Temas

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Poetando (2)

Lição de coerência


1. Ladrões abrigados no governo

roubam do povo

que elegeu o governo/

2. Protesto nas ruas:

governadora manda a polícia

estancar o protesto

- senta a pua!/

4. E defende os ladrões

que ajudaram a elegê-la

por muitos milhões/

5. Falta decência?

Bobagem...

lhe sobra coerência!/

6. E acaba logo com essa lambança:

porrada no lombo do povo

- aqui tem governança!

Mundo Visual (3)


Que nem Jesus Cristo...




by Ricardo Stricher

domingo, 8 de junho de 2008

Poetando (1)

A certeza dos feiticeiros


Negros mestiços e índios
já invadem os palácios
quebrando portões eletrônicos
e os arsenais do futuro

Os guardas caem primeiro
vítimas da indecisão:
de quem eles são irmãos?

Os senhores querem a morte
sem lutar e sem saber:
morrem mesmo ou não passa
de uma nova embriaguês?

Há sangue pelas paredes
lanças explodem barrigas
bocas com sede:
liberdade para as vísceras!

Das gordas tripas expostas
abatem-se sobre os tapetes
grandes golfadas de bosta

Os índios saqueiam e gritam:
tudo é festa!
tudo é de novo floresta!

Em raios azuis estouram
as últimas invenções
da ciência aplicada
do requinte industrial

Na avenida central
tudo é simples como é:
hoje há morte e carnaval

Adeus aos vidros fumê
(põem fogo nos palácios)
querem cumê!
querem bebê!

Abrem adegas despensas
inutilizam os freezers
e jogam ao sol
(às moscas)
os velhos pernis resfriados
para quando viesse a crise

No aço dos corredores
a dança louca dos fados;
nas piscinas este é o dia
do banho dos afogados

Nativos tontos nas ruas
de arrebatamento e gozo
vestem roupas das senhoras
curradas mortas e nuas

Marcham para onde se esconde
o matagal derradeiro.
Era só questão de tempo
- a certeza dos feiticeiros.




Poema de José Antônio Silva, de 1986, musicado e gravado por Bebeto Alves no CD “Paisagem”, de 1999.

sábado, 7 de junho de 2008

Crônica Minha (3)

Profissionalismo é isso aí!

1. Arquitetos são de esquerda. Os que fazem mansões são traidores da casa, digo, causa.
2. Engenheiros são de direita. E quando não são, viram músicos: Engenheiros do Hawaii, Inimigos da HP, etc.
3. Músicos? Ser músico não é profissão, é uma condição em tempo integral. Sem o violão na mão, alguns nem conseguem atravessar a rua.
4. Apresentadores de TV: são gordos engraçados, ou usam nariz de papagaio, ou são velhos de peruca acaju (há imitações mais recentes), ou são loiras burras mais ou menos passadas. Outros tipos estão em teste. Evite todos!
5. Jornalistas: ingênuos que se julgam sabichões. Os tidos como mais medíocres viram chefes ou empresários da comunicação.
6. É, empresários... Ô raça exploradora! Trocam mulher e filhos por uma boa fusão. Quando morrem, querem ir para um paraíso fiscal.
7. Jogadores de futebol: a maioria destes vagabundos não joga nada, mas eles ganham muito por causa daquelas entrevistas ótimas.
8. Médicos são de centro: a saúde mora no equilíbrio. Mas as recomendações só servem aos pacientes.
9. Atores só querem... agradar, mesmo quando buscam chocar. Precisam de um script à mão para dizerem coisas verdadeiras.
10. Mecânicos... As vítimas desses criminosos desenvolvem a Síndrome de Estocolmo: sabem que serão assaltadas e mesmo assim entram no covil, digo, na oficina.
11. Humoristas: ranzinzas... Só riem de si mesmos quando contam uma piada.
12. Poetas bebem e chutam a mulher em casa, entre um verso e outro, para sentirem os pés no chão.
13. Advogados gostariam de ter sido outra coisa, ou a mesma coisa de um outro jeito. Mas sabem que não tem jeito...
14. Políticos são honestos e idealistas no fundo: as circunstâncias é que não favorecem. (O ideal está vivo e é mantido numa coleira, no fundo do quintal; a empregada lhe dá comida e água).
15. Militares sonham com um mundo de ordens diretas e sem subjetividades. Não precisam de mulher nem para fazer a comida – só para fabricar novos soldados.
16. Policiais: gente bem boa taí! (Eu, hein...)
17. Donas de casa: são donas e ainda reclamam do trabalho!? Vão fazer um regime!
18. Professores ensinam o que sabem e o que não sabem com a mesma segurança. Só citam Paulo Freire para disfarçar.
19. Religiosos se permitem não ter qualquer escrúpulo: sabem que a fé da humanidade é interminável...
20. Carteiros: ô profissãozinha sinistra! Só trazem contas a pagar, intimações judiciais e outras más notícias. O que houve com as cartas de amor?
21. Blogueiros: inteligentes, generosos, solidários, honestos, bonitos, tolerantes, sarados, talentosos, bem humorados, visionários, românticos, carinhosos, pais exemplares, têm dentes perfeitos e - somos obrigados a acrescentar – são muito modestos!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Crônica Minha (2)

