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sábado, 3 de janeiro de 2009

Crônica Minha (11)

Biguás em formação



José Antônio Silva



O bonde Gasômetro enfiando pelos altos da Riachuelo, quase Borges, e os biguás, como patos selvagens do Hemisfério Norte, só que selvagens do Sul, voando em formação de V sobre o Guaíba enorme. Ou isolados, mergulhando e voltando com seu peixe - igual a você, garoto, retornando da padaria para casa, com seu pão d’água (não a do Guaíba), de meio quilo, embaixo do braço.


O bonde fazendo a curva sem atraso, como quem vai virar, e se virar derrama todo seu conteúdo de gente, os homens – trabalhadores e doutores – de terno e chapéu na cabeça, e espalha sangue e vísceras e urros, gritos , gritinhos e gemidos. Mas não vira. E toca para a João Pessoa e escoa avenidão abaixo, como a água empoçada pela chuvarada e puxada pela força das bombas para dentro dos encanamentos, ratos boiando, e jogando tudo no Guaíba.


Você corre atrás do bonde, mas já foi – e vai chegar atrasado ao colégio e o professor durão não deixa entrar e vai voltar para casa com o rabo entre as pernas e uma anotação vermelha na caderneta escolar e uma bronca e... enfim.


Então não vai. Vai para o pátio – o Pátio da Igreja das Dores, local protegido por Nossa Senhora e onde tudo é possível, do futebolzinho comportado às brigas e pedradas, ao corre-corre em equilíbrio sobre os muros, sobre a capela da Santa com seu interior tomado por tocos de vela endurecidos, seus ex-votos e sua fumaça das mesmas velas e de onde se pode pescar – como no Guaíba? – não um peixe, mas uma esmola à feição, que vai virar um doce de abóbora, crosta rochosa, ou balas, por exemplo, no armazém da Dona Nina ou no bar do Seu Marino.


Se não houver dinheiro na caixinha ou estiver muito para o fundo, inalcançável mesmo com sua técnica de dedos espichados em forma de pinça, nem tudo está perdido: o doce pode sair num golpe de agilidade, rapidez e audácia por sobre o velho balcão envidraçado do armazém, enquanto Dona Nina se distrai, procurando a estação preferida no rádio Se regalar com o doce, que gruda nos dedos. E depois é a festa de descer a Bento Martins à toda, no carrinho de lomba, fazer a curva na esquina da Andradas com o trabalho conjunto do pé e do freio de madeira, ao mesmo tempo, sem se esborrachar no chão, num cavalo de pau perfeito, e subir de novo e de novo ao ponto de partida, na esquina da Riachuelo, com uma mão arrastando o carrinho e a outra presa à carroceria dos caminhões que enfrentam a ladeira.


Cumprimentar as tias que sobem para a missa e não pensar na queixa que elas farão à mãe, que contará tudo ao pai, que poderá desabar sua mão pesada ou apenas ameaças, sobre seu lombo, ou mesmo um afago , dependendo da hora e do estado em que chegar, noite alta. Pensar nada: chutar o ratão perdido no meio dos pés da gurizada, ratão ensangüentado, costas na parede, que se alça nas patas traseiras e desafia, arreganhando as presas e arrepiando os cabelos dos guris, que sufocam o próprio medo ao avançar com novos ponta-pés, paus, pedras. Juca Bobão desfere a tijolada definidora.


A chuva rápida lava a cena, enquanto os meninos rumam à igreja. Fazendo o Sinal da Santa Cruz, cruzam em silêncio, pelo corredor lateral, a imponente nave do templo, e se abrem para o sol, de novo, no alto das escadarias.


Escalam, sobem – com jeito, experiência, conhecimento de causa e de local: são alpinistas preparados – os andaimes de madeira que contornam as paredes laterais. Logo estão nas torres, até o alto, até os campanários, o espaço dos sinos e correm – brincam de pegar – com os pés sobre uma tábua virada de lado, o lado estreito para cima, dois centímetros de base para os tênis, chinelos, pés descalços dos meninos, as mãos erguidas aos céus, segurando-se à tábua acima das cabeças, na mesma posição. Uma mão escorrega e apanha o ar – Maneco desaba no espaço, a dezenas de metros do chão pedregoso. Consegue agarrar-se novamente à alguma tábua do andaime: a brincadeira e a vida podem continuar.


