sexta-feira, 11 de abril de 2014


 

Porto premeditado
    
José Antônio Silva


Havia um porto premeditado

entre peixes

navios

e águas virtuais;

 

havia um ponto no futuro

ainda antes de haver porto

barcos

ou qualquer água;

 

havia um poço em ebulição

onde tudo se formava

definia

projetava;

 

havia um posto avançado da vida

- como a conhecemos -

no  tecido do infinito.

 

Havia a cintilação do que há hoje

como imagem

que apenas esperava:

um porto singelo

num estuário de lago e rio

onde um pequeno bote

a remo

deixa seu rastro invisível

lento

pela memória das águas.
 
 
 
(Publicado originalmente na "Antologia do Sul - Poetas Contemporâneos do RS", editada pela Assemnbleia Legislativa, em 2001)
 
Ilustração: Gabriel Simch

sábado, 15 de março de 2014

Valeu, Jayme Leão



José Antônio Silva

Discreto, ele mais ouvia do que falava. Sereno, quando falava ponderava tudo e em geral harmonizava a reunião, o debate ou o simples papo no boteco. Tinha o chamado “bom astral”, embora fosse muito crítico do que precisava ser criticado. Brilhante, era o resultado do desenho que apresentava, muitas vezes síntese impecável do tema, vazado em bico de pena, nanquim, traço realista e talento.

Este foi o Jayme Leão que morreu há poucos dias em São Paulo, aos 68 anos, e que conheci quando lá morei, entre os anos 70 e 80. Autodidata, ex-desenhista de quadrinhos, colaborador da imprensa alternativa (foi um dos fundadores do jornal “Movimento”, de resistência à ditadura militar), referência profissional e ética para jovens jornalistas, ilustradores e cartunistas, o nordestino alto depois se dedicou à ilustração e ao capismo de livros infantis, além de trabalhos esparsos para a grande mídia.

Como outros grandes nomes do cartunismo e ilustração, com carreira brilhante e trabalho singular, Jayme já não tinha espaço num mercado editorial coxinha e discriminador.

Jayme Leão, com quem convivi por alguns anos, em redações e mesas de bar paulistanas, continuará uma referência, por sua obra. Fui um dos editores do livro cooperativado “Vício da Palavra” (SP, 1977), que reuniu escritores e artistas paulistas, gaúchos, nordestinos e de muitos outros cantos do país. Acima, a ilustração que o Jayme fez para o conto “Banquete de mendigos”, do Valdir Zwetsch, no livro. Um aperitivo da maestria do traço e da força de sua criatividade.

Valeu, amigo!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poetando - Pedra saltada


Pedra saltada

Poema
mesmo
poema
é aquele que arranca
pedra do chão

E o chão
passa a ser outro chão
que não o chão
da pedra
arrancada do chão

E a pedra
descansa no ar
porque
para aquela pedra
agora
o ar é o seu novo chão

Até que outro poema
arrebente também o ar
como arrebentara o pouso
primeiro
da pedra saltada do chão.

José Antônio Silva – janeiro 2014


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Em linha direta com a Ditadura

José Antônio Silva

Mais uma prova de que os setores historicamente marginalizados da sociedade brasileira, de modo geral, começam de fato a ter vez, a partir das gestões petistas federais, estaduais e municipais – apesar de todas as falhas e imperfeições do processo, que é complexo – é que a direita mais retrógrada se vê obrigada a arrancar da cara o sorriso de vendedor e vir a público cuspir o seu ódio. Num universo em que conservadores ofendem e maldizem em nome de Deus (Feliciano) e da Ordem (Bolsonaro), ajunta-se a voz irada, violenta, racista e homofóbica do deputado Luiz Carlos Heinze.

“Tudo o que não presta”
A pretexto de defender agricultores familiares num conflito fundiário com indígenas, no norte do RGS, ele atacou o papel da Secretaria Geral da Presidência da República, coordenado pelo ministro Gilberto Carvalho. Mas o importante é o formato da afirmação, gravada em vídeo:
“No mesmo governo (...) estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo que não presta, e eles têm a direção e o comando do governo”.

