quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Crônica Minha (8)

Brega, o coração apaixonado do Brasil


José Antônio Silva

Avermelhada com papel celofane colorido ao redor de uma lâmpada comum, a luminosidade da música brega se espalhou durante décadas por bordéis, boates de caminhoneiros à beira de estradas, zonas de meretrício de pequenas cidades, botecos de prostituição, inferninhos e hotéis de terceira, com as meninas acomodadas em um sofá, antes de sentarem-se à mesa – ou ao colo – do freguês. Minissaia ou colant vagabundo, decotes ousados e muita maquilagem, estas musas decaídas, embelezadas por algumas cervejas ou uma cuba libre, durante muito tempo significaram a entrada no mundo da sexualidade para milhões de rapazes, ou o descanso de velhos guerreiros, estafados pelas preocupações do trabalho ou pelo tédio matrimonial. A mesma trilha sonora bombava em puteiros mais pretensiosos, como as chiques e cafonas casas noturnas para endinheirados, nas grandes cidades.

A cena não mudava muito, fosse no Amazonas ou no Rio Grande do Sul. E não só naqueles ambientes, é claro. Ao largo da Bossa Nova, Tropicália, Clube da Esquina, rock brasileiro, MPB, Vanguarda Paulista e outras sofisticações, a breguice sonora corria solta – em raia própria – em cada pequeno e pulsante coração suburbano.

Quase completamente ao largo, também, da Ditadura e seu cortejo de horrores. "Quase", porque muitas canções destes artistas, considerados alienados, foram censuradas por Brasília, num moralismo que era a máscara perfeita para a hipocrisia dos poderosos, a corrupção desbragada, os interesses privadíssimos y otras cositas.

Enfim, entre os anos 60 e 80 do século passado três nomes se sobressaíram neste subgênero: Odair José, Reginaldo Rossi e, é evidente, Waldick Soriano. Este que agora se foi, aos 75 anos, com seu chapelão preto, seus terninhos da mesma falta de cor, suas botinas de caipira e os inseparáveis óculos escuros.

Tudo sempre igual - a acrescentar apenas, nos últimos anos, uma tradicional tintura acaju sobre o cabelo engrovinhado, para esconder, das fãs, as cãs. A inspiração para o chapéu e a roupa preta desse baiano, disse ele numa entrevista, era o cowboy Durango Kid (personagem, aliás, que também marcou outro filho da Boa Terra, Raulzito Seixas).

Mas Waldick não reinou sozinho, com seus boleros e canções romântico-populares. Em sua mesma geração, brilharam Agnaldo Timóteo (alô, Agnaldo Rayol!) e o – desculpem mas é irresistível - “gigante da canção de amor”, Nelson Ned, entre outros.

Aliás, este subgênero na real englobou/engloba diversos estilos musicais e suas misturas – boleros, guarânias, ie-ie-iés da Jovem Guarda, sambões-jóias, pagodes românticos (!), baladas adocicadas e sertanejos mela-cueca, embora tudo soe mais ou menos igual, enfumaçado, politicamente incorreto, ciumento, machista, generoso, saudoso, cornudo, carnuda, antiquado, culpado, eventualmente vingativo, no peito emocionado do povão brasileiro.

Virando cult

Mas falávamos do trio: Waldick “Eu não sou cachorro não” Soriano; Odair “Pare de tomar a pílula” José; e Reginaldo “Mon amour, meu bem, ma femme” Rossi.

De alguma maneira, eles tanto fizeram que viraram cult. Patrícia Pillar, atual Maga Patalógica (digo, malvada-patológica) do novelão da temporada, encantou-se com o homem do chapéu preto e fez um documentário sobre ele. Mais, descobriu que era um artista à frente de seu tempo. Não acredita? Lê aí: “...Quando ele começou já apontava para a coisa do Tropicalismo, de digerir outras culturas. Tinha influência dos boleros caribenhos, a coisa visual do justiceiro que ele incorporou. Era riquíssimo e moderno para a época”). Ufa! Confessem que vocês nunca tinham percebido nada disso, né? Nem eu.

Porém, a máquina de recuperação cultural pós-moderna gostou mesmo foi do Odair, o “cronista dos lupanares” (corrida aos dicionários...). Recentemente, todos os grupos de rock antenados gravaram alguma jóia rara do autor de “Eu vou tirar você deste lugar...” Homenagem, sacumé, na qual entrou até o experimental omenagem, sacumé, HoArthur de Faria e seu Conjunto, experimentando. Arthur de Faria e Seu Conjunto, experimentando e se regalando conjuntamente.

Reginaldo Rossi, recifense e professor de matemática, foi roqueirinho da Jovem Guarda, mas nos anos 70 enveredou de vez pela senda romântica. “Mon amour, meu bem ma femme” foi regravada por inúmeros artistas. Na década de 90 aconteceu com ele: por falta de palpite do tal mercado, também virou cult e foi pra gravadora Sony. Você já escutou e talvez até tenha enganchado uma morena na cinta, dançandinho colado, ao som imortal de “Por que você não me mata de uma vez” ou “Garçon”... E melhor: cantando a letra junto.

Especialistas nesta vertente cultural que – tenho certeza – em breve será objeto de estudos acadêmicos, se é que já não virou, podem falar mais e melhor sobre o tema. Mas pesquisadores como Elder Ogliari, Ernani Marchioretto e Stela Pastore, que há anos empregam boa parte de seu tempo inútil à garimpagem e catalogação de astros da breguice, na busca incansável por bolachões de vinil preto com capas inacreditáveis, jamais me perdoariam se não citasse aqui, pelo menos mais alguns nomes imortais do gênero. No entanto, como é pouco o meu repertório nesta área, só lembro dos mais famosos.

Lá vai, misturando veteranos e jovens: Rossana “Como uma deusa” (brega é cultura: quem come deusa são os heróis mitológicos), Joanna (aquela dos travesseiros), a paraguaia não falsificada Perla, o astro jovem-guardista Wanderley Cardoso e o não menos Jerry Adriani, José Augusto, Benito di Paula, Alexandre Pires – e até o Ritchie “Menina Veneno”, escanteado em pleno sucesso pelo brega-chique mor, Roberto Carlos.

E no Fábio Jr., não vai nada? Claro que tá selecionado! Chitõesinhos, chororós, leandros, leonardos e todos os assemelhados também entram nesta dança. E os casaizinhos? Jane e Herondy (“Não se vá, não se vem”), Eduardo Araújo e Silvinha (recentemente falecida) estão na fita também. Forever.

E Wando! Com as calcinhas das fãs devidamente cheiradas e devolvidas à platéia úmida!

Deu! Eu também não sou cachorro, não!

2 comentários:

Eduardo Simch disse...

Zé, esse texto me lembra a cena do filme Bye bye Brasil de 1979 dirigido por Cacá Diegues . Quando o Fabio Jr. depois de várias desgraças ganha uma mixaria pra tomar uma cachaça num inferninho nas palafitas amazônicas e dança coladinho "Amada Amante" do rei, com uma gordona/gostozona é cena clássica e emblemática da cultura brega. É cena quase poética.
Valeu
Simch

Antonio disse...

não concordo com o prefixo "sub". nao é querer relativisar tudo,mas cada um tem sua vivencia musical. Waldick pode ser muito mais autêntico do que muitos neo bossanovistas. Aliás,o machismo na música não é exclusividade dos bregas...as vezes o rock e principalmente a bossa olha a mulher como "coisa" mais linda mais cheia de graça..."objeto" de inspiração para os poetinhas comedores de garotas românticas