terça-feira, 16 de julho de 2013


Os jovens médicos e os cafundós do Brasil

José Antônio Silva

A reação raivosa de jovens médicos e de suas associações de classe, frente às decisões de governo de contratar médicos estrangeiros para trabalharem nos cafundós do país, aonde a maioria dos novos profissionais não quer ir (mesmo com altos salários, para desespero de prefeitos e de suas comunidades); assim como o anúncio de que os novos terão que fazer residência de dois anos no sistema do SUS...  A manifestação irada e claramente elitista de grande parte dos novos médicos a estas medidas é muita reveladora.

Revela, principalmente, o quanto o exercício da medicina se tornou cada vez menos um trabalho realmente vocacionado e voltado ao atendimento do sofrimento alheio, de acordo com o milenar – mas atualíssimo! – Juramento de Hipócrates, e muito mais uma profissão para enriquecer e para ser exercida por super-especialistas com super-máquinas, que não saberão, sequer, tratar de uma perna quebrada, em algum posto de saúde da periferia.

Lembro do meu avô, Carlos Alfredo Simch, que no interior de São Jerônimo, Butiá, Triunfo, atravessava a noite em estradas de terra, a cavalo ou de carro, para atender um parto difícil num rancho distante. Para “encanar” o braço de um peão atingido por um coice de boi; para aliviar o sofrimento de alguém atacado pelas moradoras de uma colméia de abelhas ou para operar um vivente, em situação de emergência, a luz de lampião. Perguntem à população o quanto ele (e dezenas, centenas ou milhares de médicos como ele, por todo o Brasil) era útil e querido por todos!

Ou – para atualizar o papo – vejam o trabalho importantíssimo desempenhado pelos Médicos Sem Fronteira, em acampamentos no deserto, em montanhas inóspitas, em selvas e em zonas de guerra, catástrofes, massacres... E eles lá, compensando a falta de melhor equipamento com interesse real, salvando crianças e adultos feridos a bala, por minas terrestres, por gases tóxicos, ou pela fome, a sede, a diarréia, por carrapatos, por infecções oportunistas...  Como são efetivos e eficientes, mesmo nas piores condições.

Corta para jovens médicos, que querem sair da faculdade, em seus carrões,
 direto para a super-especialização, para o exercício de uma medicina que, necessariamente, só poderá ser praticada em centros médicos de excelência. É ótimo, claro, que existam profissionais habilitados para isso, de modo que os pacientes de casos complexos possam ser tratados. E o resto?

Não, este não pode ser o alvo preferencial da maioria dos médicos que hoje saem das universidades brasileiras. Como disse o decano dos cardiologistas do país e ex-ministro da Saúde Adib Jatene: “Precisamos de médicos que sejam especialistas em gente!”. E se hoje o que se vê, majoritariamente, é o contrário disso, não será por acaso – tem causas históricas. 

Esta elitização crescente da categoria irrompe e coincide, historicamente, com o avalanche neoliberal dos anos 80 e 90, que ditou os rumos do mundo desde então. O consumismo e a ostentação tomaram o lugar de valores, que eles provavelmente consideram fora de moda, como solidariedade e interesse social. Mesmo que o modelo desgovernado do neolib tenha afundado grande parte do mundo (a começar da Europa e EUA), em grave crise, seus conceitos ainda são pregados e defendidos, de modo natural, pela mídia, por universidades, setores políticos e empresas influentes.

Agora, ao serem questionados sobre a opção preferencial de ficar nos grandes centros (e em grandes hospitais), os jovens e nem tão jovens médicos descarregam uma série de argumentos frágeis (“não adianta ir para um lugar sem condições de atendimento...”) ou generalizantes e sem foco (“faltam investimentos adequados em saúde” – e não adianta dizer o quanto vem sendo investido pelo poder público no SUS na última década).

O fato, concreto, é que não apenas não querem deixar o conforto, as mordomias e toda a superestrutura dos grandes centros, para dar apoio e vida à população necessitada lá na ponta pobre do processo, mas também fazem cerrada oposição à vinda de médicos estrangeiros. Ou seja, praticam, corporativamente, uma defesa de “reserva de mercado” – mas para um “mercado” que, na verdade, desprezam e do qual querem distância!

Enfim, eles se se acham up to date, na (pós) modernidade. Mas vejam bem: no Reino Unido os novos médicos precisam passar dois anos pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS), que pode alocá-los onde seja mais necessário... Ah, sim: lá na Inglaterra, 37% dos médicos são estrangeiros – e ninguém está chiando.

O azar desta grande parcela dos nossos jovens doutores é que eles e suas associações corporativas estão isolados nesta posição – embora tenham aliados poderosos. Mas a sociedade, que cerca a todos, apenas observa.