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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Crônica Minha

Uma região ainda inexplorada pela humanidade


José Antônio Silva


Tempo e espaço são formas diferentes de falar da mesma coisa – vida. E cada ano é um território a ser percorrido, com trechos fáceis e paisagens deslumbrantes, e travessias difíceis e sombrias. Agora falta pouco tempo para atravessar a ponte para 2012.

Chego, como sempre, com minha carga de alegrias e tristezas, como qualquer um. Esperanças também, claro. Expectativas, melhor dizendo. Não que o ano que agora estou abandonando tenha sido especialmente difícil; foi difícil, mas como um desafio que motiva. Sim: já atravessei territórios muito piores, sob chuvas, trovoadas e raios que literalmente me derrubaram ao chão, onde me contorci de dor e desespero, sem abrigo nem mão amiga, pelo menos que eu pudesse ver.

Não: 2011, tudo pesado, foi e continua sendo positivo. Procuro pensar que o que passei em alguns outros períodos, nem tão distantes, foi de alguma maneira necessário – a vida como lixa, que vai apenas aparando as arestas, ao arrancar a pele.

Já posso ver o 2012, que me espera do outro lado, com uma paisagem aparentemente amigável – assim enxergo todo novo período de 12 meses. Todos ficam encantados em dezembro, como o velho Scrooge, o milionário egoísta e arrogante de Charles Dickens, que se transforma, no Natal, ao se deparar com seus fantasmas. A magia de solidariedade, no entanto, muitas vezes é esquecida pelo bimbalhar dos sinos da publicidade e do consumismo. Seja como for, o espírito de irmanamento só vai durar até a ressaca que sucede ao ano novo.

Mas o território que palmilho é o que escolhi, por minhas palavras, gestos e decisões, mesmo que de modo inconsciente.

Faltam poucos metros para botar o pé nesta região ainda inexplorada pela humanidade. Avanço pela ponte como um pioneiro ou um viajante: tenho energia, sonhos e prazer ao encher os pulmões de ar e tocar em frente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Máfia de branco


José Antônio Silva


O incrível O Pasquim, lá nos anos 70, já tinha matado a charada. Ivan Lessa, um dos gênios da redação, aplicou a denominação definitiva - “Máfia de branco” - à vocês sabem quem. Se não sabem, lá vai: esses médicos que, ao receberem o diploma, recitaram o Juramento de Hipócrates (o criador da medicina ética e científica, cinco séculos antes de Cristo), mas que no interior de seus corações fizeram na verdade o juramento de serem hipócritas.


Os médicos que deixam doentes ou acidentados em estado desesperador morrerem sem atendimento – à porta dos hospitais – por não possuírem um plano de saúde poderoso, ou porque não podem pagar atendimento privado. Simples assim.


Os médicos, e médicas, que cobram a mais dos pacientes, por fora, muito além do que o plano público (do qual eles aceitaram participar) garante.


Sob sol e chuva
Os médicos e médicas que faltam vergonhosamente (mas eles de fato não têm vergonha) à seus plantões em hospitais públicos ou postos de saúde, desdenhando do povo que definha e se esvai em dor nos bancos de espera, ou sob sol, frio ou chuva, horas e horas a fio. Enquanto isso, estes médicos e médicas, em seus carrões do ano, estão atendendo em consultórios particulares ou em clínicas caras, muito longe dali – exatamente no horário em que deveriam, por lei e por decência, estarem à disposição e dando o seu melhor à população carente.


É incalculável o número de pessoas que sofrem de doenças degenerativas ou que precisam de uma operação – e as vezes esperam seis meses para terem, afinal, o seu dia de consulta – e que pioram, ficam aleijadas ou morrem em pouco tempo, apenas porque o médico, simplesmente, não achou importante ir ao posto naquele dia.


O sangue dos desassistidos
Oriundos quase sempre dos estamentos superiores da sociedade, médicos são fortemente corporativos. E costumam encontrar em seus influentes órgãos de classe quem os defenda e proteja, mesmo em casos de absoluta negligência ou flagrante irregularidade, ou coisa pior. Inquéritos, administrativos ou não, quase sempre terminam em pizza, manchada pelo sangue dos desassistidos.


