sábado, 9 de agosto de 2008

Palpitando

Viagem fotográfica em três paradas

José Antônio Silva


A tecnologia evolui, mas nenhuma linguagem “de massa” é realmente substituída por outra. Cinema, TV, holograma, imagens em movimento no computador e em outras mídias, nada disso acabou com a fotografia. Assim como o surgimento da fotografia, no século XIX não fez sucumbir a pintura. Verdade que a pintura, já à época, foi se afastando do academicismo realista e descobrindo novas visões. Mas o desenho e a pintura figurativos, ou mesmo hiper-realistas, continuam tendo vez, espaço e admiradores – e ao largo de manifestos sobre o fim da arte e assemelhados. O que parece óbvio é que, independente do suporte, qualquer manifestação artística ou comunicativa pode atingir e emocionar quem a observa, se tiver qualidade, “conteúdo” (vá lá), algum tipo de transcendência.

O que acontece é que as descobertas tecnológicas não têm, por si sós, o condão de abolir a capacidade de percepção e o que toca fundo em cada ser humano, provocados por obras de qualquer época – embora o poder da publicidade, o esforço de convencimento mercadológico da mídia, as adequações e escolhas elegidas pelos ditadores de modas e modismos consumistas, etc.

As novas tecnologias não raro são variações sobre o mesmo tema (e prometem mais do que podem entregar). Mas muitas vezes abrem novas perspectivas - ou facilitam o que artistas anteriores já haviam vislumbrado ou resolvido genialmente antes: por exemplo, a lente grande angular e a perspectiva esférica do desenho de Escher. O fato é que terminam por juntar-se às tecnologias e meios já existentes, ampliando o “arsenal” disponível. Tudo é acréscimo.

Estética política
Todas estas considerações só para falar de uma experiência estética-política-cultural, em três partes distintas, que tive a oportunidade de viver nesta semana que está acabando (dia 09 de agosto). Todas, sem trocadilho, focadas na boa e velha fotografia.

Comecei na segunda-feira, dia 04/08, com a abertura da Exposição sobre o Movimento Sem Terra no Rio Grande do Sul, no hall de entrada da Assembléia Legislativa/RS. Fotos em preto e branco captadas ao longo dos anos pelos repórteres-fotográficos Roberto Santos, Eduardo Quadros, Eduardo Seidel e Fernando Melgarejo. Ali, no resultado exposto, nota-se a ausência de tempo para calcular com rigor o enquadramento, o jogo de luz e sombra, o foco perfeito, a composição da cena: a missão – no caso, uma missão jornalística, e sem dúvida política – é a da denúncia. Por vezes, forma e conteúdo se encontram, e viram símbolo, como a foto do cartaz.

Trata-se de mostrar aquilo que é costumeiramente escamoteado da chamada “grande mídia”: o abandono de homens, mulheres e crianças sobrevivendo em barracas de lona preta ao lado de rodovias. A falta de reforma agrária, mas também a resistência, a alegria possível, o esforço para prosseguir. Ou o momento em que um sem-terra é jogado por entre os fios do arame farpado do latifúndio, por gaúchos pilchados e à cavalo, para os braços nada amistosos da Brigada Militar. Poderia ter como subtítulo: “Aquilo que você não vê no jornal”.

Gato e rato
Dia seguinte, noite de curtir as 80 fotos da Mostra Preto no Branco, do mestre Flávio Damm, no Margs. Mais que um foto-jornalista, um caçador do momento exato, do inesperado, do irônico ou do surreal no dia a dia. Na linha do guru Cartier Bresson, mas em trilha própria. As fotos expostas foram pinçadas pelo fotógrafo do seu baú que não deve ter fundo, em sua não menos extensa carreira de ladrão de imagens, por assim dizer (algumas são dos anos 40, as últimas do início do século XXI). Numa entrevista, ágil e esperto aos 80 anos, Damm confessou: “Eu fotografo como um gato, e me afasto como um rato”. Riso, estranhamento, comentário mudo sobre a sociedade, experimentação estética e principalmente o momento fugidio e irrepetível, lá estão. Imperdível. Tudo em filme e em preto e branco.

Natureza lisérgica
Corta! Casa de Cultura Érico Veríssimo, Espaço CEEE: na quinta-feira fui surpreendido pela força das imagens higtech de José Paiva, um mundo primitivo e natural, digitalizado e impresso em papel especial. Algumas cópias em grande dimensão. Viagem ao fundo dos tempos e aos mistérios da natureza. Detalhes de plantas, lagartos, animais selvagens e obscuros, caniços de banhado transformados em composições cubistas. O fundo de canions pouco visitados, imagens onde se pode perder, por alguns segundos, a noção de profundidade e escala. Tudo com cores e definição estonteantes, lisérgicas. Alta tecnologia de braços dados com objetivos estéticos e – por que não? - conservacionistas, captados em parques e reservas naturais do estado. No meio da exposição destes mundos inexplorados, Paiva entremeou alguns rostos populares – retratos de pescador, peão, etc - marcados em cada ruga por esta mesma natureza implacável. Era isso, e muito mais.

E ainda quero ver uma recém inaugurada exposição de fotojornalismo internacional, no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Pode ser que eu esteja enganado, mas fazia tempo que Porto Alegre não parava para olhar tantas e tão diferentes coleções de fotografia, abertas em várias direções e objetivos - ou, mais precisamente, objetivas.

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