terça-feira, 2 de junho de 2015


Marin e a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar

José Antônio Silva

Este episódio todo envolvendo a Fifa, Conmebol, CBF e etc., com a prisão do José Maria Marin, não deixa de ser um ótimo exemplo da tal “ironia do destino”. É certo que a investida do FBI em plena Suíça é uma jogada ostentação dos EUA, mostrando que eles continuam mandando e desmandando no mundo, além de colocar mais uma pedra na chuteira da Rússia, que foi escolhida para sediar a Copa do Mundo de 2018 – uma definição que agora corre o risco de desandar.

Mas o fato é que é bom demais ver aquela procissão de velhos corruptos de todas as Américas saindo algemados do hotel suíço (mesmo que os funcionários da casa tenham tapado com lençóis a sua entrada no camburão).

Ao mesmo tempo, a ação torna obrigatória a reflexão: onde estava a tão decantada Polícia Federal brasileira nestes anos todos, que nada fez quanto à corrupção no planeta da bola verde-amarela? Afinal, até os pés de grama do Maracanã sabem da roubalheira e do tráfico de influências que há muito tempo – muito tempo mesmo – rolam, juntos com a bola, no campo da cartolagem.

Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin – temos no Brasil, no esfuziante mundo do futebol, uma escola de craques da roubalheira que não fica devendo nada à Cosa Nostra siciliana, à Ndrangheta calabresa, a Camorra napolitana.

Mas não foi somente a polícia brasileira que nunca viu nada de suspeito nos negócios biliardários dos donos da bola no Brasil. Também o Ministério Público, de modo geral, jamais foi a fundo nesse tipo de investigação – ao menos, que se ficasse sabendo.

E o que dizer da nossa brilhante “Grande Mídia”, sempre disposta a esbagaçar a classe política (ou os políticos de partidos que não estão acumpliciados com ela), mas jamais o mundo dos grandes negócios do futebol. Nunca se vê uma grande reportagem desmontando os contratos milionários, as negociatas de transmissão de campeonatos, os monopólios, as exclusividades... os arroubos poéticos e a promiscuidade afetivo-financeira dos galvões com ex-estrelas dos gramados...

Quase todo o jornalismo investigativo brasileiro (já nem falo do esportivo) fica devendo explicações por nunca ter calçado as botinas da desconfiança e entrado na arena para desmontar a desonestidade histórica da CBF e de suas co-irmãs das Américas do Sul, Central e do Norte – para não falar da Fifa. Claro, negócios são negócios. Aliás, uma das poucas exceções a isso, na imprensa nacional, atende pelo nome de Juca Kfouri. Este sempre denunciou e botou a boca no trombone sobre as maracutaias do esporte bretão em terras brasilis, desde os tempos de Havelange.

Mas iniciei este textinho me referindo a uma ironia do destino. E vou explicar. José Maria Marin, deputado da Arena e governador biônico de São Paulo, durante a ditadura militar, foi o responsável pela caça às bruxas na TV Cultura de São Paulo, em 1975, ao exigir providências para acabar com os “comunistas” que, segundo ele, tinham tomado conta da emissora, divulgando conteúdos subversivos.

O resultado da sua “denúncia” facistóide viu-se de imediato: tortura e assassinato do diretor de Jornalismo da TV, Vladimir Herzog, nas dependências do temível DOI-Codi, em instalações do II Exército.

Marin atravessou a ditadura, a redemocratização, os tempos de liberdade – durante décadas – sempre protegido e reverenciado, ao lado do poder e do dinheiro. Mesmo agora, com mais de 80 anos, rico e bajulado, mantinha-se fiel à desonestidade intrínseca e a hipocrisia, que, aliás, costumam andar juntas.

Antes de morrer, porém, está amargando neste momento a humilhação mundial de ser preso na Europa e puxar cana dura e interrogatório federal nos States. Vale a ironia do destino: como cantava Geraldo Vandré, naqueles idos dos anos 70, “é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.



Um comentário:

Oscar Simch disse...

Excelente, mais uma vez, irmãozinho. Abraços.