quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O  presidenciável e o helicóptero do pó

José Antônio Silva


Um presidente razoavelmente jovem, considerado boa pinta, suspeito de envolvimento com tráfico de drogas e outras corrupções – e que termina sofrendo pressões por impeachment, perda de direitos políticos, ameaça de prisão, etc. Quem lembrou do “caçador de marajás” Fernando Collor acertou no perfil. Mas comprovando que a ficção imita ou até antecede a vida, o ótimo seriado chileno “Profugos”, no canal HBO, tem em um de seus pólos dramáticos uma ministra de estado e um jovem presidente (o ator Francisco Melo), que se envolvem até o limite com o crime mais ou menos organizado. Porém, quem pensou em Aécio Neves, presidenciável do PSDB, também acertou no perfil e no que poderia acontecer, no futuro, caso o tucano mineiro chegasse ao poder maior no Brasil.

Afinal (e aqui se trata apenas de uma livre especulação, baseada em vários fatos e antecedentes), Aécio Neves, tido e fotografado como eterno play boy e bon vivant, é amigo do senador Zezé Perrela (PDT), dono do helicóptero do pó, aprendido em sua fazenda, carregado com meia tonelada de cocaína. À falta de mordomo, a culpa foi para o amigo do piloto.

Perrela, cujo gabinete senatorial pagava as despesas de combustível do helicóptero particular de seu filho, o jovem deputado Gustavo (também amigo do presidenciável tucano), tem fortes vínculos com Aecinho. O Ministério Público/MG investiga três repasses – sem licitação - do então governador mineiro para a empresa agropecuária Limeira, de Perrela, em 2009, 2010 e 2011. Fazenda, aliás, também investigada por ter sido omitida na relação de bens de Perrela.

Sabe-se que Aécio tem uma carreira (política) muito inspirada. Com tudo isso, causa até constrangimento a superficialidade e as omissões do noticiário sobre o escândalo do helicóptero do pó, na grande mídia. Cabe perfeitamente imaginar como o tema não seria tratado nas TVs, rádios, na Veja e na/no Globo se o jovem presidenciável envolvido nesta íntima relação com suspeitos de tráfico internacional de cocaína fosse petista...

Se o jornalismo oficial não dá conta, hoje fica para blogs movidos à coragem, competência e indignação (como o  http://www.pragmatismopolitico.com.br/ ),   ou para a ficção, como o citado “Profugos”,  o trabalho de investigar, montar peças e apresentar alguma conclusão desse tipo de bandalheira com o dinheiro público.










sexta-feira, 6 de dezembro de 2013


Na trilha de Mandela, Luther King e Ghandi

 

José Antônio Silva

 

Dizer que Nelson Madiba Mandela foi um grande herói é muito justo, mas é pouco. Eu o comparo a outros poucos homens de coragem, determinação inquebrantável e – o que nem todo o herói possui, por melhores que sejam suas intenções – uma imensa tolerância. Tolerância ao sofrimento que lhe impôs o racismo, os quase 30 anos de prisão, a violência do isolamento, a doença que o abateu nos últimos anos. E tolerância também com os que pensavam e agiam de modo injusto, discriminatório e autoritário.

 

Mas sua tolerância, que ninguém se engane, era equilibrada com a luta e a resistência – para não recuar um só passo em suas convicções, conquistas e ações.  Tinha consciência que se fizesse a luta armada, mergulharia o país numa guerra civil com muitos milhares de mortos, especialmente do lado mais fraco. E sabia que a justiça, em seu sentido maior e essencial, estava com ele, e triunfaria. Mandela superou a divisão do país, baseada no regime do “apartheid”, uniu a África do Sul e tornou-se o seu presidente.

 

Coloco a figura de Mandela junto a de Mohandas Gandhi, o pacifista que aplicou o princípio da não-violência (Satyagraha) e da desobediência civil  e conquistou, simplesmente, a independência da Índia do domínio britânico. Também situo, em patamar semelhante, o líder religioso norte-americano Martin Luther King, que emprestou sua força moral e seu espírito visionário à luta contra a discriminação racial e às más condições em que vivia grande parte da população negra nos EUA. Sua voz – e o seu sonho –foram a inspiração das marchas pelos direitos civis. Assim, como Ghandi, ele morreu assassinado. Mas pode-se dizer que sua luta teve sucesso – e hoje, com seus erros e acertos, há um negro na presidência do país mais poderoso da Terra.

 

Imagine, em outra escala, que não seria um exagero muito grande lembrar a figura do músico John Lennon nesta galeria de militantes sociais da paz. Cada um a seu modo, eles provaram que é possível que mudar a sociedade sem disparar um só tiro – mas dificilmente sem recebê-lo.

