segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Televisão


O mundo moldado pelos seriados da TV


José Antônio Silva


Papai sabe tudo, Patrulheiros Toddy, I love Lucy, Rin Tin Tin, Minha amiga Flicka, Perdidos no espaço (grande sucesso!), Patrulheiro Rodoviário (Brasil!), Missão Impossível, O homem do rifle, Bonanza (foto ao lado), O homem de Virgínia, Feiticeira, Viagem ao fundo do mar, O fugitivo (angustiante!), Bat Masterson, Jornada nas Estrelas, O agente da Uncle, Cidade Nua (clássico!), Combate, Dr. Kildare, Casal 20, Hawai 5.0, Kojak, As Panteras, Columbo, Dallas, Magnum, Sex and the City, Nova York contra o crime…

A história da formação cultural – e em especial a memória visual (e sonora, com grandes trilhas) - de gerações inteiras de brasileiros (e do mundo inteiro), a partir da segunda metade do século passado, acredito eu, passa bem mais pela TV e seus então chamados “enlatados” norte-americanos do que pelo cinema. Afinal, a partir do momento em que, nos anos 60, a televisão se espalhou pelas casas em todo o país, ela demarcou seu reinado sobre corações e mentes.

Os seriados criados pelos americanos para a TV me parecem, formalmente, uma recriação dos seriados (e também das novelas) de rádio. Que por sua vez são adaptações para as - então - novas mídias, dos folhetins de jornais do século XIX e início do século XX.

Consenso planetário
Essa enxurrada ininterrupta de produções para a TV
(assim como o cinema, claro) não apenas divertiram e prenderam nossa atenção, mas também espalharam, mundo afora, a visão, o way of life norte-americano e seus valores. Enfim, fizeram a cabeça de gerações, defendendo os interesses do EUA, apresentados como sendo um consenso planetário indiscutível. No enredo de muitos seriados, ações terroristas do FBI e da CIA em várias parte dos mundo, praticadas por simpáticos, idealistas e charmosos heróis americanos, eram apresentadas com naturalidade e como meros excessos justificáveis, na luta do bem e da verdade contra populações e autoridades sempre ignorantes, cruéis, preguiçosas e corruptas.

Mas o fato é que o mundo foi mudando sua configuração geopolítica, a guerra fria esfriou, o neoliberalismo chegou arrasador e atirando para todos os lados – como um herói da CIA no meio dos nativos - e o mundo todo (inclusive os EUA) ainda luta para colocar o nariz para fora da água, depois dessa tempestade.

Seja como for, é de 1998 a estréia de um clássico feminino (que terminou virando filme) - Sex and the City, com sua peruagem explícita encenada nas galerias cult, apartamentos chic, bares e ruas novaiorquinas, que deixou a mulherada do mundo inteiro com os pneus arriados por Manhattan. O equivalente masculino – muito mais escrachado e abertamente humorístico – poderia, talvez, ser Two and a half man.

A partir dos 80/90, as produções seriadas para a TV buscaram novos focos e criaram ou revitalizaram antigos temas. Caso da série Plantão Médico (que lançou o competente George Clooney), que deu novo gás às antigas séries médicas e hospitalares. Universo que chegou ao seu ápice com o texto esperto e irônico do genial personagem House.

Tolerância e igualdade
É preciso reconhecer que a TV também foi, e continua sendo, instrumento de divulgação de valores de tolerância, igualdade, idealismo. A partir dos anos 90, seriados passaram a divulgar em tom humorado o dia a dia de famílias de classe média negra americana (Eu, a patroa e as crianças) - afinal, as lutas da década de 60 pelos direitos igualitários e outras medidas tiraram muita gente da pobreza, dando-lhe dignidade, educação, oportunidades e melhorando suas condições. Apesar de a sociedade americana ser rachada por linhas invisíveis – no entanto, muito fáceis de perceber – que dividem a população em grupos étnicos ou culturais, o que, aparentemente, nunca vai mudar.

A velha tradição dos “filmes de tribunal” ganhou seus seriados, como Lei e Ordem, que critica a hipocrisia das instituições dos EUA e uma justiça que está longe de ser ideal. CSI leva as investigações criminais a outro patamar de interesse, a partir de um banho de tecnologia para a solução de casos, apontando para a possibilidade de uma polícia menos violenta e mais embasada em indícios e provas laboratoriais indesmentíveis. CSI chama a atenção para a loucura urbana e os dilemas – inclusive éticos e morais – frente às perversões nos chamados crimes sexuais.

