domingo, 22 de outubro de 2017

Napolemoro pode tudo




Naquela entrevista ao estilo “tá tudo em casa” que Sergio Moro concedeu a Globo News, respondendo só a perguntas amigáveis que levantavam a bola para ele dar as respostas que todo mundo já conhece,
e na qual o repórter amestrado não questionou – só por exemplo – porque as investigações e denúncias que envolvem o PSDB e seu criatório de tucanos nunca vão adiante na Lava-Jato (com a resposta padrão “não vem ao caso”),
pode-se ver, porém, um detalhe significativo na prateleira de livros atrás do magistrado:
ali, junto a outros bonecos, figurava o minibusto de Napoleão Bonaparte (que, aliás, também era pequeno em carne e osso).
O velho e conquistador Bonaparte é uma das inspirações de Moro.
Muita gente – inclusive boa – também admira o corso.
Napoleão avançou sobre a Europa e, em suas guerras de conquista, provocou a morte de aproximadamente 3,5 milhões de pessoas, segundo historiadores;
proibiu casamentos entre pessoas de “raças diferentes”;
revogou a abolição da escravatura nas colônias francesas em sua época.
E muito mais.
Moro não tem nada com isso. Deve gostar apenas do homem forte que conquistou tudo o que queria.
Seja do jeito que for.


domingo, 1 de outubro de 2017

“O filme da minha vida” mostra fantasia e memória de um Brasil mais inocente e menos golpeado


É quase em clima de fábula, tingida pelo resgate de percepções e lembranças infantis e juvenis nem sempre agradáveis, que se passa “O filme da minha vida”. A chave narrativa escolhida pelo diretor e ator Selton Mello para levar às telas o romance “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skarmeta, pinta um cenário bucólico e pastoril, no começo dos anos 60.
Embora em grandes centros mundiais já ocorressem mudanças políticas, econômicas e se desenhasse o início de uma autêntica revolução de costumes, nas pequenas cidades interioranas o ritmo da época ainda era lento e muito aferrado às tradições.
Neste sentido, o diretor foi feliz em situar em pequenas localidades da Serra gaúcha, com suas construções bem conservadas e o ar campestre, onde o tempo parece passar mais lentamente, a locação de suas filmagens e o desempenho dos atores.
A paisagem ajuda a contar uma história clássica: quando o jovem protagonista Tony (Johnny Massaro) volta para casa, após se formar como professor, fica sabendo que o pai Nicolas (Vincent Cassel) abandonou a mulher e voltou para a França, sua pátria de origem.
De modo suave, mostrando o dia a dia da escola onde Tony passa a dar aulas – tendo como fundo musical as canções populares da época, toca-discos, imagens tremidas da TV, que vivia seus primeiros momentos, e muita transmissão de rádio – o filme insere o espectador em universo ainda ingênuo mas em transformação, que nos levou ao mundo de hoje, para o bem e o mal.
Ao regressar, Tony também volta a ajudar a mãe no trabalho da casa e da roça, sempre com a presença ambígua de Paco (Selton Mello), grande amigo de Nicolas. Ao mesmo tempo, o jovem professor é atraído pela linda Luna (Bruna Linzmeyer).
Com muita habilidade – e fazendo uma homenagem ao cinema, com fidelidade ao romance “Um pai de cinema”, de Skarmeta, e remetendo a filmes clássicos – o filme dá conta do recado, narrando uma inesperada história de traição, angústia e perdão.
Ao mesmo tempo, também é uma crônica de tempos menos duros do que os atuais, em que a própria iniciação sexual de garotos de escola em sua primeira transa, com prostitutas em um cabaré da cidade vizinha, dribla qualquer realidade e prefere enveredar por tons românticos e engraçados, como uma fantasia.
Como quase toda a história clássica, o filme guarda surpresas e revelações no final. E ainda se permite homenagear velhos astros do cinema, da TV e da música caipira e interiorana da época, como Leandro Boldrin, no papel de um maquinista que ajuda a manter a história nos trilhos, com um toque de lirismo.
É verdade que, em certos momentos, o longa beira o piegas e – quase – o melodrama. Mas sempre é salvo deste perigo pelo humor e a ironia presentes no livro de Skarmeta (que faz uma ponta no filme) e mantidos com habilidade equilibrista por Selton Mello.
Com a ajuda do próprio Skarmeta, o diretor conseguiu transpor a realidade do Chile natal do escritor (onde se passa o romance original), para um dos muitos interiores do Brasil, nos anos 60. O roteiro de Marcelo Vindicato (que já havia trabalhado com Mello no longa anterior, “O palhaço”) segura com firmeza e poesia a história até o fim.


