domingo, 21 de fevereiro de 2010

Poetando

Buraco negro


José Antônio Silva


Um buraco na infância

quintal da minha memória

que eu não lembro

e não esqueço.



Um buraco fundo e negro

que procurei tapar

com terra

pedregulho caco de telha

e mais outra terra por cima.



Um poço bem estreito

que acho não tinha fim

jogava tijolo

brita com cuspe

planta de vaso quebrado

aureola de santo

areia da praia

mais pedra

e sempre faltava um tanto.



Socava a tralha com o pé

puxava terra

no caminhão

joguei um grilo

galho quebrado

minhocas

e dê-lhe pedra e mais pedra

e o bruto não fechava.



No meio dos vultos

da noite

por vezes eu me encontrava

no pátio enluarado

ao lado do cachorrinho

ao pé do buraco

ajoelhado.



Até brinquedo joguei

um pião com pouco uso

o revólver do meu pai

um soco no meu irmão

um bolo da minha mãe

mas o vácuo não cessava.



Meia volta

volta e meia

me vem o buraco à mente

- e lá vou eu pro buraco

de volta ao inclemente.



Nuns dias até parecia

que havia diminuído

agora faltava pouco!

porém

olhando da borda

era tudo aquele pouco.



Ali já lancei folha verde

caderno velho

pedras de rim

cabelo branco

sonhos novos

até que entendi enfim:

aquele maldito só fecha

após enterrar a mim.

Out.2009


7 comentários:

Fraga disse...

Clap, clap, clap! (Pô, Zé, nesse buraco se enfiam todos os teus leitores!)

Anônimo disse...

Beleza de poetagem.
Aventei compor imagem
pro Buraco Negro.
Mas ele já é a figura
oca e plena de si.
Se muito bem sucedida,
o melhor dos resultados
seria
um buraco tautológico
- carente da terceira dimensão.

Bj, Lilita

Ricardo Silvestrin disse...

Ótimo poema!

Steve disse...

Caralho, tão profundo como o buraco negro do cosmo que é formado por antimatéria e a tudo suga...

Lulu disse...

Arrasou!

Juliana Meira disse...

baita poema!

Clea disse...

Contém beleza, mas também dor, como a infância de muitos de nós...Belo poema!