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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Livro



Gênesis: quando o genial Robert Crumb dobra os joelhos e ora no deserto

José Antônio Silva

O que é um artista de gênio? Um – também – artesão extremamente habilidoso? Um (re)pensador, criando sobre o que é velho e batido? Alguém que busca romper barreiras em sua arte (quase sempre fazendo o mesmo em sua vida privada)? Alguém cuja obra tresanda à originalidade? Ou, quem sabe, alguém que engaja seu talento à uma causa, tema – ou fixação – pela qual se apaixona?


Pode não ser nada disso, mas tudo isso pode ser dito da genial – mas sóbria e contida – interpretação do bíblico livro do Gênesis, pelo desenhista americano Robert Crumb (30 de agosto de 1943), lançado este ano no Brasil. É um volume de capa dura, que pára em pé, da Conrad Editora, com 200 páginas de quadrinhos de desenho minucioso, e mais umas dez de introdução, notas e comentários da editora e do próprio Crumb, falando do trabalho que teve e dos cuidados que tomou com a tradução dos textos bíblicos originais, cotejando diferentes versões, esclarecimentos de especialistas, etc. Como ele mesmo anuncia, antes de (re)criar o mundo: “Eu, R. Crumb, ilustrador deste livro, no melhor da minha habilidade, reproduzi fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes...”


Versão sem subversão

O trabalho é em si deslumbrante, pela riqueza de detalhes, pela farta dose de imaginação que precisou para traduzir graficamente conceitos nebulosos da mística e simbólica linguagem bíblica. Mas também chama bastante atenção o fato do papa do desenho underground dos anos 60/70, anárquico e contracultural, crítico duro de todo o stablishment, autor de personagens corrosivos e cínicos das HQ, como Mr. Natural ou Fritz, o Gato, vir à público depois de muito tempo com uma versão absolutamente respeitosa do Gênesis, onde não se permite subverter conteúdos nem questionar o discurso através da forma.


A palavra de Deus

Como se tivesse sido tocado pelo peso milenar da tradição que gerou religiões e culturas como o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo, sendo ainda um dos pilares da cultura ocidental, Crumb deixou-se ser apenas – apenas? – um ilustrador da “palavra de Deus”. Mas faz questão de dizer que “ironicamente, eu não acredito que a Bíblia é a palavra de Deus”. E lá pelas tantas, em uma de suas notas, critica a visão “misógina e antimatriarcal do Gênesis”. No entanto, reconhece: “É um texto poderoso, com camadas de significados que mergulham fundo em nossa consciência coletiva, ou consciência histórica, se preferir. Parece mesmo ser uma obra inspirada, mas acredito que seu poder deriva de ser um empreendimento coletivo que evoluiu e foi sendo condensado por várias gerações até chegar à forma final, consolidada durante o exílio na Babilônia, em 600 A.C.”


Explicações e racionalizações à parte, teria o rebelde Robert Crumb se transformado num homem religioso, temente a Deus? Se assim foi, é perfeito que tenha escolhido para ilustrar o capítulo fundador do Velho Testamento, onde o Deus – pelo menos o Deus dos judeus (pois à época ainda eram reconhecidos outros, citados no próprio Gênesis) - não era ainda o deus do amor e do perdão. Mas um senhor de poder absoluto que exigia obediência igualmente absoluta e cega; exigia temor, e era dado a imensas descargas de ira santa, recompensando bem, no entanto, os que abaixavam eternamente a cabeça. Como os ditadores e tiranos sempre fizeram através da história, em carne e osso.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cultura





MPB acendeu luz na noite da ditadura

José Antônio Silva

A longa noite da ditadura no Brasil, a partir de 1964, também acendeu alguns pontos de luz na cultura brasileira, muito especialmente na tal de MPB. Dia desses assisti ao documentário “Uma noite em 67”, dos bons estreantes Renato Terra e Ricardo Calil, que põe em foco não só o palco do histórico 3º Festival de MPB da TV Record, em outubro de 1967, com suas canções top de linha, mas também os bastidores. E é nos bastidores, nas revelações e confissões dos jovens e ingênuos futuros medalhões da música brasileira – Gil (na foto acima), Caetano, Chico, Edu Lobo, Roberto Carlos, etc – que reside o diferencial.

