segunda-feira, 20 de junho de 2016

Uma névoa se apresenta




Uma névoa

se apresenta


Tento olhar o que está à frente.

Uma névoa se apresenta.

Acendo um farol.

Seu facho apenas ilumina a condensação.

Um jogo de volumes.

Brancos e cinzas.

Isto não pode ser tudo.



Dou um passo adiante.

O chão é irregular.

Exige atenção

(que retiro, em parte, da neblina).



Estico o braço.

A mão roça a umidade vazia.

Aperto os olhos:

irritação.

Neblina poluída.



Jogo uma pedra

ao espaço sem contorno.

Nem ruído.



Mas algo há.

Um ai.

Um oh.

Um argh.

Piso em frente.



Escorrego.

E já não paro

de cair.

Ao fundo.

Ao fundo.

Ao fundo.



Tateio o chão de pedregulhos.

O corpo mortificado.

Levanto o olhar ao céu

contaminado.



Gargalhada distante

me saúda.



Começo a escalada.



Por: José Antônio Silva




segunda-feira, 6 de junho de 2016

Política a parte...


Rua da Praia da Música

Não é nenhum exagero dizer que um trecho de cento e poucos metros da Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre, entre a Avenida Borges de Medeiros e a Rua da Ladeira, podia ser chamado de Rua da Música. Que a Rua da Praia não tem praia, mas tem música.

Se não vejamos: num dia semana, sem chuva forte e em condições razoáveis de temperatura e pressão, por ali você caminha entre gêneros, ritmos, estilos, instrumentos, arranjos e vozes variadas – sem entrar necessariamente no mérito da qualidade.

Pode-se começar o passeio musical pela esquina com a Borges, com a apresentação de índios bolivianos fantasiados de peles-vermelhas norte-americanos, com roupas franjadas, mocassins e grandes cocares, interpretando El Condor Passa em flautas e tambores, amplificados por equipamento pesado.

Alguns metros adiante, um jovem bardo desfila sucessos do cancioneiro sertanejo-universitário a bordo de seu violão, repetindo falsetes e segundas vozes. Passe rápido.

Logo logo – ali em frente às Americanas – você pode escutar uma banda de reggae (bateria, guitarra, baixo e escaleta com bocal), com interpretações de clássicos do gênero e criações próprias, com direito a dreads e (quase) tudo mais.

Seguindo em frente no palco esticado da rua, direção à Ladeira, pare para ver e ouvir a competência de um quarteto (violões – um de 12 cordas, baixo e banjo) tacando-lhe pau em country music, blue grass e assemelhados.

Que tal um senhor paraguaio, a bordo de uma imensa harpa branca, escoltando seus CDs à venda, enquanto arpeja Recuerdos (El lago azul) de Ipacarai?

Siga adiante: na frente do Centro Cultural Erico Verissimo, sentado sob a vitrine, um solitário guitarrista de metal pesado arrebenta em riffs rapidíssimos, distorcidos e elevadíssimos. Viaje no som ou fuja imediatamente.

Porém, com certeza desvie de dois senhores colocados na frente da Farmácia do Edifício Santa Cruz. Um ameaça com uma gaitinha de boca, outro com um pandeiro. Mas – com todo o respeito - libere um cachê à dupla, para evitar que eles comecem. Nenhum dos dois toca nada solo, quanto mais em dupla.
 
Ao pé da Ladeira, um gaudério pilchado – botas, bombacha, violão, chapéu e bigode – tasca seu vozeirão no clássico Canto Alegretense. Não me perguntes onde fica.

E olha que eu nem citei o tradicional Zé da Folha, que manda clássicos do samba canção e do mundo romântico num velho violão e fazendo a melodia na boca, utilizando uma folha de árvore – e garantindo o ritmo num pandeiro amarrado ao pé.
 
Também não falei do violinista clássico que tasca vibratos e outras manhas em trechos de peças mais conhecidas – tipo Rapsódia Húngara ou o Bolero de Ravel - em levada frenética. No início, usava até gravata borboleta; agora relaxou, identificando-se com o seu público, e mantendo um olho no arco e o outro no chapéu que vai enchendo-se de moedas e notas de baixo valor.

