terça-feira, 26 de agosto de 2014



AA e o Mago

José Antônio Silva

A candidata ao governo do estado, AA, natural da RBS, confessou em entrevista a Juremir Machado da Silva que é muito intuitiva, e admira a obra de Paulo Coelho.
Vamos imaginar uma cena bastante improvável – a da vitória de AA para o governo estadual. Só um exercício de futurologia aplicada.

2017, 11 horas de uma noite de inverno. Depois de dois anos, o governo está – literalmente - cercado por manifestantes de todos os setores sociais, alarmados e revoltados com o alto índice de desemprego trazido pelo governo neolib, com o fim das políticas sociais, com o crescimento só-que-não,  o direcionamento dos recursos públicos apenas ao agronegócio e ao grande empresariado e setores especulativos, a volta dos pedágios abusivos, a política policialesca para tratar os trabalhadores.
A multidão se agita em torno do Palácio do governo.

Na ala residencial, à luz de velas, AA confabula com o Mago, que chegou em vôo especial fretado desde o Rio a Porto Alegre pelo governo do estado. Qual Rasputin da Rússia czarista ou Lopes Rega de Isabelita Perón, Coelho conjura a escuridão para aconselhar AA.

- O que devo fazer, mestre? - indaga a governadora, quase desgovernada.
- Siga o seu coração, querida – aconselha o sábio Coelho. – Você tem o poder supremo da intuição.

AA fecha os olhos. Todo o Rio Grande fica em suspenso.

Ao amanhecer, enquanto o avião que carrega o Mago de volta ao calor do  Rio (ou diretamente para seu refúgio na Suíça) passa sobre o delta do Guaíba,  o piloto ainda vê as chamas que se espalham pelo centro de Porto Alegre.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014



 O desapego, versão neolib

 José Antônio Silva

O discurso por vídeoconferência em que o presidente do Grupo RBS, “Duda” Melzer, anunciou friamente a demissão de 130 jornalistas nos próximos dias, é um exemplo de cinismo. Ou, se formos generosos, da forma alienada e irreal como um típico jovem empresário neoliberal vê o mundo: tudo são “oportunidades” para a empresa crescer, como um fim em si mesmo. 

Mas o que chama mais a atenção é o termo “desapegar”, que Melzer utilizou à vontade ao longo do texto. Sua utilização, aqui, representa o auge de uma desvirtuação de linguagem. Trata-se de um conceito de origem budista. Esta filosofia de vida, salvo engano, diz que, para evitar o sofrimento, é preciso ter consciência de que somos mortais e não vale a pena nos “apegarmos” a riquezas que são passageiras - e que mais nos prendem do que nos libertam, existencialmente.

A propaganda já vinha usando com excesso de liberalidade o termo “desapegar” – para vendermos bugigangas que não nos servem mais (claro que o verdadeiro “desapegar” seria daquilo pelo qual temos verdadeiro apego).

No caso da RBS, já vimos este filme em sessões anteriores. Demissões em massa. “Duda”, em seu discurso, trata os profissionais que vão para a degola sumária – alguns com mais de 20 anos de “casa” – com desapego no sentido neolib: bota pra rua o que já não rende tanto e não maximiza os lucros. E tem mais uma pérola de pragmatismo duríssimo na fala do presidente Melzer: a casa não irá investir “em coisas que não agregam”. Coisas?

Muitos dos jornalistas demitidos tinham desenvolvido grande envolvimento e apreço pela empresa, o que é natural (Millôr dizia que o dinheiro compra até amor verdadeiro, mas aqui é só uma piada).  

Enfim, para Melzer e companhia, trata-se apenas de fazer uma operação de limpeza na empresa pós-industrial, com “desapego” fácil e fake – só dói nos demitidos.
Aos jornalistas agora dispensados, em tom alegre e de crescimento empresarial, falta conseguirem se desapegar do contracheque no final do mês. Muitos deles, no próximo emprego (tomara que todos consigam), já terão aprendido a lição de “Duda”, e desenvolverão menor apego à futura “casa”. Já para os que agora entram na empresa, recebem tapinhas nas costas e são bombados nas políticas de TI da RBS, pode-se dizer – sem medo de errar: o dia de vocês também vai chegar. 

Comecem a se desapegar desde agora.