terça-feira, 28 de julho de 2009
Poetando
José Antônio Silva
Subimos armados de punhais.
Íamos buscar o que era nosso.
E que nos fora roubado.
Subimos armados de ira e revolta.
Íamos acabar com o que era deles.
Que eles eram do outro lado.
Subimos armados de medo.
Íamos talvez encontrar a morte.
Quem conhecia os fados?
Subimos armados até os dentes.
Íamos agarrar nossa redenção.
Eram de ferro as nossas mentes.
Inverno/2009
sábado, 18 de julho de 2009
Crônica Minha
A maldição da Rainha Má no Reino dos Gaudérios
José Antônio Silva
No distante Reino dos Gaudérios, ou Gaudéria, há muitos anos uma rainha má impunha grandes sofrimentos aos seus súditos. Cercada de seus cortesãos, vivia em alto luxo, enquanto a plebe amargava uma vida de pobreza e ralas moedas ao fim de cada jornada.
Quando os representantes das corporações reclamavam da miséria que lhes era imposta, a soberana justificava: “Este é um sacrifício que todos precisam dividir, para que as finanças do reino voltem à normalidade e as burras do tesouro fiquem novamente cheias”.
As burras do Tesouro - Mas quem já estava cheia, mesmo, eram as burras e os burros de carga, que não suportavam dar tanto duro e só receber em troca migalhas, pancadas no lombo e explicações arrogantes.
Para piorar, Sua Majestosa Crueldade concedia benesses e mordomias sem fim aos seus conselheiros mais próximos e aos membros da Família Real. Seguia uma regra de ouro: “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, justiça!”.
E a justiça que aplicava era sumária e duríssima: sua Guarda Real já executara um pobre artesão – logo que a Rainha chegara ao trono – que tivera o desplante de reclamar uma vida melhor para ele, sua família e os demais plebeus do reino.
Mais: seu próprio embaixador junto a um país amigo aparecera boiando sem vida num lago distante, com o cavalo amarrado à uma ponte. Comentava-se que o cavalgante diplomata sabia demais sobre as intrigas da corte...
O feiticeiro - Como sempre nessas histórias, também havia um bruxo neste reino, uma eminência parda. Tratava-se do Mestre, o próprio príncipe consorte – aliás, com mais sorte que juízo, dizia o populacho.
“Crusius Credo!” – bradava o feiticeiro o seu encantamento, nos porões do castelo. Era conhecido por seus estudos sobre a moeda, e que fazia desaparecer grandes quantias de ouro com um passe de mágica.
Aparentemente do nada, Sua Majestosa Crueldade e Mestre Crusius Credo fizeram surgir de uma hora para outra um rico palacete de verão, numa região literalmente nobre da capital do reino.
O povo cochichava na rua, e até as folhas coladas às paredes para informar os burgueses já não podiam deixar de estranhar o milagre.
Traidores da Rainha Má, temendo que suas cabeças rolassem também, iam pouco a pouco revelando seus segredos e as conjuras tramadas antes e depois da chegada ao poder.
Ouro para os comandantes - A ferro e fogo, Sua Majestosa Crueldade impunha sua ordem desordenada e sem lei. No entanto, dentro da própria Guarda Real, havia rumores de insatisfação: por que os comandantes recebiam mais e mais dobrões de ouro, sobrando para os soldados o risco das vielas escuras e a revolta crescente da plebe? E por um punhado de níqueis!
Um reino antes rico e respeitado pelos vizinhos, agora a Gaudéria sofria o desprezo alheio e via as populações cada vez mais sem trabalho, adoecendo sem médicos ou curandeiros, sem instrução nem esperança. Os filhos da plebe que insistiam em ter educação, eram confinados em grandes caixas de metal – sob o calor infernal do verão e o frio congelante do inverno gaudério.
A Rainha Má a tudo respondia justificando-se com a carência de dobrões, que a impedia de proporcionar uma existência melhor a todos os súditos. Vivia, porém, cercada de luxo em seu novo palácio, trocando seus conselheiros sucessivamente, numa tentativa de calar a boca da população.