Este é o lado – e o lodo – que suja seus jalecos brancos.


Felizmente, há muitos jovens médicos abnegados e sérios, e uma legião de profissionais corretos, que procura cumprir adequadamente com seus compromissos. Além de veteranos doutores que, mesmo na velhice, sacrificam horas de sono e tempo com a família para atender à quem sofre. Como manda o Juramento que fizeram e do qual não esqueceram.


Lugares inóspitos
Mais do que isso, é preciso citar médicos e médicas de extrema coragem e despojamento, que vão para os lugares mais inóspitos, distantes ou perigosos do Brasil e do mundo, para atenderem comunidades isoladas, indígenas, ribeirinhos, camponeses de regiões em guerra ou em situações de catástrofes continuada. Caso dos Médicos Sem Fronteiras, mas não só deles.


São médicos, enfermeiros, odontólogos, oftalmos, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, que de algum modo devolvem ao mundo – em situações extremas – a parte que a Máfia de Branco sonega. Quase sempre frente ao silêncio confortável e alienado da sociedade.



sábado, 19 de novembro de 2011

O jornalismo íntegro que renasce da universidade


José Antônio Silva


Esqueça os principais jornais gaúchos, por um momento. Você já sabe como eles são – depois voltaremos, brevemente, ao assunto. Eis, porém, que valores mais altos se alevantam. E não vêm do campo profissional, mas do campus universitário. Refiro-me aqui, especificamente, à Fabico, da UFRGS, que nos últimos tempos vem surpreendendo com várias publicações que seguram o jornalismo pelos chifres, com vontade e integridade.


A saber, o Jornalismo B, em versão digital e impressa (esta em tamanho tablete, papel jornal, sem cor). Nos dois formatos, o prato de resistência é a crítica cultural e, fundamentalmente, a cada vez mais necessária crítica da própria imprensa. Não se precisa concordar com todas as posições ali defendidas, é claro, para ver que eles preenchem um lugar vago na mídia gaúcha. Tem tudo a ver a tentativa de trazer à luz aspectos da notícia que os diários gaúchos omitem, minimizam ou desqualificam à seu bel prazer. Vai numa trilha criada dez anos atrás por sites como Zero Fora, Mídia Alerta - e mesmo o Tomando na Cuia original, que aliava o comentário da mídia com um humor satírico e corrosivo.


Já em outra embalagem e conteúdo, temos o jornal tablóide Tabaré. Mais caótico, anárquico, experimental, sempre com uma ilustração na capa, a publicação estudantil parece ter como principal referência o crítico, icônico e cômico (“icômico”?) O Pasquim, dos anos 60/70. A terceira boa surpresa gerada pelos alunos da Fabico, fora do currículo escolar, é a revista Bastião. Visual diferenciado, papel cuchê, logotipo forte, busca o jornalismo de comportamento, político, cultural. Publicação aberta ao que der e vier.


Buscando caminhos

Nas três propostas, a busca de caminhos próprios, independentes, com algo do espírito da imprensa “alternativa” e resistente dos tempos ditatoriais. Jornalismo B, Tabaré e Bastião podem ser embriões de alternativas profissionais menos comprometidas, nas bancas de jornal. Talvez nunca passem de tentativas, em termos profissionais.

Até porque, não é exagero dizer, a ditadura militar de ontem deu lugar à ditadura mercadológica e financista de hoje, em outro estilo de perversidade. Porém, se estes e outros jornais e revistas que vêm (ou não) da universidade pública pela mão de estudantes de comunicação não passarem da fase de ensaio... que belos ensaios.


Arrogância e exorcismo

Agora podemos retomar a frase inicial deste texto sobre os principais jornais gaúchos. No topo, o virtual monopólio de uma empresa, que tem lá seus méritos. Mas impõe os próprios interesses e a sua visão corporativa a todos os setores da sociedade gaúcha - e com tal arrogância que chega ao constrangimento. Descendo um degrau na qualidade técnica, um grupo que foi tradicional e hoje é praticamente uma legenda de aluguel - para exercer pressão política e econômica - de “bispos” empresários e executivos, que nada conhecem de jornalismo e exorcizam sem perdão quem mostrar que conhece.