Parada duríssima

As seis classificadas já eram, por si mesmas, ícones da canção popular do país, que só ganhariam mais significação nos anos que se seguiram. Quem venceu foi “Ponteio”, do Edu Lobo; e era uma excelente música. Mas quem reclamaria, hoje, se, ao invés, tivesse ganho “Alegria, Alegre”, do Cae, “Construção”, do Chico Buarque, ou “Domingo no parque”, de Gil? Parada duríssima, não é mesmo? Entre as outras classificadas, “Maria, carnaval e cinzas” (de Luiz Carlos Paraná, cantada pelo Rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos, só pra mostrar que à época já era um craque da interpretação, inclusive no samba). Em sexto, ficou “Beto Bom de Bola”, de e com Sérgio Ricardo – mais conhecida pela vaia de um público deslumbrado pela própria liberdade (pelo menos aquela!) de vaiar, e pelo violão que o autor jogou na platéia, do que pela canção mesmo.

Falar em vaia e festival, vale citar o discurso em alta voltagem de Caetano, na edição seguinte do mesmo Festival – no paradigmático ano de 68 – em que ele desanca o público que o vaiou ao cantar “É proibido proibir”, vestido com um traje tropicalista (no ano anterior, ainda envergara um comportado bleiser quadriculado sobre uma blusa de gola rolê). “Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”, mandou para o público histérico. E sobrou para os jurados: “O júri é muito simpático, mas incompetente!”.

Protesto!

E corta pra outro assunto, mesmo ficando na mesma praia. Voltando à primeira frase desse texto, pode-se pinçar no repertório clássico da MPB entre 1964 e 1985, entre várias outras opções, várias canções “de protesto”, explícitas ou implícitas, contra a ditadura militar, o autoritarismo, a esperança em novos dias. Toca aí, algumas:

“Para não dizer que não falei de flores” (Geraldo Vandré); “Vai passar” (Chico Buarque); “Apesar de você” (Chico Buarque); “Meu caro amigo" (Chico e Francis Hime); "Eterno Aprendiz" (Gonzaguinha); “O bêbado e o equilibrista”, "Não põe corda no meu bloco" (João Bosco e Aldir Blanc); “Disparada” (Vandré e Theo de Barros); “Cálice” (Chico e Milton Nascimento); “Tropicália” e “É proibido proibir” (Caetano), “Procissão” (Gilberto Gil); "Charles Anjo 45" (Jorgen Ben); "Cartomante" (Ivan Lins e Vitor Martins); “Mosca na sopa” e “Ouro de tolo” (Raul Seixas); “À palo seco”, “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais” (Belchior); “Pialo de sangue” (Raul Elwanger); “Aquele tempo do Julinho” (Nelson Coelho de Castro); “Admirável gado novo” (Zé Ramalho); e etc, etc...

E quem quiser que conte outra.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Crônica Minha

Deixa eles se divertirem um pouco, gente!

José Antônio Silva

Assim como a marmota invariavelmente anuncia, no início de fevereiro, se o inverno norte-americano será longo ou mais curto, aqui no Brasil também sai da toca jornalística, periodicamente, a pauta dos vereadores e prefeitos que se locupletam com o dinheiro público. Agora aconteceu de novo, via Zero Hora e RBS. A notícia: vereadores de uma rica cidade do interior gaúcho flagrados fazendo turismo nas cataratas de Foz do Iguaçu, ao invés de comparecer as aulas do “curso de vereador”. A verdade é que existe todo um forte segmento do turismo, espalhado pelo Brasil, alimentado basicamente por congressos, seminários e cursos que já são montados para ninguém realmente comparecer. Ou seja, no setor, o bom, o certo – “gerando empregos e renda, aquecendo a economia” - é matar a aula. Para bem de muitas comunidades.

A mídia denuncia, o Ministério Público e outros setores cumprem seu papel investigando, exigindo o ressarcimento das “diárias” aos cofres públicos e processando criminalmente os lídimos representantes das câmaras de vereadores, por todo o país.