Trânsito de carroças - Mas todos sabiam que o trânsito de carroças do reino fora entregue a um grupo de nobres cobiçosos, que tinham desviado do tesouro real nada menos que 44 milhões de dobrões em ouro.
Com a Guarda da Rainha dividida, as corporações e guildas de trabalhadores sem poder esconder sua revolta, os lavradores abandonados e os saqueadores agindo livremente pelas ruas e estradas do reino, a população aguardava que novos tempos chegassem o quanto antes. Como de costume, queriam ser felizes para sempre, ou pelo menos durante os próximos anos.
Mas a maldição da Rainha Má ainda não havia terminado.
Uma pergunta permanecia no ar: até quando?
Gaudéria, 18 de Julho do Ano da Graça de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Palpitando

José Antônio Silva
Desde alguns anos, vem rolando um papo-cabeça de que a canção morreu. Vocês sabem, teria ocorrido o sepultamento (sem marcha fúnebre nem fita amarela) daquele tipo de som popular mas sofisticado – música e letra em alto nível de harmonia e qualidade – que fez a glória de Chico, Caetano, Paulinho da Viola e tantos outros por aqui. Ou como Bob Dylan, Lennon & McCartney, para não falar em Cole Porter e demais pioneiros, lá fora, entre milhares de nomes reconhecidos e consagrados. Antes de mais nada, a afirmação situa-se no terreno da provocação, do exagero – e assim deve ser entendida. Há inúmeros outros cancionistas criando belas obras, de velhos e novos sambistas a Los Hermanos, ou de Tom Waits a Amy Winnehouse.
Mas como em todo o exagero, a frase contém algo de verdade. Fala-se aqui de algo que, na verdade, espraia-se em grande diversidade de gêneros: samba, bossa-nova, MPB, pop, balada, forró, tango, blues, choro, rock, as canções italianas, a chanson francesa, o reggae, etc. Enfim, me refiro a esta espécie de música que pode ser facilmente cantada, e que existe em perfeita integração entre os elementos melódicos e verbais – e que neste 2009 já não desfruta da unanimidade que teve durante a maior parte do século XX. Século, aliás, onde grande parte dos gêneros citados neste parágrafo atingiram excelência de formato e maturidade.Melodia virou “base”
As inovações tecnológicas e o som eletrônico levaram a audição contemporânea e sua fruição para outros lados, e não é demais lembrar o papel crescentemente influente do rap – com a fala sincopada ocupando quase por completo o espectro sonoro -, restando um arremedo de melodia como mera “base”. Existem sim artistas do hip hop testando essas barreiras naturais, com alguns resultados interessantes na mescla com o jazz, o funk, o pop, o samba, o reggae, mas a palavra mais discursada do que entoada é a atual rainha do palco. E tudo indica que assim seguirá ainda por bom tempo. Ou não – como diria precavidamente o já lembrado Caetano.
A sensibilidade de hoje, e aí digo eu, está mais insensível. Melodias derramadas e declarações de amor, mesmo com sofisticação (ou por isso mesmo) perderam espaço no mood contemporâneo: como em todas as artes, atualmente é restrito o espaço para o romantismo, o lirismo, para tudo que seja considerado ingênuo.
Ao mesmo tempo, na música popular do Brasil, popular mesmo, impera o batidão (funk carioca), ou o axé baiano, com letras e rimas pornô ou apenas primárias e paupérrimas. No entanto, o ritmo é forte e bota favelados e classe média urbana para dançar como quem transa.
Nem a chamada “música brega” (bolerões, guarânias, sertanejas, ie-ie-iês), que fez fama e fortuna de Waldick Sorianos, Reginaldos Rossis, Perlas, Odaires Josés e Sidneis Magals junto ao público mais casca grossa, hoje não tem muita vez. Esta prateleira é agora ocupada por sertanejos-country e pagodeiros “românticos”, que – verdade seja dita e cantada – mantêm seu publico . Já existe até o subgênero sertanejo universitário...