Você trouxe a funda – caçar umas pombas. Cai a tarde e três ou quatro destrincham, à base de canivete, algumas pombas sujas de poeira e terra, abatidas com os estilingues. E enfiam o que pode ser enfiado em espetinhos improvisados com galhos, e alguém rouba de casa um punhado de sal e os guris comem a carne, tostada em fogueirinha.

Na beira do rio, Humberto, que não reclama de fazer esse papel, recebe inclinado o desejo trêmulo e inseguro dos outros garotos, e depois todos caem na água. Uma vaquinha, moeda de um e de outro, e Seu Zé aluga o caíco e a gurizada vai remando, alguns nadando ao lado, até a pequena ilha. Olhar os biguás, os negros biguás pescando.


De tardezinha, exaustos e molhados, os meninos enfrentam o olhar inquiridor da mãe: calção molhado? É suor, mãe, a gente jogou bola e estava quente demais hoje. Se ela acreditava, você nunca saberá.

Lembrar dos biguás, entrando e saindo da água, com prêmio ou sem prêmio na boca, sem descanso, correndo atrás do bonde, antes de apagar.



Porto Alegre / 2004

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Poetando (6)

Mensário biográfico

José Antônio Silva


Nasci como um peixe, no rio de janeiro
Nadei contra a corrente, já em fevereiro
Em março, fora da água, um primeiro passo
Rumar para o sul, em abril, me serviu
Em maio arrisquei tudo – um ensaio
Mês de junho assinei casório, do próprio punho
Caí em julho, virei lixo, um entulho
Em agosto me levantei – e na carreira subi de posto
Descasei em setembro; mas da tristeza nem lembro
Me traz esperança outubro, é o que descubro
Do clube do amor voltei a ser membro, era novembro
Dezembro? Dezembro me torna menino:
do rio eu relembro.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mundo Visual (7)


Cisne Branco

ao sol

do porto






Foto by

José Antônio Silva



sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Três episódios espirituais

1 - Guarda-chuva
Você é um garoto de dez ou onze anos. Está no pátio da Igreja – um amplo espaço semi-selvagem ao lado do velho templo, ocupando quase um quarteirão inteiro. Paineiras imensas - com imensos espinhos e painas que nevam sobre o chão, ao se partirem com a queda - convivem com lugares pedregosos, arbustos e muitas moitas, próximas a uma capela de pedra. Um muro alto, mal conservado, cerca tudo. Chove fraco, desde a manhã. O sino avisou: já são cinco da tarde. E começa a escurecer.

Muita correria, algum jogo de bola, brincadeira de pegar com direito a escalada rápida do muro, do qual se pula para algum galho de árvore à feição. A gurizada sobe com agilidade pelas laterais da capela, se equilibra entre as pedras retangulares do topo e salta do outro lado. Ah, sim: está mesmo escurecendo. Hora de ir embora.

De repente... onde está o guarda-chuva? Onde, pelo amor de Deus, está o guarda-chuva novo que você pegou ao sair de casa e que agora, algumas horas depois, simplesmente, sumiu?!!
É certo que vai levar uma surra ao voltar para casa sem o acessório. Recém comprado pelo pai – que provavelmente nem o usou e que você não deveria ter trazido, só para se mostrar aos amigos.

Você procura no chão, entre o capim, nas moitas próximas. Nada. A maior parte dos meninos já se despediu e vai indo embora, barulhentamente.

Medo.

E agora?

Você se sente muito só. E reza: Nossa Senhora (pronuncia em silêncio toda a oração). Ou teria sido o Padre Nosso? Me ajuda! Faz com que eu encontre o guarda-chuva!

No mesmo instante, uma voz interna lhe responde, mais ou menos assim: Olha naquela moita perto do muro.

Você não pára para questionar quem deu a informação, dentro de sua cabeça. Corre ao lugar indicado pela voz e – voilá! – o guarda-chuva ali está.

Exatamente ali.

Com a simplicidade da infância.


2 - Tijolo de luz
Você desce a escada em caracol, imersa na escuridão. Você trabalha como noticiarista de uma rádio, no centro da cidade. É um jovem estudante de comunicação, e às vezes fica até mais tarde na rádio, adiantando as notas informativas e personalizadas que o locutor da manhã, que “abre” a emissora, vai ler por volta das seis da matina.

