terça-feira, 13 de julho de 2010

Crônica Minha

“Eles” vivem!

José Antônio Silva

Ao longo dos anos e décadas, nosso olhar é constantemente atraído por frases afirmativas, positivas, a não deixar dúvidas: “Elis vive!”, “John Lennon vive!”. Mas a gente duvida, pois vimos as fotos, os documentários, as matérias na TV e nos jornais, o choro dos familiares e dos fãs, os livros que contam as histórias destes e de outros ídolos, ao tempo em que estavam na ativa. Mas agora a verdade pode ser revelada!

A reportagem investigativa de LavraLivre não aceitou a primeira nem a segunda versão que nos apresentaram. Desde o início das investigações, sabíamos que as pichações não eram apenas isto – pichações, a macular paredes recém pintadas ou decadentes muros urbanos. Não representavam, com certeza, lamentos tolos de tietes inconsoláveis ou gente desesperada por acreditar em algo. Nada: eram sinais, pistas a merecer crédito e atenção paciente e determinada. O que nunca haviam tido.

Jornalismo investigativo
Seguindo as melhores técnicas do jornalismo investigativo, fomos atrás daqueles que tinham a coragem de expor estas verdades inconvenientes nos muros do mundo. Não foi fácil, você entende: quem sabe não fala, quem fala (normalmente) não sabe...

Afinal, percorrendo a madrugada e acompanhando “bondes” de pichadores e grafiteiros, alguém, algum dia, em algum lugar, deixou escapar aos ouvidos de nossa atenta equipe um nome, que talvez – apenas talvez – soubesse algo sobre o assunto, um verdadeiro tabu até para esta tribo noturna.

Nossa reportagem lembra bem: chegamos a uma pequena e mal cuidada casa na periferia de uma grande cidade. Sabíamos que ali vivia um pioneiro, um dos primeiros a pegar spray e coragem e mandar suas mensagens a todos os que a quisessem – e tivessem olhos – para ver. O homem fora preso várias vezes, e chegou a levar petelecos desrespeitosos de guardas municipais e de furiosos proprietários de fachadas recém pintadas. Mas tinha uma missão, e nunca desistiu.

Nosso Eloy
O herói estava na cama. Dizia estar resfriado. No início procurou negar tudo. Nunca fizera uma pichação na vida (mas pela janela de seu quarto, via-se em um canto do pequeno pátio cimentado pilhas de latas de tinta com bico de spray, algumas já com marcas de ferrugem Não bastasse, a ponta de seus dedos ostentava manchas que nada mais seria capaz de apagar).

Percebemos que estava nas últimas. O médico que levamos para examiná-lo – apesar de seus protestos frágeis, entre acessos de tosse – aventou a hipótese de ter aspirado por demais aquelas tintas tóxicas, além de levar uma vida de dificuldades, alimentação deficiente, poucas horas de sono. A típica existência de quem tem uma causa que nada nem ninguém pode impedir de levar adiante.

Ciente, afinal, de que dificilmente escaparia daquela, mesmo medicado contra a vontade, Eloy (este o nome do sujeito, que entre seu pequeno grupo de admiradores era conhecido como “Eloy, o Herói”) resolveu falar – falar com exclusividade à LavraLivre.

Entre tossidas e goles de cachaça (“é o último prazer que me resta, pois já não posso mais pichar”, lamentou) Eloy revelou que ídolos como Jimi Hendrix, Raul Seixas, Cazuza, e os citados no início deste texto, entre muito outros, nunca morrem.

“Descanso eterno”
O talento superior, a força de vontade, o toque de genialidade e sua iluminação intrínseca não permitiam que estes semideuses (segundo explicou Eloy) “descansassem para sempre”.

Uma pequena e secretíssima confraria espalhada por todo o mundo, do qual ele era um dos raros membros na América do Sul, encarregava-se de retirar estes ídolos de cena, no momento apropriado, e conduzi-los para alguns poucos lugares secretos, de acesso secreto e muito difícil. (Deixou escapar que um destes pontos seriam as cavernas na fronteira montanhosa entre Afeganistão e Paquistão, dando como prova o fato de que Bin Laden, que lá estaria escondido, nunca ter sido encontrado...).

