terça-feira, 15 de outubro de 2013



Caetano, Chico e as biografias não autorizadas

 

José Antônio Silva


Nunca achei que discordaria tanto de uma posição tomada pelo genial Chico Buarque, que costuma acertar não só em suas letras e músicas. Mas leio agora que Chico, mais outros artistas da primeiríssima linha da MPB – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto e Erasmo, Djavan – fundaram um grupo (infelizmente não musical), intitulado “Procure Saber”, para tentar impedir a publicação de biografias não autorizadas. Como todos estes mestres veteranos passaram pelos rigores do período ditatorial e da censura (à imprensa, às obras artísticas, aos livros), soa muito estranha esta obsessão em querer controlar tudo o que se escreve ou se escreverá sobre cada um deles.


“Autorização prévia” para uma biografia significa dizer: “Neste livro que tu estás escrevendo, só vai sair o que eu quiser que saia!”. Enfim, uma grande reportagem chapa-branca, apenas com uma seleção dos melhores momentos.


Claro que o mundo ideal seria o autor chegar a um acordo com seu biografado (ou com os herdeiros deste), para que o livro saísse sem paranóia de um lado, e compromissado com a verdade e a ética do outro.

Acho que um bom exemplo de algo assim é a biografia “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, escrito por Nelson Motta.  Amigo do “Síndico”, morto em 1998, aos 56 anos, com muitíssimos quilos de talento, Motta tinha a confiança da família do cantor, e os altos e baixos de sua carreira e vida estão todos ali. Mas mesmo as verdades desagradáveis ali são ditas com respeito e bom humor, correspondendo ao afeto que tinha pelo grande artista falecido e ao crédito que foi depositado nele, biógrafo.


E se o escritor não merecer essa confiança e inventar, distorcer, criar escândalos e factóides para bombar a divulgação e venda de seu livro? A regra é clara: os familiares e detentores dos direitos da obra do biografado podem entrar na Justiça e solicitar a retirada do livro do mercado, retratação, indenização por perdas e danos, etc.


Mas, liderados com fúria santa pela ex-senhora Veloso, Paula Lavigne, o grupo “Procure Saber” não quer saber. Como explica matéria da Folha de S. Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1352167-gil-e-caetano-se-juntam-a-roberto-carlos-contra-biografias-nao-autorizadas.shtml), a Associação Nacional dos Editores de Livros move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF questionando artigos do Código Civil que impedem a publicação de biografias sem a autorização prévia dos biografados ou herdeiros. Por isso, Lavigne quer registrar o “Procure Saber” como associação, obtendo assim status legal de “interessada na causa” junto ao Supremo.


Autores e jornalistas que se dedicam ao gênero, como Lira Neto, Ruy Castro, Fernando Morais e outros têm, claro, se manifestado contra a pretensão dos retratáveis, seus herdeiros e representantes.


Enquanto nada muda, os fãs não poderão conhecer, por exemplo, os detalhes do Rei (sua biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César de Araújo - capa na foto acima -, foi retirada das livrarias por ordem judicial). Ou os sertões interiores de Guimarães Rosa (“Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de Guimarães Rosa”, de Alaor Barbosa, também não pode). Ou ainda a vida sem queixa nem queixo (essa foi braba!) do formatador do samba, em “Noel Rosa – uma Biografia”, pelos craques João Máximo e Carlos Didier, que também está censurada. Ah, igualmente “Lampião, o Mata Sete”, não pode ser vendida nas boas livrarias do país. Afinal, poderia prejudicar a imagem do bandoleiro.


Só para confirmar: esse Caetano Veloso do “Procure Saber” (mas não procure muito), é o mesmo que uma vez, em plena ditadura, disse que “é proibido proibir”?



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