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domingo, 23 de agosto de 2009

Memória


Anibal Bendatti, espalhando conhecimento


Há poucos dias o Rio Grande perdeu a figura de Aníbal Bendatti, professor de gerações - dentro e fora das salas de aula de Jornalismo. Introdutor do moderno conceito de diagramação na imprensa gaúcha, este argentino nos deixa quase aos 80 anos – ainda bem humorado e dono de opiniões consistentes. O cartunista, caricaturista e quadrinista Edgar Vasques traça aqui, em prosa e imagem, um breve retrato do mestre.



Aníbal Bendatti era um sujeito simples e suave, firme no que pensava. Mas sua grandeza residia na generosidade: usou a condição de fronteiriço (entre países, entre gerações) para obter e espalhar conhecimento, ensinando, aconselhando e abrindo portas. Entre o Prata e o Brasil, foi companheiro, amigo e/ou professor de todos os grandes grafistas, participou de tudo que foi importante. Foi, como Sampaulo, Mottini, Joaquim da Fonseca e Sampaio, entre outros, um dos elos da grande corrente que uniu várias gerações de cartunistas quando a gente inventou a Grafar. Sóbrio no traço limpo (que construiu na escola portenha) tinha uma graça humanista, que perdoava a condição humana mas nunca as desumanidades. No dia em que o conheci, há quase 40 anos, me aconselhou: ‘Tchê Pibe, suja menos o papel, pra que tanto preto, tanto nanquim?’.
Sigo tentando, maestro.

Grande abraço,

Edgar

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Crônica Minha

Circulando, circulando: tá na cara
que o jovem tem seu automóvel...

José Antônio Silva

Com aquela consciência-inconsciente de que são dotados os artistas, Luiz Melodia já cantava, no início dos anos 70, uma espécie de consenso classe-média/emergente, até então não declarado: “Tá na cara que o jovem tem seu automóvel/ e o puro conteúdo é consideração...”. Sobre o segundo verso, nunca saberemos exatamente o que ele tem a ver com a frase anterior (aliás, como ocorre em muitas “sopas-de-letrinhas” do genial Melodia), mas o primeiro não deixava dúvidas.


Ele constatava, com antecipação, o que seria uma tendência avassaladora, no Brasil e no mundo. Viveríamos, dali pra diante, a crescente época do automóvel, até chegarmos ao impasse atual – em que é tão grande o número de veículos particulares jogados à cada ano, mês, semana, dia, hora, na malha viária, que as autoridades deveriam talvez providenciar ruas e estradas feitas de borracha. Algo elástico, enfim, para poder ser esticado a fim de acolher cada novo carrinho.

Sua Majestade, o Carro
A questão é de tal magnitude e tem tantos desdobramentos que tornou-se um dos grandes problemas urbanos contemporâneos. Para começar, o caos do trânsito confunde-se e amplia a crise ambiental do planeta, seja pela produção e lançamento de gases poluentes no ar (dando uma grande mão para aumentar o aquecimento global), quanto pelo excesso de ruído e pela destruição urbana que provoca – de casas, praças, monumentos, para dar lugar cada vez mais à Sua Majestade, o Carro, e Seus Caminhos Reais.

Todos vêem: tá na cara que o jovem, o velho, o meia-idade (todos os que podem, mesmo que seja um veículo sucateado) hoje têm seu automóvel. Tá na cara que o problema está instalado. Mas nem governos (porque pensam nos impostos gerados e nos empregos desta indústria) nem a população (pois pensa em seu conforto e facilidade) admitem qualquer redução no número de veículos particulares.

E, afinal de contas, porque alguns teriam direito a circularem em seus carrões, enquanto os demais devem continuar condenados a andar ad eternum espremidos, muitas vezes em pé, em coletivos superlotados e desconfortáveis, depois de amargarem um longo tempo nas filas? Frente a este consenso, as autoridades de modo geral, a indústria e os especialistas, procuram achar alternativas que minimizem o problema, como o rodízio na circulação urbana de veículos com diferentes placas, e a fabricação de veículos menos poluentes.

