segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cultura

Academia Brasileira de Letras de Câmbio

José Antônio Silva

Academia Brasileira de Letras de Câmbio. De câmbio de influência, de câmbio de prestígio – desta vez remetendo nada menos que às Organizações Globo (que, aliás, anos antes já havia infiltrado na “imortalidade” acadêmica o seu papai fundador, Roberto Marinho).

Agora foi a vez do comentarista político e de assuntos gerais do Globo, Merval Pereira, ocupando a cadeira ocupada até recentemente pelo romancista Moacyr Scliar. Verdade que é questionável até mesmo o desejo de fazer parte do mausoléu da ABL, com seu fardão e espadinha, com seu chazinho das cinco e rapapés.

Mas, já que existe – e foi fundada pelo melhor de todos os escribas nacionais, Machado de Assis – que ao menos sentassem em suas 40 cadeiras os escritores brasileiros.

Qual o quê! – como diria (ou não) Machado. Ivo Pitanguy, Marco Maciel, Eduardo Portella, Cândido Mendes e outros ilustres cidadãos de diferentes áreas lá estão, com suas nádegas imortalizadas nas poltronas da ABL. Ah, sim, dirão vocês: “Esqueceu de citar o Sarney!”.

Nã, nã, não. Esqueci não. Caso é que Sarney – bem ou mal – tem vários livros de prosa e verso publicados, incluindo o inesquecível “Marimbondos de Fogo”. Se suas picadas têm alguma qualidade literária ou não, me abstenho de julgar, pois não os li. Só ao escrever e lançar obras na área de literatura, porém, já ganha pontos em relação ao cirurgião plástico (por falar em “pontos”...) Pitanguy ou ao político radicalmente vertical Maciel.

Pior é a desfaçatez midiática e da maioria dos acadêmicos, que por via das dúvidas preferiu votar no jornalista global em detrimento de um escritor de verdade e de méritos inquestionáveis, como Antônio Torres. Autor de 17 livros, como os já clássicos “Um cão uivando para a lua”, “Os homens dos pés redondos” ou o recente “Meu querido canibal”, por ironia do destino em 2000 recebeu nada menos que o Prêmio Machado da Assis. Sabem de quem, né? Sim, dela mesma, a velha ABL.

Quintana, um dos grandes da poesia brasileira, sofreu por não ter jamais sido escolhido para a Academia. Não devia: embora abrigue alguns autores de talento acima de dúvidas, como João Ubaldo Ribeiro ou Lígia Fagundes Telles, a Academia vem se imortalizando como uma vitrine para egos poderosos de variados setores.

E mais. Acho até que está havendo um favorecimento da Rede Globo. SBT e Record também devem lutar para colocar lá seus próprios colunistas – ou pelo menos um apresentador.

Ser escritor, ao que parece, hoje em dia até depõe contra.

2 comentários:

Roni Barboza disse...

Muito oportuno teu texto sobre este mais novo "imortal" (se ele fosse mesmo, coitados de nós..rs).
Eu vi a figura na tevê, todo gabola, se achando um Machado de Assis!? Valeu Zé, abraço. Roni Barboza
Sugestão para próxima vaga: Neymar

José Antônio Silva disse...

Boa, Rni! Neymar vai levantar a bola da Academia...
abraço!