domingo, 22 de abril de 2012

Crônica Minha

O país que não gosta dos índios


José Antônio Silva


A rigor, como diz a canção de Pepeu Gomes e a gente repete, todo dia era dia de índio. O 19 de abril foi escolhido como data oficial pois marca a abertura do 1º Congresso Indigenista Interamericano, em 1940, no México. Mas o fato é que os brasileiros – e os povos das Américas, do Norte ao Sul – na verdade não gostam, viram as costas aos índios. Os vizinhos Uruguai e Argentina mantiveram “campanhas índias” que não devem em nada, em termos de genocídio, ao que representam Buffalo Bill e o General Custer (“índio bom é índio morto”), dos EUA. Aqui mesmo no Brasil, temos uma história coalhada de trapaças, invasões, traições, massacres e abandonos sofridos pelos donos dessas terras (donos desde 12 mil anos atrás, quando vieram da Ásia, através do Estreito de Bering).


Por falar em abandono, no Rio Grande do Sul e em outros estados sulinos os indígenas – basicamente guaranis e caingangues (e alguns remanescentes charruas) - são praticamente invisíveis. Não que não estejam aqui. Mas só os vemos de passagem, sentados no piso duro das cidades, vendendo discretamente seu artesanato. Ou vivendo de modo miserável – num mix de taba e favela – em barracas ao longo das estradas. Os que moram em reservas, sobrevivem precariamente, inclusive com toda sorte de problemas de saúde ofertados pelos brancos, incluindo-se aí depressão, alcoolismo (e até drogadição pesada), desnutrição infantil, obesidade, hipertensão, diabetes.


Que tal, índio velho?

Em compensação (digamos assim), a sociedade brasileira batizou com nomes indígenas várias cidades, rios, montes e outros acidentes geográficos. Nós, gaúchos, costumamos homenagear no cotidiano o traço de sangue nativo que corre nas veias de boa parte da população riograndense: “Que tal, índio velho?”, nos saudamos. Mas é evidente que para os 33 mil indígenas que ainda vivem no Rio Grande, isso não compensa coisíssima nenhuma.


Hoje a população de índios brasileiros, acredito eu, vive em pelo menos três condições diferentes. Inseridos na realidade mais dura, estão os vendedores urbanos de objetos nas calçadas, moradores das periferias das grandes cidades, que se deslocam em ônibus lotados, junto a trabalhadores, com seus balaios, flechas e animais esculpidos em pedaços de madeira, cercados de crianças pequenas, até o centro das cidades, onde passam o dia tentando ganhar dinheiro suficiente para comer. Cada vez mais distantes de suas raízes, também vivem isolados da sociedade civilizada, e pouco ou nenhum apoio obtêm de prefeituras e outros órgãos de governo.


Em outra situação – mas não menos difícil – acham-se os indígenas que vivem em reservas ou toldos, em municípios do interior. Não raramente envolvem-se em conflitos agrários com colonos e agricultores, a quem acusam de lhes terem surrupiado terras. Conflitos pelo poder interno, dentro das reservas, geram brigas e até mortes, por tiro ou facada, entre os indígenas, e o alcoolismo é um problema sério – e natural, frente à ausência de projeto ou perspectiva existencial. Os sucessivos governos federais e dos estados, através da Funai e de secretarias de saúde, educação, etc, oferecem algum apoio, vacinas, medicamentos, por vezes há até escolas que não apenas alfabetizam crianças e adultos, mas têm até professores de etnia indígena, que procuram passar a língua e a cultura nativa às novas gerações. Mas nem sempre as verbas chegam, ou a escola fica pronta; tantas vezes a casa construída pelo governo é inaugurada com as paredes já rachadas, o médico não aparece, os remédios terminam perdendo o prazo de validade...


O saldo, com certeza, ainda é muito cruel com estes índios, que enfrentam – como seus irmãos instalados nas periferias urbanas – falta de perspectivas reais de vida e futuro, ocupação, um projeto que os unifique. Uma equação difícil, que implica em torná-los aptos a sobreviver dignamente na sociedade “branca” mas sem perder seus costumes, sua cultura, idioma e tudo que os distingue e os unifica como uma das etnias fundadoras do Brasil.


A vida nas selvas

Neste sentido, os indígenas que vivem no Parque Nacional do Xingu e em outras reservas indígenas na Amazônia e Centro-Oeste parecem ter conquistado uma situação melhor que seus congêneres de outras regiões do país. Costumam ter rios e matas razoavelmente preservadas, onde podem levar seu modo de vida tradicional, de caça, pesca, suas festas, cerimônias e costumes, ao mesmo tempo que, em vários casos, contam com as modernidades da civilização para tornar sua existência menos dura – computadores, carros, lanchas.


Porém, resistem ao avanço e a ameaça constante e gravíssima sobre suas fronteiras, por garimpeiros, por madeireiras, por estradas e pistas de vôo ilegais, por desmatadores, pela pressão de políticos e fazendeiros, por grandes hidrelétricas (como Monte Belo), e acima de tudo, pelo agronegócio, que a tudo invade com seu gado e suas imensas plantações de grãos... Estes índios da selva convivem ainda com a crescente poluição dos seus rios e cursos d'água por agrotóxicos e por metais pesados da mineração, que acabam com os peixes e a caça e podem vir a acabar com eles, os índios – enquanto tal.


Conforme disse no início deste texto, apesar de todas as festas nas escolas no Dia 19 de Abril, a sociedade branca, no fundo, “não gosta” dos índios. Afinal, como fantasmas anacrônicos, eles representam a natureza que resiste a ser explorada, destruída e transformada para virar progresso (e lucro, claro).


A tragédia humana e cultural dos nativos americanos, enquanto o planeta sofre e acusa os efeitos de uma destruição contínua, é um exemplo do que também pode acontecer à Terra e a todos os seus habitantes. E confirma a razão contida nas palavras do chefe indígena Seatlle, da América do Norte, frente ao avanço branco sobre as pradarias no século 19: “Tudo que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra”. A luta dos índios é a luta de todos nós. Tá ligado, irmão?

sábado, 14 de abril de 2012

Poetando

Semanária


José Antônio Silva


Terça-feira

- ainda é cedo, a vida convida


Quarta-feira

- ando rápido, tudo é atraso


Quinta-feira

- falta algo para alguma coisa


Sexta-feira

- carga e ponto de fuga


Sábado

- na manhã, até a chuva tem cara de sol


Domingo

- por trás da paz, ansiedade espreita


Segunda-feira

- baixo os olhos e mergulho na multidão


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Poetando

Ecuassão nummerolójyka

José Antônio Silva


Era positiva...
a configuração numerológica
mas algarismos nunca foram o seu forte.


Erou ass quonttas
perrdeo ho rrummu
i aa çorty.


Agora aposta no azar
letra por letra
até a hora da morte.