Envelhecendo com os mestres
No entanto, é preciso admitir que a canção já conheceu dias e noites melhores. Há muitas bandas de rock brasileiras que têm seus fãs, com baladinhas emo que pegam no ouvido, mas que o status da canção se perdeu – talvez acompanhando o envelhecimento da geração que a elevou ao nível mais alto no Brasil, nos anos 60 e 70 – disto não parece haver muita dúvida.
Um exemplo foi dado pelo eterno Roberto Carlos, que em seu especial de fim de ano na Globo, poucos anos atrás, bombou sua apresentação com a presença do MC Leozinho, ao lado de quem o Rei (da canção) entoou constrangidamente um refrão bobo ao ritmo do batidão: “Se ela dança/ eu danço/ falei pro DJ...” Queria se mostrar contemporâneo, o velho Roberto, esquecendo-se que já é eterno para os brasileiros.
Relativisando culturalmente
Voltemos ao tema principal. A canção está em baixa, e creio que isto se deve também a certos aspectos do relativismo cultural, para quem o refinamento de linguagem – um dos seus pontos altos – também foi para a linha de desmontagem: seria reflexo de um modelo tradicional, imposto de cima para baixo, europeu, machista, ocidental/judaico/cristão, racionalista e que deveria seguir para o paredão do esquecimento, em nome da justiça histórica e de outras correções políticas.
A “indústria cultural”? Sim, tem muito a ver com isso. Sob o signo do pragmatismo mais desvairado, às voltas com a pirataria, com a música baixada de graça da internet e outros problemas, abandonou quase por completo qualquer proposta artística que não vise sucesso imediato e massivo.
Enquanto isso, nas artes “não populares”, ocorre fenômeno inverso: amplia-se cada vez mais o fosso entre alta e baixa cultura. Hoje praticamente já não se admite uma obra (no setor que antes atendia por artes plásticas, ou na literatura) que “não reflita sobre si mesma”. A poesia, por exemplo, é cada vez mais rarefeita e auto-referente, quase um ensaio a respeito de um nó cego. A bilhões de quilômetros de distância, portanto, do alcance e das expectativas do leitor médio.
Ah, sim, a canção. A canção sobrevive, claro, e sobreviverá. Do mesmo modo que o cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a fotografia não matou a pintura etc, etc (mas esperemos para ler as páginas policiais dos jornais do futuro).
Em todo caso, ao contrário de seus tempos de glória, a canção parece ser, cada vez mais, um petisco para pequenas platéias.
Os 20 melhores do Brasil – e outros tão bons quanto!
De quebra, coloco aqui os 20 maiores criadores de canções da MPB (no sentido amplo e irrestrito) na minha modesta opinião. (Alguns, para o fim que aqui me interessa, funcionam preferentemente como duplas, e assim vão). É evidente que meus critérios passam por algumas unanimidades, mas também por gostos e idiossincrasias pessoais, influenciadas por sua vez por minha história e trajetória de vida. Lá vão, correndo todos os riscos, mas sem ordem de importância:
1.Caetano Veloso, 2. Chico Buarque, 3. Gilberto Gil, 4. Paulinho da Viola, 5. Cartola, 6. Tom Jobim & Vinícius de Moraes, 7. Lupicínio Rodrigues, 8. Noel Rosa, 9. Adoniram Barbosa, 10. Luis Melodia, 11. João Bosco & Aldir Blanc, 12. Roberto & Erasmo Carlos, 13. Paulo Vanzolini, 14. Luiz Gonzaga & Humberto Teixeira, 15. Dorival Caimmy, 16. Braguinha, 17. Jorge Mautner, 18. Cazuza, 19. Rita Lee & Roberto de Carvalho, 20. Nei Lisboa. Importante: Esta lista passa a ter 22 nomes, pois por mistérios insondáveis do inconsciente esqueci de dois dos artistas que mais admiro na música brasileira: Jorge Ben Jor e Raulzito Seixas.Quanta injustiça
Quando elaborei a relação, sabia que estava cometendo um caminhão de injustiças e esquecimentos. Para tentar minorar esta situação, elenco aqui vários outros artistas com méritos de sobra para figurar na relação acima (ou não), mas que residem igualmente no meu coração musical. Olha só:
Marina Lima, Lobão, Renato Russo, Djavan, Vitor Ramil, Seu Jorge, Jards Macalé, Herivelto Martins, Alceu Valença, Billy Blanco, Jackson do Pandeiro, Belchior, Milton Nascimento & Fernando Brant, Gonzaguinha, Menescal & Boscoli, Marcos & Paulo Sérgio Valle, Itamar Assumpção, Martinho da Vila, Adriana Calcanhoto, Nelson Cavaquinho & Guilherme de Britto, João do Valle, Sá, Rodrix & Guarabira, Maísa, Almir Sater, Zeca Baleiro, Renato Teixeira, Lenine, Edu Lobo, Guilherme Arantes, Carlinhos Hartlieb, Luiz Tatit, Capinam, Sérgio Sampaio, Nando Reis, Arrigo, Walter Franco, Beto Guedes, Lô Borges, Lulu Santos, Paulinho Moska, Arnaldo Antunes... Chega!