E fecha-se o pano. Mas a rua, a música e a luta continuam.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Sartori quer repetir massacre dos lanceiros negros, 200 anos depois de Porongos

Lanceiros Negros foram os escravos que se alistaram na Revolução Farroupilha contra o Império, na primeira metade do século 19. Formaram batalhões de guerreiros a cavalo armados de longas lanças, que enfrentaram as tropas de Dom Pedro II. Em troca, os estancieiros e a elite gaúcha de então lhes prometeram a liberdade e a alforria, após o fim da guerra.


Mas tudo que receberam foram traição e morte, no episódio mais vergonhoso da Revolução, em 1844, quase ao final da insurreição. Episódio que ficou conhecido como Massacre de Porongos, quando os lanceiros foram desarmados e assassinados por um batalhão imperial, em provável acerto com alguns líderes farrapos. Libertar os escravos, ao fim da guerra, traria muitos problemas a economia riograndense da época – como acontecia em todo o Brasil.

Afinal....
No início da manhã gelada deste dia 24 de maio, o prédio histórico situado na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no Centro de Porto Alegre, pertencente mas abandonado pelo governo estadual há oito anos - que agora serve de moradia para cerca de 70 famílias de trabalhadores informais, artesãos, indígenas, crianças e idosos expulsos da periferia e de áreas de risco por inundações, pela miséria e a guerra do tráfico - foi cercado pela Brigada Militar. Queriam cumprir ordem de despejo emitida pela briosa Justiça do RS.

A ideia básica da administração de José Ivo Sartori era brilhante, digamos assim: tirar as famílias – com cerca de 40 crianças - do velho prédio ( que os próprios moradores vem fazendo a manutenção e melhorias) e... simplesmente jogá-las na rua!

 Numa época de frio intenso no Rio Grande do Sul, que chega perto de zero graus na madrugada.
O fato de não negociar para que as famílias possam continuar no prédio; de não oferecer serviços básicos para esta população (que é auxiliada apenas por ONGs, sindicatos, movimentos sociais, estudantes, militantes políticos); de não colocar alternativa real de moradia e/ou alojamento em condições para estas famílias, mostra um profundo desprezo do governo e das elites pela população mais carente.

Quem são os moradores da Ocupação Lanceiros Negros? Mulheres que sustentam sozinhas os filhos, famílias negras, indígenas, trabalhadores desempregados ou no trabalho informal, operários, migrantes e outros membros autêntico da população gaúcha, são considerados escória e, para um governo articulado com o grande capital, podem muito bem ser jogados literalmente na sarjeta.
Se não for isto, é incompreensível que a administração estadual do Sartorão “da massa” (como se apresentava na campanha eleitoral) não mostre disposição para regularizar a situação e permitir que estes moradores – agora, no Centro da cidade, mais próximos de serviços básicos como escola para crianças, postos de saúde e hospitais, oportunidades de trabalho – permaneçam no prédio. Prédio que estava literalmente abandonado.

Que fiquem no prédio – agora conhecido como Ocupação Lanceiros Negros – do mesmo modo que outros grupos de pessoas carentes fizeram há muitos anos em mais ocupações no Centro da Capital gaúcha, hoje regularizadas, em prédios em situação semelhante na Av. Borges de Medeiros (como a Ocupação Utopia e Luta).

A não ser que o governo de José Ivo Sartori queira entrar para a história como o novo traidor dos Lanceiros Negros, quase 200 anos depois.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Golpe escancarado: Editorial de O Globo prega caça aos petistas no serviço público federal



A palavra fascismo tem sido utilizada, à esquerda, muitas vezes de modo exagerado – devemos reconhecer. Quase sempre são manifestações conservadoras, mas que não alcançam o radicalismo da extrema-direita. No entanto, o Editorial do jornal O Globo (sempre eles...), desta quinta-feira, 19 de maio de 2016, rompe barreiras e confirma a vocação extremamente golpista que a empresa da Famiglia Marinho vem desempenhando ao longo das décadas. O texto “Aparelhamento e desvios no poder público” já avisa ao que vem no subtítulo: “Governo Temer deve mesmo reverter a infiltração de militantes na máquina pública, não só devido a custos, mas também como medida de segurança”.