 

Mandela, Ghandi e Luther King mostraram ao mundo - branco e injusto -que a força moral, o senso de justiça e a razão superior podem dobrar o poder bruto das armas e da iniqüidade. E essa lição já não pode mais ser esquecida.

 

terça-feira, 15 de outubro de 2013



Caetano, Chico e as biografias não autorizadas

 

José Antônio Silva


Nunca achei que discordaria tanto de uma posição tomada pelo genial Chico Buarque, que costuma acertar não só em suas letras e músicas. Mas leio agora que Chico, mais outros artistas da primeiríssima linha da MPB – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto e Erasmo, Djavan – fundaram um grupo (infelizmente não musical), intitulado “Procure Saber”, para tentar impedir a publicação de biografias não autorizadas. Como todos estes mestres veteranos passaram pelos rigores do período ditatorial e da censura (à imprensa, às obras artísticas, aos livros), soa muito estranha esta obsessão em querer controlar tudo o que se escreve ou se escreverá sobre cada um deles.


“Autorização prévia” para uma biografia significa dizer: “Neste livro que tu estás escrevendo, só vai sair o que eu quiser que saia!”. Enfim, uma grande reportagem chapa-branca, apenas com uma seleção dos melhores momentos.


Claro que o mundo ideal seria o autor chegar a um acordo com seu biografado (ou com os herdeiros deste), para que o livro saísse sem paranóia de um lado, e compromissado com a verdade e a ética do outro.

Acho que um bom exemplo de algo assim é a biografia “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, escrito por Nelson Motta.  Amigo do “Síndico”, morto em 1998, aos 56 anos, com muitíssimos quilos de talento, Motta tinha a confiança da família do cantor, e os altos e baixos de sua carreira e vida estão todos ali. Mas mesmo as verdades desagradáveis ali são ditas com respeito e bom humor, correspondendo ao afeto que tinha pelo grande artista falecido e ao crédito que foi depositado nele, biógrafo.


E se o escritor não merecer essa confiança e inventar, distorcer, criar escândalos e factóides para bombar a divulgação e venda de seu livro? A regra é clara: os familiares e detentores dos direitos da obra do biografado podem entrar na Justiça e solicitar a retirada do livro do mercado, retratação, indenização por perdas e danos, etc.


Mas, liderados com fúria santa pela ex-senhora Veloso, Paula Lavigne, o grupo “Procure Saber” não quer saber. Como explica matéria da Folha de S. Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1352167-gil-e-caetano-se-juntam-a-roberto-carlos-contra-biografias-nao-autorizadas.shtml), a Associação Nacional dos Editores de Livros move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF questionando artigos do Código Civil que impedem a publicação de biografias sem a autorização prévia dos biografados ou herdeiros. Por isso, Lavigne quer registrar o “Procure Saber” como associação, obtendo assim status legal de “interessada na causa” junto ao Supremo.


Autores e jornalistas que se dedicam ao gênero, como Lira Neto, Ruy Castro, Fernando Morais e outros têm, claro, se manifestado contra a pretensão dos retratáveis, seus herdeiros e representantes.


Enquanto nada muda, os fãs não poderão conhecer, por exemplo, os detalhes do Rei (sua biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César de Araújo - capa na foto acima -, foi retirada das livrarias por ordem judicial). Ou os sertões interiores de Guimarães Rosa (“Sinfonia Minas Gerais: A vida e a literatura de Guimarães Rosa”, de Alaor Barbosa, também não pode). Ou ainda a vida sem queixa nem queixo (essa foi braba!) do formatador do samba, em “Noel Rosa – uma Biografia”, pelos craques João Máximo e Carlos Didier, que também está censurada. Ah, igualmente “Lampião, o Mata Sete”, não pode ser vendida nas boas livrarias do país. Afinal, poderia prejudicar a imagem do bandoleiro.


Só para confirmar: esse Caetano Veloso do “Procure Saber” (mas não procure muito), é o mesmo que uma vez, em plena ditadura, disse que “é proibido proibir”?



terça-feira, 13 de agosto de 2013

O paradigma Amarildo e o espírito de porco - digo, de corpo


José Antônio Silva
 

 Vimos recentemente, na tela da TV, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro chamando às falas o comandante da Polícia Militar por ter concedido anistia a vários PMs envolvidos em crimes de “menor gravidade”, ou algo assim. Muito bem. Mas parece que este espírito de porco, digo, espírito de corpo da PM, é uma amostragem dos locais em que costuma encarnar a entidade do mal chamada de Arbítrio ou que, em qualquer encruzilhada mal iluminada da vida, atende por Covardia. A polícia do Rio encara com normalidade o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, que foi levado para “averiguação”, pelos pms, ao posto da “Polícia Pacificadora” da Rocinha. E nunca mais.

