quinta-feira, 30 de junho de 2016

Matar, matar, matar!





Perdido o ônibus do horário, embarquei num lotação com destino ao Centro da cidade. A calma da manhã nebulosa, na periferia, logo passou a ser metralhada pela voz do locutor da emissora sintonizada pelo motorista, em altos brados:

- Matar, matar, matar! Vagabundo não tem que prender, não! Tem é que matar!


Inebriado pela sua própria voz amplificada pelo rádio, o “comunicador” comunicava que tinha a saída perfeita para todos os problemas ligados à criminalidade.

-... passar com a moto em cima da cabeça do vagabundo!


Fiquei imaginando o poder daquela mensagem de ódio e crueldade despejada diuturnamente na cabeça não só do motorista do lotação, mas de toda a imensa população mais carente de educação, formação cultural e política, direito à informação de qualidade. 


A metralhadora vocal continuava despejando impunemente seu pente carregado de projéteis nos ouvidos de vagabundos e trabalhadores.

-...enterrar vivo, tem que enterrar vivo o vagabundo! 


Tendo uma espécie de orgasmo de sadismo, o locutor da morte avançava em seu delírio criminal.

- Polícia tem que matar, matar, matar, despejar bala neles! Polícia trabalha sério, trabalha para caramba, pro vagabundo andar solto por aí! Tem que pisar na cabeça do vagabundo até sair o cérebro, pisar na cabeça até sair o cérebro!


Imaginei se o Ministério Público, a Justiça, o Legislativo e o Executivo – com a ajuda de psiquiatras, sociólogos, especialistas de vários ramos do saber, não deveriam tomar pé e  providências sobre esta clara incitação à violência e ao assassinato, através das ondas de rádio e TV, que são concessões públicas. Meu próprio cérebro, no entanto, ainda que não estivesse vagabundeando, também começou a sentir uma imaginária sola de botina espremendo-o.


- Um grande abraço a todos os policiais civis e militares do Rio Grande do Sul – concluía o comunicador.

Ainda bem que o rádio perdeu a sintonia no viaduto e perdemos também a próxima ideia genial do fascismo encarnado no radialista, que não pensa em exigir melhor educação pública, igualdade social, combate ao racismo, oportunidades iguais a todos, cidadania, prisão, julgamento com liberdade de defesa, tratamento psicológico/psiquiátrico aos casos adequados e todos os outros direitos que fazem parte do cotidiano dos países menos desiguais e mais civilizados. 


Afinal, ele tem uma solução muito mais fácil e rápida para todos os problemas sociais e para a criminalidade, instaurando de vez a paz dos cemitérios.


Você sabe: Matar! Matar! Matar!


(Após a leitura, se possível poste um comentário. Obrigado)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Gil está melhor





Gil está melhor. Gil voltou para casa.

Gil sempre foi dos melhores.

Sempre esteve em casa (ao menos na minha), na vitrola, no palco, na estrada, nas palavras/letras, nas entrevistas e entreouvidas.

Viva Gil. Viva Cae. Viva Chico.

E todos os outros que nos representam e cantam pra nós, ajudando a desatá-los.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Uma névoa se apresenta




Uma névoa

se apresenta


Tento olhar o que está à frente.

Uma névoa se apresenta.

Acendo um farol.

Seu facho apenas ilumina a condensação.

Um jogo de volumes.

Brancos e cinzas.

Isto não pode ser tudo.



Dou um passo adiante.

O chão é irregular.

Exige atenção

(que retiro, em parte, da neblina).



Estico o braço.

A mão roça a umidade vazia.

Aperto os olhos:

irritação.

Neblina poluída.



Jogo uma pedra

ao espaço sem contorno.

Nem ruído.



Mas algo há.

Um ai.

Um oh.

Um argh.

Piso em frente.



Escorrego.

E já não paro

de cair.

Ao fundo.

Ao fundo.

Ao fundo.



Tateio o chão de pedregulhos.

O corpo mortificado.

Levanto o olhar ao céu

contaminado.



Gargalhada distante

me saúda.



Começo a escalada.



Por: José Antônio Silva




segunda-feira, 6 de junho de 2016

Política a parte...


Rua da Praia da Música

Não é nenhum exagero dizer que um trecho de cento e poucos metros da Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre, entre a Avenida Borges de Medeiros e a Rua da Ladeira, podia ser chamado de Rua da Música. Que a Rua da Praia não tem praia, mas tem música.

Se não vejamos: num dia semana, sem chuva forte e em condições razoáveis de temperatura e pressão, por ali você caminha entre gêneros, ritmos, estilos, instrumentos, arranjos e vozes variadas – sem entrar necessariamente no mérito da qualidade.

Pode-se começar o passeio musical pela esquina com a Borges, com a apresentação de índios bolivianos fantasiados de peles-vermelhas norte-americanos, com roupas franjadas, mocassins e grandes cocares, interpretando El Condor Passa em flautas e tambores, amplificados por equipamento pesado.

Alguns metros adiante, um jovem bardo desfila sucessos do cancioneiro sertanejo-universitário a bordo de seu violão, repetindo falsetes e segundas vozes. Passe rápido.

Logo logo – ali em frente às Americanas – você pode escutar uma banda de reggae (bateria, guitarra, baixo e escaleta com bocal), com interpretações de clássicos do gênero e criações próprias, com direito a dreads e (quase) tudo mais.

Seguindo em frente no palco esticado da rua, direção à Ladeira, pare para ver e ouvir a competência de um quarteto (violões – um de 12 cordas, baixo e banjo) tacando-lhe pau em country music, blue grass e assemelhados.

Que tal um senhor paraguaio, a bordo de uma imensa harpa branca, escoltando seus CDs à venda, enquanto arpeja Recuerdos (El lago azul) de Ipacarai?

Siga adiante: na frente do Centro Cultural Erico Verissimo, sentado sob a vitrine, um solitário guitarrista de metal pesado arrebenta em riffs rapidíssimos, distorcidos e elevadíssimos. Viaje no som ou fuja imediatamente.

Porém, com certeza desvie de dois senhores colocados na frente da Farmácia do Edifício Santa Cruz. Um ameaça com uma gaitinha de boca, outro com um pandeiro. Mas – com todo o respeito - libere um cachê à dupla, para evitar que eles comecem. Nenhum dos dois toca nada solo, quanto mais em dupla.
 
Ao pé da Ladeira, um gaudério pilchado – botas, bombacha, violão, chapéu e bigode – tasca seu vozeirão no clássico Canto Alegretense. Não me perguntes onde fica.

E olha que eu nem citei o tradicional Zé da Folha, que manda clássicos do samba canção e do mundo romântico num velho violão e fazendo a melodia na boca, utilizando uma folha de árvore – e garantindo o ritmo num pandeiro amarrado ao pé.
 
Também não falei do violinista clássico que tasca vibratos e outras manhas em trechos de peças mais conhecidas – tipo Rapsódia Húngara ou o Bolero de Ravel - em levada frenética. No início, usava até gravata borboleta; agora relaxou, identificando-se com o seu público, e mantendo um olho no arco e o outro no chapéu que vai enchendo-se de moedas e notas de baixo valor.

E fecha-se o pano. Mas a rua, a música e a luta continuam.