domingo, 10 de julho de 2011

Cultura

O humor estuprador em crise de identidade


José Antônio Silva


Rafinha (“Estuprador do Humor”) Bastos é apenas uma consequência. E um exemplo do humor que ainda viceja absoluto - e absolutamente destituído de qualquer sentido ético, como se isso representasse uma grande conquista – em algumas mídias do Brasil. Coincidentemente, ele encarna um estilo que vem dos anos 80, no rastro do neoliberalismo, que da Inglaterra tatcheriana e dos States de Reagan, espalhou-se como erva nociva pelo mundo afora. De modo similar aos oportunistas e exploradores que seguem os exércitos invasores, os humoristas do vale-tudo substituíram as gerações de cartunistas e comediantes que se fizeram no enfrentamento da Ditadura ou em outras esferas, como a crítica ao reacionarismo comportamental. A lógica vitoriosa parecia ser a do “metralhadora giratória” - nada era ou é sagrado. Mas só parecia.


Os teóricos do Consenso de Washington não fariam melhor: desregulamentar tudo, mas tudo mesmo, em nome da suprema “liberdade” econômica, transposta para a crônica social de feição humorística. Afinal, os pobres só o eram por sua própria culpa, e não mereciam apoio, misericórdia ou condições sociais e econômicas adequadas – eles que fossem à luta ou morressem. Competitividade era/é tudo.


A lei de quem pode mais

Assim, de uma hora para outra, o humorismo brasileiro surgido pós-redemocratização do país, regrediu à lei do mais forte, do mais rico, do quem pode mais. O Casseta & Planeta, apesar de alguns méritos, foi “revolucionário” e paradigmático nesse sentido. Sem-terra, morrendo de doenças e abandono em acampamento à beira de estradas, ou assassinados por jagunços ou policiais? Sarro neles! Negros, vítimas seculares da escravidão, discriminação e racismo? Gozação neles! Mulheres (“o negro do mundo”, segundo Yoko Ono), violentadas ao prazer do machismo? Piada imbecil nelas: as feias estupradas – como divertiu-se Rafinha Bastos em seu talkshow - deveriam agradecer aos estupradores a oportunidade de sexo. Ah, sim: as vítimas destes petardos, se ousarem reclamar, são taxadas de censoras que ameaçam o sagrado direito de... de quê mesmo?


Este humor – quando quer mostrar que é imparcial, ou tem conteúdo – bate nos políticos. Como se houvesse mérito em atacar cachorro morto, no sentido da moralidade chavão da mediania brasileira, para quem “todo político é ladrão, todo político é igual”. Seria interessante – e fica o desafio - ver esta coragem e independência toda de CQCs e assemelhados fazendo gracinhas com o grande empresariado corrupto e corruptor, com os conglomerados de comunicação e suas negociatas, com os setores poderosos e conservadores que não acham graça nenhuma em rever processos e levar a julgamento torturadores e outros arbitrários. (Aliás, na Argentina - de onde vem o programa original, macaqueado pelos brasileiros - os artistas e humoristas costumam dizer a que vêm).


Número de acessos”

Mas estes humoristas - das piadas de péssimo gosto com mulheres estupradas, com negros humilhados e judeus que sobreviveram a campos de concentração – têm lá seus bons motivos. Afinal, todo o humor se alimenta de preconceitos e estereótipos. E sendo assim, anula-se qualquer sentido de justiça, cidadania, direitos humanos e outras coisas mais. Em seu lugar, pragmaticamente, passam a valer apenas a busca do riso a qualquer custo, a audiência, o dinheiro na caixinha, o “número de acessos”.


Valeria lembrar que para os rebeldes sem causa e sem rebeldia do humor cequecista poderem desfrutar hoje da liberdade de ofender e humilhar sistematicamente alguns dos setores mais frágeis da sociedade brasileira, foi preciso que muita gente (inclusive destes mesmos setores) dessem suas vidas, perdessem seus empregos, suas carreiras e sonhos, suas casas, suas famílias e identidades.


Quem apanha não esquece

Vá que eles não saibam, o humor não é anódino, inodoro e insípido. É uma arma que faz vítimas. E não vale mais dar o tapa brutal e depois correr para debaixo da saia da liberdade de expressão ou do poder midiático e dizer que só estava brincando. Quem bate, logo parte alegremente para outra. Quem apanha, porém, não esquece. O neoliberalismo continua a fazer água (alô, Grécia!), e o mundo vem mudando. Alguns não perceberam, mas esse caminho está cada vez menos engraçado.



7 comentários:

CacoSchmitt disse...

Grande Zé, faço minhas as tuas palavras. Abração
Caco Schmitt

Lulu disse...

Sempre me perguntei sobre essa delicada questão: o humor e suas vítimas... Esses CQCs estão cada vez menos engraçados e mais apelativos, o que vale é ser o "queridinho" da vez!
Bj, Lu.

Anônimo disse...

Mandou muitíssimo bem, seu Zé.

Moa

Anônimo disse...

Grande sacada, valiosa e bem fundamentada.

E é mesmo como o neoliberalismo, a tal lei dos mais fortes, que só encaram bater nos mais fracos (e nos cachorros mortos). Para ridicularizar o estuprador, o homem, o branco, o rico, seria preciso muito mais coragem, inteligência, boa vontade e sabedoria.

Jean Scharlau

Neli Germano disse...

Zé, a crônica está ótima. Assim que comecei a assistir o CQC, achei interessante, pensei que seria uma alternativa de humor que poderia dar certo (como o Pasquim). Mas no decorrer do tempo "aquilo" começou a me incomodar, e já não assisto. Agora, enquanto lia a crônica, percebi, exatamente, o que me perturbava: "o estupro". Traduziste a meu incômodo. Abraço, Neli Germano

Steve disse...

Um dia, conversando sobre doações de orgãos e transplantes, um fdp dessa laia disse que o mercado deveria regular esse setor!?!? Esse tb é humorista dessa estirpe!

Anônimo disse...

Cheguei a gostar deste programa uma ou duas das primeiras vezes em que o vi. Depois de saber que era cópia e depois de ver como o humor se exauriu rápido e ficou só esta forma apelativa sem graça, desisti totalmente. Até tinha esquecido que existia. Esqueci até da televisão. Vo ali ligar para ver se ainda funciona...