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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Política a parte...


Rua da Praia da Música

Não é nenhum exagero dizer que um trecho de cento e poucos metros da Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre, entre a Avenida Borges de Medeiros e a Rua da Ladeira, podia ser chamado de Rua da Música. Que a Rua da Praia não tem praia, mas tem música.

Se não vejamos: num dia semana, sem chuva forte e em condições razoáveis de temperatura e pressão, por ali você caminha entre gêneros, ritmos, estilos, instrumentos, arranjos e vozes variadas – sem entrar necessariamente no mérito da qualidade.

Pode-se começar o passeio musical pela esquina com a Borges, com a apresentação de índios bolivianos fantasiados de peles-vermelhas norte-americanos, com roupas franjadas, mocassins e grandes cocares, interpretando El Condor Passa em flautas e tambores, amplificados por equipamento pesado.

Alguns metros adiante, um jovem bardo desfila sucessos do cancioneiro sertanejo-universitário a bordo de seu violão, repetindo falsetes e segundas vozes. Passe rápido.

Logo logo – ali em frente às Americanas – você pode escutar uma banda de reggae (bateria, guitarra, baixo e escaleta com bocal), com interpretações de clássicos do gênero e criações próprias, com direito a dreads e (quase) tudo mais.

Seguindo em frente no palco esticado da rua, direção à Ladeira, pare para ver e ouvir a competência de um quarteto (violões – um de 12 cordas, baixo e banjo) tacando-lhe pau em country music, blue grass e assemelhados.

Que tal um senhor paraguaio, a bordo de uma imensa harpa branca, escoltando seus CDs à venda, enquanto arpeja Recuerdos (El lago azul) de Ipacarai?

Siga adiante: na frente do Centro Cultural Erico Verissimo, sentado sob a vitrine, um solitário guitarrista de metal pesado arrebenta em riffs rapidíssimos, distorcidos e elevadíssimos. Viaje no som ou fuja imediatamente.

Porém, com certeza desvie de dois senhores colocados na frente da Farmácia do Edifício Santa Cruz. Um ameaça com uma gaitinha de boca, outro com um pandeiro. Mas – com todo o respeito - libere um cachê à dupla, para evitar que eles comecem. Nenhum dos dois toca nada solo, quanto mais em dupla.
 
Ao pé da Ladeira, um gaudério pilchado – botas, bombacha, violão, chapéu e bigode – tasca seu vozeirão no clássico Canto Alegretense. Não me perguntes onde fica.

E olha que eu nem citei o tradicional Zé da Folha, que manda clássicos do samba canção e do mundo romântico num velho violão e fazendo a melodia na boca, utilizando uma folha de árvore – e garantindo o ritmo num pandeiro amarrado ao pé.
 
Também não falei do violinista clássico que tasca vibratos e outras manhas em trechos de peças mais conhecidas – tipo Rapsódia Húngara ou o Bolero de Ravel - em levada frenética. No início, usava até gravata borboleta; agora relaxou, identificando-se com o seu público, e mantendo um olho no arco e o outro no chapéu que vai enchendo-se de moedas e notas de baixo valor.

E fecha-se o pano. Mas a rua, a música e a luta continuam.

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