Deixa pra lá
Os repórteres reportam e os comentaristas comentam. Alguns colunistas tentam explicar dizendo que a população esquece o que seus edis denunciados fizeram com os recursos públicos, nos últimos verões e invernos. Afinal, grande parte deles são reeleitos como vereadores, ou mesmo vencem pleitos para prefeito, deputado... Mas a sempre destacada certeza da impunidade é só um dos (maus) elementos que compõem a equação “farra municipal com o dinheiro público“.

É pior que isso. As pessoas não “esquecem” – as pessoas perdoam. Mais delicadamente, as pessoas relevam. E por que colocam novamente, como seus representantes na máquina pública, sujeitos que comprovadamente exorbitaram das funções, enganaram, prevaricaram?
Ora, entendo que as pessoas são essencial e paradoxalmente honestas consigo mesmas. Sim, a maioria delas sabe que, estando lá, provavelmente agiria da mesmíssima maneira que seus representantes. Mais: por conta disso não consideram que fazer turismo pessoal à custa do dinheiro público chegue a ser um crime; em sua visão, trata-se apenas de um pecadilho.

Apesar disso
E, nas pequenas cidades de onde vem talvez a maioria dos casos de abusos do tipo, eleitores e eleitos se conhecem, dificultando inda mais a separação de público e do privado, dos interesses pessoais e dos coletivos. Pode-se até dizer que, conhecendo seus vereadores, determinam que – “apesar disso” – eles têm outras qualidades pelas quais vale a pena reconduzi-los ao cargo. (E numa dessas até podem ser convidadas a embarcar em um destes trenzinhos da alegria).

É um problema em escala: este baixo clero de vereadores (e prefeitos) pratica, em nível municipalista, o mesmo que muitos dos membros das Assembléias, Câmara Federal e Senado realizam com as verbas públicas em suas respectivas faixas de atuação - para não falar aqui de outros setores da administração pública.

Em última análise, parece vigorar em todo o nosso imenso país – sem que a auto-decantada maioridade política do RS, e o “orgulho gaúcho”, se afastem um milímetro da regra geral - a má e velha idéia de que fulano rouba mas faz. E tem mais. Para desespero de alguns, Sérgio Buarque de Holanda tinha razão e o brasileiro (quando não está se matando por aí) é mesmo cordial: “Deixa eles se divertirem um pouco, gente!”.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balaiada Hightech - V

Labirinto

José Antônio Silva

O mistério da primeira vez

o segredo obtuso de cada rês

a rotina quebrada de todo o mês

o arabesco no cérebro, sob o fez

a fé que se insinua, quando não crês.



Em tudo

o labirinto onde andas.

Mas nunca o vês.

(in LÁ VEM O QUE PASSOU, SMC-Porto Alegre, 1995)

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Bad book

Há livros para todos os gostos

e alguns para nosso desgosto

- estes porém nos traduzem

quando tombamos na rua

quando perdemos o posto

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Armazém

Inconsciente

é o armazém das idéias

de toda a gente

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Da imprensa:

“Transgênico já é obsoleto”.

Cá entre nós:

Natural é sempre absoluto.

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Um toque em Braille

“Veja bem”... – dizia o cego frente ao microfone

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Universais cotidianos

Amor – Aquele que vem a nós, é claro

Esperança – Um dia há de chegar

Felicidade – Daqui há cinco minutos passa uma

Fraternidade – Meu pirão bem servido primeiro

Generosidade – E o que ganho em troca?

Honestidade – Mas foi só um pouquinho!

Igualdade – Com aquele ali?!

Justiça – O mundo é assim mesmo...

Liberdade – Demais atrapalha

Tolerância – Mas tem limite!

Verdade - Tem certeza?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Crônica Minha

“Eles” vivem!

José Antônio Silva

Ao longo dos anos e décadas, nosso olhar é constantemente atraído por frases afirmativas, positivas, a não deixar dúvidas: “Elis vive!”, “John Lennon vive!”. Mas a gente duvida, pois vimos as fotos, os documentários, as matérias na TV e nos jornais, o choro dos familiares e dos fãs, os livros que contam as histórias destes e de outros ídolos, ao tempo em que estavam na ativa. Mas agora a verdade pode ser revelada!