São 15 andares, mas o elevador naquele momento não chega, não chega, não chega, e você decide encarar a escuridão das escadas até o térreo. Não há um negrume total: a parede curva e envidraçada que acompanha os degraus recebe uma leve luminosidade que chega da rua, lá embaixo, nesta uma hora da madrugada.

De repente, talvez entre o sétimo e o sexto andar, próximo de colocar os pés na laje que separa os lances de escada, da escuridão avança com imensa rapidez um bloco de luz – luz muito branca, mais ou menos retangular, como um grande tijolo maciço – em direção ao seu rosto.

Depois você não lembra se gritou, mas sabe que colocou as mãos em frente ao rosto, numa atitude instintiva de defesa.

Mas o bloco de luz vindo diretamente (de onde?) para o seu rosto – a partir da escuridão total do andar, em que nada mais funcionava àquela hora -, se desfaz.

Você nem olha para trás. Com o coração disparado e as pernas idem, em tempo recorde atinge o térreo, estende a mão ao comutador de luz na parede, abre a grande porta de vidro do prédio e coloca seus pés na rua.

Só então suspira profundamente. E amparado pela concreta iluminação dos postes, avança, ainda trêmulo, em direção à sua casa.



3 - A Velha
Você dormiu. Tirou um cochilo. Agora escuta os ruídos do trânsito lá fora. Sua mulher está na cozinha, provavelmente, e você espichado na ampla cama, no quarto que cabe a vocês, no apartamento dividido com outro casal. Sabe que, encostado à parede oposta, está o berço que abriga sua primeira e única filha.

Você fita o teto do quarto. Mas algo lhe atrai a atenção e você vira o rosto em direção ao berço. E vê – e vê!

Há uma mulher ali, uma mulher idosa, de cabeços brancos arrumados em coque. A velha observa o nenê em seu berço.

Você apóia os braços no leito e ergue o tronco, estica o pescoço e a cabeça, olhos arregalados e sabe que sua boca está abrindo num “hóoooo”...

Pisca os olhos e os abre novamente.

Já não há nada lá.

Você levanta como um raio.

Sua filha dorme em paz. Um anjinho.

A visão que você teve, digamos assim, era igualmente de paz.

Você tem certeza que não foi um sonho. Você não dormia na hora!

Também não havia fumado ou ingerido qualquer droga, nem bebera.

Sabe o que viu. E sabe que viu.

E para sempre vai lembrar. E é tudo.


José Antônio Silva

sábado, 6 de dezembro de 2008

Rememória
















Vinte aninhos do Diário do Sul


José Antônio Silva

Pois é, em 30 de setembro último completou-se vinte anos do fim do hoje mítico Diário do Sul. Experiência brilhante de jornalismo diário que apostava no talento e no estilo (ou busca de um) de promissores ou consagrados repórteres, redatores, ilustradores, cartunistas, fotógrafos, diagramadores e editores gaúchos, o Diário do Sul chegou disposto a não fazer concessões, para o bem ou o mal. Ao contrário de toda a imprensa, não apostava suas principais fichas em temas de apelo fácil – tipo esportes (leia-se futebol, basicamente) ou polícia.


Cultura, política, comportamento, economia ocupavam a maior parte dos espaços, com ênfase para grandes reportagens com texto personalizado, fotos abertas, ensaísticas, interpretando o que era noticiado, artigos traduzidos de grandes nomes internacionais.
Elitista? Inovador? Diferente? Que fugia do apelo fácil e do arroz com feijão costumeiros, isso fugia.

Para mim, após dez anos de São Paulo, integrar essa equipe e encarar o desafio do DS foi um ótimo e convidativo pretexto para voltar à minha Porto Alegre natal. Pena que o grupo Gazeta Mercantil (SP), que bancou o projeto de Hélio Gama, abandonou o barco em meio da viagem, sem dar tempo ao DS de ancorar financeiramente - entre outros problemas.
Durou de agosto de 1986 a 30 de setembro de 1988. Hoje, é tema de monografias e teses acadêmicas e uma memória instigante para quem passou por lá, embora os terríveis atrasos dos salários, que após um ano de existência passaram a ser substituídos por “vales”, levando praticamente todos os 120 jornalistas ao SPC e ao bloqueio de contas nos bancos...


