quinta-feira, 19 de maio de 2016

Golpe escancarado: Editorial de O Globo prega caça aos petistas no serviço público federal



A palavra fascismo tem sido utilizada, à esquerda, muitas vezes de modo exagerado – devemos reconhecer. Quase sempre são manifestações conservadoras, mas que não alcançam o radicalismo da extrema-direita. No entanto, o Editorial do jornal O Globo (sempre eles...), desta quinta-feira, 19 de maio de 2016, rompe barreiras e confirma a vocação extremamente golpista que a empresa da Famiglia Marinho vem desempenhando ao longo das décadas. O texto “Aparelhamento e desvios no poder público” já avisa ao que vem no subtítulo: “Governo Temer deve mesmo reverter a infiltração de militantes na máquina pública, não só devido a custos, mas também como medida de segurança”.

O editorial prega com todas as letras uma caça às bruxas petistas na máquina pública. O que remete diretamente à memória trágica da Ditadura Militar e de todos os processos golpistas ao longo da história.

Mais ainda: o texto “alerta” aos administradores interinos do país que até os servidores públicos concursados, que sejam identificados – pelos golpistas - como esquerdistas ou “lupetistas”, devem perder seus empregos. A palavra certa para isso, que o jornal não utiliza, é cassação – como a que praticaram os golpistas de 1964.
 
O/a Globo, como sempre, dá a linha e orienta os golpistas ao longo do tempo.
O editorial de hoje avança na caça às bruxas que, entre erros e acertos, tiraram 40 milhões de brasileiros da miséria desde 2003.

 É demais para O Globo e para toda a direita que isso possa continuar.

Além de questionar a presidenta eleita Dilma Rousseff por usar a palavra golpe – utilizada por toda a imprensa mundial – o que o STF está esperando para defender a Constituição e evitar um imenso retrocesso da democracia no Brasil?
Confira a íntegra do texto golpista aqui:


http://oglobo.globo.com/opiniao/aparelhamento-desvios-no-poder-publico-19333051

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mídia repudia indignação seletiva, quando convém


Um exemplo claro da manipulação da informação praticado pela Mídia, cotidianamente, pode ser observado na coluna da jornalista Carolina Bahia, da sucursal da RBS em Brasília. Neste sentido, sua coluna na página 31 de Zero Hora desta sexta-feira, 06/05, chega a ser um primor de hipocrisia. Agora que Eduardo Cunha fez o trabalho sujo de votar o impeachment de Dilma na Câmara, e já foi rapidamente tirado de cena pelo STF, Bahia justifica com argumentos que, embora óbvios desde sempre, na boca de uma porta-voz da Grande Mídia soam risíveis. 

Vejamos este trecho: “Em um país atolado na corrupção, como aceitar que um réu da Lava-Jato tivesse a possibilidade de assumir a cadeira no Planalto? Afinal, o repúdio à corrupção não pode ser seletivo”.
Que belo pensamento, né mesmo? Só que nunca antes na história deste país Zero Hora tinha demonstrado tanta indignação com a presença – muito útil ao golpe – de Cunha na presidência da Câmara. 

E muito menos havia colocado que “o repúdio à corrupção não pode ser seletivo”. Eles só descobriram isto agora, quando Cunha já não serve mais e é até motivo de críticas e espanto, inclusive no exterior, por ser um gângster dirigindo um processo de impeachment. 

Ao contrário, pode-se afirmar que, na essência, todo o processo da Lava-Jato, e o tratamento dado avassaladoramente pela Mídia, sempre foi escancaradamente seletivo.
Só não via, quem não queria ou não entendia.

Faz parte do jogo de uma elite contra um governo que – com todos os problemas e erros, pelos quais deve pagar – ousou tirar da miséria milhões de brasileiros historicamente esquecidos. Um jogo que, além de agradar à direita, faz a cabeça de multidões de alienados e mal informados.

Todos sabemos disso. 

Mas por favor, não queiram tapar o sol com uma peneira arrombada.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Festa da corrupção




Festa da corrupção






Hipócritas, desonestos, achacadores,

entreguistas, cínicos, racistas,

bandidos, fascistas, fraudadores,

canalhas, traidores, vigaristas,

lacerdistas, amorais, exploradores,

homofóbicos, trambiqueiros, machistas,

corruptos, quadrilheiros, corruptores,

alienados, mentirosos, elitistas,

debochados, mercenários, enroladores,

covardes, retrógrados, egoístas,

paus-mandados, puxa-sacos, maus pastores,

ignorantes, palhaços, oportunistas.



