sábado, 19 de novembro de 2011

O jornalismo íntegro que renasce da universidade


José Antônio Silva


Esqueça os principais jornais gaúchos, por um momento. Você já sabe como eles são – depois voltaremos, brevemente, ao assunto. Eis, porém, que valores mais altos se alevantam. E não vêm do campo profissional, mas do campus universitário. Refiro-me aqui, especificamente, à Fabico, da UFRGS, que nos últimos tempos vem surpreendendo com várias publicações que seguram o jornalismo pelos chifres, com vontade e integridade.


A saber, o Jornalismo B, em versão digital e impressa (esta em tamanho tablete, papel jornal, sem cor). Nos dois formatos, o prato de resistência é a crítica cultural e, fundamentalmente, a cada vez mais necessária crítica da própria imprensa. Não se precisa concordar com todas as posições ali defendidas, é claro, para ver que eles preenchem um lugar vago na mídia gaúcha. Tem tudo a ver a tentativa de trazer à luz aspectos da notícia que os diários gaúchos omitem, minimizam ou desqualificam à seu bel prazer. Vai numa trilha criada dez anos atrás por sites como Zero Fora, Mídia Alerta - e mesmo o Tomando na Cuia original, que aliava o comentário da mídia com um humor satírico e corrosivo.


Já em outra embalagem e conteúdo, temos o jornal tablóide Tabaré. Mais caótico, anárquico, experimental, sempre com uma ilustração na capa, a publicação estudantil parece ter como principal referência o crítico, icônico e cômico (“icômico”?) O Pasquim, dos anos 60/70. A terceira boa surpresa gerada pelos alunos da Fabico, fora do currículo escolar, é a revista Bastião. Visual diferenciado, papel cuchê, logotipo forte, busca o jornalismo de comportamento, político, cultural. Publicação aberta ao que der e vier.


Buscando caminhos

Nas três propostas, a busca de caminhos próprios, independentes, com algo do espírito da imprensa “alternativa” e resistente dos tempos ditatoriais. Jornalismo B, Tabaré e Bastião podem ser embriões de alternativas profissionais menos comprometidas, nas bancas de jornal. Talvez nunca passem de tentativas, em termos profissionais.

Até porque, não é exagero dizer, a ditadura militar de ontem deu lugar à ditadura mercadológica e financista de hoje, em outro estilo de perversidade. Porém, se estes e outros jornais e revistas que vêm (ou não) da universidade pública pela mão de estudantes de comunicação não passarem da fase de ensaio... que belos ensaios.


Arrogância e exorcismo

Agora podemos retomar a frase inicial deste texto sobre os principais jornais gaúchos. No topo, o virtual monopólio de uma empresa, que tem lá seus méritos. Mas impõe os próprios interesses e a sua visão corporativa a todos os setores da sociedade gaúcha - e com tal arrogância que chega ao constrangimento. Descendo um degrau na qualidade técnica, um grupo que foi tradicional e hoje é praticamente uma legenda de aluguel - para exercer pressão política e econômica - de “bispos” empresários e executivos, que nada conhecem de jornalismo e exorcizam sem perdão quem mostrar que conhece.


Triste, né? Mas pura e dura realidade. Por isso, gaúchos e gaúchas que têm dificuldade em aceitar passivamente o que nos é imposto, podem mostrar sua indignação dando força, comprando, assinando ou anunciando em Jornalismo B, Bastião e Tabaré. Apenas por exemplo.



Confere lá:

bastiao.net

jornaltabare.wordpress.com

jornalismob.wordpress.com



6 comentários:

Juarez Fonseca disse...

Grande Zé, muito bom teres evidenciado essas janelas abertas pela rapaziada da Fabico. Gosto do que eles fazem, do jeito que fazem, identifico até uma certa pegada que lembra os anos 70 - mas com espírito de hoje, claro.
Habemus futuro no jornalismo gaúcho...

Bastião disse...

Torre à vista!

http://bastiao.net
http://facebook.com/revistabastiao
http://twitter.com/revista_bastiao

Alina Souza disse...

Concordo plenamente com tudo o que vc falou, Zé. Se antes os jovens se rebelaram contra a ditadura militar, hoje o protesto é contra as garras corporativas, econômicas e tecnicistas que sufocam ideias e conhecimento. Calar-se, jamais. Parabéns aos estudantes que estão cumprindo o verdadeiro papel do jornalismo: a função social,a crítica, mostrar o mundo sem maquiagem...

José Antônio Silva disse...

Obrigado pelos comentários, Juarez e Alina. Essas publicações (e outras) mostram que há uma movimentação promissora, frente ao marasmo atual do jornalismo "oficial" aqui no RS.

Steve disse...

Lavra livre e seus desdobramentos: melhor sítio de jornalismo cultural, debate e porque não política do rs...

José Antônio Silva disse...

Obrigado, mano Steve. Isso dá força pra gente ir metendo a nossa bronca. Valeu!