Triste, né? Mas pura e dura realidade. Por isso, gaúchos e gaúchas que têm dificuldade em aceitar passivamente o que nos é imposto, podem mostrar sua indignação dando força, comprando, assinando ou anunciando em Jornalismo B, Bastião e Tabaré. Apenas por exemplo.



Confere lá:

bastiao.net

jornaltabare.wordpress.com

jornalismob.wordpress.com



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Livro

Os três cenários de Santiago


José Antônio Silva


Há três cenários ou temas principais na extensa obra do cartunista Santiago. O caprichado e recém saído livro “Caminhos do Santiago” (Editora Gastal & Gastal, 211 págs), que termina por reunir a maior parte dos trabalhos significativos do artista Neltair Rebés Abreu – que assina “Santiago” em referência à sua cidade natal, no interior do RS – facilita esta percepção. A saber: a vida campeira, com suas memórias afetivas da infância e referências visuais do meio rural gauchesco; o ambientalismo, no qual se engajou profundamente desde o início da carreira, nos anos 70; e, por fim, os grande painéis ou murais da urbanidade, da heterogeneidade da concentração humana, com sua infindável sucessão de rostos e singularidades.


Aos 61 anos, Santiago foi criado profissionalmente tendo como pano de fundo o cinza do regime militar (1964-1985). E fez parte da geração de cartunistas, jornalistas, compositores, pintores, cineastas, que, em todo o Brasil, foi obrigada a desenvolver seu trabalho naqueles anos de censura, de arbítrio e violência. Sua produção, ao longo do tempo, está repleta de charges de teor político, em que militares cheios de medalhas, espada à cinta, pompa e arrogância – com cara de generais de opereta – figuram como vilões, vilões que, ao mesmo tempo, são bufões...


O mesmo se dá com carrascos de capuz negro na cabeça e chicote nas mãos, num clima medieval, mas que tinha muito a ver com a duríssima realidade da tortura e da morte, praticadas nos porões dos órgãos de repressão civil e militar.


A veia política

A veia política sempre pulsou, até mesmo pelo trabalho de colaborador de sindicatos e entidades de trabalhadores, assim como para campanhas cívicas e eleitorais. Aliás, vale registrar que o espaço dos jornais sindicais terminou sendo, em muitos casos, a saída profissional para a sobrevivência de grande parte dos chargistas. Depois de enfrentarem a censura militar no tempo da ditadura (que agia dentro mesmo das redações da grande imprensa), os cartunistas mais questionadores foram aos poucos expelidos desta mesma grande imprensa, já em plena democracia. Afinal, os grandes interesses empresariais e econômicos é que passaram a dar as cartas marcadas e, como até hoje, a não admitir qualquer crítica – mesmo em forma de humor – à suas ações e ao seu poderio.


Com algumas exceções, sobraram naturalmente nas grandes redações os chargistas que mantiveram-se preferentemente focados na crítica cotidiana aos políticos. A ganância, os golpes e as negociatas dos conglomerados empresariais (nos quais está inserida a grande mídia), do sistema financeiro nacional e internacional, dos setores mais conservadores da elite brasileira (por baixo do pano, mas à toda vela), não devem ser abordados. Também ficaram os desenhistas que preferiram dedicar-se à crítica comportamental, ao esporte e à crônica de costumes. Os cartunistas mais jovens, pelo jeito, já entram sabendo: só vale pegar pesado com os políticos.


O trabalho desenvolvido pelos cartunistas resistentes (como Edgar Vasques, Eugênio “Corvo” Neves, Schroeder, Ronaldo Wessterman e outros, além de Neltair), neste aspecto, foi muito importante e ajuda a contar a história nebulosa desse período no Brasil e no RS.


Mas, como assinalei no alto do texto, creio que é naqueles três temas, em que Santiago pode dar livre vazão à sua vontade, que ele atinge os melhores momentos da carreira.