O editorial prega com todas as letras uma caça às bruxas petistas na máquina pública. O que remete diretamente à memória trágica da Ditadura Militar e de todos os processos golpistas ao longo da história.

Mais ainda: o texto “alerta” aos administradores interinos do país que até os servidores públicos concursados, que sejam identificados – pelos golpistas - como esquerdistas ou “lupetistas”, devem perder seus empregos. A palavra certa para isso, que o jornal não utiliza, é cassação – como a que praticaram os golpistas de 1964.
 
O/a Globo, como sempre, dá a linha e orienta os golpistas ao longo do tempo.
O editorial de hoje avança na caça às bruxas que, entre erros e acertos, tiraram 40 milhões de brasileiros da miséria desde 2003.

 É demais para O Globo e para toda a direita que isso possa continuar.

Além de questionar a presidenta eleita Dilma Rousseff por usar a palavra golpe – utilizada por toda a imprensa mundial – o que o STF está esperando para defender a Constituição e evitar um imenso retrocesso da democracia no Brasil?
Confira a íntegra do texto golpista aqui:


http://oglobo.globo.com/opiniao/aparelhamento-desvios-no-poder-publico-19333051

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mídia repudia indignação seletiva, quando convém


Um exemplo claro da manipulação da informação praticado pela Mídia, cotidianamente, pode ser observado na coluna da jornalista Carolina Bahia, da sucursal da RBS em Brasília. Neste sentido, sua coluna na página 31 de Zero Hora desta sexta-feira, 06/05, chega a ser um primor de hipocrisia. Agora que Eduardo Cunha fez o trabalho sujo de votar o impeachment de Dilma na Câmara, e já foi rapidamente tirado de cena pelo STF, Bahia justifica com argumentos que, embora óbvios desde sempre, na boca de uma porta-voz da Grande Mídia soam risíveis. 

Vejamos este trecho: “Em um país atolado na corrupção, como aceitar que um réu da Lava-Jato tivesse a possibilidade de assumir a cadeira no Planalto? Afinal, o repúdio à corrupção não pode ser seletivo”.
Que belo pensamento, né mesmo? Só que nunca antes na história deste país Zero Hora tinha demonstrado tanta indignação com a presença – muito útil ao golpe – de Cunha na presidência da Câmara. 

E muito menos havia colocado que “o repúdio à corrupção não pode ser seletivo”. Eles só descobriram isto agora, quando Cunha já não serve mais e é até motivo de críticas e espanto, inclusive no exterior, por ser um gângster dirigindo um processo de impeachment. 

Ao contrário, pode-se afirmar que, na essência, todo o processo da Lava-Jato, e o tratamento dado avassaladoramente pela Mídia, sempre foi escancaradamente seletivo.
Só não via, quem não queria ou não entendia.

Faz parte do jogo de uma elite contra um governo que – com todos os problemas e erros, pelos quais deve pagar – ousou tirar da miséria milhões de brasileiros historicamente esquecidos. Um jogo que, além de agradar à direita, faz a cabeça de multidões de alienados e mal informados.

Todos sabemos disso. 

Mas por favor, não queiram tapar o sol com uma peneira arrombada.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Festa da corrupção




Festa da corrupção






Hipócritas, desonestos, achacadores,

entreguistas, cínicos, racistas,

bandidos, fascistas, fraudadores,

canalhas, traidores, vigaristas,

lacerdistas, amorais, exploradores,

homofóbicos, trambiqueiros, machistas,

corruptos, quadrilheiros, corruptores,

alienados, mentirosos, elitistas,

debochados, mercenários, enroladores,

covardes, retrógrados, egoístas,

paus-mandados, puxa-sacos, maus pastores,

ignorantes, palhaços, oportunistas.



No Congresso Nacional

- à exceção da minoria-

faltam adjetivos

para bem definir a lista

da união dos golpistas.  





