domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poetando - Pedra saltada


Pedra saltada

Poema
mesmo
poema
é aquele que arranca
pedra do chão

E o chão
passa a ser outro chão
que não o chão
da pedra
arrancada do chão

E a pedra
descansa no ar
porque
para aquela pedra
agora
o ar é o seu novo chão

Até que outro poema
arrebente também o ar
como arrebentara o pouso
primeiro
da pedra saltada do chão.

José Antônio Silva – janeiro 2014


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Em linha direta com a Ditadura

José Antônio Silva

Mais uma prova de que os setores historicamente marginalizados da sociedade brasileira, de modo geral, começam de fato a ter vez, a partir das gestões petistas federais, estaduais e municipais – apesar de todas as falhas e imperfeições do processo, que é complexo – é que a direita mais retrógrada se vê obrigada a arrancar da cara o sorriso de vendedor e vir a público cuspir o seu ódio. Num universo em que conservadores ofendem e maldizem em nome de Deus (Feliciano) e da Ordem (Bolsonaro), ajunta-se a voz irada, violenta, racista e homofóbica do deputado Luiz Carlos Heinze.

“Tudo o que não presta”
A pretexto de defender agricultores familiares num conflito fundiário com indígenas, no norte do RGS, ele atacou o papel da Secretaria Geral da Presidência da República, coordenado pelo ministro Gilberto Carvalho. Mas o importante é o formato da afirmação, gravada em vídeo:
“No mesmo governo (...) estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, e eles têm a direção e o comando do governo”.

Na mesma oportunidade, Heinze ainda aconselhou/sugeriu aos agricultores uma ação armada contra os indígenas, no conflito fundiário do norte gaúcho, dando como exemplo o uso de jagunços (“segurança privada”) pelos fazendeiros do Pará e Mato Grosso do Sul. Vale lembrar o prestigiado General Custer, da Conquista do Oeste dos EUA: “Índio bom é índio morto”.

Questão de DNA
Heinze é deputado federal pelo PP/RS. Vale pesquisar o DNA da legenda: seu nome de batismo era Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que dava uma fachada de democracia à ditadura militar (1964-1985). Depois, virou PDS, que virou PFL, que virou PPR, que virou PPB – até assumir, em 2003, a designação simpática de Partido Progressista. Tudo, claro, numa constante tentativa de não ser associado ao governo ditatorial que prendeu, censurou, torturou e matou.

Mas, claro, em todos os setores sociais do Brasil há gente saudosa da ditadura ou esperançosa de algo parecido. Provavelmente o deputado vai dobrar o número de votantes na próxima eleição.


Um motivo a mais para que as esquerdas e os verdadeiros progressistas não se destruam em lutas internas. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O esporte da escrita

José Antônio Silva

São regras não oficiais, mas implícitos modos de convivência, oferecimento e fruição entre autores e leitores. As formas curtas – contos, poemas, boutades, crônicas, trocadilhos – precisam necessariamente ter densidade e tensão em toda sua (pequena) duração, para cumprirem bem seu destino e seu papel. Afinal, têm pouco tempo e pouco espaço para justificarem a própria existência.

Já as novelas e romances podem se dar ao luxo de enrolarem o leitor por páginas e capítulos, mais ou menos frouxos, mais ou menos inspirados, desde que o leit motiv, o enredo, os personagens ou o clima construído pelo escritor capturem e hipnotizem sua vítima. Quando a estratagema do autor é bem sucedida, leva o desavisado ou desavisada a prosseguir no estudo do calhamaço, mesmo que coalhado de chavões, apesar de provocar alguns suspiros ou bocejos e um vago desagrado.

Um tipo de escritor é acrobata nas argolas ou no cavalo-de-pau. Tensão máxima, força, equilíbrio perfeito, elegância de movimentos e encerramento sem passo em falso. Um erro apenas pode acabar com toda a peça.

O romancista, em sua raia, é o nadador olímpico de 200 metros, que pode amenizar o ritmo por um segundo, se compensar a quebra nas voltas seguintes. Ou o corredor de longa distância, o maratonista que traça uma estratégia de alternância, entre pique e economia de energia, negaceio, aparente acomodação e conformismo na marcha do escalão intermediário até o surpreendente sprint da reta final.

Literatura é como todo o resto. As metáforas só servem para esconder – ou revelar – isso. E já é muito.