No alto, ilustração feita por Edgar Vasques, dia 02 de outubro de 1988, da porta do elevador que desembocava direto na redação. Edgar tascou seu recado, à época: “Imprensa gaúcha: o último a sair, por favor, acenda uma luz”.


Na foto, da esquerda para a direita: Cida Golin, Glênio Povoas, José Antônio Silva, Luiz Carlos Barbosa, Carlos Urbim, Ana Barros Pinto e Renato Lemos Dalto. À mesa, José Weis.


(Para quem quiser saber mais: matéria completa sobre o DS, de autoria do mesmo José Weis, saiu no jornal Versão dos Jornalistas, do Sindicato dos Jornalistas/RS, edição de setembro de 2007. Mas não adiante procurar no site do SindJor: ao que tudo indica, essa edição não possui versão eletrônica...)


















sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Conto um Conto (4)

Tudo tem seu dia

José Antônio Silva

Tudo tem o seu dia. A frase podia ser pronunciada com ênfase. “Tudo tem o seu dia!”. Ou como mera constatação: “É, mas tudo tem o seu dia...” . As reticências finais indicavam, claro, que não se conseguiria fugir desta determinação derradeira do destino, independente do que se quisesse ou fizesse.

Atenção: o enunciado acima não era empregado como uma metáfora para a infalibilidade da morte. Não. Meu amigo Boca repetia seu bordão como desfecho de qualquer discussão sobre os fatos cotidianos, neste largo espaço que costuma ocorrer entre o nascimento e o fim.

Pela certeza com que proferia sua sentença – quase uma condenação – todos haveríamos de ser repetentes, cornos, demitidos de emprego, erraríamos pênalti em partida decisiva, apanharíamos de um fracote, perderíamos o dinheiro da passagem... Era só esperar: tudo tem seu dia.

Vez em quando algum mal humorado da turma questionava, com a força dos fatos, a lógica do Boca:
- O meu tio se formou engenheiro e nunca rodou, nem no primário, nem no ginásio, nem no científico. E nem na faculdade!
- Mas ele tá fazendo pós-graduação?
- Bom, não. Acho que não...
- Então espera ele fazer, e depois a gente conversa. E tem mais. Vai dizer que ele nunca se deu mal no cursinho de datilografia? E no de inglês?
- Pode ser... não tinha lembrado disso.

O roldão dos fatos da vida de algum modo parecia confirmar a filosofia bocal. Curioso é que, pelo que se depreendia de suas frases lacônicas, este nosso destino tão inexorável não reservava lugar a nenhum evento realmente positivo.
Claro, coisas boas e inesperadas aconteciam vida afora - e nem ele se atrevia a contestar esta verdade evidente. Sua percepção, no entanto, era a de que os fados negativos são mais poderosos que os demais, e que a sorte de um fatalmente acarretará a desgraça de outrem. Não bastava. Mesmo quem receber uma bênção em algum momento de sua trajetória, por certo irá pagar caro por ela nos anos vindouros.

Boca balançava a cabeça, demonstrando genuíno dó de seus inocentes contemporâneos.
Gênios são incompreendidos. E ele tinha consciência de que descobrira uma das leis inexoráveis da existência.

Equilibrar a balança? “Nem vem com essa, a Justiça é cega”, ele recordava, dando o debate por encerrado.

Baile de 15 anos da Gisela. Baile, baile, não era. Digamos, uma reunião dançante um pouco mais caprichada, no salão do clube, para os amigos e colegas dela – nós. Funcionava quase como uma despedida: na virada do ano, que estava próxima, a família se mudaria para o Rio. A festa, apesar dos pais da menina não serem muito adeptos de grandes eventos sociais, serviria não só para festejar o aniversário, mas para que seus anos naquela cidade não passassem em brancas nuvens.

Mas estava escrito que iria chover sobre a tese do Boca – talvez até mesmo a submergisse.

Benemeritamente, nossa anfitriã e aniversariante, bela ao natural – e ainda mais esplêndida no vestido verde que combinava com o olhar do mesmo tom, em sua morenice - fazia questão de dançar ao menos uma música com cada um dos espinhudos membros da turma.

E não é que o Paulinho Pouca Coisa, baixinho e mirrado, como indicava o apelido sapecado em seu lombo pela maldade adolescente, teve mais, bem mais que sua única vez, como democraticamente decretara antes a Gisela?