Ilustração: Bier





terça-feira, 12 de abril de 2016


Globo mantém prestígio nas novelas e esportes, enquanto abandona de vez o jornalismo real

“Ouça um bom conselho/ que eu lhe dou de graça:/ inútil dormir, que a dor não passa“. – Bom Conselho, Chico Buarque de Hollanda. http://migre.me/tuWow

Pois eu, que como muitos milhões de brasileiros, acompanha a trajetória global ao longo do tempo, e hoje assiste o império midiático da Famiglia Marinho engasgando na crescente queda de audiência, também tenho meu bom conselho - minha singela sugestão - a dar aos herdeiros do moribundo jornal O Globo, que há muito sobrevive com a ajuda de aparelhos. Com menor público e credibilidade jornalística ao nível do chão, acredito que a Globo – para sobreviver com alguma respeitabilidade e manter o apoio popular – deveria se fixar em produzir novelas, onde tem competência internacional reconhecida e onde, inclusive, pode se dar ao luxo de ser progressista em áreas como o combate aos preconceitos contra gays e ao racismo. A ideia aparece de passagem na excelente e lúcida entrevista concedida por Carlos Araújo ao repórter Marco Weissheimer, no Sul21 ( http://migre.me/tqE5r )

Poderia, ainda, a Venus Desbotada, se manter focada no futebol e outros esportes, onde “faz lá a sua graça”. Sem que se esqueça, é claro, da proximidade promíscua de alguns apresentadores e locutores com a malcheirosa CBF, com empresários mafiosos do futebol, ex-boleiros-agentes-de-jogadores, marqueteiros esportivos e assemelhados (hoje, em situação de desgraça, preventivamente criticados, embora amigos do peito até ontem).

Mas o Jornal Nacional – seu principal produto jornalístico – sofre lenta e constante perda de confiança e audiência. Grande parte da população já não acredita em suas notícias de enfoque parcial, sempre que o tema é político. Por vários motivos.

O primeiro e mais óbvio é o advento da internet e redes sociais, que na prática fragmentou o monopólio da informação da grande mídia conservadora e que, sempre que acha conveniente, é também golpista.

Mídia Ninja

A maior demonstração disso foi desfechada pelo até então desconhecido coletivo do Mídia Ninja, que, nas manifestações de 2013, desmentiu na rede, para todo o Brasil, imagens sem edição que na prática revelavam o contrário do jornalismo editorializado, cortado, selecionado e empacotado entregue pela Globo. O MN, claro, é só um exemplo de centenas (ou milhares) de ações midiáticas diretas, sites, blogs, mensagens no Face e etc., hoje desenvolvidas por qualquer um que tenha uma câmera ou um celular na mão e alguma ideia honesta na cabeça.

Muitos dos grandes profissionais do jornalismo, historicamente corajosos, inovadores e éticos, como Caco Barcellos, preferiram sair (ou foram saídos) da linha de ação do JN e do jornalismo diário e se dedicam a projetos de base, como a formação que ele ministra aos jovens jornalistas, no seu Profissão Repórter.

Risco aos bons jornalistas

Outro comunicador global que mostra independência é o apresentador Chico Pinheiro, que, à revelia da posição da empresa, manifestou-se publicamente contrário ao impeachment forçado de Dilma, por não ver motivo concreto para esta medida extrema.

É de justiça citar também a demissão do repórter e apresentador Sidney Resende (que estava desde 1997 na Globo), em novembro do ano passado. Ele levou o chute no traseiro após publicar em seu blog algumas observações sobre o jornalismo global: “Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também. O Governo acumula trapalhadas e elas precisam ser noticiadas na dimensão precisa. Da mesma forma que os acertos também devem ser publicados. E não são. Eles são escondidos”.

Resultado de tanta franqueza? Demissão sumária.

Acomodação e cooptação

Afinal, o padrão vigente neste momento na emissora é o da acomodação, da cooptação, da subserviência y otras cositas. É exemplar, neste mau sentido, a trajetória de Pedro Bial, que de repórter audacioso e culto, correspondente de guerra que chegou a ficar parcialmente surdo no conflito bélico da Bósnia, virou um bufão, apresentador animado da mediocridade apelativa de BBBrasil. Outros velhos jornalistas, que passaram com postura digna pelos tempos duros da ditadura civil-militar (que malucos hoje querem reviver), atuam agora com cinismo na agenda golpista e desequilibrada da emissora.

