segunda-feira, 6 de junho de 2011

Convidado especial

Vida offshore

João César Simch da Silva


Flap, flap, flap, o helicóptero decola do continente rumo à plataforma de exploração de petróleo. Duas turbinas, 12 passageiros, 250m de altitude, 220 km por hora. Após uma hora de vôo, em média, chega-se à sonda, que é como se denomina a plataforma de perfuração de poços de petróleo no jargão técnico. Após uma preleção de segurança, cada um se encaminha para seu camarote, para se instalar, trocar de roupa e iniciar o trabalho. Essas sondas trabalham em média com 120 pessoas a bordo, 24h por dia. Cada trabalhador tem um back (backup), um colega com o qual divide o trabalho diário, em turnos de 12 horas. No caso dos técnicos de nível superior da Petrobras (BR), geólogos, geofísicos e engenheiros, trabalha-se na exploração em sondas estrangeiras, contratadas pela Petrobras, com turmas de trabalhadores brasileiros.

Confinamento
Para os técnicos da empresa, os camarotes em geral são bons, a comida é boa e há uma academia de ginástica bem equipada para se exercitar. Pode-se também caminhar ao ar livre no helideck, espaço destinado ao pouso e decolagem dos helicópteros. Passa-se a maior parte do tempo confinado, seja no casario onde ficam os camarotes, refeitório e escritórios, ou nas unidades de perfilagem e acompanhamento da perfuração, espécies de containeres distribuídas na área externa da plataforma. É uma vida estressante que não é recomendada a ninguém: além de passar 14 dias longe da família e da civilização, passa-se confinado este tempo com pessoas com as quais pode não se ter nenhuma afinidade ou simpatia, e mesmo assim ter que conviver e compartilhar espaços e atividades todos os dias.

Com o trabalho continuado ao longo dos anos, chega-se ao absurdo de conviver mais tempo com essas pessoas estranhas do que com seus próprios entes queridos! Mesmo porque em casa não se passa 24 horas por dia com a mulher e os filhos, que trabalham, estudam, enfim têm suas atividades particulares. A única vantagem verdadeira deste tipo de trabalho são as folgas. Na função de geólogo de acompanhamento de poços exploratórios (well site geologist) na Petrobras, por exemplo, após 14 dias consecutivos embarcado, tem-se o direito a 21 dias de folga. Então, pode-se gozar um período de merecido descanso, em casa, curtindo a família e exercitando qualquer ócio, de preferência criativo. Mas não se iluda, trata-se de uma espécie de pacto com o diabo: ganha-se relativamente bem, tem-se direito às folgas, mas termina por se acostumar com essa rotina. Então não se consegue mais mudar e voltar para uma rotina normal, de sair para trabalhar de manhã e voltar só à noite para casa.

Passagem do tempo
Outra coisa é a passagem do tempo. Passa-se a contar o tempo em quinzenas, e nessa rotina parece que o tempo passa mais rápido, e junto com esse tempo sua vida vai passando junto. Além disso, os riscos envolvidos são elevados. Primeiro, o trabalho é feito continuamente sobre muita pressão. Afinal, um poço exploratório no pré-sal, por exemplo, custa na faixa de U$ 100 milhões, tornando a cobrança sobre o trabalho dos técnicos muito grande. Somando-se aos perigos inerentes à exploração de petróleo em alto-mar, como erupções e possíveis explosões do poço (blowout), desestabilização da plataforma, do risco dos vôos de helicóptero, há o risco de exposição às doenças e aos problemas que afetam a maioria dos petroleiros.

Entre as diversas doenças, pode-se citar, por exemplo, doenças alérgicas, funcionais, psicológicas, da coluna, ganho de peso, alcoolismo e etc. Qualquer moléstia que porventura se adquira, gripe, infecções e etc., desenvolve-se muito rapidamente quando se está embarcado, porque há uma queda no sistema imunológico do indivíduo, resultante de uma série de fatores: o trabalho sob stress diminui a imunidade; os alimentos são todos congelados e não possuem a quantidade integral de nutrientes; a qualidade do repouso é inferior ao seu repouso em casa, piorando quando se trabalha no turno da noite; fica-se muito pouco tempo exposto ao sol, pois se trabalha confinado; o ambiente confinado é muito seco e o sistema de ventilação não é limpo adequada e regularmente, contribuindo para a presença de pó, ácaros e etc.

Come-se muito também quando se está embarcado. Afinal é a única alegria que se tem! A comida é farta e em geral muito boa. Na tentativa de minimizar esses fatores negativos, tenta-se comer mais frutas e verduras, consumir vitaminas, caminhar e exercitar-se ao ar livre quando possível, beber bastante água, dormir cedo e etc.

Vida social
Somando-se aos problemas citados, a vida social de quem trabalha embarcado vai pras cucuias. Não existe domingo, feriadão, aniversário dos filhos, da esposa, de casamento, carnaval, páscoa, natal, ano-novo e etc.! Se você é escalado para o trabalho, torna-se necessária sua presença, não importando que data do ano seja. Um suporte familiar equilibrado é tudo nessa vida! Mas nem sempre isso é possível. O reflexo disso é outro problema muito comum que aflige o embarcado: a separação conjugal precoce.

No caso dos geólogos, é pior ainda: não têm escala de trabalho definida, embarcando apenas na fase de aquisição dos dados geológicos do poço, para a qual não há previsibilidade certa. E quando a atividade de exploração está em alta, como ocorre atualmente, as folgas se reduzem a apenas 10 dias em média! O petroleiro é antes de tudo um forte!

O melhor dia
Finalmente, o melhor dia do trabalho embarcado é o dia do desembarque! Quando se desce no aeroporto após uma quinzena de trabalho, sente-se com se estivesse tirando um enorme fardo de cima dos ombros. A certeza do dever cumprido conforta particularmente, mas o alívio só é completo mesmo quando se chega em casa.

Verdadeiramente não é fácil. Mas alguém tem que fazer o serviço pesado, não é mesmo?

8 comentários:

Steve disse...

Não é nada fácil!

José Antônio Silva disse...

Realmente, Steve. Afinal, trata-se de navegar sem sair do lugar.
Valeu, manooo!

Steve disse...

É, qdo me perguntam,costumo dizer que sou marinheiro parado dos 7 mares...

simch disse...

o velho e o mar

Steve disse...

Navegar é preciso, viver não é preciso...

José Antônio Silva disse...

Precisamente, navegantes

Fraga disse...

Quinzenário de bordo eu nunca tinha lido: parabenza, João, baita competência na extração do assunto! E palmas pro Zé, que consegue diversificar a temática do blog, que é sempre ótima. Abrações aos envolvidos.

Anônimo disse...

Tarefa para quem tem "sangue nos olhos", como se diz aqui no Ceará!!

Postagem muito boa essa!!

Sou estudante de Geologia e estou decido a ser em geólogo da Petrobras!!
Gostaria, se for possível, de obter mais informações sobre a vida desse profissional na Petrobras.
Se não for pedir muito, seria possível passar o e-mail ou outro contato do autor do texto, Sr. João César Simch da Silva, para obter mais informações !!!

Meu nome é João Paulo Castro e meu e-mail é: paulojoaosousa@yahoo.com.br

Desde já, presto minha gratidão pela esclarecedora postagem!!!!