Claro que o problema é mais agudo em alguns lugares do que em outros. O Brasil, entre os países maiores ou crescentes (BRIC, G8+5, etc) por certo está entre os piores. Não conseguimos ainda ter metrôs na maioria das nossas capitais e grandes cidades. E onde existe – como em São Paulo, o mais antigo e maior do país – o metrô está longe de chegar a todos os pontos do município.

Latas de sardinha
As massas de trabalhadores e estudantes das grandes regiões metropolitanas brasileiras continuam condenadas, na maioria dos casos, a arrastarem-se por longas horas em trens atrasados e degradados, linhas de ônibus que mais parecem latas de sardinha, e vans e lotações quase sempre irregulares, sem equipamentos de segurança nem fiscalização.

Ainda é um sonho distante um transporte coletivo de qualidade em nosso país. (Mas claro que este é apenas mais um item numa lista de prioridades nacionais que passa pela saúde e educação públicas, segurança, meio ambiente e muito mais. Tudo é urgente e tudo exige grandes investimentos, seriedade e a tal “vontade política”. E é justo dizer que em vários aspectos o Brasil evoluiu – há hoje menos gente na faixa de miséria da população; a taxa de mortalidade infantil sofreu redução, etc). Até porque o desafio do trânsito não pode ser resolvido por um ou outro governo – mas por esforços sérios e investimentos pesados ao longo dos anos, juntamente com a conscientização da população.

Mas isso não livra a cara de todos os governantes que, durante décadas, priorizaram apenas a cultura da gasolina e das rodovias – em detrimento de mais e melhores malhas ferroviárias, metrôs, transporte fluvial, etc. Eram, e continuam sendo, poderosíssimos interesses. Ou seja: em vez do metrô, o mau e velho “trenzinho da alegria”...

Monumento ao IGNA
Porto Alegre tem uma espécie de Monumento ao Invento Genial Não Aproveitado: trata-se da linha elevada do aeromóvel, criação de um engenheiro gaúcho há quase 40 anos - um trem elétrico, não poluente, silencioso e econômico, que circula sobre uma plataforma, acima do trânsito das ruas. O trenzinho foi adotado na Indonésia e em outros lugares do mundo, mas há décadas a sua “linha experimental” mais do que experimentada é apenas uma curiosidade a atrair o olhar de quem passa pelas proximidades da Usina do Gasômetro, na orla do Guaíba.

Dizem que agora uma linha do aeromóvel será implantada no campus da PUC/RS. A proximidade da Copa de 2014 também faria o trenzinho econômico zarpar para outros pontos da capital gaúcha.

Barca encalhada
Enquanto isso, não zarpam do papel e das conversas de botequim as barcas de transporte de passageiros pelo Guaíba, entre os municípios vizinhos e a capital, ou entre o norte e o centro da cidade até o extremo sul. Até as ciclovias que há pelo menos uma década existiam nos bairros próximos ao centro – uma região baixa, ideal para o trânsito de bicicletas – foram extintas pela Prefeitura.

Assim, cada vez mais, “tá na cara que o jovem tem seu automóvel”. E o coletivo que se exploda. Ou que saia de vez dos trilhos.




quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Palpitando

Humorista inexperiente


José Antônio Silva

Ele começou como um repórter inexperiente – mas era uma piada: tratava-se de um humorista disfarçado. No entanto, agora – com sua face verdadeira – Danilo Gentili, do simpático “CQC”, revelou-se de fato inexperiente, para dizer o mínimo. Em seu blog postou uma piada comparando negro com macaco.


Racismo em estado puro – naquele formato tradicional em que o humor serve de perpetuador de preconceitos. A questão que alguns engraçadinhos profissionais ainda não entenderam é que o humorismo está longe de ser uma manifestação inócua, insípida e inodora, que não fere. Ao contrário, há quem garanta que o humor é sempre cruel.


Na real, pode ser comparado a uma arma – e quem a maneja deve saber os danos que ela pode causar, sem os devidos cuidados.