E chega mesmo, porque o que tem de compositor bom neste país não cabe nem na realidade virtual. E isso que eu não falei dos cantores e cantoras, não citei as grandes bandas, os instrumentistas geniais, etc...
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Crônica Minha
José Antônio Silva
Encontraram-se num final de tarde desses, numa mesa de bar – parece que os garçons tiveram que encostar mais uma, voando, para caberem todos.
O Raul Quevedo, magro, pálido e firme – mas sem perder a ternura jamais – começou a destacar logo a resistência heróica de Cuba, e naturalmente o papo convergiu para o golpe militar em Honduras. “A direita não percebe que o tempo das quarteladas em nosso continente já passou”, pregava o velho guerreiro.
Mais ponderado, um quase nada de ironia no sotaque fronteiriço, o Osmar Trindade – recém chegado e tomando pé naquele chão meio fofo – pigarreou:
- Mas, chê, eles não vão desistir nunca. Lá em Moçambique....
O Dedé Ferlauto, que rascunhava um novo verso no guardanapo alvíssimo, citou um outro jornalista, mais antigo, que traçava um quindim com um café preto, numa mesinha isolada: “Eles passarão, eu passarinho...”
Àquelas alturas - e que alturas - apareceu por ali um baita de um sujeito com bigodão ruivo e hirsuto, ainda segurando um espeto com uma costela atravessada. Um garçom se adiantou:
- Pode deixar que a gente assa, seu Betão.
Como não podia deixar de ser, criticaram muito o fim do diploma, mas a conversa agarrou fundamento quando o Trindade, após desentupir o mate, tirou do bolso o projeto de um novo jornal.
Nesse momento, lá de longe, escutou-se um gaguejar, mas plenamente compreensível:
- Ma...mas vai ser co...co...cooperativado? – queria saber o Antoninho Gonzalez.
Infelizmente não escutei a resposta – mas ainda ouvi que o Dedé declamava um novo poema, enquanto o Betão Andreatta soprava sua harmônica.
A trilha sonora me pareceu celestial, antes de cair da cama.
Esclarecimento - A crônica acima diz respeito à morte recente de várias jornalistas gaúchos referenciais para a categoria, a partir do falecimento de Osmar Trindade, um dos fundadores e editor do histórico Coojornal, na semana passada.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Michael Jackson

As várias identidades de Jacko
José Antônio Silva
Identidade. Esta parece ser a chave, o segredo – o “passo da lua” – do inescrutável Michael Jackson, agora vivo somente (e não é pouco) nos CDs, DVDs, LPs, clips, posters, álbuns, revistas e, enfim, no coração das fãs e no imaginário coletivo contemporâneo. Identidade – ou procura, construção de uma, na qual se sentisse definitivamente confortável – foi o motor que o impulsionou e ao mesmo tempo o corroeu, psicológica e fisicamente, até o desfecho por provável overdose de analgésicos.