Após virar para dentro toda uma garrafa da melhor pinga mineira, fumou um cigarrinho artesanal e, antes de dar seu último arroto, seguido do último suspiro, ainda pronunciou, a voz embargada e embriagada, o caminho para um destes paraísos eternos. Ao pegarmos nosso carro, estacionado a uma quadra de sua casa, vimos que um estranho e incontível incêndio destruía a moradia, talvez em função da bagana ainda acesa que Eloy, o nosso herói, havia jogado ao chão coalhado de latas com produtos químicos e sujeira, pouco antes de morrer. Apesar da tristeza, nos cumprimentamos, pois o segredo não morria com ele.

Lavralivre, orgulhosamente, revela onde fica este Éden de talento sem fim: trata-se de uma ilha, obviamente paradisíaca, entre os oceanos Pacífico e Índico, num arquipélago de aproximadamente 20 mil territórios cercados de água, cada um deles. Lá, numa cidade subterrânea escondida sob um vulcão extinto, tudo coberto por mata espessa e praias azuis, estão eles. Você sabe: quase todos eles.

E o mais importante: Lavralivre – numa espantosa logística que seguiu pichações de parede com sinais secretos pelos quatro cantos do mundo - conseguiu fechar o quebra-cabeças. Aliás, quase quebramos nossas próprias cabeças, ao sermos lançados de pára-quedas naquela ilha.

Já nos esperavam. Depois de se certificarem que não éramos fanáticos telespectadores em busca dos segredos de “Lost”, nos conduziram ao interior do vulcão.

Fiasco na Copa...
“Brasileiros, hein? E o fiasco na Copa?”, comentou o homenzinho pálido que nos recepcionou, com ares de mordomo abusado de novelas de TV. Mas valeu a pena agüentar seu sarcasmo. Daí a pouco entrava na ampla sala modernosa um sujeito que custamos um pouco a reconhecer. Só um pouco: era Raulzito Seixas!

“Raul vive!” – a frase apareceu em letras vermelhas na parede de nossa mente. O roqueiro foi gentil. Nosso estagiário não se conteve: “Toca Raul!”. Ou “toca, Raul!”, algo assim. Ele não se fez de rogado e entoou alguns de seus sucessos, concluindo o recital com Cow-boy fora da lei.

Mas parecia muito, muito envelhecido. Sua famosa barbicha arruivada, por exemplo, estava toda branca e arrastava pelo chão. Antes de deixar a sala, com o auxílio de uma enfermeira jeitosa, nos recordou: “Eu nasci a dez mil anos atrás...”

Entendemos que não teríamos muito tempo naquela ilha. Tratava-se de uma concessão especial, retribuindo nossa fé nos avisos: “Fulano não morreu!”. Mas poderia terminar a qualquer momento.

O mordomo afetado voltou, olhando para o relógio. “E então, querem ver mais alguém? Vocês não têm muito tempo...” Seria uma ameaça?

Não precisamos decidir nada. De uma sala ao lado – na verdade, um belo estúdio – um velho John Lennon, com óculos ainda mais grossos, aos 70 anos entoava com sua conhecida ironia o clássico When I’m sixty four. Ele viu que entravamos timidamente e nos convidou a sentar por ali mesmo, em algumas almofadas no chão. Logo, à sua voz e guitarra base, juntava-se a maestria de ninguém menos que seu colega beatle George Harrison, que – cada vez mais místico – levitava sem desafinar.

Quando terminaram de tocar (apenas para nossa equipe, sorry) nos trataram com profissionalismo. Queriam saber: de qual país e veículo éramos? De novo surgiu a questão do futebol – mas reconheceram que Rooney também deixar a desejar na África do Sul.

Perguntamos se não tinham saudades do tempo da, do (do quê mesmo?), da vida de fama e fortuna no mundo conhecido? Sorriram, George e John. Lembraram que Paul e Ringo continuavam segurando dignamente a barra, em nome deles.