Afinal, seria mais um episódio corriqueiro de violência exagerada contra os pretos/pardos/pobres/da periferia. A rapaziada de farda (também P/P/P/P, mas com licença histórica das elites para esculachar e matar seus irmãos) apenas pegou pesado demais, desta vez. Acontece, né?

Só que não. O Brasil vive dias de mudança – que vão da inserção social de milhões de deserdados até os protestos de rua contra tudo o que as autoridades de todos os níveis deixaram de fazer.

O desaparecimento do pai de seis filhos e trabalhador braçal Amarildo vira símbolo do que já não se aceita no Brasil, neste momento em que até a roubalheira de 20 anos, de incalculáveis milhões de dólares, de quatro governos do PSDB em São Paulo, vem à tona. O megadesfalque tucano agora bóia nos noticiários, qual sólidos troços de cocô no valão da favela.

Atravessamos dias de qualificação das mudanças positivas que vêm acontecendo no Brasil desde o início dos anos 2000. É a justiça – inclusive criminal e cidadã – chegando à favela, junto com o Minha Casa Minha Vida. O caso Amarildo passa a ser um paradigma das transformações. Se bem resolvido, com responsabilidades apuradas e culpados presos, pode significar que, finalmente, os fantasmas da velha ditadura e da exclusão estão sendo banidos, um a um, do astral do país.

Mas, para exorcizar este mal, tem que ser muito forte o trabalho e o barulho da cidadania.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Destino, como queríamos demonstrar

Tecemos nossa própria trajetória, com atos e omissões. Mas estes e aquelas são determinados, em boa parte, pelo inconsciente. O que talvez também possa ser chamado de destino.

terça-feira, 16 de julho de 2013


Os jovens médicos e os cafundós do Brasil

José Antônio Silva

A reação raivosa de jovens médicos e de suas associações de classe, frente às decisões de governo de contratar médicos estrangeiros para trabalharem nos cafundós do país, aonde a maioria dos novos profissionais não quer ir (mesmo com altos salários, para desespero de prefeitos e de suas comunidades); assim como o anúncio de que os novos terão que fazer residência de dois anos no sistema do SUS...  A manifestação irada e claramente elitista de grande parte dos novos médicos a estas medidas é muita reveladora.

Revela, principalmente, o quanto o exercício da medicina se tornou cada vez menos um trabalho realmente vocacionado e voltado ao atendimento do sofrimento alheio, de acordo com o milenar – mas atualíssimo! – Juramento de Hipócrates, e muito mais uma profissão para enriquecer e para ser exercida por super-especialistas com super-máquinas, que não saberão, sequer, tratar de uma perna quebrada, em algum posto de saúde da periferia.

Lembro do meu avô, Carlos Alfredo Simch, que no interior de São Jerônimo, Butiá, Triunfo, atravessava a noite em estradas de terra, a cavalo ou de carro, para atender um parto difícil num rancho distante. Para “encanar” o braço de um peão atingido por um coice de boi; para aliviar o sofrimento de alguém atacado pelas moradoras de uma colméia de abelhas ou para operar um vivente, em situação de emergência, a luz de lampião. Perguntem à população o quanto ele (e dezenas, centenas ou milhares de médicos como ele, por todo o Brasil) era útil e querido por todos!

Ou – para atualizar o papo – vejam o trabalho importantíssimo desempenhado pelos Médicos Sem Fronteira, em acampamentos no deserto, em montanhas inóspitas, em selvas e em zonas de guerra, catástrofes, massacres... E eles lá, compensando a falta de melhor equipamento com interesse real, salvando crianças e adultos feridos a bala, por minas terrestres, por gases tóxicos, ou pela fome, a sede, a diarréia, por carrapatos, por infecções oportunistas...  Como são efetivos e eficientes, mesmo nas piores condições.

Corta para jovens médicos, que querem sair da faculdade, em seus carrões,
 direto para a super-especialização, para o exercício de uma medicina que, necessariamente, só poderá ser praticada em centros médicos de excelência. É ótimo, claro, que existam profissionais habilitados para isso, de modo que os pacientes de casos complexos possam ser tratados. E o resto?

Não, este não pode ser o alvo preferencial da maioria dos médicos que hoje saem das universidades brasileiras. Como disse o decano dos cardiologistas do país e ex-ministro da Saúde Adib Jatene: “Precisamos de médicos que sejam especialistas em gente!”. E se hoje o que se vê, majoritariamente, é o contrário disso, não será por acaso – tem causas históricas. 