Por estas e outras, cresce a desconfiança sobre o que seria a isenção jornalística “global”. E, para piorar o descrédito da empresa, sua trajetória é repleta de lances de golpismo político localizado e apoio geral ao conservadorismo. Vale recordar rapidamente alguns casos.

 

País dividido

O deslavado apoio ao golpe e aos golpistas contra a democracia em 1964; a escandalosa tentativa de fraudar o resultado da eleição de Brizola ao governo do Rio, em 1982; a manipulação do debate entre Lula e Collor, nas eleições de 1989. Estes e tantos outros casos pagam o preço do descrédito a qualquer cabeça pensante no Brasil. E até mesmo no exterior, como se vê pelo repúdio ao golpismo evidente, entre grandes líderes políticos internacionais e em parte importante da mídia mundial, que denuncia a má vontade escandalosa e a tendenciosidade de sua congênere brasileira.

 

Na mesma medida em que se aferra à busca pela queda – do jeito que for – da presidenta eleita Dilma Roussef, a Globo observa, temerosa, que esta opção preferencial pela manipulação política vem afastando ainda mais telespectadores. Afinal, hoje não há dúvida de que o Brasil está dividido entre quem pretende o impeachment de Dilma e o fim do PT (ainda que de forma golpista), de um lado, e os que, de outra parte, lutam pela manutenção das normas constitucionais e do tratamento isento – pela Mídia, Judiciário e Legislativo - para toda e qualquer autoridade, de qualquer partido ou coloração ideológica, que estiver envolvida em malfeitos.

 

De braços dados com O Globo (versões impressa e digital, em franca decadência), Estadão, Folha de S. Paulo, Veja/Abril, IstoÉ, Época e a maioria da grande mídia, a TV Globo vive um tudo ou nada desesperado. Mesmo os mais alienados e acomodados telespectadores observam que há algo de podre, mal parado e suspeito no reino platinado do Jardim Botânico carioca.

 

A Bíblia tinha razão

 

Enquanto as produções bíblicas nacionais da Record abocanham nacos crescentes do público noveleiro, antes cativo da Globo, a emissora marinha sente também o bafo da Band com suas novelas turcas. Assim como na área esportiva, onde a televisão paulista alcançou liderança de audiência durante as partidas decisivas da Copa dos Campeões da Europa, em fevereiro deste ano. Para não falar do prestígio conquistado pelo Jornal da Band, comandado por Ricardo Boechat – uma alternativa concreta, mais jornalística e menos tendenciosa que sua congênere da Globo, dominada pelo mi-mi-mi ensaboado de William Bonner.

 

RS: o absurdo diário

 

Afirma-se ainda, como opção informativa e diversificada, a cada vez maior TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação. A empresa nasceu, em 2007, da fusão dos patrimônios da antiga Radiobrás e da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto. Hoje, sua programação cobre 90% do território nacional. O seu jornalismo amplo e profissional, junto com programas culturais, era retransmitido pela TVE do Rio Grande do Sul. Mas o governo Sartori – vale noticiar – rompeu o contrato gratuito com a EBC. Atualmente, acredite se quiser, em seu lugar a TVE transmite os noticiários da estadual TV Cultura de São Paulo (administrado há décadas pelo PSDB), sem qualquer interesse objetivo e próximo para o público gaúcho. Absurdo diário: há algum ganho para os riograndenses em saber se a Linha Jabaquara do Metrô de SP vai estar interrompida hoje ou amanhã?

 

Globo paga para (a gente) ver

Mas, fechemos o parêntese. E voltemos ao caso da Globo. Reconheça-se que a empresa tem know-how ainda superior na teledramaturgia. E suas fórmulas de programação esportiva seguem dominantes. Seria aconselhável a ela reforçar estas áreas, de público certo. Porque o seu jornalismo vem merecendo crescente desconfiança dos telespectadores – na mesmíssima medida em que se afasta da isenção e se afunda, de modo levemente histérico, no lamaçal do golpismo e da manipulação informativa. A Globo decidiu pagar para ver. Que pague. Mas nós, por certo, já paramos de assistir a farsa de todas as noites.