domingo, 2 de fevereiro de 2014

O esporte da escrita

José Antônio Silva

São regras não oficiais, mas implícitos modos de convivência, oferecimento e fruição entre autores e leitores. As formas curtas – contos, poemas, boutades, crônicas, trocadilhos – precisam necessariamente ter densidade e tensão em toda sua (pequena) duração, para cumprirem bem seu destino e seu papel. Afinal, têm pouco tempo e pouco espaço para justificarem a própria existência.

Já as novelas e romances podem se dar ao luxo de enrolarem o leitor por páginas e capítulos, mais ou menos frouxos, mais ou menos inspirados, desde que o leit motiv, o enredo, os personagens ou o clima construído pelo escritor capturem e hipnotizem sua vítima. Quando a estratagema do autor é bem sucedida, leva o desavisado ou desavisada a prosseguir no estudo do calhamaço, mesmo que coalhado de chavões, apesar de provocar alguns suspiros ou bocejos e um vago desagrado.

Um tipo de escritor é acrobata nas argolas ou no cavalo-de-pau. Tensão máxima, força, equilíbrio perfeito, elegância de movimentos e encerramento sem passo em falso. Um erro apenas pode acabar com toda a peça.

O romancista, em sua raia, é o nadador olímpico de 200 metros, que pode amenizar o ritmo por um segundo, se compensar a quebra nas voltas seguintes. Ou o corredor de longa distância, o maratonista que traça uma estratégia de alternância, entre pique e economia de energia, negaceio, aparente acomodação e conformismo na marcha do escalão intermediário até o surpreendente sprint da reta final.

Literatura é como todo o resto. As metáforas só servem para esconder – ou revelar – isso. E já é muito.


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