Um belo filme brasileiro, em tom leve mas marcante, que confirma a maturidade da cinematografia nacional e nos oferece um necessário respiro, no ambiente pesado e golpeado dos dias atuais do nosso país. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Moisés Mendes reúne e confirma o talento crônico em seu livro de estreia



Já líamos e apreciávamos as crônicas de Moisés Mendes em ZH, nos últimos dois anos. Eram sempre surpreendentes. Primeiro, por mostrar-se um cronista que já surgia maduro e com estilo refinado. Depois -  e ainda mais surpreendente – por escreve r o que escrevia exatamente nas páginas de Zero Hora. 
 
Nos perguntávamos: até quando o principal impresso da RBS vai manter em seus quadros – na posição de destaque que todo o cronista naturalmente recebe – um opinador como Moisés Mendes? 

A resposta não demorou muito a vir. Antes, houve ao menos duas tentativas internas de removê-lo, mas Moisés resistia. E atravessou o deserto e o Mar Vermelho, para só então as águas poluídas do pobre Arroio Dilúvio cobrirem suas pegadas. Mas não apagaram. Havia conteúdo e forma marcantes ali, que sobreviveriam à casa dos Sirotsky.

Isto agora se comprova neste pequeno volume de 156 páginas que marca com sucesso a estreia de Mendes no mundo dos livros e da Diadorim como a mais recente editora do Sul do Brasil.

“Todos querem ser Mujica”, coletânea de 60 textos mosaicos (“corrida aos dicionários”, recomendava Millôr), agrupa algumas de suas melhores criações. 

Dramas shakespearianos em pequenas cidades do interior, causos, memórias fronteiriças, viagens pelo mundo, pela história política, familiar e social. A professorinha inesquecível, o início no jornalismo, personalidades com quem conviveu ou entrevistou. O icônico Muro da Mauá. E muitas observações magistrais, como a de uma jornada em linha reta pela BR-290 até o Alegrete da juventude. Isso tudo, e algo mais, está em “Todos querem ser Mujica”. 

Fato: quem já conhecia o Moisés como repórter curioso e com pegada humanista, além de editor cuidadoso, aqui confirma suas melhores qualidades de profissional do texto. Ele ensina como ser crítico sem apelar à grosseria. E até mesmo a ser feroz preservando a civilidade. 

E segue driblando os chavões que se oferecem pelo caminho, mantendo ao natural a facilidade de comunicação. 

Se expõe bastante na primeira pessoa, mas em sua escrita isto não soa como autoengrandecimento. Também confessa omissões, desinteresses, erros de avaliação. Humano. 

Ah, sim: como Luis Fernando Verissimo destaca numa sintética apresentação, as crônicas de Moisés Mendes não abandonam nunca o lado claro da vida, onde guarda sua poção mágica do humor.

No entanto – é preciso dizer – o livro de estreia de Mendes tem um problema em si mesmo. E é quase indesculpável.  

Ok, vamos relegar desta vez estas míseras 156 páginas, desde que não demore muito para que o autor nos forneça mais deste material (mais ou menos raro atualmente), em que sua crítica social nunca anda longe da ironia, suave mas profunda.   

sábado, 17 de setembro de 2016

Cinema – “Aquarius” e o valor da resistência


O que pode um homem só frente ao poder econômico? E uma mulher, mesmo que goze de algum prestígio profissional, às bordas da velhice, numa sociedade machista? Geralmente bem pouco. Quase nada. Mas resistir – apesar de tudo – pode sim valer a pena. E parece ser isto o que quer nos dizer e reforçar o filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. A protagonista Clara, muito bem interpretada por uma madura Sônia Braga, à vontade no papel, é uma jornalista e escritora reconhecida que vive um cotidiano confortável no mesmo apartamento em que casou, teve filhos, enfrentou a Ditadura Militar, a morte prematura do marido e um câncer de mama. E não se abateu.

