quinta-feira, 1 de setembro de 2011







Quem valoriza a Legalidade?

José Antônio Silva





O movimento da Legalidade (data realmente “legal”, em todos os sentidos), que está se comemorando por agora – entre o final de agosto e a primeira semana de setembro – teve efeito direto sobre todo o Brasil. Garantiu a posse legítima de João Goulart na Presidência, em 1961, após a tresloucada renúncia de Jânio “Vassourinha” Quadros. Mas até parece que esse movimento cívico só foi importante para os gaúchos, por ter sido liderado pelo então governador do RS, Leonel Brizola. Nada mais falso: foi precisamente a Legalidade que impediu que a ditadura que se instalou no país em 1964, se concretizasse três anos antes.

No entanto, a imprensa dos demais estados vem passando olimpicamente sobre o episódio, com breve citações, centrando fogo e análises na renúncia de Jânio, e no papel do conspirador e incentivador da quartelada Carlos “O Corvo” Lacerda. Quando Jânio Quadros pediu para sair, sabendo-se que era chegado à uma purinha de Pirassununga, a opinião pública decidiu que ele havia “bebido mal”. Muita gente tem hipóteses sobre os reais motivos, mas são apenas hipóteses, e parece que assim ficará a história.

Armas ensarilhadas
Independente de outros aspectos, só não caímos direto numa ditadura, já em 1961, porque o cunhado de Jango, Leonel Brizola, governador do estado, ensarilhou as armas da briosa Brigada Militar (as “forças armadas” do RS) e levantou a população com seus pronunciamentos inflamados contra o golpe e pela Constituição. E, o mais interessante: o fez através da “Cadeia da Legalidade”, uma rede de emissoras que retransmitia para todo o Brasil a partir de uma emissora instalada precariamente no porão do Palácio Piratini, com notícias, hinos e discursos quase ininterruptos por doze longos dias e noites.

Brizola exigia que a Constituição Federal fosse cumprida e que o vice-presidente João Goulart (que naqueles dias estava em viagem à China) voltasse e assumisse a Presidência, como de direito. Contra o golpe reacionário que pretendia impedi-lo, enfrentou até as ameaças de bombardeamento do Palácio Piratini por aviões da FAB e pelo fogo do III Exército, que aliás, após alguns dias de indecisão, terminou por incorporar-se à Legalidade.

O papel dos jornais
E a imprensa nisso tudo? Pois a maioria da chamada grande imprensa da época postou-se contra a tentativa de golpe de estado e a favor da Constituição. Correio da Manhã, Jornal do Brasil, A Noite, Correio Brasiliense e a Última Hora (que aqui no RS antecedeu ZH) apoiavam a posse. Mas já então O Estado de S. Paulo, chamado de “Estadão” e, claro, O Globo, foram contrários à posse legal de Jango. O Estadão chegou a a conclamar as Forças Armadas para “impedir que as forças subversivas chegassem ao poder”.

Porém, a cientista política Alzira Alves de Abreu, da Fundação Getúlio Vargas, afirma que pouco a pouco a “Mídia” foi bandeando-se para o lado golpista. Estava assustada com as reformas sociais de Jango e as manifestações populares, além dos altos índices de inflação. Tirando trabalhadores, camponeses, estudantes, todos os poderosos tinham pressa em manter a ordem – evidentemente, a velha ordem excludente.

O resto é história, inclusive o período de 21 anos de regime de exceção, com um “milagre econômico” para poucos setores, endividamento pesado do país e uma sucessão de assassinatos, torturas, censura (à própria imprensa, que tanto apoiara a ditadura!), corrupção que não podia ser divulgada, arbítrio, medo, revolta e resistência.

Bandeira da moralidade
Mas vale lembrar que Jânio Quadros, antes da Legalidade, havia concorrido contra o nacionalista marechal Henrique Lott. E aqui vale um paralelo. Os dois presidentes na história brasileira que ganharam a Presidência pelo voto brandindo a bandeira da anticorrupção e da moralidade, saíram do cargo maior da República de maneira histriônica, com os rabos entre as pernas. Jânio teria tentado dar um golpe branco, para voltar com mais poder “nos braços do povo e dos militares”. Mais de três décadas depois, o presidente Fernando “Caçador de marajás” Collor, envolvido em grossa corrupção, terminou sendo impichado pelos caras pintadas, pela sociedade - até mesmo com o apoio caradurístico da grande mídia, que antes o havia produzido e impulsionado ao poder.

Brizola, que já tinha visto aquele filme antes, e até tivera papel de destaque nele, alertou para a mistificação collorida e midiática, e chegou a apoiar Lula, a quem antes chamara de “Sapo Barbudo” (talvez por ciúmes do carismático líder operário). Mas a grande imprensa terminou por garantir a vitória de Collor na ocasião, com a ajuda fundamental da TV Globo, que manipulou a edição do debate final entre os dois candidatos, em 1989. Como se vê, foi coerente a organização da família Marinho, que de primeira hora já havia apoiado décadas antes, através de O Globo, a tentativa de golpe contra a posse de Goulart. Mais coerente ainda foi Brizola, comprovando que nos momentos fundamentais, o paladino da Legalidade postava-se, sem medo, no lado correto.

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