O gaudério

A começar pelo seu linguajar impregnado de expressões gauchescas e fronteiriças, Santiago remete o ouvinte – melhor dizendo, o leitor de seus cartuns e historias em quadrinhos – ao mundo rural. Desafiado a criar uma tira para ilustrar um jornal voltado aos agricultores, nos anos 70, Santiago rebuscou a memória. Pegou detalhes de vários homens do campo, que conheceu na infância e adolescência nas décadas de 50 e 60, e gerou seu principal personagem: o gaudério Macanudo Taurino. Inspirado livremente, segundo ele mesmo, em Inodoro Pereira, um “gaucho” do pampa argentino, desenhado por Fontanarossa.


Macanudo pouco a pouco foi ganhando mais definição no traço e na personalidade, sempre acompanhado do seu fiel guaipeca. Meio ingênuo, meio espantado e atrapalhado com as novidades da cidade grande, o que já rende muitas situações humorísticas, ele também surpreende por tiradas filosóficas profundas, sem ser pedante – é personagem de grande empatia.


Suas histórias são também um pretexto para Santiago exercitar seus grandes quadros sobre a vida rural de até 30 ou 40 anos atrás. Como os bolichos de beira de campo, com seus borrachos bebendo, seus jogadores de osso, suas carreiras de cancha reta. Ou a estação ferroviária do interior, com as famílias que vão embarcar ou os parentes que voltam, com pacotes caindo nos trilhos ou gente correndo pra não perder o trem. Ou os bailões de campanha. Tendo como cenário e figurantes os rústicos peões de estância, ele construiu várias versões humorísticas da Última Ceia, de Da Vinci.


O ambientalista

Outra frente em que está constantemente empenhado é na defesa do meio ambiente. Muitos de seus cartuns sobre este tema (entre outros) já receberam prêmios internacionais, inclusive de um dos principais eventos do gênero no mundo, realizado pelo jornal japonês Yomiuri Shimbun. Vale recordar as inúmeras paisagens, muitas vezes com tons líricos e fantásticos, da imensidão do pampa, cortada por uma pequena casa de sítio, uma ou duas árvores próximas, um poço e o catavento de sua infância.


Um cartum clássico de Santiago, sobre a relação homem e natureza, é aquele em que um grupo de visitantes no alto de um monte, ouve, encantado, o retorno perfeito de suas vozes, no “Vale do Eco”. Alguns metros abaixo, onde não pode ser vista, uma equipe de técnicos do “Serviço Nacional de Turismo” opera todo um equipamento de som que garante a perfeição do tal eco natural...


O panorâmico

O terceiro vértice do trabalho de Santiago são as panorâmicas, geralmente em cenários urbanos. Eventos e locais determinados de Porto Alegre, como a Feira do Livro, ou o Mercado Público e o Largo Glênio Peres, acolhem a multidão de homens e mulheres que por ali transitam. Mas através da caneta seletiva do cartunista, grande parte das dezenas ou centenas de figuras mostradas são personalidades conhecidas (da cidade, do mundo ou apenas da História), ou são personagens dos próprios quadrinhos e do cinema, como o seu Macanudo Taurino, o Rango, de Edgar Vasques, o Saci, de Ziraldo, o ET, de Spielberg, o Alemão Blau, de Bier, e tantos mais. Quando não coloca em cena, num canto da folha, figuras com o rosto de alguns dos desenhistas, poetas ou políticos que admira – incluindo ele mesmo.


E o povo está todo lá, nestes murais: engraxates, mulatas sambando, executivos apressados com suas pastas, meninas segurando balões, carroceiros, policiais fazendo a ronda, enquanto um larápio age exatamente às costas deles... Os painéis, que também mostram os prédios clássicos e as ruas centrais de Porto Alegre, recheados de gente, são uma espécie de releitura de “Onde está Wally?”, do cartunista britânico Martin Handford, só que não há apenas um personagem central para localizar e identificar, mas dezenas. O mesmo estilo dos painéis urbanos superpovoados, ele repete em bailões gauchescos no interior, cartazes para eventos como o Fórum Social Mundial e muito mais.