A causa direta de sua morte, aliás, é um dos poucos pontos em comum com a de dezenas, quiçá centenas de outros astros do rock e do pop, no mundo inteiro. No resto, abriu um caminho muito próprio. Quem era ele, o que pretendia ser?
A cor
Era um cantor negro, mas em questão de anos transformou-se em um branco mais pálido que muitos europeus. Os cabelos encaracolados e o corte black power converteram-se em longas madeixas lisas, domadas para sempre.
O nariz largo foi sendo afinado à bisturi, de modo sem dúvida doentio e descontrolado, até ficar mais fino, curto e delicado do que alguma jovem candidata à miss. No final, parecia uma boneca com algo de monstruoso.
Chegou a declarar: “Sei que sou negro”. Mas fizera questão, a vida toda, de enxergar outra coisa em frente ao espelho.
A sexualidade
Seus casamentos com mulheres não passaram de arranjos publicitários, tentativas de minorar os estragos causados à sua imagem pela suspeita forte de pedofilia. Os próprios filhos, criados por babá, não teriam o seu DNA: seriam frutos de inseminação artificial.
Manteve por toda a vida a voz muito afinada mas infantil, que contribuía para complementar o ar andrógino que de algum modo assumiu para si. Provável homossexual não assumido publicamente, foi desde sempre um dos artistas ou personalidades ícones da comunidade gay, ao lado de Madonna, Princesa Diana, Gloria Gaynor etc.
A idade
Sempre se mostrou fascinado pela infância (de várias modos), e sua aparência ao morrer podia ser de tudo, menos de um homem de 50 anos. Magro, frágil, é certo que crescia no palco ou nas telas, quando dominava tudo com seu talento, imposição corporal, música e coreografia.
Deu ao seu grande rancho californiano o nome mais do que significativo de Neverland – a Terra do Nunca de Peter Pan, o menino que se recusou a crescer. Para além dos episódios de pedofilia, ao que tudo indica sentia-se bem junto com crianças, gostava de brincar e viver neste mundo de fantasia, onde construíra um grande parque de diversões.
Suas plásticas no rosto, aliadas à voz infantil, lhe garantiram de fato um lugar na Terra do Nunca da história. Logo ele, que teve uma infância roubada pela disciplina e violência do pai, implacável na determinação de enriquecer sobre o talento dos talentosos Jackson Five, seus filhos.
As pessoas que tinham maior contato com Michael, recluso em seu mundo à parte, afirmam que ele – eterno menino-prodígio da arte - não tinha qualquer controle sobre sua fortuna, o dinheiro que ganhava e o patrimônio que já não possuía.
A arte
Como artista do mundo pop, Michael Jackson foi grande. Foi o único lugar onde encontrou uma identidade. Genial coreógrafo e bailarino, ótimo cantor, bom compositor, revolucionário na arte de juntar música e cinema, através de clipes como “Thriller”. Apesar de si mesmo e sua alienação, sua breack dance foi motor e impulso para a dança de rua da cultura hip hop, complemento à mensagem originalmente contestatória do rap.
A essência de sua arte, no entanto, ficou encerrada como sua personalidade no plano infantil. Para mim, ele foi um dos artistas que durante décadas – em especial durante os anos 80 e 90 – infantilizaram a cultura de massas mundial. Outro foi o cineasta Steve Spielberg, através de ET e da série Indiana Jones, e seus inúmeros seguidores e diluidores.
Influência? Sua música, seu visual e sua dança marcaram inegável e diretamente artistas contemporâneos a ele como Madonna e Prince, ou de gerações posteriores, como Britney Spears.
O saldo
No entanto, para meu gosto, não figura entre os maiores artistas do rock, do pop, do rithym and blues. Jimi Hendrix, explosão selvagem e ao mesmo tempo refinada de genialidade, Bob Dylan, com melodias e letras inesquecíveis, Bob Marley, Beatles (e em especial o provocador John Lennon), Rolling Stones, Janis Joplin e vários outros e outras colocaram este gênero rápido no patamar da cultura, do sonho social e da contestação ao coro dos contentes. Sem rebaixarem em nada a alta qualidade de suas obras.