Veja bem! Com certeza!

Há expressões que deviam ser banidas por um tempo do vernáculo nosso de cada dia. Vocês sabem: "Com certeza", "Veja bem".
Já há uns 15 ou 20 anos estas pragas idiomáticas instalaram-se no cotidiano brasileiro. Reconheça-se que são úteis. Cada qual na sua função, claro.
"Com certeza" é mais aplicada em entrevistas de TV, e vem à mente e à boca automaticamente, carregada de genuína vontade de agradar. Mas muitas vezes esta aparente salvação se mostra uma armadilha.
Repórter:
- Estamos aqui em Juazeiro das Cabritas, no agreste paraibano. Vamos conversar com dona Maria Severina Xique-Xique dos Santos. Tudo bem, dona Maria Severina?
- Com certeza! Graças a Deus.
- Dona Maria, é verdade que a senhora tem 36 filhos, cada um de um cabra, digo, de um pai diferente?
- Com certeza! Êpa!! Êpa!! Ô seu repórti desavergonhadio, fio de uma mula! Eu sô é mulé de respetio!

O mesmo automatismo verbal já derrubou a imagem de muito engravatado.
Brasília, Congresso Nacional, horário nobre.
Repórter:
- Deputado, há muitos comentários nos corredores e gabinetes sobre o seu envolvimento no escândalo...
- Com certeza! Êpa!! Êpa!! Data venia! Sou parlamentar há 32 anos, tenho compromisso com minhas bases, minha familia, e não admito aleivosias e insinuações, etc, etc, etc!

É, o comcertezismo mostra-se muitas vezes uma prática arriscada.
Já o vejabenismo, como se sabe, cumpre outro papel: dar tempo para o questionado elaborar uma resposta adequada. Mais frequentemente, para enrolar o prezado ouvinte.

Utilizado em entrevistas a imprensa e debates públicos e questionamentos de modo geral.
Repórter:
- Afinal, deputado, o seu nome consta ou não na fita que gravou o recebimento de propina?
Deputado (respira fundo, passam-se intermináveis três segundos):
- Rummm... Veja bem! Eu ainda não tive acesso etc, etc. Mas considero prematuro, na vigência do pleno estado de direito, etc, etc, meus direitos constitucionais, etc, etc, etc.

Porém, alguns dispensam tudo isso.
Repórter:
- Deputado Sérgio Moraes, o sr. responde acusações na Justiça ainda do tempo em que era prefeito. Como se sente ao assumir o Conselho de Ética da Câmara?
- Processo na Justiça é que nem cachorro pulguento. Qualquer prefeito, se não tem, teve!