A reportagem investigativa de LavraLivre não aceitou a primeira nem a segunda versão que nos apresentaram. Desde o início das investigações, sabíamos que as pichações não eram apenas isto – pichações, a macular paredes recém pintadas ou decadentes muros urbanos. Não representavam, com certeza, lamentos tolos de tietes inconsoláveis ou gente desesperada por acreditar em algo. Nada: eram sinais, pistas a merecer crédito e atenção paciente e determinada. O que nunca haviam tido.

Jornalismo investigativo
Seguindo as melhores técnicas do jornalismo investigativo, fomos atrás daqueles que tinham a coragem de expor estas verdades inconvenientes nos muros do mundo. Não foi fácil, você entende: quem sabe não fala, quem fala (normalmente) não sabe...

Afinal, percorrendo a madrugada e acompanhando “bondes” de pichadores e grafiteiros, alguém, algum dia, em algum lugar, deixou escapar aos ouvidos de nossa atenta equipe um nome, que talvez – apenas talvez – soubesse algo sobre o assunto, um verdadeiro tabu até para esta tribo noturna.

Nossa reportagem lembra bem: chegamos a uma pequena e mal cuidada casa na periferia de uma grande cidade. Sabíamos que ali vivia um pioneiro, um dos primeiros a pegar spray e coragem e mandar suas mensagens a todos os que a quisessem – e tivessem olhos – para ver. O homem fora preso várias vezes, e chegou a levar petelecos desrespeitosos de guardas municipais e de furiosos proprietários de fachadas recém pintadas. Mas tinha uma missão, e nunca desistiu.

Nosso Eloy
O herói estava na cama. Dizia estar resfriado. No início procurou negar tudo. Nunca fizera uma pichação na vida (mas pela janela de seu quarto, via-se em um canto do pequeno pátio cimentado pilhas de latas de tinta com bico de spray, algumas já com marcas de ferrugem Não bastasse, a ponta de seus dedos ostentava manchas que nada mais seria capaz de apagar).

Percebemos que estava nas últimas. O médico que levamos para examiná-lo – apesar de seus protestos frágeis, entre acessos de tosse – aventou a hipótese de ter aspirado por demais aquelas tintas tóxicas, além de levar uma vida de dificuldades, alimentação deficiente, poucas horas de sono. A típica existência de quem tem uma causa que nada nem ninguém pode impedir de levar adiante.

Ciente, afinal, de que dificilmente escaparia daquela, mesmo medicado contra a vontade, Eloy (este o nome do sujeito, que entre seu pequeno grupo de admiradores era conhecido como “Eloy, o Herói”) resolveu falar – falar com exclusividade à LavraLivre.

Entre tossidas e goles de cachaça (“é o último prazer que me resta, pois já não posso mais pichar”, lamentou) Eloy revelou que ídolos como Jimi Hendrix, Raul Seixas, Cazuza, e os citados no início deste texto, entre muito outros, nunca morrem.

“Descanso eterno”
O talento superior, a força de vontade, o toque de genialidade e sua iluminação intrínseca não permitiam que estes semideuses (segundo explicou Eloy) “descansassem para sempre”.

Uma pequena e secretíssima confraria espalhada por todo o mundo, do qual ele era um dos raros membros na América do Sul, encarregava-se de retirar estes ídolos de cena, no momento apropriado, e conduzi-los para alguns poucos lugares secretos, de acesso secreto e muito difícil. (Deixou escapar que um destes pontos seriam as cavernas na fronteira montanhosa entre Afeganistão e Paquistão, dando como prova o fato de que Bin Laden, que lá estaria escondido, nunca ter sido encontrado...).

Após virar para dentro toda uma garrafa da melhor pinga mineira, fumou um cigarrinho artesanal e, antes de dar seu último arroto, seguido do último suspiro, ainda pronunciou, a voz embargada e embriagada, o caminho para um destes paraísos eternos. Ao pegarmos nosso carro, estacionado a uma quadra de sua casa, vimos que um estranho e incontível incêndio destruía a moradia, talvez em função da bagana ainda acesa que Eloy, o nosso herói, havia jogado ao chão coalhado de latas com produtos químicos e sujeira, pouco antes de morrer. Apesar da tristeza, nos cumprimentamos, pois o segredo não morria com ele.

