domingo, 23 de outubro de 2011

Conto um conto

À sombra da aldeia


José Antônio Silva



Uma aldeia em região pedregosa da Itália. Por volta de 1930, digamos. Homem caminha sob o sol forte. Provavelmente é o bobo do lugar. A roupa é surrada, um pouco larga para ele. Por certo veste o que lhe deram aqui ou ali. Vemos que tem os pés descalços. Os dedos são tortos, as unhas quebradas e manchadas, grossa calosidade nas solas. Caminha decidido, mas na verdade vai de um lado para o outro, muitas vezes, até que alguém lhe diz pare! e o encaminha para um banco na sombra, onde lhe dão uma caneca de água e um pão. Não agora: agora atravessa a piazza com passos curtos mas rápidos; chegando ao pé da escadaria da pequena igreja, se benze, faz a volta, e caminha até a frente do fórum.


Nesse momento, e não em outro, um automóvel preto estaciona e ele vê desembarcarem homens poderosos, com ternos pretos e chapéus. Um é corpulento, usa gravata borboleta e acende um charuto logo que põe os pés no chão. Outro é alto, exibe um bigode no qual afloram os primeiros fios grisalhos. Este segura a porta, em pose respeitosa, para que desça o monsenhor Capellani.


Vocês podem imaginar: é magro o seu corpo, por baixo da batina, ornada com a faixa carmesim. Capellani traz os cabelos cortados curtos, sob o solidéu violeta. São quase completamente brancos, os cabelos, e devem ter sido rebeldes, encaracolados. Os olhos são de um azul muito parecido com o céu que complementa, à perfeição, a cena da Itália meridional, às 13h desse dia. É muito provável que esteja perto dos 70 anos. Usa óculos com armação de metal.


Como num filme que ele jamais viu ou verá, o pobrezinho da aldeia provavelmente avançará, magnetizado pelo figura, e encurvando o corpo já pendido para um dos lados, tentará beijar a mão do santo padre que lhe apareceu naquela tarde vazia. Sente que alguma força, que ele custa a entender, o empurra para longe e para baixo, muito muito rápido, e do chão enxerga o homem gordo que limpa as próprias mãos, depois do contato certeiro com aquele porcaria.


Non! Che cosa sta facendo?! A voz parece vir daquele mesmo céu azul que agora o ofusca, ao olhar para cima, talvez venha de Deus. Mas não, é daquele padre tão bonito que agora lhe estende a mão. O nariz do homem no chão sangra, e ele não nota, ao que parece. Pois está tentando rir para o santinho que afaga sua cabeça e oferece a mão para que beije o anel.


Agora, sentado em seu banco à sombra, com seu pão e sua água, o louquinho da vila passa a mão no sangue seco, que ainda lhe mancha o nariz e parte do rosto. Muitos outros carros escuros pararam e deles desceram grandes senhores. Este deve ser um dia muito importante.


Lá dentro do palacete em que funciona o fórum, podemos imaginar a cena: depois dos rapapés e da saudação que a todos une, o bispo assina o documento, já firmado pelos demais. Mas deve achar que ainda falta alguma coisa, para imprimir autenticidade e traduzir com seu simbolismo a relevância do ato. O príncipe da Igreja recebe, de seu secretário de bigodinho aparado, outro anel cardinalício - que mergulha ritualmente na tinta, e então apõe seu selo.


Agora sim. A partir daquele dia, por ordem do governo fascista e por acordo com os mais influentes setores da Itália, em todos os cantos da nazione, todas as pessoas acusadas ou suspeitas de subversão, comunistas, professores que questionavam junto aos alunos, agricultores que queriam dividir a terra, operários anarquistas, políticos da oposição, mulheres de má fama, judeus sovinas, mouros e negros da Líbia e da Abissínia, que atravessaram o Mediterrâneo em busca de trabalho e nova vida, mais doentes incuráveis, aleijados, mendigos, loucos, ciganos, alcoólatras, toda essa corja... A partir daquele momento, por ordem do Fascio, esses seres nocivos e indesejáveis serão recolhidos das ruas, das casas, da lavoura, dos escritórios e fábricas, da porta das igrejas, dos navios de pesca, do meio das praças, deste ou daquele quartel, de onde quer que estivessem, um por um ou em grupos e magotes, e ficarão recolhidos por tempo indeterminado em campos de concentração.


O doidinho termina a água do copo, mas os olhos fixos no segundo andar do palacete, do outro lado da piazza, estão marejados. É provável que mostre um sorriso de gratidão nos lábios rachados. Um dia inesquecível.



5 comentários:

Fraga disse...

Belíssimo, Zé Antonio, e emocionante.

Anônimo disse...

Muito bom texto! Rico em detalhes e descrições que aguçam a curiosidade do leitor. Aborda de forma lírica um triste fato histórico. Parabéns, Zé!

Juliana de Gonzalez

José Antônio Silva disse...

Obrigado, Fraga e Juliana.
Evidentemente fatos como esse aconteceram na Itália fascista, assim como na Alemanha nazista. Mas este episódio - um grande acordo assinado pelas elites e poderosos italianos da época - é ficional, até onde eu saiba.

Zé Antônio

vidacuriosa disse...

Muito bom.

Maria Lucia disse...

!!! Beijo