Renato, junto com os demais Blues Caps, se esganiçava, afinado, na eletrola. O romantismo preenchia todos os espaços do salão, os hormônios borbulhavam e saiam pelas orelhas dos pares. “Feche os óoolhos e sintaaa um beeeeijinho agooora, de alguéeeem que não vive sem vocêeee...”, e Gisela dançava – juntinho! – com o Pouca Coisa.

Suspiramos. Logo seria a vez do próximo garoto – de acordo com o número recebido no início da festa, à porta do salão. Mas, para surpresa geral, o próximo ainda estava distante! Talvez nem houvesse próximo naquela reunião. Não com a Gisela, ao menos.

Pois, ao contrário de seu próprio planejamento, ela já enganchara com o mesmo Paulinho uma outra canção – “O meu primeiro amoooor, que eu tanto quis, enfiiiiimmm, chegou pra mimmm, iiiim...”. Pouca Coisa ali, movendo-se em uníssono, digamos, com a Gi, o braço magrinho todo enrolado na cinturinha da nossa deusa. E ela, víamos!, bailava nas nuvens.

Estava acontecendo: o aspecto positivo, tão menosprezado pelo Boca, da lei natural que ele identificara, se fazia presente. Encostado ao balcão da copa, o pensador mirava o outro lado.

Pela primeira vez nos apercebemos: Paulinho dançava muito. Não era pouca coisa. E Gisela parecia até ter esquecido o Paçoca, ex e até então único namorado dela, que soubéssemos. Paçoca nutria claras esperanças de que os melhores momentos do aniversário e da despedida seriam vividos em seus braços de remador esforçado e zagueiro temido.

Pouca Coisa era apenas o terceiro da lista: haveria pelo menos mais uns dez no aguardo, papelzinho na mão ou no bolso do paletó grande ou pequeno demais. Certo que muitos já dançavam com as demais garotas, amigas e colegas.

Outros, como sempre, escoravam a parede ou se esparramavam nas cadeiras, fazendo render o mais possível um refrigerante ou, os mais ousados, uma cerveja ou cuba libre comprada em parceria. O pé, claro, sempre marcando o ritmo. Estes, vamos reconhecer, dificilmente venceriam o medo e arriscariam exibir sua falta de jeito – especialmente na dança “agarradinha”, apesar do ensaio prévio com alguma irmã, em casa.

Quando soaram os acordes iniciais de “Meu bem não me quer”, Paçoca explodiu. Largou o copo de cerveja na beira na mesa, nervosamente, e ao movimento de levantar-se, o copo de vidro, tipo americano, espatifou-se nas tábuas compridas e enceradas do salão de baile. Vi que o líquido dourado banhou o sapatinho de salto de Gi. Ela, no entanto, certamente não percebeu nada disso.

“Briguei só pra ver se elaaaa, gostava um pouquinho de mim...”, confessava Renato. Nosso zagueirão sopesou a situação e decidiu que já era demais: aquela música estava falando dele! Dele e dela, Gi! A sua Gisela! Há coisa de um mês tinham rompido, depois de uma bobeada feia do rapaz, que andou arrastando a asa para a Martinha, só para fazer ciúmes à Gisela. Martinha contou tudinho à amiga. Nem sabia, o Paçoca, como tinha sido convidado para esta despedida. Agora estava entendendo.

Tinha que reconhecer: ele era péssimo dançarino, enquanto Paulinho Pouca Coisa revelava-se um pé-de-valsa!. E ainda haveria a valsa dos 15 anos! Mas isso não ia ficar assim!

Não iria mesmo: ao avançar resoluto para a pista de dança – um lance mais rebaixada que o restante do piso – deslizara na lâmina da própria cerveja derramada e com uma meia-bicicleta involuntária caíra de costas ao solo. “Pior que o encontrão que eu levei daquele centro-avante no jogo de ontem”, lembrou com a rapidez do raio, enquanto na seqüência do lance atropelava dois ou três casais que agora, na parte calma da música, embalavam-se, rostinhos colados.
O pai de Gi, que nunca mostrara grande apreço pelo namorado da filha, não perdoou a confusão:
“Este rapaz está bêbado! Eu não vou admitir!”.
O síndico do salão, junto com o segurança, ajudou Paçoca a levantar. Espanaram suas costas e... sentiam muito, mas ele teria que se retirar.