Um filme feminista? Também. Mas vai além deste rótulo. Sem querer contar todo o enredo do filme do pernambucano Kleber (diretor também do premiado “O som ao redor”), vale destacar a naturalidade das situações e a verossimilhança do elenco, ao retratar o cotidiano desta mulher. Escritora bem sucedida, vive ainda no velho e confortável apartamento que comprou com o marido, décadas atrás, em frente à badalada praia da Boa Viagem, no Recife.

Um alvo bastante evidente para a exploração e a devastação imobiliária. Em seu lugar, uma grande empreiteira quer erguer um espigão com dezenas de apartamentos de luxo – concorde ou não a moradora e proprietária do imóvel.

O filme, no entanto, foge do panfletarismo em que poderia incorrer, e até mesmo de um enfoque “politicamente correto”  restrito. Nos mostra situações mais reais e cotidianas – como a boa relação da escritora famosa com a sua empregada, que está com ela há décadas, e a quem visita na favela, em festinhas familiares. Uma cena bem brasileira e que muita gente conhece e/ou vivencia.

A luta de classes ronda toda a narrativa, mas não é o astro principal. Talvez seja mais adequado destacar aquilo de que o filme trata, de fato: o que é justo e ético. E o que não é. E até que ponto podemos, como cidadãos e cidadãs, permitir que o “vale tudo” neoliberal avance.

Clara resiste em nome do valor afetivo que empresta ao seu velho apartamento do Edifício Aquarius (um nome com ressonâncias libertárias, contraculturais…), embora o dinheiro que a construtora estava disposta a lhe oferecer em troca fosse muito grande.

Assim que, no filme, uma câmera vaga, lentamente, pela praia de Boa Viagem, percorrendo o espaço – mas também o tempo, e seus desafios. O elenco do filme, como se sabe, denunciou o golpe contra Dilma, durante o último Festival de Cannes.

Em represália, o governo ilegítimo de Michel Temer pressionou para que a obra de Kleber Mendonça Filho não fosse escolhida para representar o Brasil entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Pior para a imagem do governicho de Temer.

À saída do cinema do CineBancários em Porto Alegre, como em muitos outros lugares, a plateia costuma gritar o já tradicional “Fora Temer!”. E podemos acrescentar: “Viva Kleber Mendonça! Viva Sônia Braga! Viva Edifício Aquarius!”.

E viva o Brasil que, mesmo sob golpe, de um jeito ou de outro resiste.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Porto Alegre e RS sob o baixo astral



   
“Deu pra ti, baixo astral/ Vou para Porto Alegre/ Tchau...”. A mensagem otimista e pra cima do clássico de Kleyton e Kledir, dos anos 80, definitivamente já não descreve a capital dos gaúchos e gaúchas. Hoje, sob o governo de José Ivo Sartori, do mesmo PMDB do autor da letra da canção (José Fogaça), não só Porto Alegre mas todo o Rio Grande do Sul está mergulhado no baixo astral do abandono e da criminalidade sem controle, que a música pretendia espantar.

Embora seu discurso seja prometedor, Sartori sempre se mostrou adepto ferrenho do estado mínimo. Deixou de nomear policiais civis e militares aprovados em concurso e atrasa seus salários, assim como o dos professores e do funcionalismo estadual de modo amplo.  Ele não confessa, mas mostra crer piamente no dedo mágico do Mercado, que tudo regularia harmonicamente na sociedade.Só que não. 

O resultado concreto é o aterrorizador aumento do número de latrocínios. Na segunda-feira, 15/08, uma médica de 32 anos foi assassinada a tiros para ter seu carro roubado; no domingo, 14, um porteiro de 57 anos, acompanhado pelo filho de 13, também foi morto para que os ladrões fugissem com a sua moto. 

São dois casos de homicídios com intenção de roubar, em menos de 24 horas, na Capital de todos os gaúchos e gaúchas. E assim acontece também com os demais indicadores da criminalidade.

Recorde de ataques a bancos
Para a categoria bancária, chega a soar como um deboche as negativas do governador do estado, quando o mês de agosto vem batendo todos os recordes de ataques a agências, postos e caixas eletrônicos. Os episódios de ocupação de agências por criminosos, que fazem clientes e funcionários como reféns, tornaram-se comuns, mesmo que pouco divulgados. 

