quarta-feira, 27 de maio de 2009

Balaiada Hightech

Mau sinal
“Tão suspeito quanto um deputado de cabelo tingido”

Nem tudo muda!
Quando surgiram, todos os carros eram pretos. Hoje...
Até os anos 60, geladeiras e demais eletrodomésticos eram naturalmente brancos.
Os telefones fixos foram negros, depois brancos – e atualmente utilizam-se de todas as cores da paleta para tentar sobreviver.
Mas as piscinas – ah, as piscinas... – estas prosseguem celestialmente azuis.

Salão de armas
Jogo de Xadrez: a vida é uma guerra – e é preciso derrotar o outro/adversário para continuar vivo. Para tanto, busca-se prever os próximos passos do inimigo e projetar estratégias para anulá-lo. Alguns dos peões serão sacrificados nessas manobras, mas não se faz uma omelete sem quebrar os ovos. Os reis, rainhas e bispos agradecem.

Palavras Cruzadas: a vida é um enigma – e é preciso juntar pontas, refletir sobre indícios, traçar caminhos paralelos e transversais a cada desafio, para neste somatório, neste cruzamento de dados, desvelar cada aspecto da realidade. O adversário a ser derrotado é o nosso velho eu, ou a ignorância.

José Antônio Silva

domingo, 17 de maio de 2009

Conto um Conto

Um bourbon, puro

José Antônio Silva

Você desce dois ou três degraus e entra num boteco enfumaçado – e logo acende seu cigarro, também, para melhor se enturmar: ainda não existe uma lista de ações e expressões politicamente incorretas.


Você percebe que a maioria dos fregueses é negra e você – enquanto branquelo – sente os olhares convergindo em sua direção. Mas a vontade de tomar um drinque é mais forte. E, para falar a verdade, você está louco para ouvir mais do jazz que três sujeitos estão tirando de seus instrumentos, sobre um pequeno palco junto à parede do fundo. Três: um baterista marcando o beat e varrendo os pratos metálicos; um contrabaixista baixando notas graves e cadenciadas em nossos ouvidos; e o saxofonista – estrela do grupo – criando simultaneamente melodias e arranjos, ali e na hora.

Um bourbon duplo, puro, você pede ao garçom. Ele nada diz, e logo lhe entrega o copo e começa a polir o longo balcão de madeira vermelha. Você olha em volta – praticamente mais ninguém está preocupado com a sua presença. Praticamente, porque alguém o está observando. “Observando” é um modo de dizer: discretamente, uma linda mulher o fita de uma mesa próxima. Ao seu lado, um cara de bigode aparado que ri alto e veste smoking. Em torno deles, três guarda-costas de ar obviamente sinistro.

Na gravata do homem das risadas inconvenientes refulge (você tem certeza de que esta é a palavra) um enorme diamante. Na cadeira ao lado, seu casaco de pele – urso? – abafa a estola de mink da beldade.

Claro, você já viu tudo isso no cinema. Mas agora é com você!

E o melhor, por enquanto, é que a morena de olhos prometedores, embalada num vestido vermelho que deixa seus ombros e colo à mostra, está ofertando seu sorriso perfeito para ninguém mais do que você.

A um só tempo, você engole em seco e em molhado, dando uma grande bicada no uísque.

Vir a esse pequeno mas tradicional templo do jazz em Nova York era um de seus mais acalentados sonhos (acalentados à base de swing). O fato é que está dentro dele, seu sonho real.

Música de primeira, a bebida certa no lugar certo, o toque sensual de uma mulher bela e interessada.

Depois dos aplausos ao trio, alguém anuncia uma atração extra. E a musa que lhe sorria e iluminava, atravessa o salão – veleiro elegante no meio de um mar de botes.

Ela canta. E como canta! O trio vai pianinho (embora sem teclados) no acompanhamento. Cantou um clássico de Billie Holyday. Emissão levemente rouca, mais uma intérprete do que propriamente uma grande voz.

Mas para que ela precisaria de uma grande voz, meu Deus? Ela – não existe dúvida! – olha para você enquanto geme alguma coisa como i need you, i need you.

Mais um gole e você, covardemente, não consegue evitar: vira para a mesa do chefão e percebe seu olhar frio – sobre você. Frio e mau. Acompanhado dos outros pares de olhos, frios e maus, dos seguranças.

A mulher terminou a segunda canção, agradeceu os aplausos e encaminha-se para o balcão. Por acaso, encosta ao seu lado e pede o de sempre ao velho Joe, este com sua gravata borboleta e mangas arregaçadas.

Puxa um cigarro de algum lugar macio, olha para você – e que olhar! – e espera.
Passam-se alguns segundos antes que você comece a se apalpar, procurando a caixa de fósforos com o nome do hotel (era um hotel à moda antiga, claro) em que está hospedado. O primeiro fósforo apaga antes que possa acender o cigarro da dama.

