sábado, 23 de outubro de 2010

Livro

“Manual de Anti-Ajuda”: sarcasmo e poesia em dois Santos dos Santos



José Antônio Silva

Personalidade reconhecida no centro antigo de Porto Alegre, por onde deambula – discreto, culto e levemente irônico – entre salas de cinema, livrarias, casas de cultura, restaurantes e outros espaços amigáveis, dois Santos dos Santos é também poeta rigoroso na lavra dos versos. Mas agora, o autor de “Sobre corpos e ganas” e “Cidade noturna” leva aos leitores um inesperado “Manual de Anti-Ajuda – aforismos, frases feitas e desaforos” (Editora Nova Roma Livraria, 100 págs.), que de quebra é ilustrado pelo próprio escritor.

O título já adianta praticamente tudo o que encontraremos no miolo do livro. Há sacadas e insigths brilhantes – por vezes francamente cômicos – mas quase sempre tisnados por uma demão de sarcasmo ou desilusão. “O Brasil tem um largo passado de país do futuro” poderia muito bem ser assinada por, digamos, Millor Fernandes.

À direita e à esquerda, Santos (inconfundível mesmo à distância, com seu colete e sua boina para as quatro estações) vai aspergindo sua sabedoria cruelmente humorística: “Dada a implacabilidade do sistema, e suas circunstâncias aparentemente irremovíveis em nosso tempo, para um bocado de seres ainda chamados humanos, um outro mundo é possível só depois de mortos”.

Papai e mamãe

E, claro, a mediania geral também é brindada com pérolas como esta: “Um casamento pode ser considerado maduro e feliz quando, em torno da meia- idade, mulher e marido começam a chamar-se de ‘mãe’ e ‘pai’”.

A maioria das boutades do livro segue assim, em clave humorística – como alguém na platéia, divertindo-se com a comédia humana à sua frente. Há, no entanto, um pessimismo assumido, aparentemente domesticado, mas marcando presença e eventualmente mostrando os dentes: “Era um fracassado tão completo que foi incapaz de consumar até mesmo o suicídio”. De fato, o tema é persistente nas páginas do livreto, por vezes de modo mais inspirado: “Dada a condição humana em seus aspectos mais terríveis, o suicídio pode ser visto como uma forma de eutanásia”.

Como se sabe, há uma longa, hilária e respeitável tradição de aforismos e frases de duplo sentido, configurando uma seita que tem no jornalista e crítico norte-americano H.L.Menken, um dos seus sacerdotes maiores. Apenas uma provinha: “Digam o que disserem sobre os Dez Mandamentos, devemos dar-nos por felizes por eles não passarem de dez”. Ainda entre os norte-americanos, uma dose de Groucho Marx, sem gelo: “Eu não freqüento clubes que me aceitam como sócio”.

Palavra afiada

Claro que uma arte assim – à semelhança de um cartum, talvez - não raramente é utilizada como arma no campo da política, da crítica de arte, da discussão de botequim ou academia, sem falar nas colunas jornalísticas.

Enfim, o Brasil também tem um time que não faz feio nesta especialidade, do Barão de Itararé – “Pobre quando come frango, um dos dois está doente...” – ao citado Millor. Por falar nele, o clássico O Pasquim nos brindou ainda com Ivan (o Terrível) Lessa: “Amar é ... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no Instituto Medido Legal”.

E a gauchada não deixa por menos (além do já lembrado e genial Barão). É o caso, entre muitos outros frasistas de talento, de Fraga – agora um verdadeiro fenômeno no Twitter, pela quantidade industrial e a qualidade artesanal de suas tiradas. Salta um pio dele, demonstrativo: “Se arrependimento matasse, ninguém se arrependeria”. Sobre esta espécie de miniblog na internet, vale frisar que é um terreno extremamente fértil e convidativo para os frasistas, como comprova o cidadão citado acima.

Humor, poesia, pensamento

Certo que alguns cultores do gênero são humoristas puro sangue; outros, caso de dois Santos, já vieram da maternidade contaminados pela poesia. O que determina diferenças sutis no resultado. Indiscutível é que faz pensar, enquanto sorrimos. “Aquele que era considerado por todos quase um deficiente mental, geralmente acaba se tornando o membro mais brilhante da família”.

Acautelai-vos, porém, loucos e visionários em geral: “Ainda que algumas pessoas se achem – quem sabe até mesmo você – nem todo o sujeito com um parafuso solto pode ser considerado genial”. E lembre-se, ainda: “Alguns muares zurram de maneira atípica, e isso é considerado uma espécie de iluminação”.

Por sinal, o mundo animal recebe considerável dose de realismo do poeta: “O cão, além de haver sido humanizado em excesso – por domesticação e contágio – foi corrompido ideologicamente: é o único animal capaz de matar em defesa da propriedade”.

Arte? Dois Santos dos Santos reservou uma das frases mais secas e cortantes do livro para o tema – frase que, aliás, talvez o defina: “A principal qualidade do artista é a exigência; e poucos a têm”.

3 comentários:

Alexandre Brito disse...

bem a propósito Zé.
embora discorde de muitas de suas
idéias sobre poetas e poesia,
como a de que Manuel Bandeira
é um poeta desimportante,
dois Santos esgrima a palavra
competentemente.
feliz nas suas assertivas desaforadas
e máximas sucintas,
"Manual de Anti-Ajuda" é um achado.

baita post!
.

José Antônio Silva disse...

Valeu, Alexandre. O livro é bom mesmo.
Apareça mais.
abraço
zé antônio

Arthur Danton disse...

Zé:
"A nível de" aforismo, quem não deixa a peteca cair é o Cioran. Exemplinho: "Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que foram concebidas por mamíferos".