(Parênteses: e aqui precisamos cautela, pois os excessos do “politicamente correto” são insuportáveis, até mesmo porque afrontam o bom senso e o equilíbrio. De origem anglo-saxã e protestante, se for levado às últimas conseqüências traria o fim não só do humorismo, mas de qualquer arte. E não é disso que se trata aqui. E sim do domínio do fácil, do preconceituoso, do imbecil, incapaz de crítica social coerente).


Voltando. Ao longo dos últimos séculos, os satiristas, os comediantes, os cartunistas - da imprensa, da feira, do teatro - tinham como alvo maior o poder: a monarquia, os generais, os bispos, os políticos, os banqueiros, até a burguesia dominante, sua caretice e sua comédia de costumes.


Por vezes corriam riscos ao mexerem com esses estamentos. Mas isso era parte inerente ao ofício. O humor revolucionário do Pasquim, durante a Ditadura militar brasileira, levou praticamente todos os humoristas-editores do jornal (menos Millôr) para trás das grades. Enfim, o exercício do humorismo exigia alguma coragem, mas em compensação defendia-se o que se considerava justo – e ainda se tirava um sarro da prepotência e do autoritarismo.


Neste contexto, debochar dos pobres, dos negros, dos índios, dos aleijados, etc não caia muito bem. Afinal, qual o mérito de chutar quem já está por baixo – pelas condições históricas – e a custo tenta erguer-se socialmente?


Isso sempre teve nome: covardia.


No Brasil, este tipo de humorismo sem lado, sem responsabilidade social, livre como uma metralhadora giratória ou um táxi, ganhou espaço de gala nos anos 80 com o “Casseta & Planeta”. Lembro dos cassetas fazendo humor em cima do MST, apesar do então recente Massacre dos Carajás (PA) ou do assassinato de Rose (Encruzilhada Natalino, RS) demonstrarem que ali se tratava de gente desesperada – de carne e osso; homens, mulheres e crianças -, tentando conquistar uma vida um pouquinho mais digna. E arrostando com a própria vida interesses de oligarquias que remontam, em muitos casos, às capitanias hereditárias...


Este esvaziamento de fundo político ficou inda mais bombado com a assunção triunfalista do neoliberalismo, em especial nos anos 90 – que atiçou o humor pelo humor, a graça em cima de infantilidades e preconceitos sociais, que sequer faziam cócegas nos detentores do poder. Não seria exagerado dizer que os humoristas desta praia, de certo modo regrediram ao tempo dos seus antepassados na função, que eram os bobos da Corte – e ganhavam afagos e coxas de frango dos nobres, quando não um pontapé carinhoso.


E assim vamos, com um humorismo – especialmente na internet e TV – marcado pela busca do riso fácil, pelo ibope, pelo sucesso de mercado. Claro que surgiram lu continuaram existindo coisas boas e interessantes: Marcelo Adnet e seu “Quinze Minutos”, o próprio “CQC”, a hilária Lady Keithy, a boa e velha "Grande Família", momentos inspirados do "Casseta", e outros mais. No geral, porém, embora possa haver gargalhadas, sua essência está mais para uma melancólica escorregada no conservadorismo.

Verdade que os humoristas batem à beça nos políticos – até porque esses pedem para apanhar (alô, Yeda! Alô, Sarney!). Mas cadê as críticas, as charges e as ironias contra os desmandos, ilegalidades e manipulações da Mídia, talvez o maior poder do mundo e do Brasil de hoje?


E na ausência de crítica a quem realmente manda, dê-lhe o humorismo abobrinha e reforçador de preconceitos: suas piadas, na essência, são sucesso garantido desde o tempo dos navios negreiros.

sábado, 1 de agosto de 2009

Conto um Conto


Vigas à mostra, como tendões descarnados

José Antônio Silva


Encontrei-A num edifício em ruínas. Eu tinha 11 anos, e é só o que sei. Estruturas descarnadas, pilares de concreto corroído, vergalhões de ferro como tendões à mostra, apodrecendo. Poças de água parada, entre os desvãos do piso. Sobre mim, o céu era chumbo. Mas Ela não era tão assustadora. Estranha. Sim, “estranha” A descreveria melhor.