Esta elitização crescente da categoria irrompe e coincide, historicamente, com o avalanche neoliberal dos anos 80 e 90, que ditou os rumos do mundo desde então. O consumismo e a ostentação tomaram o lugar de valores, que eles provavelmente consideram fora de moda, como solidariedade e interesse social. Mesmo que o modelo desgovernado do neolib tenha afundado grande parte do mundo (a começar da Europa e EUA), em grave crise, seus conceitos ainda são pregados e defendidos, de modo natural, pela mídia, por universidades, setores políticos e empresas influentes.

Agora, ao serem questionados sobre a opção preferencial de ficar nos grandes centros (e em grandes hospitais), os jovens e nem tão jovens médicos descarregam uma série de argumentos frágeis (“não adianta ir para um lugar sem condições de atendimento...”) ou generalizantes e sem foco (“faltam investimentos adequados em saúde” – e não adianta dizer o quanto vem sendo investido pelo poder público no SUS na última década).

O fato, concreto, é que não apenas não querem deixar o conforto, as mordomias e toda a superestrutura dos grandes centros, para dar apoio e vida à população necessitada lá na ponta pobre do processo, mas também fazem cerrada oposição à vinda de médicos estrangeiros. Ou seja, praticam, corporativamente, uma defesa de “reserva de mercado” – mas para um “mercado” que, na verdade, desprezam e do qual querem distância!

Enfim, eles se se acham up to date, na (pós) modernidade. Mas vejam bem: no Reino Unido os novos médicos precisam passar dois anos pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS), que pode alocá-los onde seja mais necessário... Ah, sim: lá na Inglaterra, 37% dos médicos são estrangeiros – e ninguém está chiando.

O azar desta grande parcela dos nossos jovens doutores é que eles e suas associações corporativas estão isolados nesta posição – embora tenham aliados poderosos. Mas a sociedade, que cerca a todos, apenas observa.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Poetando


Adriane, Rosa, Ernesto, Ismália, Sidnei e Rosa

 José Antônio Silva

Adriane
achou uma bala perdida
mas o sabor não lhe agradou
e na calçada a descartou.

Rosa
porém foi colhida
bem no meio do Jardim
- o coletivo Zona Norte
a arrastou metros sem fim
que colidiram com a morte.

Ernesto
pai de Adriane e marido de Rosa
casou-se com a amante sua:

Ismália
que conversava com pássaros
e de quando em vez
voava nua.

Adriane
cursou Secretariado
e fez Mandarim em Pequim.
Na volta conheceu Sidnei
e hoje perfuma
a pequena Rosa
num loft do bairro Jardim.

Ernesto
aposentou-se das vendas
e não conversa com pássaros
mas sempre murmura sozinho
- saudoso de Ismália
que num domingo alçou vôo
e nunca voltou ao ninho.

Sidnei
levou um tiro
ao entrar no condomínio
mas foi fogo de raspão
e disso ele já não fala
- hoje tudo é só história
perdida que nem a bala.






quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bolsa Família – os dois discursos da reação




José Antônio Silva



O tratamento dado pela oposição ao Bolsa Família (e a outros programas federais e estaduais de combate à miséria e redução da desigualdade) é esquizofrênico. O assunto voltou à tona com esta recente campanha terrorista dizendo que o Governo iria suspender o BF (a “culpa” seria da Caixa Econômica, ao trocar uma data de pagamento...). A abordagem atucanada varia conforme o público a que se dirige. Quando querem “falar mais ao povo” (como pregou seu guru FHC, e como faz agora Aécio Neves em seu programa eleitoral), dizem que foram eles que criaram o programa (na verdade, FHC criou o Bolsa Escola, de abrangência muito menor). Enfim.



Já quando se dirigem ao grande empresariado e aos setores mais conservadores da classe média brasileira, os tucanos, democaricatas e assemelhados baixam o cacete nos programas sociais. Aí, tudo passa a ser “esmola”, “populismo”, além de merecer algumas expressões impublicáveis.



O argumento mais batido: é preciso dar mais “educação” à população carente, para que ela siga em frente com as próprias pernas. Bom, trata-se de uma platitude que, por si mesma, não leva ninguém a lugar nenhum. Pois, os números confirmam, isso já está sendo feito. Em dez anos, os governos petistas e seus aliados criaram 14 universidades federais, e centenas de escolas técnicas em todo o país. Sem falar que o próprio Bolsa Família, para ser pago às famílias necessitadas, exige, entre outras condições, que as crianças estejam matriculadas e frequentando a escola.



Evidentemente que há ainda muito a ser resolvido, ampliado, melhorado. No entanto, os argumentos da oposição - tantas vezes vazios ou distorcidos pelo ódio de classe, embora enfeitados com um ar de indignação - não mudam a percepção do povo.