Humor pelo humor

Sujeito naturalmente engraçado, Santiago não deixa de fazer também o chamado “humor pelo humor” - piadas de situação, ingênuas ou singelas, como o cartum onde a família de Marco Polo, na Veneza medieval, à hora do almoço, vê um bilhete preso na porta pelo dono da casa: “Fui à China buscar macarrão. Marco Polo”.


Cultor da chamada “linha clara” dos quadrinhos, cujo grande mestre foi o belga Hergé, de “Tin Tin”, o cartunista gaúcho gosta de enfiar em seus desenhos homenagens e citações a outros artistas que o marcaram, como o catalão Gaudi, o alemão Escher, o americano Edwar Hooper, Da Vinci, Picasso...


É interessante observar: eleger um típico gaúcho do interior como porta-voz de sua visão de mundo e suas inquietações, foi uma opção que muitos escritores riograndenses já fizeram, em diferentes graus de sucesso e talento. Neltair Rebés Abreu, no entanto, até pela natureza de sua arte, vai no sentido oposto: onde há arroubos de coragem, ele coloca ironia na boca do Macanudo Taurino; onde há a postura machista, ele insere a relativização; onde há o discurso ufanista e grandiloquente sobre a superioridade do gaúcho, Santiago opta pela reflexão.


Mas que ninguém se preocupe: o riso é sempre garantido. Como comprovam estes 35 anos de carreira, engajamento e piadas que fazem rir no mundo inteiro.

domingo, 23 de outubro de 2011

Conto um conto

À sombra da aldeia


José Antônio Silva



Uma aldeia em região pedregosa da Itália. Por volta de 1930, digamos. Homem caminha sob o sol forte. Provavelmente é o bobo do lugar. A roupa é surrada, um pouco larga para ele. Por certo veste o que lhe deram aqui ou ali. Vemos que tem os pés descalços. Os dedos são tortos, as unhas quebradas e manchadas, grossa calosidade nas solas. Caminha decidido, mas na verdade vai de um lado para o outro, muitas vezes, até que alguém lhe diz pare! e o encaminha para um banco na sombra, onde lhe dão uma caneca de água e um pão. Não agora: agora atravessa a piazza com passos curtos mas rápidos; chegando ao pé da escadaria da pequena igreja, se benze, faz a volta, e caminha até a frente do fórum.


Nesse momento, e não em outro, um automóvel preto estaciona e ele vê desembarcarem homens poderosos, com ternos pretos e chapéus. Um é corpulento, usa gravata borboleta e acende um charuto logo que põe os pés no chão. Outro é alto, exibe um bigode no qual afloram os primeiros fios grisalhos. Este segura a porta, em pose respeitosa, para que desça o monsenhor Capellani.


Vocês podem imaginar: é magro o seu corpo, por baixo da batina, ornada com a faixa carmesim. Capellani traz os cabelos cortados curtos, sob o solidéu violeta. São quase completamente brancos, os cabelos, e devem ter sido rebeldes, encaracolados. Os olhos são de um azul muito parecido com o céu que complementa, à perfeição, a cena da Itália meridional, às 13h desse dia. É muito provável que esteja perto dos 70 anos. Usa óculos com armação de metal.


Como num filme que ele jamais viu ou verá, o pobrezinho da aldeia provavelmente avançará, magnetizado pelo figura, e encurvando o corpo já pendido para um dos lados, tentará beijar a mão do santo padre que lhe apareceu naquela tarde vazia. Sente que alguma força, que ele custa a entender, o empurra para longe e para baixo, muito muito rápido, e do chão enxerga o homem gordo que limpa as próprias mãos, depois do contato certeiro com aquele porcaria.


Non! Che cosa sta facendo?! A voz parece vir daquele mesmo céu azul que agora o ofusca, ao olhar para cima, talvez venha de Deus. Mas não, é daquele padre tão bonito que agora lhe estende a mão. O nariz do homem no chão sangra, e ele não nota, ao que parece. Pois está tentando rir para o santinho que afaga sua cabeça e oferece a mão para que beije o anel.


