sexta-feira, 7 de novembro de 2014



Vergonha alheia

José Antônio Silva

A direita brasileira adora os EUA e (um pouco menos) a Europa.

O curioso é que, no Hemisfério Norte, eles não reclamam de não ter (ou de pagar caríssimo) por empregada doméstica, de fazerem a própria cama, de terem que respeitar as leis de trânsito, de não praticarem atitudes racistas, etc.
Acham tudo normal e civilizado.

Não abrem a boca pra reclamar nem chamam de esmola o Bolsa Família existente e praticado nos países europeus.

No entanto, são absoluta e escandalosamente racistas nas suas manifestações aqui no Brasil, ofendem quem procura qualificar os pobres e fazê-los progredir profissionalmente.

Quando estão no “Primeiro Mundo” consideram natural obedecer ao mesmo tipo de leis, regras e normas de civilização que, aqui na terrinha, se acham no direito de desrespeitar e descumprir.

Nos aeroportos brasileiros, muitos devem ter enfartado ao precisar entrar na fila - atrás de uma ex-faxineira, por exemplo - para embarcar num avião que demanda Paris.
Só não me perguntem como funciona o cérebro deles frente a esses pesos e medidas diferentes. Parece que não vêem nenhuma contradição nisso.

Quer dizer, não sei mas imagino.
No Brasil, dividido já a partir das Capitanias Hereditárias do século XVI entre elite e ralé, casa grande e senzala, cidadãos e não-cidadãos, até hoje os membros da classe historicamente dominante acreditam que têm todos os direitos, inclusive o de descumprir as leis.

Recentemente, um juiz de Direito mandou prender uma agente de trânsito, no Rio de Janeiro, por “desacato” (“você sabe com quem está falando??!!”) por tê-lo multado numa infração no tráfego, ao dirigir sem carteira.

Isto é um exemplo, quase corriqueiro, do que as chamadas elites sempre fizeram – infelizmente para eles, hoje essas coisas causam comoção no país.

E vale lembrar o exemplo do agora senador eleito Lasier Martins, ex-Arena Jovem, que este ano foi condenado, em última instância, a indenizar o agente da Polícia Federal Gilnei da Costa Carvalho por ofensas pessoais no exercício da sua função.
Anos atrás, ao requerer passaporte às filhas menores, num posto da PF, ele irritou-se com o policial que exigiu a apresentação de seu documento de identidade, como manda a lei. Irritado, o apresentador da RBS brindou o agente com termos como “burocrata, vagabundo, filho da puta, recalcado, vai à merda”, entre outras jóias de linguagem. Ainda irado, no seu programa na Rádio Gaúcha, à tarde, Lasier voltou a achincalhar o agente policial que apenas agiu de acordo com a lei.

Pois nesta eleição-2014, a “elite” que sonega impostos, corrompe ou ameaça quem atrapalha seus interesses, ofende os nordestinos, negros e pobres, agride e/ou acusa de “ladrão” algum trabalhador ou estudante que ostente um adesivo do PT (o que se repetiu na campanha eleitoral deste ano), chegou ao auge.

Eles solicitaram há poucos dias algum tipo de intervenção à adorada Casa Branca dos States, em nome da “democracia”. (E nem vou falar aqui das inacreditáveis passeatas de coxinhas e madames, em surto de delírio fascistóide, pedindo a volta da ditadura militar, sob a liderança política e serena do guru Lobão! Ou o pedido alucinado de impeachment da presidenta eleita em plena normalidade democrática).

Até o PSDB - que aproveitou a agressividade da direita sobre os petistas e eleitores durante a campanha - ao baixar a poeira tratou de dizer que apóia o regime democrático e não tem nada a ver com isso.

Em tempo: Obama apenas sorriu, constrangidamente, e parabenizou a democracia brasileira.


Vergonha alheia

sexta-feira, 26 de setembro de 2014



A nuvem de Cae e Gil

 José Antônio Silva

Que Gilberto Gil e Caetano Veloso são geniais compositores populares pouca gente há de negar. Mas, claro, isso não quer dizer que a mesma força e inteligência criativa se reflitam em outros campos.

Gil, justiça seja feita, sempre se mobilizou mais em termos sociais, em áreas de sua preferência como a ecologia e a cultura. Até foi vereador pelo Partido Verde, andou – como um turista acidental famoso – pelo PT e foi ministro da Cultura. Mas tanto ele quanto Caetano, coincidentemente, jamais participaram de fato, com real interesse, do mundo político. Sempre flutuaram, sem bússola, ao sabor das correntes e da intuição, na base do palpite, feliz ou infeliz.

Como se sabe, igual a muitos outros artistas, ambos chegaram a ser perseguidos pela ditadura militar brasileira, sofreram com a censura sobre seu trabalho e foram presos.

Porém, muito mais pela obtusidade e profunda ignorância dos agentes da ditadura, que confundiam posturas comportamentais libertárias com “comunismo” e “subversão”.

Acredito que tanto Gil quanto Caetano se enquadram naquele enorme contingente de pessoas que afirma, alegremente, “não gostar” da política.