Produção brasileira
Detentores de um know how desenvolvido ao longo de muitas décadas, os estúdios norte-americanos que criam e lapidam novos seriados para a TV, continuam servindo de modelo para as produções semelhantes mundo afora.
Vale lembrar que os anos 90 trouxeram para a televisão brasileira, especialmente a partir da institucionalização do cabo, muitos seriados de outras procedências e boa qualidade. Tivemos ótimos exemplares franceses (Paris contra o crime), britânicos e até canadenses. Sempre interessantes, bem interpretados e com as características dos respectivos povos, mas em temporadas esporádicas.

Para além de suas famosas novelas, o Brasil – desde o simpático Vigilante Rodoviários, nos anos 60 – no decorrer das décadas criou e botou no ar muitos produtos de qualidade, com um toque de originalidade e sabor local. É o caso das enrascadas do repórter investigativo “Waldomiro Pena” em Plantão de Polícia, ou dos caminhoneiros de Carga Pesada, ou ainda, mais recentemente, Nove milímetros e Força tarefa - histórias calcadas na crua realidade policial das grandes cidades brasileiras, com seu desfile de injustiças, abuso de poder, crimes, algum idealismo.

O humor tem forte destaque na grade brasileira, assim como a crítica de costumes, desde Aline (e seus dois namorados) até Tapas e beijos. Evidentemente, a multiplicação de opções nativas para os seriados também amplia o mercado para atores, técnicos, diretores, roteiristas e outros profissionais brasileiros, para além do modelo novelão. Mas ainda há muito o que criar e desenvolver.

O Brasil tem talento, mas ainda não parece ter acumulado maturidade suficiente para produzir um seriado como Mad Men (abaixo), que a partir da realidade de uma agência de publicidade novaiorquina, dos anos 60, esquadrinha, desmonta e revela, com arte, o cinismo e a hipocrisia do modo de vida americano (e da própria mídia), representado pela família perfeita das propagandas de margarina.

Não, ainda não chegamos lá.

2 comentários:

Renato de Mattos Motta disse...

Legal, Zé, gostei muito! mas gostaria de deixar uns comentários: a questão é: o formato dos assim chamados "ENLATADOS" é adequado à nossa cultura? Temos outras formas de produção que nos colocam na vanguarda da produção televisiva mundial, principalmente materializadas (em termos de sucesso comercial) em nossas novelas, em geral bem mais interessantes que as equivalentes "soap operas" americanas e (em termos de qualidade)das minisséries, que desde os épicos "tempo e o Vento", "Casa das sete mulheres" até coisas mais experimentais como "Hoje é dia de Maria" passando por especiais como Morte e Vida Severina, costumam inovar em linguagem e esbanjar técnica e talento.
Quanto aos "seriados nacionais" cabe destacar alguns que na minha opinião faltaram em tuas lembranças: muito antes da tão famosa "Malu Mulher" que tentava colocar a nova condição feminina, Eva Wilma, praticamente sozinha segurou a série "confissões de Penélope" onde no divã do psiquiatra interpretado por John Herbert, narrava suas hilárias desventuras.Na área aventura/diversão, não dá pra esquecer as séries nascidas de novelas, "Shazam, Xerife e Companhia", onde os anti-heróis interpretados pelos grandes Paulo José e Flávio Migliaccio percorriam o Brasil em um veículo de circo, a Camicleta, em busca de soluções para construírem a Bicicleta Voadora; mais tarde o mesmo gênero viria a dar mais um fruto com Juba e Lula com Kadu Moliterno e André de Biase nos papéis-título e a sensacional Andréia Beltrão roubando as cenas com seu talento acompanhada pelo garoto Bacana.
Pena que, salvo raríssimas excessões como o fenômeno Jayme Monjardim na extinta Manchete, que logo depois viria a ser absorvido, parece que tofa a competência brasileira na produção televisiva é monopólio de um único grupo... e isso sem dúvida acaba sendo empobercedor.

José Antônio Silva disse...

Renato, excelente comentário o teu. Complementas o pouco q falei das séries brasileiras com lembranças importantes e q eu não citei, como a fundamental Malu, Mulher (até mesmo porq estava pilhado pra falar dos seriados gringos).
Sei que há séries brasileiras em outros canais abertos, mas praticamente nunca vejo e portanto ñ achei prudente dar palpite... Até a RBS anda fazendo algumas mikni séries locais. Mas sem dúvida há muitíssimo q andar.
Valeu, meu poeta.
abraço!