Não tenho certeza de onde me encontrava, de quando me encontrava, de como me encontrava ali.


Ela surgiu a rigor. O manto e o capuz das ilustrações clássicas de Gustave Doré. Não recordo se portava a velha foice, de grande lâmina recurva. Creio que sim.

A Ceifadora – lembrei de seu milenar cognome. Um só golpe, milhares ou milhões de golpes ao dia, falemos claro, faziam com que merecesse esta alcunha - como um elogio das sombras. Com gestos mais rápidos do que a vista poderia alcançar – mas na verdade lentamente, no tempo subjetivo de morte de cada mortal – Ela edificou sua fama.


Fortuna? Fortuna, quase sempre, é continuar vivo. “Enganar a Morte”. Não, ninguém A engana, entendi ali. Ela apenas não carrega consigo quem ainda não está escolhido.

Pode impor um imenso susto, pode gerar situações descritas como terríveis ou milagrosas, por seu desfecho não convencional. Mas enganar? É que vocês não A viram – pelo menos é o que imagino.


Estive com Ela naquele prédio arruinado – a imagem da desesperança. Já havíamos estado próximos em outros momentos de minha existência. Mas naquele momento A vi como Ela se apresenta mais frequentemente na iconografia de nossa cultura.


Digo: é alta – representa ter três metros de altura. É escuro o seu traje. E há uma face, que só adivinhamos, no fundo negror de seu imenso capuz. Porém, algo rebrilha por lá. Uma inteligência, ou sabedoria. Uma luz, uma chispa, uma brasa – paradoxalmente muito viva.


Não sei o que eu fazia naquele esqueleto de concreto carcomido, paisagem da decadência. Não sei quando e onde – como já disse. Não sei porque. Mas quem sabe o motivo de encontrá-La, e depois poder contar a história?


Só sei que estava lá. Surpreendentemente, tudo era imerso em calma. E havia naturalidade e essencialidade naquele encontro, é claro.


Ela fez um gesto – uma volta, uma meia volta talvez, com seu manto em frangalhos, frangalhos de força, cujas pontas, fios soltos, tocaram em meu corpo. E aquele gesto, tenho consciência, durou anos.


Desci os degraus quebrados e desemboquei numa calçada como outra qualquer. Crianças brincavam por ali – meus amigos? Passei entre elas e me integrei ao ritmo dos pedestres, dos carros, ônibus, à fumaça tóxica e ao ruído – apesar de tudo – da vida.


Numa vitrine, na primeira esquina, vi que meus cabelos estavam brancos, e respirei fundo o cheiro da existência que segue. Continuo caminhando. E é tudo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poetando

Subimos armados

José Antônio Silva


Subimos armados de punhais.
Íamos buscar o que era nosso.
E que nos fora roubado.

Subimos armados de ira e revolta.
Íamos acabar com o que era deles.
Que eles eram do outro lado.

Subimos armados de medo.
Íamos talvez encontrar a morte.
Quem conhecia os fados?

Subimos armados até os dentes.
Íamos agarrar nossa redenção.
Eram de ferro as nossas mentes.

Inverno/2009

sábado, 18 de julho de 2009

Crônica Minha



A maldição da Rainha Má no Reino dos Gaudérios


José Antônio Silva


No distante Reino dos Gaudérios, ou Gaudéria, há muitos anos uma rainha má impunha grandes sofrimentos aos seus súditos. Cercada de seus cortesãos, vivia em alto luxo, enquanto a plebe amargava uma vida de pobreza e ralas moedas ao fim de cada jornada.


Quando os representantes das corporações reclamavam da miséria que lhes era imposta, a soberana justificava: “Este é um sacrifício que todos precisam dividir, para que as finanças do reino voltem à normalidade e as burras do tesouro fiquem novamente cheias”.


As burras do Tesouro - Mas quem já estava cheia, mesmo, eram as burras e os burros de carga, que não suportavam dar tanto duro e só receber em troca migalhas, pancadas no lombo e explicações arrogantes.