Lavralivre, orgulhosamente, revela onde fica este Éden de talento sem fim: trata-se de uma ilha, obviamente paradisíaca, entre os oceanos Pacífico e Índico, num arquipélago de aproximadamente 20 mil territórios cercados de água, cada um deles. Lá, numa cidade subterrânea escondida sob um vulcão extinto, tudo coberto por mata espessa e praias azuis, estão eles. Você sabe: quase todos eles.

E o mais importante: Lavralivre – numa espantosa logística que seguiu pichações de parede com sinais secretos pelos quatro cantos do mundo - conseguiu fechar o quebra-cabeças. Aliás, quase quebramos nossas próprias cabeças, ao sermos lançados de pára-quedas naquela ilha.

Já nos esperavam. Depois de se certificarem que não éramos fanáticos telespectadores em busca dos segredos de “Lost”, nos conduziram ao interior do vulcão.

Fiasco na Copa...
“Brasileiros, hein? E o fiasco na Copa?”, comentou o homenzinho pálido que nos recepcionou, com ares de mordomo abusado de novelas de TV. Mas valeu a pena agüentar seu sarcasmo. Daí a pouco entrava na ampla sala modernosa um sujeito que custamos um pouco a reconhecer. Só um pouco: era Raulzito Seixas!

“Raul vive!” – a frase apareceu em letras vermelhas na parede de nossa mente. O roqueiro foi gentil. Nosso estagiário não se conteve: “Toca Raul!”. Ou “toca, Raul!”, algo assim. Ele não se fez de rogado e entoou alguns de seus sucessos, concluindo o recital com Cow-boy fora da lei.

Mas parecia muito, muito envelhecido. Sua famosa barbicha arruivada, por exemplo, estava toda branca e arrastava pelo chão. Antes de deixar a sala, com o auxílio de uma enfermeira jeitosa, nos recordou: “Eu nasci a dez mil anos atrás...”

Entendemos que não teríamos muito tempo naquela ilha. Tratava-se de uma concessão especial, retribuindo nossa fé nos avisos: “Fulano não morreu!”. Mas poderia terminar a qualquer momento.

O mordomo afetado voltou, olhando para o relógio. “E então, querem ver mais alguém? Vocês não têm muito tempo...” Seria uma ameaça?

Não precisamos decidir nada. De uma sala ao lado – na verdade, um belo estúdio – um velho John Lennon, com óculos ainda mais grossos, aos 70 anos entoava com sua conhecida ironia o clássico When I’m sixty four. Ele viu que entravamos timidamente e nos convidou a sentar por ali mesmo, em algumas almofadas no chão. Logo, à sua voz e guitarra base, juntava-se a maestria de ninguém menos que seu colega beatle George Harrison, que – cada vez mais místico – levitava sem desafinar.

Quando terminaram de tocar (apenas para nossa equipe, sorry) nos trataram com profissionalismo. Queriam saber: de qual país e veículo éramos? De novo surgiu a questão do futebol – mas reconheceram que Rooney também deixar a desejar na África do Sul.

Perguntamos se não tinham saudades do tempo da, do (do quê mesmo?), da vida de fama e fortuna no mundo conhecido? Sorriram, George e John. Lembraram que Paul e Ringo continuavam segurando dignamente a barra, em nome deles.

Jam session
Mas só entendemos porque eles não tinham qualquer vontade de sair dali quando começaram a entrar alguns dos outros moradores da ilha - ia rolar uma jam session. Jimi Hendrix entrou, já acendendo a ponta de sua guitarra endiabrada, enquanto Janis tomava um bourbon para aveludar a voz. Elvis solfejou um Love me tender básico, fazendo com que o cabisbaixo Kurt Cobain, encostado a uma parede, ensaiasse um sorriso e desse mais vida aos quadriculados de sua camisa. Até o velho Frank – os olhos azuis brilhando – foi se aproximando para ver os garotos. Ele saía de outro estúdio, jazzístico, enquanto Miles botava o pescoço para fora, tentando conferir o dedilhado de Hendrix.

Mas nosso tempo acabara... Ou quase.