Agora, sentado em seu banco à sombra, com seu pão e sua água, o louquinho da vila passa a mão no sangue seco, que ainda lhe mancha o nariz e parte do rosto. Muitos outros carros escuros pararam e deles desceram grandes senhores. Este deve ser um dia muito importante.


Lá dentro do palacete em que funciona o fórum, podemos imaginar a cena: depois dos rapapés e da saudação que a todos une, o bispo assina o documento, já firmado pelos demais. Mas deve achar que ainda falta alguma coisa, para imprimir autenticidade e traduzir com seu simbolismo a relevância do ato. O príncipe da Igreja recebe, de seu secretário de bigodinho aparado, outro anel cardinalício - que mergulha ritualmente na tinta, e então apõe seu selo.


Agora sim. A partir daquele dia, por ordem do governo fascista e por acordo com os mais influentes setores da Itália, em todos os cantos da nazione, todas as pessoas acusadas ou suspeitas de subversão, comunistas, professores que questionavam junto aos alunos, agricultores que queriam dividir a terra, operários anarquistas, políticos da oposição, mulheres de má fama, judeus sovinas, mouros e negros da Líbia e da Abissínia, que atravessaram o Mediterrâneo em busca de trabalho e nova vida, mais doentes incuráveis, aleijados, mendigos, loucos, ciganos, alcoólatras, toda essa corja... A partir daquele momento, por ordem do Fascio, esses seres nocivos e indesejáveis serão recolhidos das ruas, das casas, da lavoura, dos escritórios e fábricas, da porta das igrejas, dos navios de pesca, do meio das praças, deste ou daquele quartel, de onde quer que estivessem, um por um ou em grupos e magotes, e ficarão recolhidos por tempo indeterminado em campos de concentração.


O doidinho termina a água do copo, mas os olhos fixos no segundo andar do palacete, do outro lado da piazza, estão marejados. É provável que mostre um sorriso de gratidão nos lábios rachados. Um dia inesquecível.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Crônica Minha

Jobs, o profeta de um mundo de gadgets coloridos


José Antônio Silva



Tenho sempre muito cuidado em classificar alguém como gênio da humanidade. Mas a comoção (incentivada pela mídia) , as inúmeras homenagens e a choradeira em torno da morte de Steve Jobs são talvez a maior demonstração de como a informática - nem tanto ela quanto a disseminação de "aplicativos" e gadgets eletrônicos - fascina milhões e milhões de pessoas. Muitas delas, acriticamente. Não se trata de negar o brilhantismo do criador de ipods, iphones e assemelhados. Não tenho conhecimento para debater tecnicamente o assunto, nem pretendo.


Trata-se, isto sim, de discutir o formato com que ele embalou suas invenções. Sempre tratando tudo como produtos a serem vendidos um a um, e periodicamente lançando um novo, com mais um detalhe, na lógica da acumulação e da maximização de lucros. Um sonhador - um "idealista", conforme li por aí - que queria ganhar cada vez mais dinheiro.


Aliás, nesse sentido pode-se dizer que Jobs foi um gênio - um gênio do marketing e do design aplicado ao consumo, talvez mais do que da própria tecnologia. Volta e meia lançava um produto com um item a mais, para obrigar os "consumidores" (termos como povo ou cidadãos já quase nada valem) a adquirir o mais recente brinquedinho eletrônico, com alguma nova função. Poderia ter largado menos aparelhos com mais utilidades (até porque, dizem, já havia tecnologia desenvolvida para tanto) e que durassem mais tempo.


Obsolescência programada


E assim vamos, num esquema em que se troca de celular no mínimo a cada ano, como as demais bugigangas higtech. Tal como seu par "careta" Bill Gates, Steve Jobs foi um neo incentivador da sociedade do excesso. Um aplicado renovador da obsolescência programada, estratégia criada na década de 20 pela GM, que ministra uma dose periódica de insatisfação nos compradores, atraídos irresistivelmente pela mera renovação anual de modelos e acessórios de seus produtos.


Um profeta, o Jobs, do consumismo, esse mal que além de agravar os problemas ambientais que o mundo atravessa, faz com que tanta gente se afunde em todo o tipo de dívidas (nem falo em dúvidas) para manter o status, para ficar na moda, para... enfim, nem eles sabem direito por que.