Para piorar, Sua Majestosa Crueldade concedia benesses e mordomias sem fim aos seus conselheiros mais próximos e aos membros da Família Real. Seguia uma regra de ouro: “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, justiça!”.


E a justiça que aplicava era sumária e duríssima: sua Guarda Real já executara um pobre artesão – logo que a Rainha chegara ao trono – que tivera o desplante de reclamar uma vida melhor para ele, sua família e os demais plebeus do reino.

Mais: seu próprio embaixador junto a um país amigo aparecera boiando sem vida num lago distante, com o cavalo amarrado à uma ponte. Comentava-se que o cavalgante diplomata sabia demais sobre as intrigas da corte...


O feiticeiro - Como sempre nessas histórias, também havia um bruxo neste reino, uma eminência parda. Tratava-se do Mestre, o próprio príncipe consorte – aliás, com mais sorte que juízo, dizia o populacho.


“Crusius Credo!” – bradava o feiticeiro o seu encantamento, nos porões do castelo. Era conhecido por seus estudos sobre a moeda, e que fazia desaparecer grandes quantias de ouro com um passe de mágica.


Aparentemente do nada, Sua Majestosa Crueldade e Mestre Crusius Credo fizeram surgir de uma hora para outra um rico palacete de verão, numa região literalmente nobre da capital do reino.


O povo cochichava na rua, e até as folhas coladas às paredes para informar os burgueses já não podiam deixar de estranhar o milagre.


Traidores da Rainha Má, temendo que suas cabeças rolassem também, iam pouco a pouco revelando seus segredos e as conjuras tramadas antes e depois da chegada ao poder.


Ouro para os comandantes - A ferro e fogo, Sua Majestosa Crueldade impunha sua ordem desordenada e sem lei. No entanto, dentro da própria Guarda Real, havia rumores de insatisfação: por que os comandantes recebiam mais e mais dobrões de ouro, sobrando para os soldados o risco das vielas escuras e a revolta crescente da plebe? E por um punhado de níqueis!


Um reino antes rico e respeitado pelos vizinhos, agora a Gaudéria sofria o desprezo alheio e via as populações cada vez mais sem trabalho, adoecendo sem médicos ou curandeiros, sem instrução nem esperança. Os filhos da plebe que insistiam em ter educação, eram confinados em grandes caixas de metal – sob o calor infernal do verão e o frio congelante do inverno gaudério.


A Rainha Má a tudo respondia justificando-se com a carência de dobrões, que a impedia de proporcionar uma existência melhor a todos os súditos. Vivia, porém, cercada de luxo em seu novo palácio, trocando seus conselheiros sucessivamente, numa tentativa de calar a boca da população.


Trânsito de carroças - Mas todos sabiam que o trânsito de carroças do reino fora entregue a um grupo de nobres cobiçosos, que tinham desviado do tesouro real nada menos que 44 milhões de dobrões em ouro.


Com a Guarda da Rainha dividida, as corporações e guildas de trabalhadores sem poder esconder sua revolta, os lavradores abandonados e os saqueadores agindo livremente pelas ruas e estradas do reino, a população aguardava que novos tempos chegassem o quanto antes. Como de costume, queriam ser felizes para sempre, ou pelo menos durante os próximos anos.


Mas a maldição da Rainha Má ainda não havia terminado.


Uma pergunta permanecia no ar: até quando?




Gaudéria, 18 de Julho do Ano da Graça de 2009


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Palpitando






A canção morreu, mas escuta essa...

José Antônio Silva

Desde alguns anos, vem rolando um papo-cabeça de que a canção morreu. Vocês sabem, teria ocorrido o sepultamento (sem marcha fúnebre nem fita amarela) daquele tipo de som popular mas sofisticado – música e letra em alto nível de harmonia e qualidade – que fez a glória de Chico, Caetano, Paulinho da Viola e tantos outros por aqui. Ou como Bob Dylan, Lennon & McCartney, para não falar em Cole Porter e demais pioneiros, lá fora, entre milhares de nomes reconhecidos e consagrados. Antes de mais nada, a afirmação situa-se no terreno da provocação, do exagero – e assim deve ser entendida. Há inúmeros outros cancionistas criando belas obras, de velhos e novos sambistas a Los Hermanos, ou de Tom Waits a Amy Winnehouse.