Cazuza, bem menos magro, e Renato Russo, que compunham ali perto sob o olhar maternal de Elis e a vibração de Cássia Eller, ainda acenavam quando começamos a caminhar pela prancha que nos levaria a um submarino. Voltei a cabeça e chamei Elis Regina. Como se lesse meus pensamentos, ela respondeu, com aquele sorriso conhecido: “Maria Rita está fazendo um ótimo trabalho...”

Lupicinio, numa mesa de boteco, batucava sua caixinha de fósforos, tomando uma com Adoniran. E Cartola ia se achegando, de leve, o nariz muito aceso.

Vinicius? O velho poeta bon vivant, balançando na rede, à sombra dos coqueiros e sem virar o uísque, garantiu que ali era melhor que passar uma tarde em Itapuã, e que Tom estava musicando novas letras dele.

Aí, não sei porque, ainda lembrei de Brizola, de Che Guevara...

Ah, disse o mordomo (recolhendo a prancha para a areia), se você queria saber dos políticos e revolucionários, tinha que ter pedido outra ilha. Agora, adeus!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Cultura

O tradicional tradicionalismo tradicionalista

José Antônio Silva

Músicos riograndenses costumam lamentar, explícita ou implicitamente, a dificuldade de terem suas criações ouvidas e divulgadas no “Eixo Rio-SP”, e por extensão no restante do país. Claro que muitos gaúchos e gaúchas fizeram ou fazem grande sucesso e belas carreiras nacionais – mas a maioria destes teve que se mudar para os estados centrais, de Elis Regina à Kleiton & Kledir, de Adriana Calcanhoto à Antonio “Totonho” Villeroy, de Yamandu Costa à banda Fresno.

O certo é que, não apenas na arte e na cultura, o Brasil tem certa dificuldade de decifrar o Rio Grande, historicamente. Para o bem e para o mal. E não é para menos: somos um estado de fronteira (com Uruguai e Argentina), com toda a integração e influência de usos, costumes, culinária, vestuário e expressões idiomáticas que isso traz.

Além disso, estamos situados “longe demais das capitais” (como reclamava escancaradamente o título de um LP dos EngHawaii, nos anos 80), num estado que cresceu e apareceu, originalmente, com base numa economia agro-pastoril, marcada pelo pampa e o frio (vide a “estética” de Vitor Ramil) – ao contrário do imenso Brasil tropical.

Mais ainda: como os demais estados sulistas, o Rio Grande recebeu uma quantidade inédita de imigrantes europeus nos séculos XIX e XX (especialmente alemães, italianos e poloneses), que se mesclaram aos elementos tradicionais da “raça” brasileira (portugueses, negros e indígenas, que aqui já existiam), dando à grande parte do atual povo gaúcho características culturais e étnicas um pouco diferenciadas.

Nacionalismo gaudério
Até aí, tudo bem. Viva a diferença, que acrescenta sabor local ao conjunto da nação. No entanto, para aplicar quase um tiro de misericórdia na vontade de uma integração maior, surgiu e fortificou-se pelo Rio Grande do Sul, nos últimos 60 anos, um “nacionalismo” gaudério, através dos CTGs, que se aplicou a desconhecer os fortes elementos culturais de brasilidade aqui presentes, e a valorizar, com minúcia e método, apenas os que nos diferenciam – e glorificá-los, acriticamente. Um movimento que, pode-se dizer sem erro, já era saudosista e anacrônico quando surgiu, nos anos 40 do século passado.

De quebra, passou a ser revalorizada – mas de modo apologístico - a Revolução Farroupilha da primeira metade do século XIX, dez anos de sangue e cavalgadas, de uma elite estancieira e charqueadora contra o Império do Brasil e seus impostos escorchantes. A data revolucionária, que já andava meio relegada à História e seus compêndios, foi devidamente lustrada e passou a ganhar acentos de neo-separatismo e coragem sem igual, a partir do movimento dos Centros de Tradições Gaúchas. Aliás, quase se pode dizer que hoje a chamada Guerra dos Farrapos e tudo que lhe diz respeito é um patrimônio “natural” da doutrina cetegista. Se não é, falta pouco.