Michael Jackson era um descontente que mesmo assim não desafinava o coro – assim como o talentosíssimo antecessor Elvis Presley. Fica como marca de excelência da indústria de entretenimento. Não é pouco, mas – acredito - é tudo.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Crônica Minha
José Antônio Silva
Dois velhos, cabeças brancas, costumavam dar um longo passeio pelas manhãs. Havia uma diferença de 20 anos entre eles. E nenhuma indiferença: o velho mais velho era o pai do velho mais moço.
À primeira vista, a geração que os separava não era muito evidente. O mais velho da velha dupla era bem humorado, brincalhão, e não mostrava carregar 85 anos nas costas, levemente arqueadas.
O velho mais moço, ao contrário, era nervoso e irritadiço – e por vezes aparentava mais que as seis décadas e meia de vida que levava. A maior alegria do velho mais idoso ocorria quando alguma jovem interrompia a caminhada – a dela e a dos dois idosos – entre as alamedas do parque:
- Desculpe... os senhores são irmãos? São tão parecidos...
Este tipo de circunstância trazia uma alegria indescritível ao mais velho, claro. Por vezes ele não se continha:
- Somos irmãos – e apontava para o filho carrancudo – e ele é um ano mais velho que eu.
E ria, tanto pela graça da situação quanto por ter escutado com nitidez a pergunta da moça (pois que sua audição, tinha que reconhecer, já não era a mesma de antes).
O velho mais moço fechava inda mais a cara e puxava o pai pelo braço – como se ele fosse de fato o progenitor do brincalhão, e não o contrário. Continuavam o passeio.
Um dia, o velho realmente velho teve um agravamento dos problemas da próstata e, em poucas semanas, ia juntar-se à mulher, falecida dez anos antes. Na cama de sua casa, pois recusou o hospital frente à certeza de que daquela vez não teria chance, o pai estendeu a mão manchada e sinalizou para que o filho se aproximasse.
Com firmeza inesperada nos dedos antes trêmulos, acariciou os cabelos igualmente finos e nevados do velho mais jovem. E usou da última energia para pronunciar: Filho querido, meu menino...
O enterro foi no dia seguinte.
Estava triste, o filho, sem dúvida. As últimas palavras do velho o tinham tocado profundamente - o pai nunca fora de demonstrar claramente seu afeto. Mas precisou admitir que de algum modo ficara aliviado. Já não agüentava as brincadeiras, talvez com um toque de crueldade, ou meramente irresponsáveis, e em especial a corriqueira confusão de idades e identidades, alimentadas pelo pai. Nunca o entendera perfeitamente.
Os anos escorreram sobre tudo, e eis que – duas décadas transcorridas – o velho, agora sim um autêntico ancião, convidou o filho para passear.
Com o peso dos anos, até o costumeiro mau humor fora desaparecendo, dando lugar a uma espécie de leveza de espírito que nunca conhecera na juventude ou na meia idade.
O próprio filho – sessentão, mas desconfortavemente encanecido desde os 40 anos, característica genética da família - considerou o convite para passear com o pai uma obrigação. E com esta disposição negativa, quase um derradeiro castigo imposto pelo progenitor, o acompanhava nas marchas entre árvores, cachorros, ciclistas, corredores e caminhantes.
Certa manhã iluminada, uma jovem que tomava um energético enquanto enxugava o suor, com a leveza dos jovens fez a pergunta:
- Com licença, senhores. Mas me chamou a atenção como os senhores são parecidos... São irmãos?
O velho mais velho deu um sorriso, olhando para as nuvens brancas, e não vacilou:
- Sim, e ele é um ano mais velho que eu.