Mas como em todo o exagero, a frase contém algo de verdade. Fala-se aqui de algo que, na verdade, espraia-se em grande diversidade de gêneros: samba, bossa-nova, MPB, pop, balada, forró, tango, blues, choro, rock, as canções italianas, a chanson francesa, o reggae, etc. Enfim, me refiro a esta espécie de música que pode ser facilmente cantada, e que existe em perfeita integração entre os elementos melódicos e verbais – e que neste 2009 já não desfruta da unanimidade que teve durante a maior parte do século XX. Século, aliás, onde grande parte dos gêneros citados neste parágrafo atingiram excelência de formato e maturidade.

Melodia virou “base”
As inovações tecnológicas e o som eletrônico levaram a audição contemporânea e sua fruição para outros lados, e não é demais lembrar o papel crescentemente influente do rap – com a fala sincopada ocupando quase por completo o espectro sonoro -, restando um arremedo de melodia como mera “base”. Existem sim artistas do hip hop testando essas barreiras naturais, com alguns resultados interessantes na mescla com o jazz, o funk, o pop, o samba, o reggae, mas a palavra mais discursada do que entoada é a atual rainha do palco. E tudo indica que assim seguirá ainda por bom tempo. Ou não – como diria precavidamente o já lembrado Caetano.


A sensibilidade de hoje, e aí digo eu, está mais insensível. Melodias derramadas e declarações de amor, mesmo com sofisticação (ou por isso mesmo) perderam espaço no mood contemporâneo: como em todas as artes, atualmente é restrito o espaço para o romantismo, o lirismo, para tudo que seja considerado ingênuo.

Ao mesmo tempo, na música popular do Brasil, popular mesmo, impera o batidão (funk carioca), ou o axé baiano, com letras e rimas pornô ou apenas primárias e paupérrimas. No entanto, o ritmo é forte e bota favelados e classe média urbana para dançar como quem transa.



Nem a chamada “música brega” (bolerões, guarânias, sertanejas, ie-ie-iês), que fez fama e fortuna de Waldick Sorianos, Reginaldos Rossis, Perlas, Odaires Josés e Sidneis Magals junto ao público mais casca grossa, hoje não tem muita vez. Esta prateleira é agora ocupada por sertanejos-country e pagodeiros “românticos”, que – verdade seja dita e cantada – mantêm seu publico . Já existe até o subgênero sertanejo universitário...

Envelhecendo com os mestres
No entanto, é preciso admitir que a canção já conheceu dias e noites melhores. Há muitas bandas de rock brasileiras que têm seus fãs, com baladinhas emo que pegam no ouvido, mas que o status da canção se perdeu – talvez acompanhando o envelhecimento da geração que a elevou ao nível mais alto no Brasil, nos anos 60 e 70 – disto não parece haver muita dúvida.


Um exemplo foi dado pelo eterno Roberto Carlos, que em seu especial de fim de ano na Globo, poucos anos atrás, bombou sua apresentação com a presença do MC Leozinho, ao lado de quem o Rei (da canção) entoou constrangidamente um refrão bobo ao ritmo do batidão: “Se ela dança/ eu danço/ falei pro DJ...” Queria se mostrar contemporâneo, o velho Roberto, esquecendo-se que já é eterno para os brasileiros.

Relativisando culturalmente
Voltemos ao tema principal. A canção está em baixa, e creio que isto se deve também a certos aspectos do relativismo cultural, para quem o refinamento de linguagem – um dos seus pontos altos – também foi para a linha de desmontagem: seria reflexo de um modelo tradicional, imposto de cima para baixo, europeu, machista, ocidental/judaico/cristão, racionalista e que deveria seguir para o paredão do esquecimento, em nome da justiça histórica e de outras correções políticas.