Na mesma oportunidade, Heinze ainda aconselhou/sugeriu aos agricultores uma ação armada contra os indígenas, no conflito fundiário do norte gaúcho, dando como exemplo o uso de jagunços (“segurança privada”) pelos fazendeiros do Pará e Mato Grosso do Sul. Vale lembrar o prestigiado General Custer, da Conquista do Oeste dos EUA: “Índio bom é índio morto”.

Questão de DNA
Heinze é deputado federal pelo PP/RS. Vale pesquisar o DNA da legenda: seu nome de batismo era Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que dava uma fachada de democracia à ditadura militar (1964-1985). Depois, virou PDS, que virou PFL, que virou PPR, que virou PPB – até assumir, em 2003, a designação simpática de Partido Progressista. Tudo, claro, numa constante tentativa de não ser associado ao governo ditatorial que prendeu, censurou, torturou e matou.

Mas, claro, em todos os setores sociais do Brasil há gente saudosa da ditadura ou esperançosa de algo parecido. Provavelmente o deputado vai dobrar o número de votantes na próxima eleição.


Um motivo a mais para que as esquerdas e os verdadeiros progressistas não se destruam em lutas internas. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O esporte da escrita

José Antônio Silva

São regras não oficiais, mas implícitos modos de convivência, oferecimento e fruição entre autores e leitores. As formas curtas – contos, poemas, boutades, crônicas, trocadilhos – precisam necessariamente ter densidade e tensão em toda sua (pequena) duração, para cumprirem bem seu destino e seu papel. Afinal, têm pouco tempo e pouco espaço para justificarem a própria existência.

Já as novelas e romances podem se dar ao luxo de enrolarem o leitor por páginas e capítulos, mais ou menos frouxos, mais ou menos inspirados, desde que o leit motiv, o enredo, os personagens ou o clima construído pelo escritor capturem e hipnotizem sua vítima. Quando a estratagema do autor é bem sucedida, leva o desavisado ou desavisada a prosseguir no estudo do calhamaço, mesmo que coalhado de chavões, apesar de provocar alguns suspiros ou bocejos e um vago desagrado.

Um tipo de escritor é acrobata nas argolas ou no cavalo-de-pau. Tensão máxima, força, equilíbrio perfeito, elegância de movimentos e encerramento sem passo em falso. Um erro apenas pode acabar com toda a peça.

O romancista, em sua raia, é o nadador olímpico de 200 metros, que pode amenizar o ritmo por um segundo, se compensar a quebra nas voltas seguintes. Ou o corredor de longa distância, o maratonista que traça uma estratégia de alternância, entre pique e economia de energia, negaceio, aparente acomodação e conformismo na marcha do escalão intermediário até o surpreendente sprint da reta final.

Literatura é como todo o resto. As metáforas só servem para esconder – ou revelar – isso. E já é muito.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O  presidenciável e o helicóptero do pó

José Antônio Silva


Um presidente razoavelmente jovem, considerado boa pinta, suspeito de envolvimento com tráfico de drogas e outras corrupções – e que termina sofrendo pressões por impeachment, perda de direitos políticos, ameaça de prisão, etc. Quem lembrou do “caçador de marajás” Fernando Collor acertou no perfil. Mas comprovando que a ficção imita ou até antecede a vida, o ótimo seriado chileno “Profugos”, no canal HBO, tem em um de seus pólos dramáticos uma ministra de estado e um jovem presidente (o ator Francisco Melo), que se envolvem até o limite com o crime mais ou menos organizado. Porém, quem pensou em Aécio Neves, presidenciável do PSDB, também acertou no perfil e no que poderia acontecer, no futuro, caso o tucano mineiro chegasse ao poder maior no Brasil.