Enfim, o cetegismo que era uma simpática valorização das raízes de boa parte da população riograndense (com um belo apelo turístico, diga-se) e até mesmo uma espécie de resistência cultural ao americanismo triunfante no mundo todo após a Segunda Guerra, foi transformando-se rapidamente em rígida doutrina. Doutrina que não procurou acrescentar o “ethos” gauchesco à brasilidade, mas antes tratou de nos diferenciar e isolar, no mau sentido, do restante do Brasil, em manifestações e manifestos por vezes beirando o racismo, num mal disfarçado e arrogante sentimento de superioridade.

Recentemente o folclorista Paixão Cortes, um dos criadores do primeiro Centro de Tradições Gaúchas e pesquisador das origens culturais do RS, deitou, via imprensa, a proibição moral de que no território riograndense se realizassem festas juninas “caipiras”, que não teriam nada a ver com nossas raízes (como se todos os aqui nascidos ou radicados simplesmente fossem cavaleiros dos pampas, de fato ou na marra).

Note-se que aí já se arrogam o direito de apontar o que a população do estado, de modo geral, pode ou não pode fazer em seus momentos de lazer, diversão e confraternização. No sacrossanto recinto – ou seria templo? - dos CTGs, então, a coisa é pior. Uma vez, cobrindo como jornalista a abertura de um congresso gauchesco/tradicionalista, assisti ao então presidente do MTG dar um puxão de orelhas público na secretária de Cultura de uma cidade, pois que a autoridade municipal cometera a heresia indesculpável de vestir uma bombacha mais estreita (tipo uruguaia) e não o recomendável, talvez obrigatório, “vestido de prenda”...

Rock galponeiro
Mas nada como um dia depois do outro (como dizia um morto de fome...).
Eis que o talentoso cantor Neto Fagundes, filho de peixe (Bagre) e sobrinho do porta-voz do gauchismo Nico Fagundes, arregaçou as bombachas e partiu para um projeto musical intitulado “Rock de Galpão”. Isso mesmo: ele e mais um monte de roqueiros, com suas guitarras, atacaram no bom sentido muitos sucessos tradicionalistas... (Lembrando que o gauchismo já se entreverou feio com as bandas de tchê music, que misturam ritmos e letras que não constam no livro de regras oficial do cetegismo, com o que foram proibidas de tocar nestes lugares - pelo menos oficialmente...)

Porém, as guitarras roqueiras no Canto Alegretense e em outras canções fizeram algo diferente e musicalmente interessante. O que mostra que restrições e proibições estéticas e formais terminam caindo, por artificiais e autoritárias.

Verdade que desde os primeiros embates entre tradição e inovação, nos festivais de música gauchesca dos anos 70 até hoje, muito se caminhou.

Mas será que o Rock de Galpão de Neto Fagundes, em escala micro (bem micro), equivale a Bob Dylan eletrificando o folk norte-americano nos anos 60? Ou a Gil e Caetano colocando guitarras na música brasileira, também naquela década, e lançando a Tropicália? Será que ainda está em tempo de mudar alguma coisa no nosso tradicional tradicionalismo tradicionalista - apenas cinqüenta aninhos depois? Que tal, tchê loco?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mó Viagem





La Paz en las alturas

José Antônio Silva

La Paz: bela e estranha paisagem lunar, pessoas educadas e acessíveis, cholitas de chapéu côco, temperos fortes, fôlego arfante. E um câmbio muito favorável aos nossos reais (dizem que a Bolívia é o país mais barato das Américas).

Estas algumas primeiras impressões de quem passou recentemente uma semana na capital boliviana, a 3.300 metros de altura. Primeiros dias, passos lentos e atividade física controlada, para que o ar não falte. Lábios ressecados, nariz sangrando. Aos poucos, o organismo se habitua. Mas sempre é bom manter um certo controle na alimentação, apimentada...

A paisagem é marcante, a cidade cercada por uma muralha de picos arenosos, em muitos dos quais equilibram-se casas e casebres, ao estilo das favelas brazucas. Ao longe, pelo céu azul – azul até demais, como diria Roberto Carlos – avista-se pelo menos um imponente pico nevado, a nos lembrar que estamos em um país andino: o Illimani.