A maioria de nós, a arraia miúda da esquina, não lamentou muito, não de verdade. Claro que Paçoca tinha seus seguidores, mas não observei nenhum deles largando suas parceiras na pista para acompanhar o líder. Os demais, eu incluído, apenas olhamos a saída de cena de um cara que apreciava usar sua própria e bruta força para decidir em seu favor, dentro ou fora de campo.

Ele saiu com dignidade, tentando manter a cabeça ereta, escoltado pelo segurança, enquanto observávamos a cena sem expressar qualquer juízo de valor.

No outro extremo do salão, agora lotado, Gisele e Paulinho Pouca Coisa, esquecidos de tudo, dançavam “A primeira láaagrima, a primeira láaagrima...”

Pensei numa palavra que lera em algum romance obrigatório na aula de português: “Enlevados”. Era assim que estavam, ainda que, como eu, também não soubessem precisamente o que significava a expressão. Mas isso não tinha importância nenhuma.

E o Boca?
Além de pensador, acredito que o Boca possuía também poderes extra-sensoriais. Ao me virar para localizá-lo, levantou o copo de cerveja em minha direção, postado em uma das mais mesas mais afastadas da pista, ao lado da loura Martinha. Estava esperando meu gesto:
- Tudo tem seu dia – juro que ouvi sua voz dizendo isso, mesmo vendo que ele não tinha aberto a boca. E completava, mudo:
- Hoje foi o dia do Paçoca! E quando a Gisela viajar, vai ser a vez do Pouca Coisa.

Aceitei. Não dava para ganhar do Boca nessa questão.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Conto um Conto (3)

Petúnia

José Antônio Silva


- Petúnia? Você disse Petúnia?
- É, este é o meu nome.
- E você quer falar com quem... Petúnia? (seu cérebro buscava na memória algum rastro desse nome, algo vago, relacionado à infância, talvez).
- Com você.
- Comigo? Mas você sabe quem está falando, quem eu sou?
- Ué! Você é o Gonzalez, não?
- Sou, sou o Gonzalez. Mas o que você precisa, exatamente ? (a voz feminina ao celular soava doce, mas não doce a ponto de causar enjôo; havia ali uma nota grave, uma leve rouquidão...)
- Gonzaaales! Gonzalez, você continua aí?
- Sim, sim, sim! Desculpe, é... Como eu posso te ajudar?
- Pois é...
- Eu vendo casas, apartamentos, terrenos. Corretor imobiliário, sabe como é.
- Sei... Gonzalez (a voz agora um tantinho mais baixa, íntima)... a gente não pode ter essa conversa ao vivo? (um minúsculo silêncio). Só eu e você?...
- Claro! Claro, senhorita...
- Me chame de Petúnia.
- Pois não! Claro, Petúnia. Quando ficaria bom para você?
- Quando e onde? Quem sabe amanhã, às 18 horas, no Café Marron. Conhece?
- Sei, sei onde fica. No Centro. Amanhã às 18... Ok, combinado, então.
- Tiau, Gonzalez. Nos vemos lá, hein....
- Eu...

Ela já havia desligado.

Petúnia... Um nome de flor. Mas que tipo de flor? Comum não era, como rosa, margarida, girassol, cravo, lírio – também, isso era o máximo de flores e nomes de flores de que conseguia lembrar e, mais ou menos, identificar.

Como seria uma petúnia? Aliás, não era o nome de alguma antiga personagem infantil de quadrinhos, da TV?

“Como será a Petúnia – a minha Petúnia?...” – flagrou-se pensando, ao longo do dia, em meio ao trabalho.

Grandes flores roxas - era isso, em síntese, o que indicava o dicionário. Roxa? Roxa, a cor, a ele lembrava velório: seria uma flor de defunto?

E o defunto seria ele! – acordou de madrugada com aquele pensamento batendo no cérebro, como patas de cavalo nos paralelepípedos. Uma carruagem negra carregava um caixão. E ele, Gonzalez, mandava que o cocheiro parasse a marcha.
Sabia que se dirigiam ao cemitério – mas, ao mesmo tempo, era ele o passageiro que jazia deitado na traseira do veículo fúnebre.
O cocheiro se voltava, à sua ordem: tinha uma capa escura com o forro roxo, assim como sua cartola. E era uma cocheira! Petúnia!
Uma mulher morena, com pintura carregada e um sorriso fatal...
Ficou sem voz.