O velho mais moço não podia entender.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Crônica Minha
O avanço do atraso
José Antônio Silva
Pois olha, me senti derrotado, já que sou sim (ou era? Me perco no tempo verbal, a essas alturas do campeonato perdido no STF...) pela defesa do diploma. Se as faculdades de jornalismo são ruins (na média) que sejam aperfeiçoadas. E se formos por aí, aproveitemos para acabar com a maioria das faculdades de outros campos de estudo. E no mesmo embalo já terminemos também com a obrigatoriedade dos cursos de direito (afinal, havia “rábulas” muito respeitados e com grande conhecimento jurídico: te cuida, Gilmar!), assim como havia (ainda há, nos grotões e periferias) dentistas e outros especialistas formados na escola da vida, muito requisitados e bem quistos pela clientela.
Nosso país é jovem – historicamente – e vamos avançando aos trancos e barrancos, com sacanagens, corrupções, incompetência etc. Mas terminar com a exigência de curso superior é avançar para o passado. Educação, ao menos aqui, não é demais.
Fala, vagabundo!
Tenho uma experiência pessoal sobre o tema. Quando comecei no jornalismo – 1972 anos D.C. – como estagiário, fui parar na reportagem policial de um conhecido jornal gaúcho. Pois bem, tirando o editor Antonio Oliveira, grande figura formada pela Fabico (UFRGS), e outros estudantes, o setor era levado pelos jornalistas formados na prática. Não vamos citar nomes, vocês conhecem o tipo: saíamos na “viatura” do jornal para fazer a ronda das delegacias, etc, e nossos “coleguinhas” – que usavam revólver na cintura – se esmeravam na atividade, especialmente na hora de entrevistar. Aplicavam uma bolacha na cara do preso algemado e comandavam: - Fala, vagabundo!
Boa parte destes jornalistas arrecadava dinheiro de bicheiros, outros tinham “mulher na quadra”. Mais ainda: misturavam “redação” e “comercial” sem problemas...
Não é que não tivessem ética profissional – não sabiam o que era isso.
Na faculdade, bem ou mal, além dos aspectos técnicos da profissão, já discutíamos à época (mesmo suspeitando que o professor de sociologia fosse informante do DOPS e pesássemos bem nossas opiniões na hora de falar) os limites éticos do que se fazia e até as questões de legislação.
Anos depois (final da década de 90) dei aulas de redação jornalística na UCS, em Caxias do Sul. Via na cara da maioria da gurizada a ânsia por absorver o que os professores pudessem lhes repassar. Queriam debater a profissão, e isso era feito. Como eu não tinha mestrado, nem tempo para fazer, terminei saindo. Esta é outra discussão.
Seriedade e responsabilidade
Mas percebi com total clareza a diferença de “profissionais” graduados na escola da vida e dos que cursaram faculdade. Talento não se aprende, mas o resto sim.O saldo geral de seriedade e responsabilidade – na média – é muito superior entre os que estudaram.
É verdade: há grandes jornalistas que não estudaram e mesmo assim são referenciais. Ocorre que muitos desses vieram de um tempo anterior à regulamentação, sem falar que são exceções, foras-de-série que por seu dom natural e grande inteligência superaram o fato de ter ou não ter formação acadêmica (e penso aqui, rapidamente, no Mauro Santayana e, mesmo, no Paulo Francis, que “fascistou” nos últimos anos mas era brilhante). Para a maioria, quanto mais escola, melhor.
E o ministro Gilmar ainda disse, para justificar sua posiçãozinha, que o Caco Barcellos é um grande jornalista sem ter curso superior. Eu até acreditaria no presidente do STF, se ele – Caco - não tivesse cursado a Famecos (PUC/RS) junto comigo.
Sem falar que, se formos acabar com diploma “por ser lei do regime militar”, teremos que dar descarga em milhares de legislações criadas ao longo de 25 anos de ditadura. E que continuam em pleno vigor, sem contestação.
Também dá para pensar que este esforço todo da ANJ e aliados para acabar com a exigência de curso superior pode ser perfeitamente encarado como mais uma conquista na escalada de desregulamentação das profissões e exercícios profissionais, bem ao gosto do capital livre, leve e solto (fora da prisão) – mesmo que em termos mundiais seus gurus estejam de castigo por terem quebrado a economia mundial, em sua última travessura.
E outras coisinhas mais.
É o que penso.