas as festas nas escolas no Dia 19 de Abril, a sociedade branca, no fundo, “não gosta” dos índios. Afinal, como fantasmas anacrônicos, eles representam a natureza que resiste a ser explorada, destruída e transformada para virar progresso (e lucro, claro).


A tragédia humana e cultural dos nativos americanos, enquanto o planeta sofre e acusa os efeitos de uma destruição contínua, é um exemplo do que também pode acontecer à Terra e a todos os seus habitantes. E confirma a razão contida nas palavras do chefe indígena Seatlle, da América do Norte, frente ao avanço branco sobre as pradarias no século 19: “Tudo que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”. A luta dos índios é a luta de todos nós. Tá ligado, irmão?

sábado, 14 de abril de 2012

Poetando

Semanária


José Antônio Silva


Terça-feira

- ainda é cedo, a vida convida


Quarta-feira

- ando rápido, tudo é atraso


Quinta-feira

- falta algo para alguma coisa


Sexta-feira

- carga e ponto de fuga


Sábado

- na manhã, até a chuva tem cara de sol


Domingo

- por trás da paz, ansiedade espreita


Segunda-feira

- baixo os olhos e mergulho na multidão


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poetando

Ecuassão nummerolójyka

José Antônio Silva


Era positiva...
a configuração numerológica
mas algarismos nunca foram o seu forte.


Erou ass quonttas
perrdeo ho rrummu
i aa çorty.


Agora aposta no azar
letra por letra
até a hora da morte.