Veja bem, caro internauta: com certeza!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 1 de junho de 2008

Crônica Minha (1)

Morrer se for preciso. Matar...
“Morrer se for preciso. Matar nunca”. A declaração de intenções foi do marechal Rondon, militar e sertanista brasileiro, criador do Serviço Nacional do Índio (antecessor da Funai), nas primeiras décadas do século XX.

“Índio bom é índio morto”. Frase atribuída ao general Custer, oficial da Cavalaria norte-americana encarregado de solucionar a “Questão Indígena” dos EUA, no século XIX.

As frases vêm à mente neste momento em que a Funai divulga fotos de uma tribo não contatada até hoje, na fronteira do Acre com o Peru - e ficamos sabendo que dos 100 grupos indígenas isolados existentes no planeta, 68 estão no território brasileiro, em pleno século XXI!

Há poucos dias, também na Amazônia brasileira, a TV mostrou indígenas da etnia caiapó espancando um engenheiro da Eletrobrás, após uma palestra em que o branco tentou convencer os índios de que alagar uma vasta porção das terras onde vivem, para erguer uma grande hidrelétrica, seria bom para todos, inclusive para os indígenas.

No mesmo período, no interior de São Paulo - estado mais desenvolvido do país, em pleno Sudeste-maravilha – 200 índios fizeram reféns quatro funcionários da Funai. Eles protestam contra intenção de mudar o escritório da Fundação Nacional do Índio de Avaré para o litoral paulista. E querem agora um indígena no comando do escritório.

Não é só: reunidos no agreste pernambucano, lideranças indígenas do Maranhão, Ceará, Paraíba e Pernambuco protestam e querem que o STF garanta a homologação da Reserva Raposa do Sol, em Rondônia, contra a ação dos grandes arrozeiros locais. Um cacique da etnia xucuru já avisou: “Se a Justiça acatar a ação dos arrozeiros, vai haver derramamento de sangue!”.

Que há algo em comum em tudo isso, só não vê quem não quer.

O desenvolvimentismo brasileiro a qualquer custo de agora, cheio de boas intenções, na prática significa uma retomada do que sempre foi feito no país e nas Américas desde a chegada dos europeus.

Este trator com correntes já derrubou a ministra-símbolo do ambientalismo, Marina Silva, junto com grande parte das árvores da Amazônia. O incremento da monocultura da cana de açúcar para produzir bio-combustível avança por todos os espaços do Sudoeste em direção ao Norte do país, com isso empurrando Amazônia adentro a produção de grãos e de gado.

Enfim, o agro-business brasileiros atropela fauna, flora, águas e ares da maior floresta do mundo, dizimando até os humanos que, inadvertidamente, há centenas ou milhares de anos, ali estão estabelecidos.

Em foco, a última grande fronteira da vida selvagem, da natureza no auge de sua riqueza e exuberância, enfrentando o pragmatismo dos números: cabeças de gado, toneladas de soja, bilhões de dólares e euros.

Consciente ou inconscientemente, os índios estão pintados para a guerra, dispostos a ir à luta literalmente - lutando com arco e flecha e bordunas – para defender sua vida, sua dignidade, sua cultura, na pior batalha de toda sua longa existência neste continente.

Quando não mais houver uma árvore centenária, um pássaro para cantar, um curso d’água sem agrotóxico ou detergente, um índio vivendo como índio, com o ar poluído, o planeta superaquecido, bilhões de carros parados para sempre num interminável engarrafamento, nossos líderes políticos e empresariais poderão comemorar.

“Afinal, chegamos ao ápice do desenvolvimento!”. E deitarão para morrer realizados, com a sensação do dever cumprido, sobre o solo envenenado do planeta-lixo.

“Índio quer apito, se não der pau vai comer”. O alerta era cantado em marchinha de carnaval brasileiro dos inocentes anos 50.
O apito – que avisa, chama a atenção – já estava nas palavras do cacique Seattle, da América do Norte, no século XIX: “O que acontecer com a Terra, também acontecerá com os filhos da Terra”.