terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Jornalismo


A última entrevista do delegado Fleury, o torturador


José Antônio Silva


No início de uma tarde de abril de 1979, o telefone tocou na redação do jornal dominical Shopping News, do Grupo Diário Comércio e Indústria (DCI), de São Paulo. No outro lado da linha, um assessor do temido e odiado delegado Sérgio Paranhos Fleury, deu a resposta que os jornalistas da casa esperavam há meses: “O doutor Fleury vai conceder a entrevista à vocês”. Não era pouca coisa.


Diretor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) paulista, Fleury tinha sido o principal líder do chamado “Esquadrão da Morte”, que executava sumariamente bandidos ou meros suspeitos de crimes. Mas, após ser convidado pelos comandantes da repressão do regime militar, em 1969, para liderar a polícia política, transformara-se no grande caçador de “subversivos”. Uma equipe coordenada por ele atocaiara e matara o guerrilheiro Carlos Marighella, em 1969. Era apontado - pelas vítimas que sobreviveram – como um dos mais cruéis e aplicados torturadores nos porões da ditadura.


Entrevistá-lo naquele momento, 15 anos após o golpe militar, e quando a anistia política era debatida em todo o país, seria um trunfo jornalístico e uma maneira de abordar temas escabrosos que ele, mais que ninguém, conhecia na intimidade. Mas havia um pequeno porém, que chegou a ameaçar a realização da matéria – a repórter que sugerira a entrevista e há meses batalhava por isso, declarou-se sem condições emocionais de conversar com o monstro.


Irritação
Terminamos - o editor Pedro Thamer e eu, repórter - indo ao então quartel-general de Fleury, o Departamento de Investigações Criminais da Polícia (Deic) paulista, no dia 18 de abril, e conversamos com o delegado em seu gabinete. Pouco revelou: irritou-se, ofendido com a relação de perguntas que havíamos elaborado na redação. No fim, disse que contaria tudo no livro que iria escrever; pensava em se aposentar e deixar o Brasil, naquele período em que avançava a abertura política – lenta e gradual, como determinara o general-presidente Geisel. Ao final da tensa conversação, Fleury disse que iria responder às nossas perguntas por escrito, “nas próximas semanas”. E, questionado, afirmou que não temia ser assassinado: “Os comunistas são todos covardes”.


Sem autópsia

Treze dias depois, o delegado-torturador, então rico e condecorado como herói pelo Exército, Marinha e Governo do Estado de SP, morreu em Ilhabela, aparentemente afogado perto de seu iate. “Aparentemente”, pois o regime militar não permitiu que seu corpo fosse autopsiado. O resultado da tentativa de entrevista está aqui ao lado, em matéria redigida por mim e publicada a 6 de maio de 1979. Sim, é verdade: ele nunca chegou a responder o nosso questionário.


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2 comentários:

Maria Lucia disse...

Zé, infelizmente não deu para ler. Não funcionou o Ctrl+.
Beijo

Anônimo disse...

Pena, Maria Lúcia. Vou tentar de novo, outra hora, escaneando de outro jeito.
valeu, abraço!