O pensamento reacionário (que não ousa pronunciar em público, com todas as letras, o próprio nome), quereria que se criasse de uma hora para outra um sistema educacional perfeito que, por si só, sem necessidade de programas e ações afirmativas, resolveria ao natural a questão de integração das massas de deserdados à cidadania plena. Engraçado que este caminho “natural” nunca surtiu o efeito agora apontado como solução, em mais de 100 anos de república brasileira (incluindo oito tuca-anos no governo federal).



Para os conservadores, seria questão, talvez, de apenas mais uns 50, 60 ou 80 anos? Quem sabe... Claro, nesse meio tempo várias gerações de brasileiros e brasileiras, como os pais e avós das gerações atuais, viveriam vidas curtas, miseráveis e incompletas – mas sem os atalhos “injustos” que tanto revoltam quem sempre teve tudo.



A verdade: se fossem suspensos o Bolsa Família, o ProUni, o sistema de cotas para negros/pobres/índios na universidade e outros programas sociais e ações afirmativas, além do esforço educacional que vem sendo feito, o Brasil das elites – que sempre se sentiu perfeitamente à vontade no sistema casa grande e senzala - entraria num túnel de trevas em direção ao passado, a pior exclusão e a condições escravagistas.



Será que é esse – bem lá fundo, onde alguns deles sequer alcançam - o grande plano da oposição de direita?

domingo, 28 de abril de 2013

Poetando - Vagar em Macau


Olha só:
Aqui vai uma poesia não propriamente escrita, e sim montada por mim, como um lance de dados. Dados em forma de palavras e frases aleatórias que recolhi anteriormente e anotei, sem tema nem tino. 

Estas as palavras que ajuntei e me desafiavam:
Chicana – era fatal: desatinou – reverendo – ofegar – esmola – linha do mar – pinel – peitinhos – caminhar incessante – pulsação – voz macia – revirando – Macau – literatura circular – falar português – os perfumes da cidade – pilhagem – conselho – vai chover – procissão – ponta-cabeça – vagar – adormecida – vou.

Ficou assim (mas poderia ter ficado assado):

Vagar em Macau

José Antônio Silva

Meus olhos
da linha do mar
saltaram aos peitinhos orgulhosos
em caminhar incessante
entre os perfumes da cidade
a ofegar
.............
A mansidão adormecida
da tarde em leve brisa
de Macau
neste mês
me pegou meio pinel
a escutar tua voz macia
- Eu também falar português...
.....................
Era fatal – desatinou a historia                                   
nesta primeira vez
em viagem-pilhagem
aos desvãos da
língua-mãe
achei uma filha do tempo
deusa china
prima no verbo luso
................
Apelei para a chicana
a malandragem
mas saiu apenas
- Será que vai chover?
Ela sorriu
una e sábia com seus peitinhos
sob a seda
e revirando o olhar
ao céu
ao leu
me lançou sua esmola
- Só se tu quiseres...
Ampliou-se a pulsação
- Podemos caminhar...
..........................
Pela avenida
não distante
ia a procissão
dos mandarins e
dos aventureiros
- reverendo à frente -
de além mar
virando a lógica
de ponta-cabeça
................
Ela me sacudiu
- Vou seguir o teu conselho
Caminhar!
nos demos as mãos
e enfim
nos acostamos
em seu pequeno quarto
aonde nos conhecemos
até que a moça
virasse bela adormecida
e eu novamente
desperto e só
a vagar
por esta rarefeita
literatura circular.





terça-feira, 16 de abril de 2013

Poetando


Meu deus dos sábados

José Antônio Silva

O deus dos meus sábados é um bebê encaracolado
com o andar trôpego
e a segurança dos ingênuos iluminados
à beira da queda

Arrasta pela mão
uma fieira de penas sem fim
um cocar com
milhares de plumas cinzentas
(a única colorida
é a que leva entre os dedos
com o cordão que a todas prende)

Quando lembro
no entanto
de um sábado qualquer
enrodilhado nas voltas do cocar
ele recupera o viço
a cor
o latejar
a vibração

Aquela dança
- o corpo teso -
contra o arredondamento da maciez

Cuba  que nos libertava
dos medos
dividida em bicadas
entre os amigos e suas espinhas

O jogo de bola
em que fui lançado
por um ombro adversário
para a vala d’água
que congelou o momento

A madrugada paranóica
um tijolo em cada mão
pela margem da vida e da morte
como um louco

O flagrante da vidraça
partida sobre a cama
e os gritos de sangue
arranhando seu nome
trincando o que restava da noite

As sete vezes
em uma
no leito da despedida
de uma determinada
e possível
vida

Os risos discretos cobrindo o frio
do nunca mais
entre flores e rezas
de mármore

Meu deus dos sábados
este bebê eterno
abre seus dedinhos pagãos
largando no abismo
o rabicho das penas
e uma risadinha:
viva!

terça-feira, 9 de abril de 2013


A busca da felicianidade eterna

José Antônio Silva

O mais impressionante é que muitas dessas seitas que se dizem “evangélicas” (portanto cristãs) se baseiam mesmo é no Velho Testamento, de séculos antes de Cristo. O Evangelho, ao contrário, reformou o antigo judaísmo e buscou disseminar – pelo menos na teoria - os ensinamentos revolucionários de JC, na época, como a tolerância (“atire a primeira pedra quem nunca pecou”), etc.