A insegurança pública, no entanto – mostram dados e estudos internacionais – não ocorre somente no campo puramente policial, quando então ganha as manchetes. Contribuem para este quadro o cenário de abandono em que estão as ruas, como no esburacado Centro Histórico de Porto Alegre; o acúmulo de lixo; o trânsito caótico; as populações de moradores das calçadas, viadutos e parques, que crescem sem abrigo adequado nem apoio público. Drogados que rondam como zumbis pelas calçadas – e, inacreditavelmente, parecem invisíveis aos serviços sociais da Prefeitura da Capital e do Governo do Estado. 

O caos perfeito
Neste quadro político-econômico, que aposta na retirada de uma presidenta que não tem nenhum crime nas costas – mas é condenada, entre risinhos cínicos, por um Congresso composto por uma maioria de denunciados e corruptos – o caos parece se encaixar a perfeição. 

As Olimpíadas, assim como já tinha ocorrido com a Copa do Mundo em 2014, estão se realizando com pleno sucesso, apesar de todas as apostas em contrário, por mérito do governo de Dilma, que tudo havia programado e financiado.  

Dois Brasis
São dois Brasis. O do super-esforço concentrado que agora brilha para o mundo no Rio, sob os braços abertos do Cristo Redentor, com boa organização e alguns desempenhos marcantes dos atletas brasileiros.

E o do dia a dia do governo Temer, que como um mordomo da Casa Grande – devidamente vaiado na abertura dos Jogos Olímpicos – adianta um terrível pacote de “ajustes” sócio-econômicos que retiram direitos consagrados dos trabalhadores. Sem que a maioria da população entenda bem o que está sendo tramado. 

(Coluna Marcando em Cima, que publico semanalmente no site do SindBancários de Porto Alegre e Região)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O incomparável Jornalismo Comparado




Só para não dizerem que há má vontade ou exagero quando eu e outras pessoas criticamos Zero Hora/RBS por sua absoluta falta de isenção - e de jornalismo mesmo! - quando se trata de atacar as esquerdas/movimentos sociais/PT e quando se trata de defender a direita/grande empresariado/Temer e o Golpe que está acontecendo no país...
... nada melhor que a simples e reveladora prática do Jornalismo Comparado.

Confere aí a capa do jornal Correio do Povo (CP) do dia 09/08 (segunda-feira) e a capa de Zero Hora (ZH), do mesmíssimo dia:
Manchete do CP: “LAVA JATO - Temer é denunciado pela Odebrecht “
(Abaixo da manchete): “Ex-dirigente diz que atendeu pedido do presidente interino em 2014 e entregou R$ 10 milhões em dinheiro vivo ao PMDB – Página 4”.

Manchete de ZH: “LENTA E GRADUAL – Recuperação da indústria traz otimismo e cautela”.
(Abaixo da manchete): “Produção industrial subiu pelo quarto mês consecutivo e índice de confiança dos empresários se elevou, gerando retomada de investimentos, mas ainda em ritmo que não permite dar como consolidada a reação – Notícias/ 6 e 7”.
Ou seja, Zero Hora não informa nada – sequer uma citação – sobre a gravíssima denúncia da Lava-Jato, que acusa diretamente o presidente golpista Temer de estar envolvido na corrupção, dentro do escândalo Odebrecht-Petrobrás. Ao contrário, faz propaganda deslavada do governo interino e ignora os malfeitos do mesmo Temer.
Detalhe: a denúncia foi divulgada pela insuspeita, neste caso, Revista Veja.
Quer dizer, no tocante ao golpismo em marcha no país e a blindagem do mordomo da Casa Grande Michel Temer, Zero Hora está absolutamente engajada, sem vergonha de omitir informações importantíssimas.

Aliás, ZH também deixou de noticiar ao seu público, descaradamente, a informação divulgada na capa da Folha de S. Paulo – e do resto da mídia, depois – no domingo, 07, sobre a denúncia da própria Odebrecht, também na Lava-Jato. A empresa deu R$ 23 milhões, por baixo do pano, para a campanha de José Serra à Presidência, em 2010.
Então, amigos e amigas, é aí que eu me refiro. Como repete a sabedoria popular, pau que bate em Chico, tem que bater em Francisco também. Uma regra básica da justiça e de todo e qualquer jornalismo que se quer isento e confiável.

Só que – definitivamente – não.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ter ou não ter




   

Quem tudo tem,
morre - lânguido -
de tédio.


Quem nada tem,  
luta - vital: 
qualquer pedaço é remédio


José Antônio Silva