Mas esse desinteresse – sempre – cobra um preço. E o preço é a alienação: se você não procura se informar, ir atrás de outras fontes de dados e conceitos, se fica na postura passiva da manchete dos jornais, revistas semanais, noticiários de rádio e TV... Se essa é toda a sua informação, eu sinto muito: você assimila ao longo dos anos o discurso que dá uma aparência de normalidade e de não-política ao conservadorismo intrínseco do capitalismo, com seu elitismo, individualismo, consumismo, exclusão, etc.

Ou seja: quem “não gosta” de política, não consegue perceber que ele próprio – quando chamado a opinar ou definir-se sobre o assunto – revela-se, apenas um... mero repetidor, ingênuo, de conceitos e mantras dos jornalistas do sistema, dos publicitários do consumismo, do “sempre foi assim”, do “rouba mas faz”, do “bandido tem que matar”, do partido dos “humanos direitos e não dos direitos humanos”, e outras pérolas.

Não que Cae e Gil cheguem a esse nível de alienação – bem longe disso.
Mas seu afastamento das realidades do país fica claro quando compram o discurso de que Marina – mesmo apoiada por banqueiros!!! – é uma “alternativa” possível ao PT. Não são vistos ou percebidos, pelos dois bons baianos, os gritantes sinais da fragilidade da candidata (apoiada, também, por pastores vigaristas do pentecostalismo medievalista).

Gil e Caetano conseguem não se emocionar com o fato do PT e seus apoiadores terem arrancado milhões de pessoas da miséria, e que, com as políticas de Lula e Dilma, agora – dados da ONU – conseguiram tirar o país da relação de países em que ainda havia pessoas morrendo de fome.
Marina é apoiada e orientada pelo pastor Malafaia, pela educadora Neca, dona do Banco Itaú (que hoje praticamente sustenta a candidata), pelo dono da Natura e, de lambuja, tem todo o apoio do Clube Militar, coalhado de generais de pijama saudosos da ditadura.

No entanto, em suas nuvens de alienação, na vida de ricos que o talento lhes proporcionou, Gil e Cae mostram-se cada vez mais distantes da verdadeira revolução democrática que acontece no país.
E só conseguem enxergar que Marina tem origem humilde e a pele morena como a maioria da população brasileira. “É mágico...” – ou algo assim.

Enfim, a profundidade de análise política dos dois ícones baianos está ao nível que uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas, para citar o dramaturgo Nelson Rodrigues - aliás, outro conservador de talento.

Ah, e pra ficar no mesmo nível: Chico Buarque e Paulinho da Viola vão de Dilma.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Parede desafio

José Antônio Silva



Eu vi um homem olhando para uma parede branca.
Um homem,
um pedinte sem pedir
um andarilho que não andava
parado que só
fitando a parede branca
como quem decifra o infinito.

O homem olhava para a parede
com atenção
talvez vertigem
à borda do abismo
branco.

O homem via o passado o futuro o presente
como uma coisa só
como uma base líquida
um trecho da Via Lactea
só seu
para a própria
superação.

Um homem olha uma parede branca
em silêncio
no meio dos automóveis-cometas
que raspam seu traje
espacial
sem lhe causar maior dano
do que a consciência
como indagação
que lateja
organicamente
na parede-desafio.

terça-feira, 26 de agosto de 2014



AA e o Mago

José Antônio Silva

A candidata ao governo do estado, AA, natural da RBS, confessou em entrevista a Juremir Machado da Silva que é muito intuitiva, e admira a obra de Paulo Coelho.
Vamos imaginar uma cena bastante improvável – a da vitória de AA para o governo estadual. Só um exercício de futurologia aplicada.

2017, 11 horas de uma noite de inverno. Depois de dois anos, o governo está – literalmente - cercado por manifestantes de todos os setores sociais, alarmados e revoltados com o alto índice de desemprego trazido pelo governo neolib, com o fim das políticas sociais, com o crescimento só-que-não,  o direcionamento dos recursos públicos apenas ao agronegócio e ao grande empresariado e setores especulativos, a volta dos pedágios abusivos, a política policialesca para tratar os trabalhadores.
A multidão se agita em torno do Palácio do governo.

Na ala residencial, à luz de velas, AA confabula com o Mago, que chegou em vôo especial fretado desde o Rio a Porto Alegre pelo governo do estado. Qual Rasputin da Rússia czarista ou Lopes Rega de Isabelita Perón, Coelho conjura a escuridão para aconselhar AA.

- O que devo fazer, mestre? - indaga a governadora, quase desgovernada.
- Siga o seu coração, querida – aconselha o sábio Coelho. – Você tem o poder supremo da intuição.

AA fecha os olhos. Todo o Rio Grande fica em suspenso.

Ao amanhecer, enquanto o avião que carrega o Mago de volta ao calor do  Rio (ou diretamente para seu refúgio na Suíça) passa sobre o delta do Guaíba,  o piloto ainda vê as chamas que se espalham pelo centro de Porto Alegre.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014



 O desapego, versão neolib

 José Antônio Silva

O discurso por vídeoconferência em que o presidente do Grupo RBS, “Duda” Melzer, anunciou friamente a demissão de 130 jornalistas nos próximos dias, é um exemplo de cinismo. Ou, se formos generosos, da forma alienada e irreal como um típico jovem empresário neoliberal vê o mundo: tudo são “oportunidades” para a empresa crescer, como um fim em si mesmo. 

