quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bolsa Família – os dois discursos da reação




José Antônio Silva



O tratamento dado pela oposição ao Bolsa Família (e a outros programas federais e estaduais de combate à miséria e redução da desigualdade) é esquizofrênico. O assunto voltou à tona com esta recente campanha terrorista dizendo que o Governo iria suspender o BF (a “culpa” seria da Caixa Econômica, ao trocar uma data de pagamento...). A abordagem atucanada varia conforme o público a que se dirige. Quando querem “falar mais ao povo” (como pregou seu guru FHC, e como faz agora Aécio Neves em seu programa eleitoral), dizem que foram eles que criaram o programa (na verdade, FHC criou o Bolsa Escola, de abrangência muito menor). Enfim.



Já quando se dirigem ao grande empresariado e aos setores mais conservadores da classe média brasileira, os tucanos, democaricatas e assemelhados baixam o cacete nos programas sociais. Aí, tudo passa a ser “esmola”, “populismo”, além de merecer algumas expressões impublicáveis.



O argumento mais batido: é preciso dar mais “educação” à população carente, para que ela siga em frente com as próprias pernas. Bom, trata-se de uma platitude que, por si mesma, não leva ninguém a lugar nenhum. Pois, os números confirmam, isso já está sendo feito. Em dez anos, os governos petistas e seus aliados criaram 14 universidades federais, e centenas de escolas técnicas em todo o país. Sem falar que o próprio Bolsa Família, para ser pago às famílias necessitadas, exige, entre outras condições, que as crianças estejam matriculadas e frequentando a escola.



Evidentemente que há ainda muito a ser resolvido, ampliado, melhorado. No entanto, os argumentos da oposição - tantas vezes vazios ou distorcidos pelo ódio de classe, embora enfeitados com um ar de indignação - não mudam a percepção do povo.



O pensamento reacionário (que não ousa pronunciar em público, com todas as letras, o próprio nome), quereria que se criasse de uma hora para outra um sistema educacional perfeito que, por si só, sem necessidade de programas e ações afirmativas, resolveria ao natural a questão de integração das massas de deserdados à cidadania plena. Engraçado que este caminho “natural” nunca surtiu o efeito agora apontado como solução, em mais de 100 anos de república brasileira (incluindo oito tuca-anos no governo federal).



Para os conservadores, seria questão, talvez, de apenas mais uns 50, 60 ou 80 anos? Quem sabe... Claro, nesse meio tempo várias gerações de brasileiros e brasileiras, como os pais e avós das gerações atuais, viveriam vidas curtas, miseráveis e incompletas – mas sem os atalhos “injustos” que tanto revoltam quem sempre teve tudo.



A verdade: se fossem suspensos o Bolsa Família, o ProUni, o sistema de cotas para negros/pobres/índios na universidade e outros programas sociais e ações afirmativas, além do esforço educacional que vem sendo feito, o Brasil das elites – que sempre se sentiu perfeitamente à vontade no sistema casa grande e senzala - entraria num túnel de trevas em direção ao passado, a pior exclusão e a condições escravagistas.



Será que é esse – bem lá fundo, onde alguns deles sequer alcançam - o grande plano da oposição de direita?

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito lúcido e atual o seu texto sobre a "bolsa-família" e a reação.
Essa gente acha que todos estão em um mesmo patamar sócio-econômico e cada um deve "vencer na vida" exclusivamente por mérito, que tudo é uma questão de oportunidade e competência individual. Isso é a prova de como funciona o discurso ideológico na prática: não existe mais classe social nem burguesia que manipula o capital. Então, beneficiar algumas pessoas com políticas públicas é simplesmente romper com a igualdade básica e discriminar a sociedade como um todo. Há que se ler ainda "O Pensamento de Direita, Hoje", de Simone de Beauvoir.É dos fim dos anos cinquenta da século passado, mas permanece atualíssimo.

dois Santos dos Santos

José Antônio Silva disse...

Boa lembrança do livro de Simone de Beuauvoir, dois Santos. Aliás, este conceito da competência puramente individual é atualíssimos até mesmo porque foi renovado pelo neoliberalismo. Por exemplo,se você está desempregado, mesmo num contexto de recessão, a culpa seria puramente sua.
Um abraço!