Ela espera, sorriso condescendente. Finalmente você lhe dá o fogo. A deusa de vermelho assenta a mãozinha sobre a sua para proteger a chama que busca se firmar. Depois ela assopra para o lado, amolda-se melhor ao balcão, fica de frente para você, olha muito, mas muito fundo em seus olhos. E diz apenas: Hi! (a voz continua suavemente rouca).

Por um breve instante você está podendo. Ou quase. Responde, inteligentemente: Hi! - e com o canto do olho vê que o homem do diamante na gravata derrubou a cadeira e ruma em sua direção. Os capangas têm a mão enfiada sob os paletós – não devem estar todos com coceira na barriga!
Você não sabe se está sonhando ou tendo um pesadelo. Ou melhor, ou pior, será que é tudo verdade? Uma coisa é certa: você devia ter bebido menos.

sábado, 2 de maio de 2009

Primeiro de Maio

Dia de cassetada mundial no lombo de trabalhador

José Antônio Silva


“Polícia para quem precisa/ polícia para quem precisa/ de polícia!”. Os versos dos Titãs congelam para sempre uma percepção romântica da realidade. Na prática cotidiana, todos precisamos de polícia: da bela jovem espancada e prestes a ser assassinada pelo namorado ciumento, ao empresário respeitável que frauda o fisco. Ou do ladrão que rouba em um minuto a moto comprada em sofridas prestações pelo moto boy, à nós que ultrapassamos o sinal vermelho em alta velocidade... Enfim, quem é mesmo que não precisa de polícia?


Talvez alguma sociedade utópica, do passado ou do futuro – tanto uma quanto a outra, sempre idealizadas.

Divagações a partir das imagens da TV, neste Primeiro de Maio, Dia do Trabalho. Entre comemorações e shows musicais promovidos por centrais sindicais, foram recorrentes as cenas da polícia espancando trabalhadores e manifestantes, em diferentes pontos do mundo, da Alemanha à Turquia.

Força dos interesses
Bem, aí cabe a pergunta: quem é precisa de polícia, nessas e em situações semelhantes? A resposta é cristalina: o capital – e o estado que coloca sua força na defesa destes interesses.

Quando se instituiu a data de Primeiro de Maio como Dia do Trabalho (ou, na versão contemporânea, Dia do Trabalhador), pretendeu-se homenagear trabalhadores assassinados na Chicago de 1886, durante uma greve. Dezenas de operários e operárias foram mortos pela polícia. Como o movimento crescesse a partir desta chacina, os líderes grevistas foram presos e julgados: cinco balançaram na forca e outros tantos encararam a prisão perpétua.

Os crimes destes perigosos elementos, nocivos à ordem social? Pois ousaram reivindicar um descanso semanal. Um piso salarial. Um número máximo de horas trabalhadas por dia.

Pode-se dizer, portanto, cara leitora, caro leitor, que devemos este aprazível feriadão a coragem de alguns trabalhadores, que queriam deixar de ser escravos urbanos, já em época avançada da revolução industrial.

Não é só o feriado que devemos a eles, claro. A mobilização e luta destes e outros sindicalistas e militantes sociais permitiu que hoje os trabalhadores, na maior parte do mundo, possam ter férias, abonos, salários mínimos, planos de carreira, e outras conquistas agora estabelecidas em lei e consideradas direitos naturais.

Só muda o uniforme
Então, quando vemos a polícia, em diferentes uniformes e línguas, distribuindo cassetadas e jogando bombas de gás nos trabalhadores, já sabemos: naquele país - é muito provável - estão tentando “flexibilizar” ainda mais os direitos adquiridos com sangue, suor lágrimas nos últimos séculos.

O neoliberalismo e a ciranda financeira alimentada pela busca da lucratividade infinita levaram o mundo ao caos atual, mas seus agentes não morreram e muito poucos foram presos – no máximo os governos os colocaram de castigo, por terem feito tal travessura. Meninos arteiros!

“Trabalhadores da segurança”
Ah, sim a polícia. Os “trabalhadores da segurança” (como quer o jargão sindicalês), de modo geral recebem baixos salários, operam com equipamentos defasados ou inadequados, têm formação deficiente e atividade de alto risco. Sofrem grandes limitações de organização e representação trabalhista. Muitos se corrompem e/ou abusam de sua autoridade.

E pela própria natureza de seu trabalho, historicamente formam no outro lado das barricadas – sempre ao lado dos reis, nobres, alto clero, barões da indústria, latifundiários, megaempresários, grandes investidores e banqueiros. Nos regimes e períodos de exceção, dobram seu poder.

No entanto, há polícias e policiais que também investigam, enfrentam resistências poderosas e podem prender macro escroques como Daniel Dantas e outros, ainda que estes eventualmente sejam defendidos por altas figuras da República - no Executivo, Legislativo, Judiciário...

A pergunta, enfim, não parece ser quem precisa de polícia.

E sim: de qual polícia nós precisamos?