Toda a mensagem de perdão, desapego (“mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”), paz (“dar a outra face”), amor, muitas vezes fica em segundo plano. E o moralismo mais tacanho e pré-científico entra em cena. Eles parecem gostar é de ameaçar com o inferno quem não reza pela sua cartilha e não entrega o dízimo religiosamente – mesmo que muitos pastores estejam envolvidos em acusações de estelionato e outras malafaias, digo, maracutaias.

Espero, para o bem deles mesmos, que o inferno não exista. Caso contrário, vai ser difícil encontrar a felicianidade eterna, com tanta hipocrisia.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Conto um Conto


Alvo do destino

José Antônio Silva


O que seria do destino se não fosse a humanidade, para servir de alvo dos seus movimentos – de suas brincadeiras, tantas vezes trágicas – e, pode-se dizer, para dar sentido à sua existência? Isso passou pela cabeça de Ignácio, ao levantar os olhos do jornal, onde lera sobre o avião que caíra na cabeceira da pista pouco depois de decolar, com a morte de todos os passageiros e tripulantes – com exceção, registrada na mesma página, do publicitário cujo táxi quebrara a caminho do aeroporto e que com isso perdera aquele voo, mas ganhara a vida, sem qualquer exagero na expressão.
Ignácio deu um bom gole no conhaque e repetiu o que pensara, em voz alta e cadenciada. Mas você fala de destino – e destino é praticamente tudo o que há – ou de coincidências e eventos curiosos? rebateu Lídia, com as palavras racionais e lógicas fazendo algum tipo de contraponto aos seus lábios carnudos e aparentemente mais adequados a beijos, sussurros, prazer.

Riu, o homem, enquanto jogava o olhar para os trilhos do velho bonde que, restaurado, amarelo brilhante, circulava de novo pelo centro de Porto Alegre. Seguiu as paralelas de metal, que ofuscavam sob o sol, até a primeira curva da rua. Sorriu para a mulher linda, inegavelmente linda, à sua frente, refletindo que além de linda era inteligente e implacável, e começou a sentir-se excitado. Estendeu a mão e tocou com seus dedos compridos, agora finalmente livres das manchas causadas por tantos anos de cigarro, na mão suave e menor da moça. Ela devolveu-lhe o sorriso e a pressão na mão – mas os olhos continuavam esperando a resposta.

Coincidências e eventos curiosos fazem parte do destino, disse o homem. Quarenta e um anos recém-completados, vítima de um enfarte detectado em tempo e que lhe rendera menos agravos físicos do que a consciência da finitude e da escuridão que podem nos apanhar no auge da vida, da carreira, do sucesso, da arrogância, do desejo. No hospital, recuperando-se do ataque, tivera um bom tempo para pensar, ou melhor dizendo, para entender que assim era – tudo é impermanência (essa a palavra que descobrira num dos muitos livros e revistas que tinham formado pequena torre sobre a poltrona das visitas).

Estaria tornando-se um místico? Deu mais um gole, aquecendo o espírito e corpo. Na praça que via através da janela, acendiam-se as luzes, e com o fim da tarde caíam as primeiras gotas de uma chuva forte.

... estava dizendo ela: Mas temos o livre arbítrio.

É, respondeu ele, como se pergunta fosse resposta. Ela entendeu que era e continuou explicando que podemos tomar conscientemente medidas que evitam a maioria dos perigos – como, por exemplo, não atravessar uma avenida movimentada fora da faixa de segurança, como estatisticamente estava provado que funciona, e também pelo mero bom senso. Tudo bem, concordou ele, que já estava mais a fim de aproveitar a vida que lhe sobrava – mesmo que ainda tivesse mais 35 ou 40 anos de existência pela frente – na cama com Lídia, e beijou seus dedos, porém ela os retirou de modo delicado mas firme, como fazem as mulheres que além de bonitas são inteligentes e ficam em dúvida sobre qual das virtudes devem utilizar preferencialmente nos embates cotidianos para se darem bem na vida, mas detestam ter o raciocínio cortado pelo tesão irracional dos machos dominadores, como sempre acontece na história da humanidade, etc. – ham!