Afinal (e aqui se trata apenas de uma livre especulação, baseada em vários fatos e antecedentes), Aécio Neves, tido e fotografado como eterno play boy e bon vivant, é amigo do senador Zezé Perrela (PDT), dono do helicóptero do pó, aprendido em sua fazenda, carregado com meia tonelada de cocaína. À falta de mordomo, a culpa foi para o amigo do piloto.

Perrela, cujo gabinete senatorial pagava as despesas de combustível do helicóptero particular de seu filho, o jovem deputado Gustavo (também amigo do presidenciável tucano), tem fortes vínculos com Aecinho. O Ministério Público/MG investiga três repasses – sem licitação - do então governador mineiro para a empresa agropecuária Limeira, de Perrela, em 2009, 2010 e 2011. Fazenda, aliás, também investigada por ter sido omitida na relação de bens de Perrela.

Sabe-se que Aécio tem uma carreira (política) muito inspirada. Com tudo isso, causa até constrangimento a superficialidade e as omissões do noticiário sobre o escândalo do helicóptero do pó, na grande mídia. Cabe perfeitamente imaginar como o tema não seria tratado nas TVs, rádios, na Veja e na/no Globo se o jovem presidenciável envolvido nesta íntima relação com suspeitos de tráfico internacional de cocaína fosse petista...

Se o jornalismo oficial não dá conta, hoje fica para blogs movidos à coragem, competência e indignação (como o  http://www.pragmatismopolitico.com.br/ ),   ou para a ficção, como o citado “Profugos”,  o trabalho de investigar, montar peças e apresentar alguma conclusão desse tipo de bandalheira com o dinheiro público.










sexta-feira, 6 de dezembro de 2013


Na trilha de Mandela, Luther King e Ghandi

 

José Antônio Silva

 

Dizer que Nelson Madiba Mandela foi um grande herói é muito justo, mas é pouco. Eu o comparo a outros poucos homens de coragem, determinação inquebrantável e – o que nem todo o herói possui, por melhores que sejam suas intenções – uma imensa tolerância. Tolerância ao sofrimento que lhe impôs o racismo, os quase 30 anos de prisão, a violência do isolamento, a doença que o abateu nos últimos anos. E tolerância também com os que pensavam e agiam de modo injusto, discriminatório e autoritário.

 

Mas sua tolerância, que ninguém se engane, era equilibrada com a luta e a resistência – para não recuar um só passo em suas convicções, conquistas e ações.  Tinha consciência que se fizesse a luta armada, mergulharia o país numa guerra civil com muitos milhares de mortos, especialmente do lado mais fraco. E sabia que a justiça, em seu sentido maior e essencial, estava com ele, e triunfaria. Mandela superou a divisão do país, baseada no regime do “apartheid”, uniu a África do Sul e tornou-se o seu presidente.

 

Coloco a figura de Mandela junto a de Mohandas Gandhi, o pacifista que aplicou o princípio da não-violência (Satyagraha) e da desobediência civil  e conquistou, simplesmente, a independência da Índia do domínio britânico. Também situo, em patamar semelhante, o líder religioso norte-americano Martin Luther King, que emprestou sua força moral e seu espírito visionário à luta contra a discriminação racial e às más condições em que vivia grande parte da população negra nos EUA. Sua voz – e o seu sonho –foram a inspiração das marchas pelos direitos civis. Assim, como Ghandi, ele morreu assassinado. Mas pode-se dizer que sua luta teve sucesso – e hoje, com seus erros e acertos, há um negro na presidência do país mais poderoso da Terra.

 

Imagine, em outra escala, que não seria um exagero muito grande lembrar a figura do músico John Lennon nesta galeria de militantes sociais da paz. Cada um a seu modo, eles provaram que é possível que mudar a sociedade sem disparar um só tiro – mas dificilmente sem recebê-lo.

 

Mandela, Ghandi e Luther King mostraram ao mundo - branco e injusto -que a força moral, o senso de justiça e a razão superior podem dobrar o poder bruto das armas e da iniqüidade. E essa lição já não pode mais ser esquecida.