No Congresso Nacional

- à exceção da minoria-

faltam adjetivos

para bem definir a lista

da união dos golpistas.  





Ilustração: Bier





terça-feira, 12 de abril de 2016


Globo mantém prestígio nas novelas e esportes, enquanto abandona de vez o jornalismo real

“Ouça um bom conselho/ que eu lhe dou de graça:/ inútil dormir, que a dor não passa“. – Bom Conselho, Chico Buarque de Hollanda. http://migre.me/tuWow

Pois eu, que como muitos milhões de brasileiros, acompanha a trajetória global ao longo do tempo, e hoje assiste o império midiático da Famiglia Marinho engasgando na crescente queda de audiência, também tenho meu bom conselho - minha singela sugestão - a dar aos herdeiros do moribundo jornal O Globo, que há muito sobrevive com a ajuda de aparelhos. Com menor público e credibilidade jornalística ao nível do chão, acredito que a Globo – para sobreviver com alguma respeitabilidade e manter o apoio popular – deveria se fixar em produzir novelas, onde tem competência internacional reconhecida e onde, inclusive, pode se dar ao luxo de ser progressista em áreas como o combate aos preconceitos contra gays e ao racismo. A ideia aparece de passagem na excelente e lúcida entrevista concedida por Carlos Araújo ao repórter Marco Weissheimer, no Sul21 ( http://migre.me/tqE5r )

Poderia, ainda, a Venus Desbotada, se manter focada no futebol e outros esportes, onde “faz lá a sua graça”. Sem que se esqueça, é claro, da proximidade promíscua de alguns apresentadores e locutores com a malcheirosa CBF, com empresários mafiosos do futebol, ex-boleiros-agentes-de-jogadores, marqueteiros esportivos e assemelhados (hoje, em situação de desgraça, preventivamente criticados, embora amigos do peito até ontem).

Mas o Jornal Nacional – seu principal produto jornalístico – sofre lenta e constante perda de confiança e audiência. Grande parte da população já não acredita em suas notícias de enfoque parcial, sempre que o tema é político. Por vários motivos.

O primeiro e mais óbvio é o advento da internet e redes sociais, que na prática fragmentou o monopólio da informação da grande mídia conservadora e que, sempre que acha conveniente, é também golpista.

Mídia Ninja

A maior demonstração disso foi desfechada pelo até então desconhecido coletivo do Mídia Ninja, que, nas manifestações de 2013, desmentiu na rede, para todo o Brasil, imagens sem edição que na prática revelavam o contrário do jornalismo editorializado, cortado, selecionado e empacotado entregue pela Globo. O MN, claro, é só um exemplo de centenas (ou milhares) de ações midiáticas diretas, sites, blogs, mensagens no Face e etc., hoje desenvolvidas por qualquer um que tenha uma câmera ou um celular na mão e alguma ideia honesta na cabeça.

Muitos dos grandes profissionais do jornalismo, historicamente corajosos, inovadores e éticos, como Caco Barcellos, preferiram sair (ou foram saídos) da linha de ação do JN e do jornalismo diário e se dedicam a projetos de base, como a formação que ele ministra aos jovens jornalistas, no seu Profissão Repórter.

Risco aos bons jornalistas

Outro comunicador global que mostra independência é o apresentador Chico Pinheiro, que, à revelia da posição da empresa, manifestou-se publicamente contrário ao impeachment forçado de Dilma, por não ver motivo concreto para esta medida extrema.

É de justiça citar também a demissão do repórter e apresentador Sidney Resende (que estava desde 1997 na Globo), em novembro do ano passado. Ele levou o chute no traseiro após publicar em seu blog algumas observações sobre o jornalismo global: “Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também. O Governo acumula trapalhadas e elas precisam ser noticiadas na dimensão precisa. Da mesma forma que os acertos também devem ser publicados. E não são. Eles são escondidos”.

Resultado de tanta franqueza? Demissão sumária.