É o destino, nós dois aqui, prosseguia Ignácio, já tentando encaminhar o encontro para algo mais carnal do que propriamente metafísico ou filosófico, embora ele mesmo se pegasse viajando nessa dimensão, com alguma frequência, desde que percebera que por muito pouco não tinha morrido.

Ela passou a mão macia sobre o rosto do homem. Bicou o copo com o licor, de uma tonalidade púrpura, e observou o leve movimento do líquido. Não, tudo bem, mas eu estou falando que nós podemos... – nós podemos é tomar cuidado! – cortou ele, elevando a voz, repentinamente dominado pelo assunto: no máximo adotar uma política sensata de evitar os riscos mais óbvios, digamos que seja uma política de redução de danos... E isso é tudo que podemos fazer!

Os olhos arregalados, Lídia também abriu a boca, espantada com a grosseria de seu comentário, ou melhor, com o fato de ele ter lhe cortado a palavra, atropelando sua fala. Desculpe desculpe, já estava dizendo Ignácio, é que me emocionei com o assunto (e apelou para o episódio do enfarto): estes temas me atingem mais hoje em dia...
Não foi nada, condoeu-se ela, embora não de todo convencida da sinceridade de suas desculpas. Fale, prossiga o que você estava dizendo – era a voz do homem reassumindo o controle, generoso, aberto, de igual para igual.

Pois o que eu estava dizendo, disse Lídia, com um sorrisinho sem mostrar os dentes, é que nós fazemos o nosso destino. Corrigiu-se logo: pelo menos na maior parte das vezes.

E o publicitário que escapou da morte porque o táxi em que estava estragou? – disse Ignácio. Nesse caso, entre centenas de outras pessoas que haviam comprado passagem para aquele avião, só ele foi salvo – pelo destino ou por qualquer outra coisa que, de algum modo misterioso, poupou a sua vida.

Modo misterioso?! – Lídia indignou-se. Misterioso? Foi apenas um fato comum – todos os dias milhares de táxis e outros carros quebram nas ruas, fundem o motor, arrebentam a caixa de câmbio. Foi só o que aconteceu, pelo amor de Deus!

Amor de Deus? Bom, Deus também pode ser somente um outro nome para Destino, Coincidência, Azar, Sorte – disse o homem com fios grisalhos no cabelo aparado, homem ainda bem conservado e que desde o enfarto cuidava a alimentação e fazia regulamente os exercícios recomendados, num conjunto que atraia a atenção das mulheres. Mas homem que, no coração, sabia que por muito pouco algo não se partira definitivamente, e que acreditava agora ser necessário atentar com, vá lá, algum tipo de respeito ao que passara a chamar de seu “fio interior”.

Nossa, como você está religioso – parece minha avó! – provocou a moça, dando um longo trago no licor.

Ignácio olhou o mostrador do relógio e fez sinal ao garçom, mais um conhaque não faria mal. Sorriu para a mulher e avançou sobre a mesa: segurou o rosto de Lídia com a mão direita e beijou-lhe a boca. A mulher fechou os olhos; nas mesas ao lado, os vizinhos abriram um pouco mais os seus e sorriram. Eu e a sua avó temos muito em comum, dizia Ignácio, baixinho, ao ouvido da mulher. Eu também vou te pegar no colo, pra dormir na minha cama...

Ela afastou o rosto, agora levemente rubro: Safado! Bagaceiro! Mas sorriu – este era o Ignácio de que gostava, e não aquele homem meio melancólico dos últimos meses. Independente disso, detestava perder discussão. Não era a toa que, formada há dois anos, já era uma das estrelas no escritório de advocacia, com grandes perspectivas profissionais.

...então, como eu dizia antes de ser interrompida (gostosamente, acrescentou ele), vá lá, gostosamente, mas interrompida. Como eu dizia, o cara ter escapado foi um fato normal. Quer dizer, foi ótimo para ele, é claro, mas não há nada de destino programado nisso, a vida é assim mesma, as coisas vão acontecendo por uma imensidão de fatores que se somam aleatoriamente. Ou você acha que um anjo-da-guarda, talvez a serviço de alguma oficina mecânica, quem sabe?, foi lá e superaqueceu o motor do táxi, fazendo-o parar?

Pôxa – Ignácio olhou-a com admiração verdadeira, mas também não conteve a ironia: eu não sabia que você entendia tanto de mecânica, e de mecânica celeste, ainda por cima...

Não se faça de engraçadinho, disse Lídia, satisfeita com o encaminhamento da conversa.

A chuva cessara e pela janela do café havia um cenário perfeito, as luzes das fachadas comerciais brilhavam com mais vigor sobre os trilhos do bonde, as cores realçadas pela água que tudo lavara.

