domingo, 25 de novembro de 2012

Livros


Loucas noites de Porto Alegre, em obras complementares

José Antônio Silva

Em um ponto geográfico da cidade, cerveja e maconha. Algumas quadras acima, uísque e cocaína. Estes ingredientes podem representar, mesmo que  de modo imperfeito, dois tipos de boemia na Porto Alegre dos anos 60, 70 e 80. E cada uma das vertentes está bem representada nos livros “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, ambos lançados na mesmíssima Feira do Livro de 2012. As obras, coincidentemente, terminam formando um díptico – uma dupla de primos entre si, que tem como denominador comum a noite da Capital rio-grandense num mesmo período histórico.

Em “Esquina...”, de Paulo César “Foguinho” Teixeira, há o texto escorreito e volteado de um jornalista com pleno domínio de sua arte. Já o que leva a griffe de Claudinho Pereira, se lê como se escutássemos ao vivo a levada malandra e o humor (cum grano salis) deste sobrevivente de muitas das mais loucas noites do Sul.

E há o fato de que as obras de Teixeira e Pereira se completam na medida, como num jogo de armar - o que revela muito dos rumos, escolhas, ganhos e perdas, do ethos mesmo da sociedade gaúcha. Pairando sobre toda a loucura da época, o peso da ditadura militar, mais ameaçadora para alguns, leve (ou mesmo paternal e amigável) para outros.

Na chamada Esquina Maldita (uma série de bares na esquina das avenidas Sarmento Leite e Oswaldo Aranha, próxima ao campus central da UFRGS), enfocada com respeito e carinho por Foguinho em seu livro, duas tribos notívagas se encontravam, no mesmo território. Como diz a orelha da obra, duas vertentes ali predominavam: a dos que pretendiam transformar o mundo, e a dos que propunham revolucionar a própria vida.

Esquerdistas e ripongos
Ali estavam representantes da esquerda dita “festiva” aos engajados na resistência armada, e dos roqueiros, artistas de todas as páreas, jornalistas, estudantes e jovens embalados pelas ideias da contracultura (amor livre, comunidades, feminismo, ecologia, drogas como diversão, mas também como experiência existencial). E alguns dos frequentadores embarcaram em viagens sem volta, tanto os políticos quanto os desbundados.

No livro de Claudinho, deixam a cena a cerveja, cachaça, maconha, LSD e cogumelos como aditivos principais. Em seu lugar, nas pistas da Independência, brilham cocaína, uísque, anfetaminas e pico (“na ponta da agulha”, em mais de um sentido). Bem menos ideologia e mais hedonismo, por vezes desesperado. Empresários da noite, ambiciosos mas sonhadores, disc-jóqueis ligados (como o próprio autor do livro), garçons, porteiros, cheffs, cozinheiros – e a fauna de frequentadores, de cantores, artistas plásticos e decoradores, colunistas da imprensa, damas da sociedade, políticos, mulheres lindas, jovens burgueses por vezes sem ideal maior, jogando a falta de rumo em mais uma dose.

Bocas-de-sino, batas, cabelos e vestidos longos e barbas desgrenhadas, nos bares da Oswaldo Aranha.  Smoking e vestidos de noite, sucedidos no correr dos anos por modelitos estilo discotheque, nas boates da Independência e adjacências.
Estudantes com sonhos de mudança, oriundos da baixa classe media urbana ou interiorana, despejam sua energia e projetos políticos e existenciais na EM – todos contra a ditadura.

Uísque e cocaína
Jovens enfadados por dinheiro, portando sobrenomes dos mais tradicionais, ou crias de famílias enriquecidas, viviam excessos patrocinados (e previamente desculpados) pela proximidade com o poder, de coturnos ou não. Em seu entorno, os trabalhadores da noite, que ali concretizavam ambições, criavam contatos influentes e tinham espaço para mostrar seus talentos.

Uma grande parte dos frequentadores do Alaska, Copa 70, Estudantil, Marius (que antes atendia por Bar sem Nome), ia à Esquina por quatro motivos básicos – mas não necessariamente nesta ordem: beber; arranjar mulher (ou não, cada um sabia de si); fumar um base; e conversar, conversar... “Ficávamos de pé, sem parar de beber ou conversar, enquanto os policiais revistavam os nossos bolsos”, recorda o poeta e jornalista Eduardo San Martin, em depoimento publicado no “Esquina Maldita”.

Beber, transar, conversar
Claro que dessas conversas resultaram músicas, filmes, livros, peças teatrais, shows, artes plásticas, dança, manifestos, passeatas e conspirações políticas – e muito mais, inclusive casamentos, separações, empregos, etc. Está tudo, ou quase tudo, no livro de Paulo Cesar Teixeira. Nei Lisboa, um dos frequentadores do pedaço ouvidos pelo autor, dá uma síntese: “Fiz a música (Nem por força) depois de uma noite infrutífera, em que não comi ninguém”.