Acordou assustado. Meu Deus! Que suadouro!
A mulher – sua mulher há oito anos, a Belzinha – ressonava ao lado, tranqüila.

Coitada da Belzinha! O coração de Gonzalez tomou-se de amor, remorso, culpa – um jorro de sentimentos confusos, amontoados uns sobre os outros, com o que sua mão moveu-se automaticamente e acariciou os cabelos dourados e encaracolados de Belzinha.
Virou o rosto no travesseiro e já não pode retornar ao sono: havia uma carruagem negra, uma cocheira do inferno e uma cova reservada a ele – à ele, Gonzalez! Nem 40 anos tinha! Enfim, reservada, esperando por ele, no fundo do inconsciente.

Foi um dia difícil. Estava aéreo – até os colegas notaram. “Você viu o passarinho verde?” – perguntou a gordinha da contabilidade, que sempre puxava assunto com ele.
Ao que tudo indicava, vira uma ave roxa.

Lavou o rosto e estapeou-se no banheiro: “Mas que barbaridade! Você nem viu a cara dessa mulher e está tomado desse jeito? O que é isso! Você é um homem adulto, experiente, pode lidar com esse tipo de situação... E nem sabe direito o que quer esta tal de Petúnia. Se é que esse é o nome dela, mesmo! Pode ser só um assunto profissional. Aliás, só pode ser, pois não lembro de conhecer ninguém com este nome!”.

Confortado pela racionalização da situação, voltou às atividades rotineiras com menos ansiedade.

Porém, à medida que a tarde deslizava para o fim, crescia nele o nervosismo, a expectativa, a angústia – fosse lá o nome que tinha aquela sensação que aos poucos o ia dominando.

Nem sempre é roxa (ou “púrpura” como informava o Google), a petúnia. Também podia se apresentar nas cores vermelha, azul, rosa, laranja, salmão e branca. Muitas vezes a petúnia colorida – originária da América do Sul, e cujo nome significa precisamente “flor vermelha”, na língua tupi – era debruada em branco ou mesmo raiada, das pontas ao pistilo, por riscos brancos.
Primeiro, por qualquer motivo infantil, Gonzalez gostou de saber que a petúnia talvez não fosse roxa. Logo caiu em si: “Mas o que está acontecendo comigo? Parece que estou drogado!”
Parecia mesmo.

Deu um jeito de sair do escritório uns 15 minutos antes e ficou à espera na porta da farmácia - do outro lado da rua, mas defronte ao logotipo em que brilhava, em néon, o nome do Café. Café Marron. Não, não há petúnia marron, já sabia. Teria perfume, a petúnia?
Cinco para as seis, quatro, três, dois, um, seis em ponto! Ela ainda não havia chegado.
“Que bobagem, as mulheres sempre gostam de se atrasar. Faz parte do seu jogo. Até nos casamentos é assim, lembra-se?” – conversava animadamente consigo mesmo, quase podia ouvir a sonoridade de sua voz.

Procurou um cigarro no bolso – lembrou-se que já não fumava há cinco anos.

Dez minutos se passaram.
Resoluto, atravessou a rua e entrou no Café. Com exceção de duas sexagenárias que conversavam, animadas, em frente a um bule de chá e tortas estraçalhadas nos pratos, o local não tinha qualquer cliente.
Petúnia estava um pouco atrasada, mas nada de mais. Olhou para a rua, através da ampla vitrine.
- Sim?...
Virou-se rapidamente, um sorriso no rosto afogueado. Mas não era a esperada, e sim a jovem atendente, com um sotaque da colônia. Uma moça loira, as mãos vermelhas e sardas sobre o nariz largo.
- O que o senhor vai querer?
Tomou um café expresso. Tomou uma garrafinha de água mineral – sem gás, como Belzinha sempre recomendava. Tomou outro café. Por fim, aceitou um uísque duplo.
Saiu às 19h45, quando o estabelecimento começava a fechar as portas.

