segunda-feira, 17 de junho de 2013

Poetando


Adriane, Rosa, Ernesto, Ismália, Sidnei e Rosa

 José Antônio Silva

Adriane
achou uma bala perdida
mas o sabor não lhe agradou
e na calçada a descartou.

Rosa
porém foi colhida
bem no meio do Jardim
- o coletivo Zona Norte
a arrastou metros sem fim
que colidiram com a morte.

Ernesto
pai de Adriane e marido de Rosa
casou-se com a amante sua:

Ismália
que conversava com pássaros
e de quando em vez
voava nua.

Adriane
cursou Secretariado
e fez Mandarim em Pequim.
Na volta conheceu Sidnei
e hoje perfuma
a pequena Rosa
num loft do bairro Jardim.

Ernesto
aposentou-se das vendas
e não conversa com pássaros
mas sempre murmura sozinho
- saudoso de Ismália
que num domingo alçou vôo
e nunca voltou ao ninho.

Sidnei
levou um tiro
ao entrar no condomínio
mas foi fogo de raspão
e disso ele já não fala
- hoje tudo é só história
perdida que nem a bala.






quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bolsa Família – os dois discursos da reação




José Antônio Silva



O tratamento dado pela oposição ao Bolsa Família (e a outros programas federais e estaduais de combate à miséria e redução da desigualdade) é esquizofrênico. O assunto voltou à tona com esta recente campanha terrorista dizendo que o Governo iria suspender o BF (a “culpa” seria da Caixa Econômica, ao trocar uma data de pagamento...). A abordagem atucanada varia conforme o público a que se dirige. Quando querem “falar mais ao povo” (como pregou seu guru FHC, e como faz agora Aécio Neves em seu programa eleitoral), dizem que foram eles que criaram o programa (na verdade, FHC criou o Bolsa Escola, de abrangência muito menor). Enfim.



Já quando se dirigem ao grande empresariado e aos setores mais conservadores da classe média brasileira, os tucanos, democaricatas e assemelhados baixam o cacete nos programas sociais. Aí, tudo passa a ser “esmola”, “populismo”, além de merecer algumas expressões impublicáveis.



O argumento mais batido: é preciso dar mais “educação” à população carente, para que ela siga em frente com as próprias pernas. Bom, trata-se de uma platitude que, por si mesma, não leva ninguém a lugar nenhum. Pois, os números confirmam, isso já está sendo feito. Em dez anos, os governos petistas e seus aliados criaram 14 universidades federais, e centenas de escolas técnicas em todo o país. Sem falar que o próprio Bolsa Família, para ser pago às famílias necessitadas, exige, entre outras condições, que as crianças estejam matriculadas e frequentando a escola.



Evidentemente que há ainda muito a ser resolvido, ampliado, melhorado. No entanto, os argumentos da oposição - tantas vezes vazios ou distorcidos pelo ódio de classe, embora enfeitados com um ar de indignação - não mudam a percepção do povo.



O pensamento reacionário (que não ousa pronunciar em público, com todas as letras, o próprio nome), quereria que se criasse de uma hora para outra um sistema educacional perfeito que, por si só, sem necessidade de programas e ações afirmativas, resolveria ao natural a questão de integração das massas de deserdados à cidadania plena. Engraçado que este caminho “natural” nunca surtiu o efeito agora apontado como solução, em mais de 100 anos de república brasileira (incluindo oito tuca-anos no governo federal).



Para os conservadores, seria questão, talvez, de apenas mais uns 50, 60 ou 80 anos? Quem sabe... Claro, nesse meio tempo várias gerações de brasileiros e brasileiras, como os pais e avós das gerações atuais, viveriam vidas curtas, miseráveis e incompletas – mas sem os atalhos “injustos” que tanto revoltam quem sempre teve tudo.



A verdade: se fossem suspensos o Bolsa Família, o ProUni, o sistema de cotas para negros/pobres/índios na universidade e outros programas sociais e ações afirmativas, além do esforço educacional que vem sendo feito, o Brasil das elites – que sempre se sentiu perfeitamente à vontade no sistema casa grande e senzala - entraria num túnel de trevas em direção ao passado, a pior exclusão e a condições escravagistas.



Será que é esse – bem lá fundo, onde alguns deles sequer alcançam - o grande plano da oposição de direita?