Jam session
Mas só entendemos porque eles não tinham qualquer vontade de sair dali quando começaram a entrar alguns dos outros moradores da ilha - ia rolar uma jam session. Jimi Hendrix entrou, já acendendo a ponta de sua guitarra endiabrada, enquanto Janis tomava um bourbon para aveludar a voz. Elvis solfejou um Love me tender básico, fazendo com que o cabisbaixo Kurt Cobain, encostado a uma parede, ensaiasse um sorriso e desse mais vida aos quadriculados de sua camisa. Até o velho Frank – os olhos azuis brilhando – foi se aproximando para ver os garotos. Ele saía de outro estúdio, jazzístico, enquanto Miles botava o pescoço para fora, tentando conferir o dedilhado de Hendrix.

Mas nosso tempo acabara... Ou quase.

Cazuza, bem menos magro, e Renato Russo, que compunham ali perto sob o olhar maternal de Elis e a vibração de Cássia Eller, ainda acenavam quando começamos a caminhar pela prancha que nos levaria a um submarino. Voltei a cabeça e chamei Elis Regina. Como se lesse meus pensamentos, ela respondeu, com aquele sorriso conhecido: “Maria Rita está fazendo um ótimo trabalho...”

Lupicinio, numa mesa de boteco, batucava sua caixinha de fósforos, tomando uma com Adoniran. E Cartola ia se achegando, de leve, o nariz muito aceso.

Vinicius? O velho poeta bon vivant, balançando na rede, à sombra dos coqueiros e sem virar o uísque, garantiu que ali era melhor que passar uma tarde em Itapuã, e que Tom estava musicando novas letras dele.

Aí, não sei porque, ainda lembrei de Brizola, de Che Guevara...

Ah, disse o mordomo (recolhendo a prancha para a areia), se você queria saber dos políticos e revolucionários, tinha que ter pedido outra ilha. Agora, adeus!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Cultura

O tradicional tradicionalismo tradicionalista

José Antônio Silva

Músicos riograndenses costumam lamentar, explícita ou implicitamente, a dificuldade de terem suas criações ouvidas e divulgadas no “Eixo Rio-SP”, e por extensão no restante do país. Claro que muitos gaúchos e gaúchas fizeram ou fazem grande sucesso e belas carreiras nacionais – mas a maioria destes teve que se mudar para os estados centrais, de Elis Regina à Kleiton & Kledir, de Adriana Calcanhoto à Antonio “Totonho” Villeroy, de Yamandu Costa à banda Fresno.

O certo é que, não apenas na arte e na cultura, o Brasil tem certa dificuldade de decifrar o Rio Grande, historicamente. Para o bem e para o mal. E não é para menos: somos um estado de fronteira (com Uruguai e Argentina), com toda a integração e influência de usos, costumes, culinária, vestuário e expressões idiomáticas que isso traz.

Além disso, estamos situados “longe demais das capitais” (como reclamava escancaradamente o título de um LP dos EngHawaii, nos anos 80), num estado que cresceu e apareceu, originalmente, com base numa economia agro-pastoril, marcada pelo pampa e o frio (vide a “estética” de Vitor Ramil) – ao contrário do imenso Brasil tropical.

Mais ainda: como os demais estados sulistas, o Rio Grande recebeu uma quantidade inédita de imigrantes europeus nos séculos XIX e XX (especialmente alemães, italianos e poloneses), que se mesclaram aos elementos tradicionais da “raça” brasileira (portugueses, negros e indígenas, que aqui já existiam), dando à grande parte do atual povo gaúcho características culturais e étnicas um pouco diferenciadas.

Nacionalismo gaudério
Até aí, tudo bem. Viva a diferença, que acrescenta sabor local ao conjunto da nação. No entanto, para aplicar quase um tiro de misericórdia na vontade de uma integração maior, surgiu e fortificou-se pelo Rio Grande do Sul, nos últimos 60 anos, um “nacionalismo” gaudério, através dos CTGs, que se aplicou a desconhecer os fortes elementos culturais de brasilidade aqui presentes, e a valorizar, com minúcia e método, apenas os que nos diferenciam – e glorificá-los, acriticamente. Um movimento que, pode-se dizer sem erro, já era saudosista e anacrônico quando surgiu, nos anos 40 do século passado.