Acomodação e cooptação

Afinal, o padrão vigente neste momento na emissora é o da acomodação, da cooptação, da subserviência y otras cositas. É exemplar, neste mau sentido, a trajetória de Pedro Bial, que de repórter audacioso e culto, correspondente de guerra que chegou a ficar parcialmente surdo no conflito bélico da Bósnia, virou um bufão, apresentador animado da mediocridade apelativa de BBBrasil. Outros velhos jornalistas, que passaram com postura digna pelos tempos duros da ditadura civil-militar (que malucos hoje querem reviver), atuam agora com cinismo na agenda golpista e desequilibrada da emissora.

Por estas e outras, cresce a desconfiança sobre o que seria a isenção jornalística “global”. E, para piorar o descrédito da empresa, sua trajetória é repleta de lances de golpismo político localizado e apoio geral ao conservadorismo. Vale recordar rapidamente alguns casos.

 

País dividido

O deslavado apoio ao golpe e aos golpistas contra a democracia em 1964; a escandalosa tentativa de fraudar o resultado da eleição de Brizola ao governo do Rio, em 1982; a manipulação do debate entre Lula e Collor, nas eleições de 1989. Estes e tantos outros casos pagam o preço do descrédito a qualquer cabeça pensante no Brasil. E até mesmo no exterior, como se vê pelo repúdio ao golpismo evidente, entre grandes líderes políticos internacionais e em parte importante da mídia mundial, que denuncia a má vontade escandalosa e a tendenciosidade de sua congênere brasileira.

 

Na mesma medida em que se aferra à busca pela queda – do jeito que for – da presidenta eleita Dilma Roussef, a Globo observa, temerosa, que esta opção preferencial pela manipulação política vem afastando ainda mais telespectadores. Afinal, hoje não há dúvida de que o Brasil está dividido entre quem pretende o impeachment de Dilma e o fim do PT (ainda que de forma golpista), de um lado, e os que, de outra parte, lutam pela manutenção das normas constitucionais e do tratamento isento – pela Mídia, Judiciário e Legislativo - para toda e qualquer autoridade, de qualquer partido ou coloração ideológica, que estiver envolvida em malfeitos.

 

De braços dados com O Globo (versões impressa e digital, em franca decadência), Estadão, Folha de S. Paulo, Veja/Abril, IstoÉ, Época e a maioria da grande mídia, a TV Globo vive um tudo ou nada desesperado. Mesmo os mais alienados e acomodados telespectadores observam que há algo de podre, mal parado e suspeito no reino platinado do Jardim Botânico carioca.

 

A Bíblia tinha razão

 

Enquanto as produções bíblicas nacionais da Record abocanham nacos crescentes do público noveleiro, antes cativo da Globo, a emissora marinha sente também o bafo da Band com suas novelas turcas. Assim como na área esportiva, onde a televisão paulista alcançou liderança de audiência durante as partidas decisivas da Copa dos Campeões da Europa, em fevereiro deste ano. Para não falar do prestígio conquistado pelo Jornal da Band, comandado por Ricardo Boechat – uma alternativa concreta, mais jornalística e menos tendenciosa que sua congênere da Globo, dominada pelo mi-mi-mi ensaboado de William Bonner.

 

RS: o absurdo diário

 

Afirma-se ainda, como opção informativa e diversificada, a cada vez maior TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação. A empresa nasceu, em 2007, da fusão dos patrimônios da antiga Radiobrás e da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto. Hoje, sua programação cobre 90% do território nacional. O seu jornalismo amplo e profissional, junto com programas culturais, era retransmitido pela TVE do Rio Grande do Sul. Mas o governo Sartori – vale noticiar – rompeu o contrato gratuito com a EBC. Atualmente, acredite se quiser, em seu lugar a TVE transmite os noticiários da estadual TV Cultura de São Paulo (administrado há décadas pelo PSDB), sem qualquer interesse objetivo e próximo para o público gaúcho. Absurdo diário: há algum ganho para os riograndenses em saber se a Linha Jabaquara do Metrô de SP vai estar interrompida hoje ou amanhã?