Sob a mesa, Ignácio sentiu o pé da mulher escalando sua canela. Segurou o pé descalço, e por sua vez foi avançando com sua mão pela perna dela, o joelho perfeito, a maciez de seda da pele, até a coxa poderosa. Os olhos de cada um imantados pelos do parceiro.

Iam embora. O homem pediu a conta e dirigiu-se ao banheiro. A moça sorria, confiante. Virou-se para olhar o amante, o amado, que sumia pela porta decorada com a imagem de uma cartola e uma bengala entrecruzadas, como as tíbias e a caveira das naus piratas, a imagem do morto, pensou de repente, e levantou-se e deu alguns passos para lhe dizer alguma coisa muito importante, com toda a urgência, mesmo que tivesse que invadir o banheiro masculino, enquanto o bonde derrapava no excesso de água, saltava dos trilhos e vinha célere por sobre os paralelepípedos molhados – despedaçando a parede e a janela com cortinas quadriculadas e floreiras, de onde os amantes olhavam a rua até um minuto atrás.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Com nervos de aço e sem coração



José Antônio Silva


"Há pessoas com nervos de aço/ Sem sangue nas veias/ e sem coração" (Lupicinio Rodrigues)


1 - Há pessoas que só enxergam corrupção quando ela está ligada à esquerda – são cegos, simplesmente, para toda a roubalheira que vem do outro lado, antes, durante e depois.

2 - Há pessoas que são radicalmente contra as cotas para negros e pobres na universidade, pois consideram que todos devem ter “chances iguais” - mesmo que uns nasçam e sobrevivam na pobreza, e outros estudem nos melhores colégios que o dinheiro pode pagar e se aperfeiçoem em cursos no exterior.

3 - Há pessoas que insistem em que o Brasil nunca esteve tão ruim – mesmo que órgãos isentos como a ONU e a OIT, institutos como o IBGE e a FGV e os governos de nações desenvolvidas apontem a estabilidade econômica, o pleno emprego no país e a ascensão de quase 40 milhões de pessoas da miséria para a classe média.

4 - Há pessoas que ultrapassam o sinal vermelho, destratam e ameaçam fiscais de trânsito e policiais (quando não conseguem comprá-los) – e ainda alardeiam ter razão, inclusive quando estacionam em vagas para deficientes, podendo ofender, agredir e até matar quem reclamar o seu legítimo direito.

5 - Há pessoas que mal conseguem esconder sua raiva e desconforto ao enxergar pobres em aeroportos brasileiros, aumentando as filas – pois consideram que os moradores das senzalas, digo, das favelas, não conhecem mais o seu lugar.

6 - Há pessoas que, utilizando a mídia como aliada principal, classificam todos os governos da América Latina, democraticamente eleitos e com ênfase social, de “populistas e demagógicos” – e articulam manobras às bordas da inconstitucionalidade para derrubá-los ou enfraquecê-los.

7 - Há pessoas que só vivem para acumular dinheiro e mais dinheiro – independentemente do grau de riqueza ou conforto que tenham atingido, e do tempo presumido de vida que lhes reste para “aproveitar” ainda mais a fortuna. E se mostram incapazes de pensar a sério em contribuir para uma sociedade menos desigual. Aliás, muito pelo contrário.

8 - Há pessoas que defendem radicalmente o meio ambiente, na teoria – em sua vida diária, não separam o lixo, jogam embalagens pela janela do carro ou apartamento, e quando vão ao mar ou a serra deixam um rastro de sujeira, poluição e desprezo pelo presente e pelo futuro, focados na própria comodidade.

9 - Há pessoas que se dizem democráticas e cristãs – no cotidiano, porém, são absolutamente autoritárias, intolerantes, repudiam a solidariedade e sequer desconfiam o que seja compaixão.

10 - Há pessoas que são rebeldes sem causa quando jovens – e na meia idade, passada a revolta juvenil, colocam-se furiosamente à direita, mais à direita que os conservadores de uma vida inteira, pois sempre foram alienadas.

11 - Há pessoas que se utilizam da internet para expressar as opiniões mais racistas, nazi-fascistas, machistas e imbecis do mundo – quase sempre protegidas, valentemente, pelo anonimato e por pseudônimos.

12 - Há pessoas que têm como esporte predileto apontar a corrupção de políticos – mas grande parte delas pratica tranquilamente a hipocrisia e a desonestidade na condução dos próprios negócios e da própria vida.

13 - Há pessoas que dizem que esquerda e direita são classificações que, historicamente, não fazem mais sentido – e, por incrível coincidência, todas as que afirmam isso defendem sempre claras posições direitistas.