Jobs se dizia budista e de mente aberta. Mas era o tipo de criador "focado" especificamente na tecnologia a serviço da diversão e entretenimento, ao que parece sem qualquer visão social ou ambiental, sempre mantendo distância significativa de iniciativas de compartilhamento, como o linux. Um self-made man do neoliberalismo triunfante, dono de ideias que imediatamente viravam fortunas.


Eu escrevi "neoliberalismo triunfante"? Bem... um sistema que no conjunto da obra vem falindo o mundo, mais uma vez, no mínimo desde a "bolha" especulativa de 2008 - como se vê nos ajustes econômicos à fórceps, à custa dos empregos e direitos sociais, é óbvio. E que inclusive nos States (o Pai da Matéria) agora enfrenta a ira e o protesto de milhões de americanos, a partir da simbólica Wall Street.


Ô, valeu aí o ipod e o iphone, Steve. Mas fora o mundo da grana e do individualismo (cada um viajando com seu fone de ouvido), dos que supervalorizam novidadezinhas e mais e mais funções dos gadgets - que a maioria sequer consegue utilizar plenamente - me parece que o papel do cara não foi tão grandioso assim. Posso estar errado, pois tenho o péssimo hábito, como diz Millôr Fernandes, de duvidar de todo o idealista que fica milionário com o seu ideal.


Como eu disse, sou muito cuidadoso na hora de classificar alguém como gênio da humanidade. Mas, se formos entrar na listagem que envolve - só como demonstrativo - Leonardo da Vinci, Dante, Shakespeare, Marx, Freud, Einstein e outros gigantes, vamos combinar: Jobs fica na categoria dente de leite. Com todo o respeito, claro.


































sábado, 8 de outubro de 2011

Crônica Minha


Quem tem a sorte grande


José Antônio Silva


Quem tem a sorte grande de possuir um talento, quem cultiva uma arte,

um ofício que lhe traz gratificação pessoal, nunca está realmente só. Esta deusa é companheira nos momentos ótimos, nos momentos de calmaria e até nos de tempestades. Mesmo nos revezes da sorte, no mínimo será um balsamo a aliviar a carga de sofrimento. Uma mão iluminada a qual nos agarramos e que nos carrega à praia, onde, em último caso, morreremos somente quando o destino determinar.


Mas há artistas que não conseguem entender/sentir/aproveitar essa bênção. Estes, dominados por demônios que não sabem fazer calar, acabam entregando-se à destruição, por vezes com as mesmas mãos que tocavam, que pintavam, que escreviam, que criavam.


São vítimas – mais que isso: escravos – da Ansiedade projetada ao nível do alto desespero, prima-irmã de outra bruxa cruel, a Depressão, com a qual se reveza na imposição quase contínua da dor.


Digo “quase” contínua, pois alguns destes artistas conquistam – ou constroem com esforço – determinados períodos de leveza e até alegria. Muitos (e aqui me lembro do grande guitarrista Eric Clapton, um desses heróis sobreviventes) parecem ter encontrado mesmo o caminho da harmonia e da paz em vida.


Flertando com ela

Infelizmente isso não é tão comum. Muitos deles terminam por enlouquecer, ou entregam-se até o fim ao álcool, às drogas, aos exageros e flertes com a mestra Morte, que acaba por lhes satisfazer o desejo. (E aqui “desejo” não está na mesma categoria com que ansiamos por sexo, comida saborosa ou outra satisfação relacionada ao prazer de estar vivo. Não, este “desejo” é o antiprazer de viver – não se almeja propriamente satisfação ou gozo, apenas findar com o sofrimento).


O bom é que os desesperados que tiveram a felicidade de encontrar caminhos para a harmonia e a tranquilidade não salvam apenas a si mesmos: são exemplos de que a Depressão e sensações como a da falta de sentido para a existência, ou o tédio, não precisam ser mortais. Podem ser e são superados. Valorizar os próprios talentos ajuda nisso. E quem é que não possui algum?