 

Globo paga para (a gente) ver

Mas, fechemos o parêntese. E voltemos ao caso da Globo. Reconheça-se que a empresa tem know-how ainda superior na teledramaturgia. E suas fórmulas de programação esportiva seguem dominantes. Seria aconselhável a ela reforçar estas áreas, de público certo. Porque o seu jornalismo vem merecendo crescente desconfiança dos telespectadores – na mesmíssima medida em que se afasta da isenção e se afunda, de modo levemente histérico, no lamaçal do golpismo e da manipulação informativa. A Globo decidiu pagar para ver. Que pague. Mas nós, por certo, já paramos de assistir a farsa de todas as noites.

sábado, 2 de abril de 2016

Cães raivosos à solta nas ruas

Alguém ainda há de analisar – com racionalidade e sem paixão – o surgimento desta erupção de um direitismo raivoso, obtuso e violento, em palavras e ações, que se espalha pelo Brasil. Pois, como se sabe, não se trata de expressar indignação contra a roubalheira do dinheiro público. Se assim fosse, a indignação não se manifestaria apenas contra um lado, de forma cuidadosamente seletiva.
Não. É muito pior. É como se tivessem soltados das respectivas coleiras (morais e legais) uma matilha de cães raivosos, os atiçassem e mandassem atacar os passantes: Pega! Mata!
De certo modo é isso mesmo.
E quem atiçou, e segue atiçando, o lado carniceiro desta gente agressiva é a mídia, com sua cantilena anti-PT e anti-esquerda dia e noite, sábados e domingos, feriados e dias santos (ao mesmo tempo em que omite, minimiza ou dá caráter discreto para qualquer falcatrua dos setores direitistas).
Mas, ainda assim, chama atenção a volúpia de ódio com que os direitistas se sentem autorizados a atacar quem pensa diferente deles.
Aliás: a qualquer um que eles julguem pensar diferente, mesmo que a vítima esteja de boca fechada e, talvez, nem se ligue na política.
Aliás Parte 2: hoje, muitas vezes não ser branco, ser cabeludo, ser gay, ser índio, é “razão” suficiente para ofensas e espancamentos, dependendo do lugar em que a vítima esteja.
Andar com uma peça de roupa vermelha pela rua passa a ser um ato arriscado, e o desavisado transeunte pode muito bem ser surpreendido com uma ameaça e uma cara de ódio: “Vai pra Cuba! Comunista ladrão!”.
Neste império da irracionalidade – sempre vale lembrar - até mesmo coxinhas e conservadores podem ser vítimas de seus companheiros direitistas radicalizados.
Dá pra dizer – tentando manter o nariz para fora da merda – que hoje há um movimento fascista fomentado irresponsavelmente pela Rede Globo, Veja e outros veículos de imprensa. Mas que se auto-organiza de modo funcional, possivelmente marcando ações pelas redes sociais, e atacando pessoas nas ruas, bares ou em qualquer outro lugar. Agem movidos pela última manchete destorcida da TV ou por uma nova decisão espetaculosa oriunda de Curitiba.
É interessante perceber uma peculiaridade no atual panorama. Por ser um movimento formado principalmente por membros das classes média e alta (ao contrário das esquerdas e dos trabalhadores, que são historicamente organizados em sindicatos, movimentos sociais, associações, etc.), estes direitistas carecem de entidades de classe que os representem socialmente, pois jamais precisaram disso, haja visto que contam ao natural com os favores do establishment.
Porém, neste momento em que querem se manifestar como classe, nas ruas, não têm os canais adequados da política para isso, e facilmente escorregam para o pântano da irracionalidade e da violência. De outro lado, esses “comandos” violentos e à solta têm suas ações criminosas em geral minimizadas pela mídia e ignoradas muitas vezes pelos órgãos de segurança pública.
Também líderes partidários conservadores mas democráticos têm se omitido – por conveniência política ou receio - de condenar a violência irracional nas ruas.
Fato evidente é que estas patrulhas da violência e da intolerância já deixaram de praticar suas covardias apenas nas passeatas midiáticas da Avenida Paulista.
A partir de agora, creio eu, todo o mal originário da explícita violência política que acontecer aos cidadãos e cidadãs brasileiras, de forma gratuita, deve ser parcialmente cobrado, moralmente e até na Justiça, da Toda Poderosa Mídia.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Ponte de Pedra de Porto Alegre: pedindo água




Depois de um ano de destruição do que havia (o lago, seus peixes e tartarugas, a água sob a ponte histórica, a caminhada sobre as pedras seculares), sem que nada tenha sido feito pela Prefeitura – a não ser arrancar os taludes de contenção e criar ainda mais caos– a mesmíssima administração municipal vem a público, agora em janeiro, comunicar que a obra vai finalmente ficar pronta... em novembro de 2016!