Mas o que chama mais a atenção é o termo “desapegar”, que Melzer utilizou à vontade ao longo do texto. Sua utilização, aqui, representa o auge de uma desvirtuação de linguagem. Trata-se de um conceito de origem budista. Esta filosofia de vida, salvo engano, diz que, para evitar o sofrimento, é preciso ter consciência de que somos mortais e não vale a pena nos “apegarmos” a riquezas que são passageiras - e que mais nos prendem do que nos libertam, existencialmente.

A propaganda já vinha usando com excesso de liberalidade o termo “desapegar” – para vendermos bugigangas que não nos servem mais (claro que o verdadeiro “desapegar” seria daquilo pelo qual temos verdadeiro apego).

No caso da RBS, já vimos este filme em sessões anteriores. Demissões em massa. “Duda”, em seu discurso, trata os profissionais que vão para a degola sumária – alguns com mais de 20 anos de “casa” – com desapego no sentido neolib: bota pra rua o que já não rende tanto e não maximiza os lucros. E tem mais uma pérola de pragmatismo duríssimo na fala do presidente Melzer: a casa não irá investir “em coisas que não agregam”. Coisas?

Muitos dos jornalistas demitidos tinham desenvolvido grande envolvimento e apreço pela empresa, o que é natural (Millôr dizia que o dinheiro compra até amor verdadeiro, mas aqui é só uma piada).  

Enfim, para Melzer e companhia, trata-se apenas de fazer uma operação de limpeza na empresa pós-industrial, com “desapego” fácil e fake – só dói nos demitidos.
Aos jornalistas agora dispensados, em tom alegre e de crescimento empresarial, falta conseguirem se desapegar do contracheque no final do mês. Muitos deles, no próximo emprego (tomara que todos consigam), já terão aprendido a lição de “Duda”, e desenvolverão menor apego à futura “casa”. Já para os que agora entram na empresa, recebem tapinhas nas costas e são bombados nas políticas de TI da RBS, pode-se dizer – sem medo de errar: o dia de vocês também vai chegar. 

Comecem a se desapegar desde agora.

segunda-feira, 21 de julho de 2014


Palestina - o mapa histórico do extermínio

José Antônio Silva

As tentativas – ineficientes, patéticas, artesanais - de ataques palestinos a Israel, um dos exércitos mais poderosos do mundo, não são “terrorismo”: são uma forma desesperada de resistência deste povo para não ser literalmente exterminado. 

Quem duvidar, basta olhar o mapa do avanço sionista sobre as terras (ocupadas por estes árabes há séculos) da região, dos anos 40 para cá. A imagem fala por si. 

O mundo assobia e olha para o lado, para não ver – e não ter que fazer nada – o massacre sobre a população palestina, ordenado pelos governos direitistas que dominam a política de Israel.





 


sexta-feira, 27 de junho de 2014


Traço de Leão, Olho de Lince, Mãos do Diabo


Paulo Caruso


(Paulo Caruso, o ilustrador, cartunista, quadrinista, caricaturista e  - entre os profissionais da área, um top de lista - enviou ao Lavralivre sua charla sobre o grande desenhista Jayme Leão, falecido este ano em Sampa. Leiam aí. E de quebra vejam a ilustração do “The Lion” que PC mandou junto.  - JAS).

 
Nássara dizia de Trimano que seu nome explicava sua arte: “Tri-Mano, Três Patas, Três Mãos!”. Fortuna chamava  Jayme Leão de “Mãos do Diabo”.

Mais do que suas mãos, sempre me surpreenderam seus olhos, a argúcia de um lince à espreita da presa. No meu caso, a primeira dessas presas que vi, entre assombrado e arreganhado pela ousadia desse olhar, foi a figura do comandante Fidel Castro se entregando à uma publicidade a época , escanhoando a sua simbólica e eterna barba com as recém-lançadas lâminas platinum - plus.

Mais do que uma imagem, um conceito. Era a imagem da capa do “Ex” n° 13, borboleta 13. Esse jornal, de duração efêmera como todos os jornais da imprensa nanica, questionava o conceito de verdade de esquerda, abria uma brecha pra que não apenas os editores de texto, os tiranos das “pretinhas” comandassem o produto final, mas também os fotógrafos, os desenhistas, os loucos e poetas opinassem no veículo que botávamos nas ruas.

E olhem que estávamos debaixo da ditadura escancarada, como diria Élio Gaspari, plenos anos 70, Médici na cabeça.

Àquela época não se pensava em Lula pra Presidente e muito menos usava-se Photoshop, Corel Draw e outros programas que tornaram a vida dos editores de arte e desenhistas essa moleza de hoje em dia.

O Jayme Leão pegava o bicho na unha, pra ele nada era impossível.

Com essas mãos ele se vira em qualquer lugar lá em cima...