De quebra, passou a ser revalorizada – mas de modo apologístico - a Revolução Farroupilha da primeira metade do século XIX, dez anos de sangue e cavalgadas, de uma elite estancieira e charqueadora contra o Império do Brasil e seus impostos escorchantes. A data revolucionária, que já andava meio relegada à História e seus compêndios, foi devidamente lustrada e passou a ganhar acentos de neo-separatismo e coragem sem igual, a partir do movimento dos Centros de Tradições Gaúchas. Aliás, quase se pode dizer que hoje a chamada Guerra dos Farrapos e tudo que lhe diz respeito é um patrimônio “natural” da doutrina cetegista. Se não é, falta pouco.


Enfim, o cetegismo que era uma simpática valorização das raízes de boa parte da população riograndense (com um belo apelo turístico, diga-se) e até mesmo uma espécie de resistência cultural ao americanismo triunfante no mundo todo após a Segunda Guerra, foi transformando-se rapidamente em rígida doutrina. Doutrina que não procurou acrescentar o “ethos” gauchesco à brasilidade, mas antes tratou de nos diferenciar e isolar, no mau sentido, do restante do Brasil, em manifestações e manifestos por vezes beirando o racismo, num mal disfarçado e arrogante sentimento de superioridade.

Recentemente o folclorista Paixão Cortes, um dos criadores do primeiro Centro de Tradições Gaúchas e pesquisador das origens culturais do RS, deitou, via imprensa, a proibição moral de que no território riograndense se realizassem festas juninas “caipiras”, que não teriam nada a ver com nossas raízes (como se todos os aqui nascidos ou radicados simplesmente fossem cavaleiros dos pampas, de fato ou na marra).

Note-se que aí já se arrogam o direito de apontar o que a população do estado, de modo geral, pode ou não pode fazer em seus momentos de lazer, diversão e confraternização. No sacrossanto recinto – ou seria templo? - dos CTGs, então, a coisa é pior. Uma vez, cobrindo como jornalista a abertura de um congresso gauchesco/tradicionalista, assisti ao então presidente do MTG dar um puxão de orelhas público na secretária de Cultura de uma cidade, pois que a autoridade municipal cometera a heresia indesculpável de vestir uma bombacha mais estreita (tipo uruguaia) e não o recomendável, talvez obrigatório, “vestido de prenda”...

Rock galponeiro
Mas nada como um dia depois do outro (como dizia um morto de fome...).
Eis que o talentoso cantor Neto Fagundes, filho de peixe (Bagre) e sobrinho do porta-voz do gauchismo Nico Fagundes, arregaçou as bombachas e partiu para um projeto musical intitulado “Rock de Galpão”. Isso mesmo: ele e mais um monte de roqueiros, com suas guitarras, atacaram no bom sentido muitos sucessos tradicionalistas... (Lembrando que o gauchismo já se entreverou feio com as bandas de tchê music, que misturam ritmos e letras que não constam no livro de regras oficial do cetegismo, com o que foram proibidas de tocar nestes lugares - pelo menos oficialmente...)

Porém, as guitarras roqueiras no Canto Alegretense e em outras canções fizeram algo diferente e musicalmente interessante. O que mostra que restrições e proibições estéticas e formais terminam caindo, por artificiais e autoritárias.

Verdade que desde os primeiros embates entre tradição e inovação, nos festivais de música gauchesca dos anos 70 até hoje, muito se caminhou.

Mas será que o Rock de Galpão de Neto Fagundes, em escala micro (bem micro), equivale a Bob Dylan eletrificando o folk norte-americano nos anos 60? Ou a Gil e Caetano colocando guitarras na música brasileira, também naquela década, e lançando a Tropicália? Será que ainda está em tempo de mudar alguma coisa no nosso tradicional tradicionalismo tradicionalista - apenas cinqüenta aninhos depois? Que tal, tchê loco?