Ou seja, serão dois anos de quase total imobilismo, para uma obra fundamentalmente simples, de limpeza e recuperação do laguinho de poucos metros quadrados. 

A Ponte de Pedra do início do século IXX, no Centro de Porto Alegre, que sobreviveu à Guerra dos Farrapos, ao passar dos séculos, a retificação do curso do arroio Dilúvio, a exploração imobiliária e as “modernizações” dos alcaides e prefeitos, agora está, literalmente, pedindo água.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015


Nos jardins do Piratini


Em silêncio, divididos em pequenos grupos, algumas bandeiras aos ombros, servidores com salários estraçalhados ao longo de muito tempo, sobem a Ladeira, em direção ao Palácio Piratini, no alto da Duque.

É madrugada, mas o sol ainda não atravessou as sombras da noite. José desperta de um sono agitado – sonhava com a Queda da Bastilha.

Sonado, trocando as pernas pela penumbra da Ala Residencial, o governador entra na grande cozinha em busca de um copo de água. Seus passos ressoam no silêncio do Palácio.

Julga ver um vulto, mancha fugidia no jardim, através do janelão alto. O copo que, assustado, ele deixou escapar da mão, espatifa-se pelo chão de ladrilhos hidráulicos. Uma gota de sangue escorre do peito de seu pé direito, manchando o chinelo de feltro, que ele trouxe da Serra.

Tenta abrir a porta envidraçada que dá para o belo jardim do Piratini, ao lado de uma escadaria. Com dificuldade, consegue soltar a tranca que atravessa de alto a baixo a porta de madeira e pisa nas pedras irregulares do pátio.

Com o olhar apertado –os óculos ficaram na mesa de cabeceira – José busca entre as sombras do arvoredo e das ninfas gregas, o perfil tranquilizador dos PMs da guarda sartorial.

Nada. Passando pelo poço das tartarugas, em direção ao grande portão que deságua na íngreme Rua General Auto, ao lado do Colégio Estadual Paula Soares (muito cedo para que alunas comecem a chegar), o governador percebe uma rápida movimentação.

Correndo de chinelas, o sangue que escorre do pé deixando uma marca sobre as pedras portuguesas, chega a tempo de ver os derradeiros brigadianos da segurança do palácio descendo rapidamente a ladeira.

Com o coração aos saltos, volta rapidamente ao portão da cozinha, onde sua esposa o espera, de roupão, os olhos muito abertos.
- Ma che... que tu tem, home de Deus? Tá sangrando, teu pé?! – diz Maria Helena.


- Non... non é nada! Vamos entrar, vamos entrar.

José, isolado no Palácio, telefona desesperadamente às autoridades da segurança. Ninguém atende, ninguém responde. As mensagens acumulam-se nas caixas eletrônicas.

Consegue afinal contato com a liderança classista dos brigadianos. “Sinto muito, governador. Como nós havíamos avisado, as tropas estão aquarteladas e só agirão como operação padrão”, responde lacônico o cabo que lidera a categoria, após escutar José.

“Mas isto é uma emergência, cabo!” – desespera-se o governador.

“Só atendemos no sistema operação padrão. Se o senhor não foi atacado, se é somente uma sensação, não podemos fazer nada. O seu caso é fora do padrão, governador. Além do mais, descobrimos que nossas viaturas estão com licenciamento vencido. Não é possível atender. Boa sorte, governador!”.

Uma pequena multidão derrama-se pelas lombas da Espírito Santo e General Auto. Outros, já pulam os portões do Paula Soares e da Cúria Metropolitana, buscando atingir os jardins bem cuidados da sede do governo gaúcho desde o início do século XX.

Pela Duque de Caxias, atravessando a Praça da Matriz – cercados pelos poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e a Igreja - milhares de professores, técnicos, policiais civis e militares, administrativos, cientistas, fiscais, concursados nunca chamados para assumir os postos, cheios de dívidas, desespero, fome e ira, já se concentram em frente ao Piratini, prédio neoclássico inspirado no Petit Trianon, da França – palácio oferecido por Luiz XVI à sua Maria Antonieta, poucos anos antes da Revolução.

Na semiescuridão do Palácio, abraçado à sua própria Maria, José coça o pescoço incontrolavelmente.