segunda-feira, 20 de abril de 2015



Da toca para dentro

José Antônio Silva

Da toca, com o focinho para fora, uma família de ratos sussurra, em guinchos curtos:
- Cuidado! Há cães lá fora...
- E um homem...

A rata move o rabo comprido, com nervosa determinação.
-....mas eu preciso ir... tenho que buscar comida...

Os ratinhos se amontoam ao redor da mãe. O avô, de longos bigodes grisalhos, corpulento mas alquebrado, cheio de dores, arremata:
- Ela tem razão, meninos. Já não temos mais comida. Sua mãe é a única de nós que pode trazer alguma coisa...

Guincha alto.
- O pai de vocês era um imprestável! Um vagabundo molenga! Tinha que ser morto logo por um gato imbecil, um maldito gato gordo de madame...

A rata tapa - com o rabo e as patas - as orelhas salientes da ninhada. Suspira.
- Papai, por favor! Olhe a linguagem. As crianças... Era meu marido, o pai deles... E eu ainda choro por ele...

O velho resmunga, tosse um pouco e senta sobre as grandes patas traseiras, dentro da caixa de sapatos, meio roída, que chama de cama à noite, e de poltrona durante o dia.

Depois de beijar os filhotes, a mãe enfia o nariz na amplidão do mundo, fora da toca. Olha para os lados, observa fixamente a luz que faz brilhar as casas não muito distantes. Traça uma rota mental.
E sai.

Ao anoitecer, ela deposita um pedaço de pão duro no meio do seu lar, aos pés da família.

Os ratinhos começam a roer imediatamente o alimento, entre guinchinhos curtos e excitados.

- Coma também, papai – convida mamãe rata.

Com um golpe da grande pata dianteira no ar - como quem diz: “ah, deixa pra lá’”-, o patriarca se acomoda de lado no caixão. Só ela presta atenção ao que ele diz, em voz entrecortada pela tosse.
- Pão? Pão engorda! E eu estou precisando mesmo entrar em forma.

E fecha os olhos.

A rata termina de raspar as migalhas que os filhos deixaram sobre a terra escavada, coberta de entulho, onde a família construiu sua morada. Come o que sobrou.

As crianças já dormem, alimentadas.

É, não foi tão mal hoje. Foi bem. Foi, foi um bom dia. 
- Não foi, papai? Papai?? Papai!

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