A “indústria cultural”? Sim, tem muito a ver com isso. Sob o signo do pragmatismo mais desvairado, às voltas com a pirataria, com a música baixada de graça da internet e outros problemas, abandonou quase por completo qualquer proposta artística que não vise sucesso imediato e massivo.


Enquanto isso, nas artes “não populares”, ocorre fenômeno inverso: amplia-se cada vez mais o fosso entre alta e baixa cultura. Hoje praticamente já não se admite uma obra (no setor que antes atendia por artes plásticas, ou na literatura) que “não reflita sobre si mesma”. A poesia, por exemplo, é cada vez mais rarefeita e auto-referente, quase um ensaio a respeito de um nó cego. A bilhões de quilômetros de distância, portanto, do alcance e das expectativas do leitor médio.


Ah, sim, a canção. A canção sobrevive, claro, e sobreviverá. Do mesmo modo que o cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a fotografia não matou a pintura etc, etc (mas esperemos para ler as páginas policiais dos jornais do futuro).


Em todo caso, ao contrário de seus tempos de glória, a canção parece ser, cada vez mais, um petisco para pequenas platéias.


Os 20 melhores do Brasil – e outros tão bons quanto!

De quebra, coloco aqui os 20 maiores criadores de canções da MPB (no sentido amplo e irrestrito) na minha modesta opinião. (Alguns, para o fim que aqui me interessa, funcionam preferentemente como duplas, e assim vão). É evidente que meus critérios passam por algumas unanimidades, mas também por gostos e idiossincrasias pessoais, influenciadas por sua vez por minha história e trajetória de vida. Lá vão, correndo todos os riscos, mas sem ordem de importância:



1.Caetano Veloso, 2. Chico Buarque, 3. Gilberto Gil, 4. Paulinho da Viola, 5. Cartola, 6. Tom Jobim & Vinícius de Moraes, 7. Lupicínio Rodrigues, 8. Noel Rosa, 9. Adoniram Barbosa, 10. Luis Melodia, 11. João Bosco & Aldir Blanc, 12. Roberto & Erasmo Carlos, 13. Paulo Vanzolini, 14. Luiz Gonzaga & Humberto Teixeira, 15. Dorival Caimmy, 16. Braguinha, 17. Jorge Mautner, 18. Cazuza, 19. Rita Lee & Roberto de Carvalho, 20. Nei Lisboa. Importante: Esta lista passa a ter 22 nomes, pois por mistérios insondáveis do inconsciente esqueci de dois dos artistas que mais admiro na música brasileira: Jorge Ben Jor e Raulzito Seixas.

Quanta injustiça
Quando elaborei a relação, sabia que estava cometendo um caminhão de injustiças e esquecimentos. Para tentar minorar esta situação, elenco aqui vários outros artistas com méritos de sobra para figurar na relação acima (ou não), mas que residem igualmente no meu coração musical. Olha só:

Marina Lima, Lobão, Renato Russo, Djavan, Vitor Ramil, Seu Jorge, Jards Macalé, Herivelto Martins, Alceu Valença, Billy Blanco, Jackson do Pandeiro, Belchior, Milton Nascimento & Fernando Brant, Gonzaguinha, Menescal & Boscoli, Marcos & Paulo Sérgio Valle, Itamar Assumpção, Martinho da Vila, Adriana Calcanhoto, Nelson Cavaquinho & Guilherme de Britto, João do Valle, Sá, Rodrix & Guarabira, Maísa, Almir Sater, Zeca Baleiro, Renato Teixeira, Lenine, Edu Lobo, Guilherme Arantes, Carlinhos Hartlieb, Luiz Tatit, Capinam, Sérgio Sampaio, Nando Reis, Arrigo, Walter Franco, Beto Guedes, Lô Borges, Lulu Santos, Paulinho Moska, Arnaldo Antunes... Chega!


E chega mesmo, porque o que tem de compositor bom neste país não cabe nem na realidade virtual. E isso que eu não falei dos cantores e cantoras, não citei as grandes bandas, os instrumentistas geniais, etc...