Prédios históricos impressionantes, ruas limpas, passeios interessantes que não tivemos tempo de curtir, na capital de Evo Morales (aliás, um presidente discretamente apoiado pela maioria das pessoas com quem conversamos). Lojinhas, na Calle de las Brujas, oferecem aguaios, mochilas, sombreros de cholas, estatuetas e muito artesanato autêntico deste povo (majoritariamente das etnias quéchua e aimára). Ao menos a metade dos taxistas que nos conduziram pela cidade, naqueles dias, já havia morado ou tinha parentes trabalhando e vivendo em São Paulo...

Escarpas no Vale da Lua
Apesar da rígida programação do evento (da manhã à noite), ainda consegui passear com outros participantes pelas trilhas escavadas nas arenosas escarpas do Vale de La Luna, em Calacoto, sul da capital.

Enfim: eu como roteirista, mais Claudinho Pereira como diretor (e acompanhados de Preta, sua mulher), participamos do II BoliviaLab, evento de cinema patrocinado pelo Ministério da Cultura do país, um mix de concurso de projetos cinematográficos e oficina de produção, pishing, financiamento, etc.

Uma oportunidade de conhecer projetos e novos cineastas, produtores e conferencistas de toda a América Latina e da Europa (como o pessoal do Programa Ibermedia).

Nem tudo correu superprofissionalmente – às vezes o microfone não tinha som, a luz não era apagada na hora da projeção, alguém dormia no ponto. Falhas relevadas pelos participantes em reconhecimento aos cuidados e a atenção do pessoal da produção do evento – o “comandante” Daniel, suas incansáveis escudeiras Cecília e Laura, mais a diretora Viviana Saavedra, Irinia, Catalina...

Também a Embaixada do Brasil colocou-se à nossa disposição e ainda nos forneceu como tradutora uma funcionária brasileira radicada na Bolívia, para a apresentação de nosso projeto.

Ele, o projeto de “largo” (longa-metragem) Charles Anjo 45, não recebeu qualquer premiação, talvez por considerarem que seria um filme mais facilmente patrocinável em nível de mercado (tomara...) O mesmo aconteceu com o outro indicado pelo Ministério da Cultura brasileira, da paulista Paula Kim. Mas só o fato de sermos indicados já constituiu uma vitória: fomos selecionados entre mais de 480 projetos brasileiros.

No balanço final, fiquei com a impressão de que o BoliviaLab, em sua segunda edição, ainda busca um perfil mais ajustado, um foco – que parece ser o de privilegiar projetos experimentais e de estreantes, com ênfase no campo do documentário, sem esquecer de premiar a prata da casa. Visivelmente, uma iniciativa em processo de evolução.

Navegar é preciso, mas...
A lamentar, pelo lado pessoal, somente o fato de perdermos o grande passeio de “buque” (navio) pelo Lago Titicaca no domingo de encerramento. Mas não houve como ir: por algum misterioso cochilo de produção, nossa conta de hotel foi fechada na manhã de domingo, enquanto nossas passagens de volta ao Brasil só serviam para o vôo da manhã de segunda-feira. Naquele domingo, preferimos garantir um lugar para ficar até o dia da viagem, ao invés de navegar...

Três vôos por dia para ir e três para voltar. (Porto Alegre-São Paulo; São Paulo-S.Cruz de La Sierra; S.Cruz-La Paz – e vice-versa). As viagens ficaram por conta do Ministério da Cultura brasileiro. A hospedagem e alimentação, bancadas por seu congênere da Bolívia.

La Paz é impressionante. Valeu.


ENTENDENDO MELHOR
Cholitas – Índias vestindo trajes típicos, como saias rodadas, aguaios e, em especial, chapéus côco, que de alguma maneira fantástica não desabam do alto de suas cabeleiras nem quando elas correm para atravessar a rua. São onipresentes: sempre haverá uma cholita ao alcance da vista.

Aguaios – Panos coloridos, com motivos indígenas, que as cholas usam para carregar compras, pacotes, crianças de colo, etc.

Aimáras e quéchuas – Etnias indígenas que formam a maioria da população de La Paz ( o restante é formado por brancos de classe média e alta). O povo fala espanhol, quase sempre: segundo me disseram, aimáras não entendem o idioma quéchua, e vice-versa.