No volume de Claudinho Pereira, há o toque e a lembrança pessoal de quem estava em campo, disputou inúmeras partidas noturnas, brilhou para a torcida, eventualmente foi expulso, viu a equipe entrar em decadência – mas se reinventou profissionalmente e até hoje é amado pela galera.

A velha boemia
Seu livro, na real, amplia o foco para além das grandes boates, como o Encouraçado Botekin, Baiuca, La Locomotive, etc. – onde botou som e multidões pra dançar. “Na ponta da agulha” termina fazendo uma ampla ronda pela noite da cidade, incluindo a velha boemia, que ainda tinha espaço e vida. Estão lá as casas de samba de monstros sagrados como Lupicinio Rodrigues e Tulio Piva – e os grandes músicos, letristas e cantores como Jesse Silva, Plauto Cruz, Clio, Lourdes Rodrigues, Johnson, Alcides Gonçalves, Hamilton Chaves, Demóstenes Gonzales, as empresárias da noite Vera Vargas e Adelaide Dias...

Claudinho ainda brinda os leitores com uma série de lembranças – pequenos perfis – de personalidades da vida boêmia da cidade, da colunista Gilda Marinho à Nega Lu da Esquina Maldita, de Luiza Felpuda (folclórico dono de um bordel gay) ao empresário da noite Dudu Alvarez, de Toninho do Escaler ao figurinista Cattani ou ao vendedor Odorico das Flores.

De algum modo, um mapa sentimental-boêmio-cultural/contracultural- político-existencial emerge, quase visível e concreto, da leitura dos dois livros – mesmo para quem não viveu nada disso.  É a pequena história, que costuma passar ao largo dos interesses dos pesquisadores acadêmicos, mas que marca a vida e as manifestações de uma cidade de modo profundo. E cujos novos habitantes, não fora obras como “Esquina Maldita” e “Na ponta da agulha”, teriam mais dificuldades para entender de onde vieram tantas árvores que ainda dão frutos em Porto Alegre.

Ficha técnica:
“Esquina Maldita”, Editora Libretos, 215 páginas – por Paulo César Teixeira.

“Na ponta da agulha”, Editora da Cidade (Sec. Municipal de Cultura/PoA), 196 páginas – por Claudinho Pereira.

9 comentários:

Lesia disse...

Zé, que saudosismo me causou a leitura de tua crônica! Lembrar os anos 60/70 é comum, mas, descrevendo o que leste nos dois livros recém lançados, me fizeste pensar no meu tempo de frequentadora do Estudantil.
Eu tinha uma turma que deixava recados escritos à lápis nas paredes, para que os outros pudessem ler, com avisos, chamadas, marcação de atos relâmpago e, é claro, não podiam faltar os recados de amor que, entre jovens que querem mudar o nundo, parecem mais verdadeiros. Um abraço. Marilesia

José Antônio Silva disse...

Bela lembrança, Marilésia. Os doois livros são mito bons e nos fazem rever muitas coisas e até entender melhor o que rolou depois. Grande abraço.

Claudinho Pereira disse...

ESQUINA MALDITA E NA PONTA DA AGULHA
Querido amigo Zé Antonio, sai navegando na tua leitura sobre os livros “Na Ponta da Esquina da Maldita Agulha”, como diria William Burroughs o junkie mais lido do mundo. Como um marinheiro a procura de algum rasgo no casco do barco na feitura do livro. A Lavra por ser livre aborda com uma precisão e pitadas de sal certeiro na mosca. Realmente fostes muito preciso no que significa os dois livros. “Descrevestes a época, relacionando a movimentação artística e boemia da capital gaúcha, no cenário mais amplo do país sobre a ditadura, como frente ao movimento mais geral da juventude naqueles contubardos e criativos anos 60”, aqui citando Rogério Ratner. Obrigado pela critica grande roteirista, poeta, jornalista e escritor.
Do teu fã, Claudinho Pereira.

José Antônio Silva disse...

Obrigado, Claudinho. Quando bati o olho nos dois livros vi que ali tinha uma complementação, criando um painel de época. Teu livro é ótimo. abraço, amigo!

Justdu disse...

Zé, pena que não encontrei tu e a Nina na última passagem por Porto Alegre..Dos dois li o do Claudinho e o Esquina Maldita vou ter que comprar por aqui...

Ricardo Silvestrin disse...

Grande sacada, Zé!

Anônimo disse...

Excelente resenha destes dois livros fundamentais para quem quer conhecer não apenas a história da noite portoalegrense desde os anos 60, mas inclusive para efeito de alcançar um conhecimento mais amplo de nossa sociedade. Parabéns. Vou compartilhar no face, OK? Abços do Rogério Ratner

José Antônio Silva disse...

Claro, Rogério, podes publicar. Desculpe pois só agora vi o teu comentário.
Obrigado e um abraço!

Maria Betânia Ferreira disse...

Brilha que brilha, guri! Arrasou e me enviou pelo túnel do tempo. Nossos filhos e netos precisam ler!