Deixou o carro no estacionamento do prédio, e abria a porta do elevador quando soou o celular.
- Gonzalez... Sinto muito, muito mesmo Gonzalez. Mas não pude ir ao teu encontro. Tive um... um pequeno problema...
- Bom... realmente... eu te esperei até fechar o café...
- Até esfriar o café? – respondeu a mulher, em tom de brincadeira.
- Pode-se dizer que sim. Que bom que você está achando graça...
- Desculpe, desculpe mesmo, querido. Digo, meu caro Gonzalez. Você me perdoa? Podemos nos ver amanhã?
Silêncio. Gonzalez respirou fundo. Estava em dúvida. Será que esta mulher o estava fazendo de palhaço? O que ela estava pensando! Mas... melhor relaxar. Quem sabe?
- Humm, acho que sim. Talvez. Pode ser.
- Eu quero muito falar com você, te ver. Marcamos no mesmo lugar, à mesma hora? Não esquece. Não me esquece...

Tudo combinado, o homem entrou no elevador. Estaria completando oito anos de casado dentro de um mês. Em nome do amor, do compromisso, do voto de fidelidade (e talvez também do temor de vir a ser descoberto) nunca traíra a esposa – e olha que um bom punhado de mulheres, algumas lindas, praticamente se oferecera a ele neste meio tempo. Não que fosse um galã. Normal, até meio barrigudo e com umas entradas que só avançavam... Mas sou simpático, atencioso, quase sempre tenho bom humor – são qualidades que muitas mulheres valorizam... Agora, sei lá... Estou mexido com o aparecimento – por enquanto, um aparecimento apenas sonoro - dessa Petúnia.
Lembrou: a Petúnia da infância era uma porquinha simpática, namorada do Gaguinho, da Turma do Pernalonga da TV.
Desconfiava que a Petúnia com quem estava se envolvendo – estava? – não seria uma porquinha inofensiva. Talvez uma loba...

No trabalho, voltou a contar as horas, os minutos. Estava distraído, e ao mesmo tempo meio agitado. Excitado. A gordinha da contabilidade – essa sim, uma porquinha perfeita – olhou para ele no corredor: “Noooossa! O que é que você tem, homem?”

Seguiu em frente pela rua. Mais uma vez chegava perto do Café Marron antes da hora combinada. Postou-se à porta da farmácia próxima. Não queria ser surpreendido. Tentara confirmar ligando para o número de Petúnia – mas o celular dela continuava desligado.
Bobagem, é paranóia minha desconfiar. Quando faltavam cinco minutos para às 18 horas, entrou no café.

Por volta das 16 horas, ele nem imaginava, soara o telefone em sua casa.
A mulher queria falar com Gonzalez.
- Ele não está – disse Belzinha, com uma vassoura na outra mão. – Quem quer falar com ele?
- É Petúnia. Diga a seu patrão que nosso encontro... desta tarde, no Café Marron, está confirmado, para as 18h, sem falta.
- Quê? O que você disse?
Mas a ligação já fora cortada.

Às seis e quinze da tarde, Gonzalez e Isabel – não, ele que não a chamasse nunca mais de “Belzinha”! – irromperam, abruptamente, da porta envidraçada do Marron para a calçada. A mulher gesticulava e se podia escutar alguns fragmentos de frases. E, pelo menos por uma vez, soou pela rua a expressão “traidor”. O homem ao lado de Isabel parecia ter mirrado, diminuído de tamanho, e de vez em quando juntava as duas mãos – como quem vai orar –, tentando fazer com que sua mulher parasse e o escutasse. Tudo em vão. Ela seguia decidida a mudar de vida, pela rua afora, com ele em seus calcanhares, um cão rejeitado.
Ao dobrar a esquina, o trotar de um cavalo puxando uma carroça fez explodir em sua mente a mensagem do sonho – a carruagem fúnebre em que, agora, seguia o seu casamento.
Uma gargalhada fendeu a tarde naquele instante, mas o casal que marchava para uma temporada no inferno sequer escutou.
A gerente da farmácia moveu sua cadeira de rodas, da janela até a mesa de trabalho. Secou as lágrimas que ainda escorriam e ajeitou os óculos de lentes grossas. Aprumou-se e interfonou para uma funcionária do balcão, na parte térrea do prédio.
- Marisa.
- Senhora?
- Veja o cadastro daquele moço alto que deixou um cheque pré-datado, no início desta tarde. Um que estava com a mulher.
- Sei. Ah, está bem aqui. É o seu João Alves Damiani.
- Damiani... Está bem. Me passa o número do telefone dele.
- Certo, é pra já dona Petúnia.



Nov/2008